A secularização do pensamento medieval: revisitando o conceito de «intelectual» na Idade Média



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A secularização do pensamento medieval:
revisitando o conceito de «intelectual» na Idade Média
Rodrigo Guerizoli*

Em 1957 foi lançado na França um pequeno livro sobre «Os Intelectuais na Idade Média» escrito por um jovem historiador que, nas décadas seguintes, se tornaria um dos grandes nomes do medievismo francês: Jacques Le Goffi. Pretendendo-se uma introdução à sociologia histórica do intelectual ocidentalii, a obra de Le Goff se concentra na investigação do quadro histórico-sociológico que orientou, durante a baixa Idade Média, o surgimento de um novo tipo social ao qual correspondeu um grupo social muito bem delimitado: o dos mestres de escola, profissionais não-monásticos, essencialmente ligados ao meio urbano, que encontraram sua maturidade no decorrer do século XIII e que faziam «do pensar e ensinar seu pensamento uma profissão»iii.

Mais de trinta anos após a publicação do texto de Le Goff, um dos mais destacados representantes do novo medievismo francêsiv, Alain de Libera, lança, em 1991, «Penser ao Moyen Âge», uma obra que analisa «um fenômeno particular, mas que impregnou toda a história ocidental: a aparição dos “intelectuais” na passagem do século XIII para o XIV»v. Ao contrário, porém, da perspectiva adotada por Le Goff, de Libera não orienta sua pesquisa em torno à reconstrução do quadro histórico que, desde pelo menos o século XII, vinha gestando as condições de aparição do intelectual ocidental mas, assumindo o ponto de vista de uma história intelectual strictu sensu, busca descrever e analisar um outro problema: «o nascimento do ideal intelectual enquanto tal, suas formulações e suas exigências, suas condições de emergência e seus pontos de explicação»vi. Ao privilegiar a investigação do fenômeno intelectual medieval, Alain de Libera evita identificar o tipo social emergente a um grupo social determinado, inaugurando, assim, a possbilidade de se ver a atuação do «ideal intelectual» em diferentes estratos da sociedade medieval.

Nosso objetivo é expor como Alain de Libera, operando uma mudança de perspectiva em relação ao prisma histórico-sociológico proposto por Le Goff, consegue expandir o conceito de «intelectual medieval», dissolvendo a exclusividade do grupo social universitário e retraçando um processo de crescente secularização, ou desprofessionalização, do intelectualismo medieval, um processo que, ao longo do século XIV, esteve condicionado à atuação de um tipo social «intelectual» capaz de operar a mediação entre grupos sociais eclesiásticos e seculares.



Jacques Le Goff e o intelectual profissional
O século de ouro das universidades medievais é, para Jacques Le Goff, também o apogeu de um tipo social essencialmente ligado a essa instituição de ensino: o «intelectual». Organicamente atrelado à estrutura universitária, os mestres medievais são verdadeiros trabalhadores da palavra, ou seja, profissionais que, em contraposição aos trabalhadores manuais, vendem sua capacidade intelectual em um determinado sítio erigido especialmente com esse propósito: a universidade. A história do surgimento dessa corporação dedicada à difusão da cultura letrada a determinados grupos do novo tecido social urbano que se vinha consolidando desde pelo menos o século XII confunde-se, porém, com a própria história da Igreja na baixa Idade Média. A universidade medieval é, acima de tudo, um dos «braços» de atuação social da Igreja ou, como diz Le Goff, a «corporação universitária (...) é antes de tudo uma corporação eclesiástica»vii.

Profissional universitário, o intelectual medieval não poderia subtrair-se ao tom eclesiástico que marcava sua corporação. O clericalismo, portanto, de acordo com o ponto de vista assumido por Le Goff, é uma característica essencial do profissional universitário medieval. Ligado à universidade, a qual, por sua vez, se colocava sob a égide da Igreja, o sentido da atuação desse intelectual descrito por Le Goff se deixa exprimir pelo famoso conceito de «intelectual orgânico»:

«Os intelectuais medievais não escapam ao esquema gramsciano, na verdade muito genérico, mas operacional. Em uma sociedade ideologicamente controlada muito de perto pela Igreja (...) os intelectuais da Idade Média são, antes de tudo, intelectuais “orgânicos”, fiéis servidores da Igreja e do Estado.»viii

Embora a instituição universitária não estivesse livre de crises que, freqüentemente, confrontavam as várias facções que a constituíam, essas disputas se resumiam ou bem a querelas entre grupos eclesiásticos opostos  como o confronto, ao longo do século XIII, de clero secular e clero regular, esse último representado pela emergência das ordens mendicantesix  ou se faziam no afã de conter um anticlericalismo que provinha, fundamentalmente, do movimento conhecido como «averroísmo latino», ou «aristotelismo radical», cujo representante principal é Siger de Brabante. Libelo maior do combate a essa tendência de laicização que, a partir da segunda metade do século XIII, cresce no ambiente universitário medieval são as 219 teses condenadas pelo bispo de Paris, Étienne Tempier, a 7 de março de 1277x. Através da condenação do «averroísmo latino», a Igreja fecha as portas da universidade ao mais expressivo movimento anticlerical da baixa Idade Média. A conseqüência desse ato é o aumento, ao longo do século XIV, do fosso que separava a cultura universitária, da qual o intelectual, clérigo e alinhado à doutrina da Igreja era seu representante por excelência, e a cultura laica que, no fim da Idade Média, experimentava um grande enriquecimento com o desenvolvimento das línguas vulgares que, posteriormente, tornar-se-iam línguas nacionaisxi. O século XIV, portanto, assiste ao crescente enclausuramento da figura do intelectual que, segundo Le Goff, acaba formando uma «tecnocracia» que se isola cada vez mais, submergindo ancorado a seus velhos hábitos institucionais, e criando as condições de surgimento, a partir do século XV, de um novo tipo social letrado, solitário e atrelado preferencialmente ao poder temporal: o humanista.

O quadro reconstruído por Le Goff vê, portanto, o século XII como momento de criação das condições de surgimento dos intelectuais através da consolidação das instituições universitárias, o século XIII, por sua vez, é apresentado como o apogeu desse profissional intelectual e, ao mesmo tempo, época em que começam a surgir instâncias contestadoras que se contrapõem à «organicidade» desses mestres universitários. No século XIV, por fim, as diferenças se acirram, os intelectuais profissionais se isolam cada vez mais da cultura «popular» que começa, através de místicos, poetas e cronistas, a ganhar força em diversos pontos do mundo ocidental. Perdendo espaço em relação ao antiintelectualismo nascente, o intelectual medieval se isola definitivamente em sua «torre de marfim» e, mantendo sua tendência à «organicidade», sucumbe junto com o decadente poder eclesiástico, dando lugar ao representante letrado do poder real  é a «esclerose da Idade Média», onde a profissão de intelectual, à essa altura absolutamente anacrônica, agoniza em meio a um mundo que já não fala mais sua língua.

Alain de Libera e a desprofessionalização do ideal intelectual
A perspectiva de fundo que anima a investigação de Alain de Libera é «a intuição (...) de que não se pode tratar o problema dos “intelectuais na Idade Média” sem estudar a emergência do “problema intelectual” na passagem do século XIII para o XIV»xii. Assim, embora de Libera se alinhe com Le Goff quando este afirma que o surgimento do tipo social intelectual depende essencialmente da «revolução urbana» que transformou o mundo ocidental durante o século XII, o autor de «Penser au Moyen Âge» nega o acento universitário e intitucional que Le Goff afirma fazer parte dessa personagem nascente. Para de Libera, o fenômeno intelectual situa-se, em verdade, na translatio sapientiae que teve lugar a partir do fim do século XIII e buscava concretizar no ocidente latino um pensamento de origem greco-árabe  assumido principalmente pelos mestres da faculdade de Artes da universidade de Paris  que postulava um ideal de «vida filosófica» o qual, em contraposição à doutrina oficial da Igreja, defendia a possibilidade de uma perfeita felicidade terrestre.

A problemática do intelectualismo medieval é reconduzida, desse modo, à sua origem enquanto experiência do pensamento. Sob este prisma, a «organicidade» da personagem intelectal é questionada:

«(...) contrariamente ao que defende Le Goff, a oposição entre intelectual orgânico e intelectual crítico é muito geral para ser operacional; é necessário não confundir o crítico intelectual com o intelectual crítico, o “alto funcionário” com o universitário, o homem de poder com o servidor sem mestre.»xiii

Inserido no meio universitário sem, no entanto, ser necessariamente um porta-voz do status quo eclesiástico, o intelectual medieval está preocupado em criar as condições para a realização prática de um teoria filosófica de origem aristotélica: o ideal do homem intelectual, um indivíduo cuja existência se baseia no desenvolvimento máximo daquilo que o diferencia de todas as outras criaturas: o intellectus, a capacidade de pensamento. Condenado em Paris por Étienne Tempier sob a forma de «averroísmo latino», esse ideal filosófico alcança grupos sociais não profissionais que se fortalecem sobretudo na Itália e na Alemanha e dão forma a uma verdadeira philosophia extra muros, um movimento de desprofessionalização da filosofia aristotélica cujos representantes máximos e, conseqüentemente, os verdadeiros «intelectuais» medievais, são, de acordo com de Libera, Dante Alighieri e Meister Eckhart  um poeta e um místico, respectivamente.

Fazendo a mediação entre cultura universitária e cultura «popular» através da transposição do ideal ético-intelectual greco-árabe que se vinha discutindo em meios especializados já desde a redescoberta de Aristóteles pela latinidade, o intelectual medieval, ao contrário do que sugeria Le Goff, não se liga a um grupo social reacionário, cada vez mais enclausurado em seu mundo à parte e ao qual se opunha uma tendência «natural» de secularização e antiintelectualismo, mas, antes, atua como elemento mediador entre grupos sociais distintos, contribuíndo para uma secularização crescente da sociedade, secularização esta que, todavia, não significa renúncia ou oposição ao ideal intelectual mas, em verdade, diz o contrário, ou seja, defende a expansão social de uma vida construída com base no conceito de nobreza intelectual, uma noção absolutamente desprofessionalizada, representante da «crescente tendência de assimilação filosófica do discurso cristão»xiv e que punha em xeque o privilégio da Igreja enquanto entidade detentora do «ambiente propício» à perfeita realização da existência humana.

Embora aceite o «quadro histórico» proposto por Jacques Le Goff em relação às condições de surgimento e consolidação do tipo social intelectual, Alain de Libera se distingue ao negar a oposição entre secularização e intelectualismo. Se, de acordo com Le Goff, o sentido fundamental da censura de 1277 foi, simultaneamente, o combate ao anticlericalismo dos «averroístas latinos» e ao antiintelectualismo do movimento «goliardo», para de Libera, o anticlericalismo em questão  muito pouco «averroísta» mas representado, de fato, por mediadores sociais do calibre de um Dante e de um Eckhart  era profundamental intelectual, sendo, em verdade, a própria expressão e expansão do intelectualismo greco-árabe o qual, por sua vez, aos olhos da Igreja, não passava de uma grande ameaça. O intelectual medieval, portanto, segundo a tese de Alain de Libera, não é aquele que, «organicamente», combate o antiintelectualismo crescente das camadas laicizadas da sociedade medieval, mas é justamante o difusor de um intelectualismo laicizado, de uma secularização do pensamento, combatida, inicialmente, por Étienne Tempier em 1277 e, posteriormente, pela condenação de Meister Eckhart a 27 de março de 1329.



Conclusão
Como bem salienta Éric Alliezxv, o embate de perspectivas que permeia o diálogo entre Jacques Le Goff e Alain de Libera conduz, diretamente, à contraposição das matrizes teóricas que animam esses dois autores: de um lado temos a matriz sociologizante assumida por Le Goff e conceitualmente expressa pela noção gramsciana de «intelectual orgânico», do outro lado assistimo à atuação de uma clara influência foucaultiana na «arqueologia do pensamento medieval projetada por Alain de Libera»xvi a qual, baseada na «questão da problematização da “consciência de si”»xvii que deve ser enfrentada por toda arqueologia do saber, procura recuperar a própria apreensão medieval do problema do intelectualismo. Anacronismo e historicismo são, respectivamente, os extremos que rondam Le Goff e de Libera. Abismos que, em verdade, ameaçam não somente a história do medievismo francês, mas estão constantemente no limite de toda tentativa humana de olhar em direção a seu passado.



* Mestre em filosofia pela UFRJ.

i LE GOFF, Jacques. Les Intellectuels au Moyen Age, Paris, Éd. du Seuil («Points Histoire»), 1985 (nova edição aumentada e corrigida). Em nossas citações seguimos a tradução brasileira: LE GOFF, Jacques. Os Intelectuais na Idade Média, trad. Maria Julia Goldwasser, São Paulo, Brasiliense, 1988.

ii LE GOFF, Jacques. op. cit., p. 18.

iii Ibid, p. 17.

iv Cf. ALLIEZ, Éric. Da Impossibilidade da Fenomenologia: sobre a filosofia francesa contemporânea, trad. Raquel Prado e Bento Prado Jr., São Paulo, Editora 34, 1996, p. 21s.

v LIBERA, Alain de. Penser au Moyen Âge, Paria, Éd. du Seuil, 1991, p. 9. Em todas as citações desse texto as traduções são de minha autoria.

vi LIBERA, Alain de. op. cit., p. 11. Que a perspectiva adotada por Alain de Libera seja menos uma crítica à posição de Le Goff que uma modificação do objeto histórico privilegiado à investigação do conceito de «intelectual» medieval, a seguinte passagem não deixa negar: «O trabalho de Le Goff e a sociologia histórica do intelectual ocidental fixaram o quadro de referências básicas necessário a toda reflexão sobre o fenômeno “intelectual” dos séculos XII, XIII e XIV. (...) Nós não temos nada a lhes objetar e nem, deste ponto de vista, a repreender  isto, aliás, não é de nossa competência. Nosso objeto é outro, e compatível com as pesquisas histórico-sociológicas: é a maneira que os intelectuais e seus adversário viveram e pensaram o próprio projeto intelectual, o que se pode apresentar, em certo sentido, como uma história da consciência intelectual na passagem do século XIII para o XIV.» (LIBERA, Alain de. op. cit., p. 358).

vii LE GOFF, Jacques. op. cit., p. 64.

viii Ibid, p. 9.

ix Cf. Ibid, p. 11 e p. 82ss.

x Institucionalmente, uma outra estratégia utilizada pela Igreja com o objetivo de barrar a tendência de laicização da intelectualidade medieval foi proclamar o princípio de gratuidade do ensino e, assim, obrigar os mestres de ensino a se ligarem a ela para terem como sobreviver materialmente. Cf. LE GOFF, op. cit., p. 81.

xi Segundo Le Goff, a língua latina, ao longo do século XIV, «ainda que permaneça viva, (...) se priva do enriquecimento das línguas vulgares em pleno desenvolvimento, e afasta os intelectuais da massa laica, de seus problemas e de sua psicologia.» (LE GOFF, Jacques. op. cit., p. 93).

xii LIBERA, Alain de. op. cit., p. 19.

xiii Ibid, p. 146. Também cf. Ibid, p. 357s.

xiv Ibid, p. 236.

xv ALLIEZ, Éric. op. cit., p. 19ss.

xvi Ibid, p. 20s.

xvii Ibid, p. 25s. Também cf. LIBERA, Alain de. op. cit., p. 11.


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