A semana de 22 HÁ 80 anos



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A SEMANA DE 22
HÁ 80 ANOS São Paulo transformava-se, com a Semana de Arte Moderna, na capital cultural do Brasil. Uma década depois chegava a "Teoria do Protecionismo", do romeno Mihail Manoilescu, que veio dar o embasamento teórico e os argumentos práticos para a transformação de São Paulo na capital industrial do Brasil.

Nesses dois episódios de colonização pelas idéias está presente a Romênia, através do dadaísta romeno Tristan Tzara e do economista Manoilescu.

Enquanto se celebrava o centenário da Independência do Brasil, com toda a usual esterilidade dos atos protocolares, São Paulo foi palco da Semana de 22, em que, num ambiente de provocação e escândalo, a destruição de um exemplar de "Os Lusíadas" simbolizou a ruptura com o academicismo português, dando início a uma época de autoconfiança no nosso modo de viver e de criar brasileiramente.

A Semana de 22, manifestação inaugural do Modernismo no Brasil, teve sua origem nas idéias do romeno Tristan Tzara, um dos protagonistas principais do dadaísmo.

A perspectiva romeno-dadaísta que contemplava a Europa Ocidental a partir da marginalidade européia encontrou terreno fértil no Brasil, uma vez que vivíamos também numa periferia, de além-mar. Tratando-se, pois, de um pensamento periférico europeu, o dadaísmo impregnou o estilo de vida brasileiro tão profundamente que vive ainda hoje na irreverência carnavalesca com que os brasileiros tentam dar um sentido para a grande aventura da civilização nesse limite extremo do Ocidente.

No dizer de Gilberto Mendonça Teles, "o dadaísmo foi o mais radical movimento intelectual dos últimos tempos, superando pela intensidade e dimensões estéticas os grandes movimentos de pessimismo e ruptura, como o 'Sturm und Drang', o 'mal du siède' e o decadentismo do final do século 19".


Importante introdutor das idéias romenas entre os intelectuais paulistas foi o senador José de Freitas Valle, célebre mecenas que organizava em sua Villa Kyrial da capital paulista salões artísticos e literários por onde circulavam as correntes europeias de vanguarda. Não é casual a convergência que o ministro Cyro de Freitas Valle, diplomata em Bucareste, tenha enviado no início dos anos 30 aos industriais paulistas, liderados por Roberto Simonsen, Otávio Pupo Nogueira e Alexandre Siciliano Jr., um exemplar da "Teoria do Protecionismo", do economista romeno Mihail Manoilescu, que em 1931 foi publicada no Brasil e distribuída como a bíblia dos defensores da industrialização do país.

A chegada das idéias de Manoilescu ao Brasil favoreceu o processo de transferência da liderança industrial do Rio para São Paulo, bem como a criação do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo, organização que deu origem à atual Fiesp. Mesmo a lei tarifária de 1931, que tanta importância teve na industrialização de São Paulo, foi elaborada sob influência direta e consciente de Manoilescu.

Ao comemorar os 80 anos da chegada do pensamento de Tzara ao Brasil e os 70 anos da chegada da doutrina de Mihail Manoilescu, caberia felicitar o reitor Cláudio Lembo, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, pela feliz iniciativa da criação de um Centro de Estudos Brasil-Romênia, instituição interdisciplinar que iluminará a presença romena na história do Brasil, somando esforços aos do professor Joseph Love e a Universidade de lilinois, com seu trabalho pioneiro nesse domínio, materializado em sua obra "Crafting the Third Worid, Theorizing Underdevelopment in Rumania and Brazil" (Stanford University Press,1996). Embora esses episódios ainda sejam desconhecidos do grande público, iniciou-se um movimento de diplomacia universitária e cultural que começa a preencher as lacunas nessas relações tão profundas no passado e tão promissoras no futuro. A consciência da presença romena na história do Brasil tem se ampliado, da parte romena, com a organização pelo presidente Eugen Simion, da Academia Romena, no ano 2000, de um concurso por ocasião dos 500 anos do descobrimento do Brasil e na criação, em 2001, do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de Craiova.

Da parte brasileira, as relações bilaterais ganharam recentemente novo impulso no contexto da diplomacia cultural. Personalidades altamente representativas da inteligência brasileira têm visitado a Roménia, passando a integrar uma ponte de convergência e fraternidade: o ex-presidente José Sarney, o doutor Ives Gandra da Silva Martins, o ministro Carlos Mário Velloso, o pianista João Carlos Martins, o reitor Cláudio Lembo, os acadêmicos Arnaldo Niskier, António Olinto e Cândido Mendes, o professor José Eduardo Martins, o doutor Cássio Mesquita Barros, o general Alberto Cardoso.



Constituindo hoje o maior pólo de atividade cultural do continente e um dos maiores centros financeiros e industriais do mundo, não teria chegado o momento de São Paulo fazer uma reflexão sobre as raízes romenas de frutos tão brasileiros?


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