A saga dos Maçons Confederados Por Luiz S. Menezes



Baixar 19.29 Kb.
Encontro03.08.2016
Tamanho19.29 Kb.
A Saga dos Maçons Confederados

Por Luiz S. Menezes
A morte e a fome ainda prevaleciam nos campos de batalha de Gettysburg, quase ao final da Guerra de Secessão nos Estados Unidos entre 1861 e 1865, quando o Imperador brasileiro Dom Pedro II despachou seu principal emissário Quintino Bocaiúva para Nova York. Tinha a missão imperial de convencer os combatentes do exército perdedor do Sul a emigrarem para o Brasil e aqui estabelecerem uma segunda Confederação.

O jovem Imperador corretamente tinha em mente que aqueles talentosos, mas desesperados sobreviventes de uma guerra fratricida, poderiam erguer, numa nova terra -- sua própria terra -- uma colônia plena de novas tecnologias e culturalmente desenvolvida.

O Imperador Dom Pedro II vinha acompanhando de perto a rivalidade de ideais na América e tinha particular interesse no tratamento à escravidão, um problema por igual brasileiro. Também tinha o Imperador o sonho de tornar o Brasil um dos maiores produtores mundiais de algodão, mas a falta de tecnologia mais avançada, ainda impedia um tal progresso.

Como a guerra civil americana destruíra todas as plantações sulistas na marcha belicosa de Sherman, o Imperador Dom Pedro II sentiu que aquele era o momento. E o resultado de sua iniciativa promoveu aquela que seria a primeira e única emigração da história americana, alem de propiciar a igualmente histórica união espiritual entre os dois jovens gigantes das Américas, um fato que muito poucos ignoram ou até relegam nos dias atuais.

A fascinante história de como cerca de 7000 americanos Confederados (mais de metade praticantes da Maçonaria) reuniram seus parcos pertences, viajaram a pé, de carroças e lombo de cavalos até Galveston, Texas, e dali a New York, onde embarcariam por navio para o Brasil, constitui hoje uma faceta da história americana que jamais foi contada.

Decorridos 145 anos, os descendentes dos confederados até hoje ainda se reúnem no cemitério das Colinas Vermelhas em Santa Bárbara do Oeste, São Paulo, para festejarem seus antepassados. Eles têm, nos sobrenomes, os originais MacNight, Mills, Smith e Pyle e guardam nos corações a gratidão pelo Imperador e pelo povo brasileiro que os acolheram com comovente fraternidade.

A rica história desses imigrantes, as jornadas enfrentadas até chegarem ao novo eldorado que os preservou dos horrores de uma guerra civil, bem como a possibilidade que lhes foi concedida para perpetuarem sua cultura, seu estilo de vida e seus ideais, constituem uma série de ingredientes de grande valor histórico e de aventura que certamente produzem um festejado momento histórico.
O COMEÇO
A história dos Confederados maçons começou na Geórgia, na primavera de 1865, justo no local onde a batalha mais cruenta da guerra civil americana foi travada e perdida. A derrota tocou fundamente os corações e o desespero de um pequeno grupo de famílias sulistas que se reuniu num dos quartos da residência do coronel William Norris, em Montgomery, Alabama. Ali discutiram a possibilidade de emigrarem para o Brasil. Só assim evitariam as pressões e a vingança dos vitoriosos do Norte.

Esse episódio encobria o encontro secreto entre o coronel Norris e o presidente Abraham Lincoln nos estertores da guerra, quando negociou diretamente com o presidente americano a libertação de seu filho Robert, que lutara contra Stonewall Jackson e sua brigada da Virginia e agora estava morrendo ferido em uma prisão Yankee.

A história cobre a libertação de Robert e a promessa de Norris de que seu filho se integraria na missão da reconstrução nacional. Isso antecedeu a posterior decisão de Lincoln de assinar a permissão para que os sulistas emigrassem para o Brasil. O momento de ternura vivido por Robert, ao fitar os olhos de seu pai que lhe perguntou se viria para o Brasil, o jovem e ainda convalescente combatente declarou: “-Pai! Eu o seguiria até se fosse para o inferno”.

A história registra os percalços da viagem da família até New York, onde concluiriam os arranjos com o brilhante jornalista e diplomata e Maçom Quintino Bocaiúva e por igual os percalços da espera em Galveston, onde o primeiro grupo de emigrantes aguardava o reparo de uma pequena e velha fragata inglesa “The Derby”, que compraram com seus parcos recursos e economias.

De acordo com dados brasileiros, cerca de 100 mil sulistas haviam expressado interesse na oferta do Imperador Pedro II – como todos sabem igualmente nosso Irmão. Eles compunham um grupo de médicos, dentistas, advogados, fazendeiros e homens de negócio. Embora algumas viagens tinham grupos reduzidos de pessoas, a maioria preferia reunir grupos de familiares e amigos.

O “The Derby” foi a primeira viagem de emigrantes e abriu as portas para uma verdadeira avalanche de expatriados que por décadas e um século adiante, escreveram essa página gloriosa da história americana. A viagem do “The Derby” constituiu o micro-cosmos da experiência de emigração de norte-americanos e representou uma rara oportunidade de identificação para a frustração e o profundo desespero que dominara suas vidas.

Uma parte significativa desse movimento migratório residia no fervor e nos dogmas dos protestantes e maçons. Como um autêntico maçom, o Imperador brasileiro usou a camaradagem e os meandros da maçonaria para oferecer, na nova pátria, terras baratas e todas as liberdades fundamentais pelas quais lutaram os sulistas. E no seu esforço para sobreviver no Brasil, introduziriam aos novos patrícios as técnicas de arados mecânicos, lamparinas a querosene, máquinas de costura, ferramentas agrícolas e novas práticas de medicina e odontologia. O então já famoso melão da Geórgia foi trazido para o Brasil nas sementes que enchiam os bolsos dos emigrantes.

A construção de escolas em cooperação com os brasileiros e o levantamento das paredes e instalações do Hospital Samaritano em São Paulo permanecem até hoje como monumentos da presença, entre nós, desses emigrantes americanos.

A primeira fase da emigração começou na manhã de um enevoado dia de dezembro em Galveston, quando o “The Derby”, carregado até o convés com 150 desesperados sulistas, nutria nos corações a esperança de uma nova vida no Brasil. Após semanas de discussões intermináveis com os hostis Yankees da administração portuária em Galveston, a permissão para a partida foi finalmente concedida, um dia após o Natal de 1865. No dia 26, daquele dezembro, o “The Derby” se fazia ao mar pelo Golfo do México sob o comando do Capitão Jeremy Cass ao leme.

Entre os emigrantes encontrava-se o guarda florestal Jesse Wright. Foi ele quem subiu à ponte de comando do The Derby, durante uma terrível tormenta tropical apenas dois dias após a partida – e viu Cass e sua tripulação se preparando para abandonar o navio. O leme da embarcação havia sido trancado na posição de rumo contra as rochas da costa cubana. Mas empunhando suas pistolas, Wright ordenou que os tripulantes retornassem a seus postos. Finalmente conseguiu que o navio chegasse a salvo nos baixios arenosos da ilha cubana. Nenhuma vida foi perdida. A partir dali, Wright passou à história na condição de anjo de guarda dos emigrantes americanos.


Como a madrugada acabara, e a tempestade amenizara, os Sulistas viram seus pertences e materiais se espalharem e entulharem na maré matutina de um buraco feito no casco agonizante do Derby.

Um proprietário rural cubano, simpatizante à causa dos sulistas, enviou barcos para os salvar. Mulheres e crianças passaram quase um ano em uma cidade de barracos toscos naquela plantação, enquanto um dos líderes do grupo voltava à Nova Iorque para negociar com o governo brasileiro a vinda de uma outra embarcação a vapor para recolher o grupo em Havana. Mais uma vez a bonomia do Imperador Pedro II despachou para os portos cubanos um navio brasileiro, recolhendo então todos os sulistas desalojados.

Meses após, muito atrasados no esquema principal, este primeiro grupo chegava à baia de Guanabara, onde uma recepção de boas-vindas, bem ao estilo imperial do Brasil os aguardava. O próprio Dom Pedro II estava presente no mar para saudar os cansados imigrantes. Bailando samba, tocando tambores e sob fogos de artifício, grandes mesas de apetitosas comidas afro-brasileiras e com frutas tropicais, era por toda a parte o retrato da hospitalidade imperial. Mas quando a excitação dos primeiros momentos se foi, e como escrevera em seu diário uma menina de 11 anos do grupo imigrante, "os desejados e profundos sonhos para nosso amado Sul tinham retornado”. Foi assim que ela descreveu a noite depois que o grupo subiu o Rio Juquiá em barcos abertos, rumo às aldeias de terra-concedidas pelo governo brasileiro. A meio caminho, as chuvas caíram. Alguns barcos perderam as amarras e ficaram à deriva noite afora. Mas os emigrantes finalmente foram agasalhados em cabanas seguras. E a primeira coisa que fizeram foi tirar de seus guardados os livros religiosos e cantaram pela primeira vez “God of our Fathers”. Foi assim que os brasileiros nativos ouviram, pela primeira vez, as vozes dos americanos ecoarem nos vales da costa brasileira.

Ao longo da jornada, era óbvio que a família do coronel Norris emergiria como o esteio do movimento. O Coronel Norris usaria a sua vasta experiência para liderar as negociações com o governo brasileiro e também acalmar os medos dos compatriotas ainda desesperados, como ele. Seu filho Robert Norris voltaria precocemente à América para terminar seus estudos médicos, e com sua jovem esposa Patty Norris -- o primeiro matrimônio na nova terra -- acabaram por tornar-se a esperança e a força jovem da nova colônia. Já formado, de retorno ao Brasil, Robert foi o parteiro de cada bebê nascido na colônia durante meio século, e Patty, com coragem e dedicação, iria perpetuar a cultura sulista americana naquela área meridional brasileira. Por causa de Patty, descendentes americanos e os já nascidos no Brasil iriam continuar a falar inglês com aquele indisfarçável acento lento e descansado do Sul dos Estados Unidos. Por igual, cantariam canções sulistas e recitariam poesia meridional pelos próximos cem anos. Foi então que fundaram Americana, município que hoje repercute o progresso migratório em território paulista. A precursora Santa Barbara do Oeste tornou-se hoje um dos principais municípios agrícolas do estado brasileiro.

Os colonos acabaram por adquirir estranhos costumes do povo e da nova terra, convivendo por igual com enfermidades tropicais e pestilência inevitável do novo habitat durante a construção de suas casas e prédios o que marcou um período de suas vidas em solo brasileiro e ao longo de todas as gerações futuras.

Enfim, esta é uma história de coragem, profundo sofrimento, amor e solidão. Este é uma historia americana numa terra estrangeira com tudo aquilo com que deveríamos estar familiarizados e com tudo aquilo que seria estranho. Os caracteres e as pessoas são reais. Eles viveram e morreram no Brasil. Eles nasceram em Montgomery, Alabama, Savannah, Geórgia e Galveston, Texas. Mas, eles morreram em Americana e Santa Barbara do Oeste, Brasil. Hoje, existe lá um cemitério exclusivo dos ancestrais confederados – todos Maçons. Visitar esse local é reviver um dos fatos históricos da Maçonaria que mais explicam o movimento em nosso país. Anualmente, descendentes dos confederados sulistas se reunem em Santa Bárbara do Oeste para perpetuar a imagem dos Estados Unidos e seus ancestrais. Hasteiam a bandeira confederada, trajam vestes da época, cantam e recitam poesias do Sul e se deliciam com comidas típicas dos ancestrais sulistas.

A história da guerra civil americana sem esta dimensão brasileira não estaria completa. Para nenhum grupo a decepção e o desespero demonstraram de forma mais completa o resultado daquela luta fratricida.

A longa história deles, baseada em notas de jornais ou no rodapé da própria história e por igual em longas narrativas em seus diários ou nos registros da imigração brasileira, certamente reúne uma saga que deveria ser contada agora.


* * * * *







©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal