A sibila Tucidideana em meio a Guerras Mundiais



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A Sibila Tucidideana em meio a Guerras Mundiais

(texto parcial, incompleto)

Francisco Murari Pires
1. Figurações de destinos nacionais beligerantes
1914, recém-iniciada a I Guerra Mundial, na Universidade de Toronto dramatizou-se uma atualizada (re)leitura do Diálogo de Melos: aos alemães coube o papel de Atenas, aos britânicos, o de Esparta, e aos pobres belgas sobrou o da infortunada Melos.1
Avançados alguns anos de conflito, eruditos germânicos apontavam por quais aproximações históricas ordenavam congêneres reflexões.

Em 1916, Engelbert Drerup, “eminente conhecedor da literatura e antigüidade gregas, titular da cátedra de Filologia clássica e de pedagogia em Würzburg”2, atualiza a invocação do aedo porque os antigos consagravam a autoridade dos ensinamentos registrados em suas obras, agora recompondo-a em termos de uma historia magistra vitae de dupla via, com a História tomando o prestigioso lugar da antiga Musa: “História, nossa mestra, queira bem obrar tua missão e esclarecer o presente pelo passado e, por sua vez, o passado pelo presente”. Porque o presente também esclarece o passado, as luzes projetadas pelo atual conflito bélico entre as potências européias – a Tríplice de um lado (França, Inglaterra e Itália), Alemanha de outro - ensejavam a Drerup desmitificar o conhecimento historico então celebrado que exaltava a figura de Demóstenes como campeão dos ideais helênicos em defesa da liberdade contra os avanços despóticos figurados por Filipe II da Macedônia. A causa de Demóstenes, na realidade, se assemelhava à da degenerada “República de advogados”3 que comandava os destinos de França e Inglaterra (Lloyd George, especialmente): discursos falaciosos dissimulavam, por retórica de ideais democráticos, um sinistro complô internacional de subjugação européia. A causa da liberdade e autodeterminação dos povos, de fato, eram os reis que a sustentavam, espada em punho: assim Filipe II da Macedônia para a Hélade antiga, assim o imperador germânico para a Europa contemporânea. Falsos patriotas, antigos e modernos, por espúrias ambições pessoais de indivíduos apenas ávidos de poder, moviam, pois, equívocas e inglórias guerras na contramão da história: o sentido por que esta se orienta consagra a supremacia da forma estatal de confederação monárquica, assim descortinada por Filipe II para a Hélade e assim confirmada pela unificação da nação alemã no II Reich em 1871. Desgarrada pela liderança demostênica, Atenas perdera a oportunidade histórica de ser a Baviera da nação helênica! Pelos prognósticos ensejados pelos giros da “roda da história”, Drerup então vislumbrava que desfechos ele augurava para a “Grande Guerra”: “Em sugerindo assim a certeza de uma vitória alemã, Drerup talvez dissimulasse uma projeção quanto à organização da Europa no pós-guerra”.4



No ano seguinte, 1917, Erich Bethe, em um artigo acadêmico5, orienta a reflexão germânica envolvida pelos dilemas da Grande Guerra em buscando paralelismos históricos com a Guerra do Peloponeso que Tucídides relatara. Avivada pelo imperialismo moderno de fins do século XIX e inícios do XX a consciência histórica das razões econômicas que mobilizam as guerras6, Bethe assim intentava aprofundar o conhecimento das realidades determinantes da guerra antiga, de 431, pelas revelações implicadas pela moderna, de 1914: quais competições de predomínio comercial causam as guerras e por quais políticas de bloqueio mais consoantes estratégias militares de confinamento se intenta arruinar as forças adversárias. Para o conhecimento histórico (moderno) das causas da guerra do Peloponeso o foco então se concentra no conflito comercial entre Corinto e Atenas. Aquela potência naval via estrangulados seus interesses mercantis pela expansão das ambições atenienses, que agora se voltavam também na direção ocidental, mercados do sul da Itália e Sicília, através do controle de sua vias marítimas que tinha a ilha de Corcira por base. Os rumos tomados pelo confronto assim igualmente se esclareciam em termos da inteligência de suas estratégias militares. Pelo lado ocidental dos cenários de guerra, o projeto de domínio ateniense sobre a Sicília, região de ricos recursos cerealíferos, respondia também por um plano de enfraquecer a Liga Peloponésia, assim cortando-lhe fontes vitais de provimento alimentar7. Já, pelo outro lado, oriental, a ferocidade com que Atenas reagiu em 427 contra Lesbos em defesa de seu domínio sobre a ilha então revoltada contra o imperialismo ateniense, atendia à necessidade militar de controlar o acesso à passagem dos estreitos, Dardanelos e Bósforo, por onde escoava o fluxo de cereais proveniente das terras circundantes do mar Negro. Tal era a lição histórica descortinada agora, desde 1915, pelo empenho com que a Inglaterra buscava igualmente bloquear os Dardanelos a partir de Lesbos. As tramas históricas de Atenas eram, pois, descortinadas pelos paralelismos acusados por Bethe: por seus duros desígnios de dominação, Atenas espelhava a Inglaterra moderna, também ela orientada por similar destino avassalador de comérico naval expansionista; já pelos modos impiedosos dos massacres praticados, espelhava a “brutalidade russa” a serviço dos desígnios britânicos. A face imperialista de Atenas revelava-se mormente monstruosa. Razão porque Bethe então atacava “a idealização de Atenas, bem enraízada na Alemanha, antes de tudo entre os filólogos que, voltados para as grandes obras civilizatórias, o século de Péricles, impediam que ressoassem as emoções contidas nos testemunhos explícitos das fontes antigas”8. Nas entrelinhas da obra historiográfica de Eric Bethe, que assim insistia em chamar a atenção para o papel crucial que o domínio dos Dardanelos representava para os destinos da guerra, Tadeus Zawadski percebe uma velada projeção profética: porque a potência continental antiga, Esparta à frente da Liga do Peloponeso, soubera minar o adversário atacando-o naquela sua base vital, dando-lhe o golpe definitivo justo nos Dardanelos, também a moderna, Alemanha, igualmente ciente das “fraquezas do inimigo, teria todas as chances de romper o bloqueio e vencer”.9

Nem bem terminada a I Guerra Mundial, ano de 1919, Eduard Schwartz publica Das Geschichtswerk des Thukydides. Nexos de infortúnio pessoal acompanhavam o advento da nova rememoração tucidideana, então assinalados pela dedicatória em nome do filho morto nos campos de combate a 2 de novembro de 1914.10 Com Schwartz retorna a velha “Questão Tucidideana” lançada para o mundo acadêmico no século XIX por Ullrich, agora ganhando renovado alento em sua vertente analítica11. A estratigrafia de camadas narrativas que estigmatizavam a história de Tucídides corresponderia, pela análise de Schwartz, às vicissitudes espirituais, mormente políticas, por que passara a consciência de seu autor: o regresso a Atenas ao findar a guerra atualizara-lhe o sentimento patriótico, levando-o a uma revisão de suas concepções historiográficas, particularmente voltadas agora para a defesa da causa de sua cidade, em especial conformada pela orientação política de seu líder maior, Péricles. Quer o discurso dos Ateneinses em Esparta nos pródromos da guerra quer o Diálogo de Melos por meados da mesma, inoculavam um “playdoier” que absolvia Atenas, voltando antes contra Esparta invejosa do poderio de Atenas a carga de ataques e acusações politicamente incriminadoras pela guerra desencadeada.12 O presente da guerra de 1914-18 contaminara a percepção histórica da guerra passada, de 431 a.C., assim conjugando a projeção dos patriotismos de ambos seus historiadores, do germânico para o ateniense, porque se apreciassem as verdadeiras causas dos correspondentes ruinosos desfechos bélicos nacionais. Sob o manto prestigioso da objetividade científica a obra de Schwartz fazia ecoar, aponta Hans-Peter Stahl, uma defesa do Reich alemão, também derrotado no recente confronto bélico: “por trás de Péricles vislumbra-se a figura de Bismarck” e sua machtpolitik de até mesmo “paradoxia anti-moral”. Ao (re)configurar a apreciação do célebre estadista antigo avalizada pelo prestigioso historiador que celebrara as razões de sua power politics de vocação imperial, Schwartz resgatava, em meio à crise que tomava a Alemanha derrotada na guerra, a autoridade da similar ideologia política do lider germânico moderno e seu projeto estatal. O recíproco (re)conhecimento assimilador de um modelo pelo outro, antigo por moderno e vice-versa, os legitimava mutuamente13.


Do outro lado das trincheiras, adversos pendores de assimilações históricas a marcar destinos beligerantes também instigaram correspondentes ponderações de respectivo sabor nacionalista.

Por conferência ministrada em 1918, Gilbert Murray14 opera similar exercício de assimilação tucidideana porque ponderasse quais paralelismos se acusassem entre Guerra do Peloponeso e a I Mundial do século XX. Inglaterra é identificada com Atenas por poderio marítimo e vocação democrática, contra Alemanha com Esparta por poderio terrestre e figurino de monarquia militar. Quem sabe, por leitura mais leviana, não se aproximariam marginalidades algo bárbaras porque se pudesse espelhar na participação dos russos atuais as imagens das hordas dos antigos trácios. Porque lamentavelmente então faltasse aos atenienses o correspondente concurso (moderno) da reserva de força militar (americana), na Guerra do Peloponeso não foi "the right side" quem venceu! 15

[desdobrar mais detida e completamente a análise do texto de Murray e as indicações abaixo]

Deonna: L’éternel présent: Guerre du Peloponnèse et Guerre Mondiale

Professor W. J. Battle, of the University of Texas, was entitled Pan-Germanism in the Age of Pericles. It appeared in The Texas Review (published by the Universitv of Texas), 3.275-296, 4.38-5I (July, October, I9I8). Professor Battle relies mainly on the pages of Thu-cydides; indeed, his article consists, for the most part, of extracts from Thucydides, in translation.

Aristophanes and the Great War, by Professor H. Lamar Crosby, of the Uni-versity of Pennsylvania, is to be found in University Lectures Delivered bv Members of the Faculty of the University of Pennsylvania, 6.349-367 (see THE CLASSICAL WEEKLY 13.I92).

[1925 Knapp GilbertMurrayy 106]

Professor Crosby's sympathies were, apparently, pro-Gilbert-Murray, Pro-League-of-Nations. Profes-sor Battle was Anti-German and Anti-Athenian. "The attitude of Athens towards her neighbors", he says (277), "is indeed much like that of Germany towards hers today". "On the other side, the chief state, Sparta, solid, slow-moving, tenacious, with a long history of achievement and honor, is like England even if her power be land instead of naval". Later (279) Professor Battle writes thus: The position of Athens as a great naval power de-pendent for her existence on her fleet is essentially that of England today, but the government of England up to the Reform Bill much more nearly resembles that of Sparta than that of Athens, and the similarity of her history and policy to those of Sparta is curiously close at many points. Yet, in his concluding sentence (4.51), he writes: "Greece only exchanged Athenian supremacy for Spartan and Spartan for Theban and finally was so weakened in man power and spiritual force that she lost her freedom altogether to Macedon and Rome". Both Professor Crosby and Professor Battle em-phasize, inevitably, the part that sea-fighting and sea-power played in the Peloponnesian War.

[1925 Knapp GilbertMurrayy 106]

The war of 1914-18 diverted a large part of Murray's prodigious energy into new channels. The growth of nationalism and the growing threat of international conflict had long troubled him ;

as early as 1900 he contributed to 'The International Journal of Ethics' a devastating paper entitled 'National Ideals, Conscious and Unconscious' (reprinted in 'Essays and Addresses', 1921).

But it was the war which convinced him that some constructive action was urgently needed if Europe was to be saved from tearing itself to pieces.

His judgement on the events which led up to the war is to be found in 'The Foreign Policy of Sir Edward Grey'(1915).

When it was over he threw himself with missionary zeal into the work of rebuilding a broken world. He was one of the principal archi tects of the League of Nations Union, of which he was Chairman from 1923 until 1938; and its educational offshoot, the Council for Education in World Citizen ship, was very largely his personal crea tion. During the interwar years much of his time was occupied in working for the League of Nations at Geneva, where for eight years he presided over the Committee for Intellectual Co-operation, a remarkable and devoted body whose membership in cluded Einstein, Bergson and Madame Curie.

[1957 Dodds GilbertMurray 477]

Eis que então na França, por essa mesma época, ressoou a voz de uma Sibila tucidideana. Ano de 1917, em curso ainda a Grande Guerra, Albert Thibaudet, literato então feito soldado, junto com mais outros quatro camaradas, foi destacado para a guarda de um posto de defesa num acampamento britânico montado em campos franceses. Ensejo de um “feliz retiro de (i)mobilização guerreira, já que assim recolhidos em área isolada, de ínfima frequência, com apenas um ou outro inglês que esporadicamente por ali aparecia a amigavelmente retribuir a hospitaleira xícara de chá por suprimento de tabaco.

No alforge de campanha, Thibaudet trouxera seleta companhia: Montaigne, repositório de lições de vida, Virgílio, de poesia, e Tucídides, de história. Eis que a guerra, por surpreendentes vicissitudes, propiciava-lhe destino algo similar ao do célebre ateniense, ele também favorecido por tais paradoxos de (des)comprometimentos de (des)encargos guerreiros, que acabam antes livrando inesperado tempo de ócio. O que fazer de modo a preencher o vazio da inatividade propriamente beligerante? Os deveres de soldado falaram pela consciência do traje: o uniforme azul do exército francês reclamou de Thibaudet a composição de obra intelectiva que refletisse e discorresse sobre a realidade da guerra. Então, leitura atenta da guerra dos Peloponésios e Atenienses, tanto mais primorosa, diz ele, porque dialogada, glosando às margens do texto as notas e comentários que ecoassem seus ensinamentos. Thibaudet, em 1917, mimetizava Tucídides de 424 a.C.!

Terminada a guerra, mais outro momento de retiro, para o sossego revigorante de um abrigo campestre, a meditar tranquilo em ambiência florida de “roses, genêts et lucioles” e sob a sombra do plátano: as notas e apontamentos registrados em tempo de guerra, inverno de 1917, ganham composição em um ensaio dois anos depois, intitulado La campagne avec Thucydide, finalizado no ano de 1919. Entre acampamento militar e paisagem campestre, Thibaudet assimila a experiência vivida da guerra atual, presente, de 1914 a 1918, pelo saber histórico da memória tucidideana da guerra passada, antiga de mais de dois milênios, da segunda metade do século V a.C. Pela composição desse diálogo que atravessa a temporalidade, passado e presente mutuamente se iluminam (e obscurecem), traduzindo (e reduzindo) os sentidos de uma história pela outra.

Thibaudet reflete sobre a história pela inteligência do tesouro de sua vivência literária. Da anedota, ocidental, que conta a aquisição dos Livros Sibilinos por Tarquínio, amputados ao terço de sua totalidade de conhecimentos previsivos do futuro pela inépcia do rei que regateava seu preço, a seu justo valor apenas se rendendo contra o risco de sua perda total, Thibaudet atualiza o ensinamento filosófico de que a riqueza, e o fascínio, da vida humana se compõe precisamente pela dialética desse jogo entre o previsível e o imprevisível na história dos homens, porque eles compõem, de um lado, as orientações que o saber histórico do passado disponibiliza com, de outro, os desafios que a inovação criativa do futuro impõe. [isto é o inverso do que diz Arendt em Entre o Passado e o Futuro refletindo sobre o aforisma de René Char] Já do conto, oriental, lembrado por Anatole France, de que todo o compêndio livresco da história dos homens pode ser resumido em uma só breve linha – “eles viveram, eles sofreram, eles morreram” – Thibaudet firma a consciência extrema de pobreza a que esse jogo se reduz, ao subsumir o imprevisível pelo previsível que condensa a essência irredutível, inescapável, da condição humana, assim imune à sua própria história.

Tucídides, ao propor sua história como ktema es aei, encerra o extremo de riqueza, e de beleza, valioso tesouro - “diamante luminoso” -, a que esse diálogo, porque os homens jogam os destinos de sua história aferindo os desconcertos do momento inovador contra as bases da permanência estável, pode almejar. A guerra contemporânea de inícios do século XX bem afirma sua atualidade, com as nações de hoje (re)vivendo os eternos dilemas humanos que as as cidades de outrora já haviam conhecido :

Cette chose de toujours que Thucydide a voulu réaliser dans son livre, elle a reçu de cette guerre sa preuve authentique. Il est beau de voir les lignes de la guerre entre les nations épouser les lignes de la guerre entre les cités, telles que les a isolées et retracées le génie solitaire du fils d’Oloros. L’Histoire de la guerre du Peloponnèse cristallise comme un diamant lumineux le tiers prévisible que comportait la guerre mondiale.

L’histoire de Thucydide développe, rend présents, vivants et ordonnés, comme des frontons du Parthenon, les thèmes éternels de la vie, de la souffrance et de la mort tels qu’ils s’imposent à l’homme constructeur, destructeur et défenseur des cités. (p. 7-8)

Misto de ensaio literário-filosófico e estudo histórico-político, Thibaudet associa em sua leitura de Tucídides enfoques de reminiscências líricas com outros de reflexões realistas.

Quer para os sentimentos amorosos quer para as ambições políticas, as duas grandes formas de paixões humanas, o alcance da compreensão intelectiva do discurso supõe o desligamento de sua atividade mesma, um distanciamento do âmbito da ação, para assim viabilizar a reflexão do espírito. “Le discours est l’ombre de l’action”, dissera Demócrito. Liberado da guerra pelo exílio, Tucídides ganha a tranquilidade de distância contemplativa que enseja a visão percuciente sobre a política. Assim, similarmente, o faz Thibaudet, ao sabor do sossego aprazível dos idílios seus retiros campestres, então abrigado dos tumultos bélicos.

Assegurada a tranquilidade pelo recúo da distância, o horizonte descortina o permanente da história humana - ktema es aei – seja em termos de guerra seja de política, quer por Tucídides pela do Peloponeso do século V a.C. quer por seus ecos em Thibaudet pela (primeira) Mundial do século XX, pois esta reproduz ambiência civilizatória similar a que aquela firmara historicamente:

Reconhecida a excelência superlativa do discernimento inteligente do historiador antigo, que nenhum êmulo moderno do século XIX iguala, Thibaudet como que lamenta nostálgico o destino histórico-ontológico que impedira Tucídides de ampliar o saber do ktema es aei também pelas realidades vividas pela guerra de 1914: “L’histoire de Thucydide eût été encore plus complète si un miracle de longévité lui avait permis d’assister à la construction de l’Europe dans les temps modernes et à sa destruction par la guerre de 1914. Mais, à l’heure où nous sommes, nous ne pouvons même concevoir qu’il existe un cerveau assez puissant, assez calme et assez libre pour contempler, raconter et pénétrer notre guerre avec la même méthode, la même lucidité pure que Thucydide a pu appliquer à la guerre que se déroulait devant lui.” (15-16)

Assim, ao adotar a visão de Tucídides para enquadrar a guerra mundial de 1914, Thibaudet figura como que o sucedâneo tucidideano ainda almejável para entender também a história do século XX. Operação cognitiva que, consoante e igualmente, realiza o trânsito inverso, por esta compreensão histórica contemporânea induzindo a definição dos sentidos factuais por que apreende as lições da história projetadas na leitura de Tucídides. Pelas leituras de Thibaudet, o livro de Tucídides equivale a um espelho hermenêutico por que as visões das imagens factuais de uma guerra refletem as da outra.

“1914 repete 431”, sentencia Thibaudet. A guerra do Peloponeso do século V a.C., que opõe Atenas, a “maior potência marítima” com ambições hegemônicas, a Esparta e a Liga do Peloponeso, “a maior potência terrestre e militar”, figura o paralelo por que Thibaudet pensa o panorama da (primeira) Grande Guerra do século XX, em que antagonizam a “Entente”, sob o comando da talassocracia britânica, contra o bloco continental da Tríplice chefiado pela Alemanha, a maior potência militar continental com pretensões imperiais conformadas segundo antigo modelo romano (124-5).

Pelas imagens do espelho tucidideano enquadradas em panoramas de moderno realismo político, Thibaudet recria a guerra do Peloponeso à semelhança da de 1914. E pelo ciclo secular que as datas das guerras - 1814 e 1914 - configuravam, Thibaudet extrapolava prognósticos de renovados conflitos apenas para 2014. Por tal augúrio esperançoso de que a paz européia persistisse pelo menos um século, cantou liricamente a Sibila Tucidideana em 1919! Bela ilusão ... a guerra voltou bem antes, apenas vinte anos depois!


Tucídides tinha razão, pondera Louis E. Lord por março de 1943: “history repeats itself”. Como as disposições de caráter mais os modos dos comportamentos humanos não mudam, “the same situations in history will produce like events”. A Guerra Mundial do século XX, por ele vivenciada, reproduzia episódios e situações bem similares às que a do Peloponeso, retratada por Tucídides, já descortinara mais de dois milênios antes16.

Alinhamentos de forças configurando antagonismo de blocos beligerantes de similares identidades de política externa, “internacional”: de um lado, uma potência central firmada em sistema imperial; do outro, uma confederação de Estados conjugados sob liderança hegemônica.17 Assim, Alemanha contemporânea, se bem que de identidade continental, reitera Atenas antiga, embora de identidade naval; e Inglaterra à frente dos Aliados reproduz Esparta no comando da Liga do Peloponeso. Daí, similares repercussões de sentimentos e desafetos políticos: alemães parecem-se com atenienses pela impopularidade de regimes imperiais tirânicos; já britânicos assemelham-se a espartanos por simpáticos papéis de protetores da liberdade.18 Todavia, por suas definições estatais, revertem-se os papéis equacionando as afinidades de antigos com modernos, pois Atenas, pela “mais perfeita democracia que jamais existiu”, alinha-se com Grã Bretanha e Estados Unidos da América, enquanto que Esparta, espécie de “acampamento armado de disciplina prussiana em sua forma mais intensa”, fica do lado da Alemanha.

Idêntica percepção histórica da unidade de uma guerra de três décadas: 431 a 404, para a helênica, 1914 a 1943, para a do século XX. Consciência histórica que, entretanto, reclama analistas, Tucídides entre os antigos e Lord entre os modernos, que não se deixam enganar ou iludir por falsas aparências de paz por armistícios assinados, como ocorreu com os contemporâneos do ateniense ou com os “sleepwalkers in the British Government”19.

Assim encorajado pelos paralelismos aventados, Lord, finalizando seu estudo ensaístico sobre Tucídides, entregou-se a alguns exercícios de prognósticos históricos, então apurando que lições de saber político tiradas da leitura do texto tucidideano lhe ensejavam vislumbrar, por março de 1943, não só a certeza da vitória dos “Aliados” como ainda, consequentemente, por quais rumos, aconselháveis ou desrecomendáveis, deveriam as nações vitoriosas orientar o futuro histórico do mundo contemporâneo:

To use, then, the experience of history to arrive at political knowledge of what this war will bring: the employment of vast number of voters by the government as a result of the war effort constitutes a real danger to our democratic institutions; it was fatal for Athens. There will be no freedom for small states except in collective security. As the war goes on, even greater crimes against humanity will be perpetrated by the central powers. But a predatory empire has in its nature the seeds of destruction, and when that destruction is imminent, nations now neutral will join the allies. Victory will go to the side with the greater resources. A complete victory, unconditional surrender, will be necessary to a lasting peace. The soldiers of the democracy will show greater stamina, better morale. The collapse of the central powers will be sudden. There will be no long fight to the death, for the bully is not a good looser. Magnanimity will be shown in the peace terms and will be extended to the defeated by America, the British Commonwealth, China or Russia, but not by lesser nations20.

Que o Estado democrático, premido pela extraordinariedade de uma situação de guerra, mantenha uma política publica de emprego da cidadania revelou-se desastrosa no caso de Atenas: “the implications and the warning for us should be clear”21.

Para o tempo imediato de conclusão do conflito, uma vez imposta derrota plena por rendição incondicional da potência central, Alemanha, Lord prevê, tomando o texto de Tucídides por modelo sapiencial, a que potências e por quais modos dever-se-iam realizar os acertos de paz: “The truth of this surmise is already proved by the wise advice of Madame Chiang Kai-shek against vindicative peace: ‘While it may be difficult for us not to feel bitterness for the injuries we have suffered at the hands of the aggressor, let us remember that recrimination and hatred will lead us nowhere22.

Dados os destemperos e descaímentos dos eternos modos humanos de ambições predatórias, a independência e autonomia dos fracos supõe e reclama a existência de configurações políticas internacionais de poderes fortes: “Another conclusion that might be drawn from the situation in fifth-century Greece and the situation today is that as long men’s characters remain as they are, and governments are what they should not be, no weak city or state can maintain its independence unless it is protected from predatory empires like Athens, Germany and Japan by outside alliances. Witness Melos and Belgium. ... Independence in this world, whether it is the world of fifth-century Greece or the present global world, requires strength; or, if that is impossible, weakness must be supported by another’s strength. We talk of freedom for India, and some of us go about with badges of ‘Free India now’, but no thoughtful person can believe that there can be any freedom for India unless that freedom is supported by the armed strength of Britain or the United States or China. The Irish hurl epithets at the British and proclaim their freedom, but the freedom of Ireland rests on the British Navy23.



Com Louis E. Lord a leitura de Tucídides adquire contornos de feérica projeção de similitudes históricas nem sempre consistentes ou melhor refletidas, antes extrapolando aproximações precipitadas de realidades históricas (superficial ou artificialmente) tidas por parecidas e comparáveis. Alguns juízos históricos assumem tons de severidade, por vezes mesmo impiedosa, que, entretanto, não se alicerçam em embasamentos de correspondentes escrúpulos de rigor, correção e propriedade de suas análises críticas, a inclusive descair por deslizes de preconceitos levianos.24 Outros, como a suposta “magnanimidade das grandes nações no tratamento dos inimigos vencidos por ideal pacifista”, distorcem por travestimento de respeitabilidade virtuosa de fundo ideológico maniqueista aspectos de realidade histórica antes originariamente apreciados como jogos e tramas de interesses políticos.25
De Albert Thibaudet (entre 1917 e 1919) a Louis E. Lord (em 1943), os vaticínios da Sibila Tucidideana perderam todo encanto e fascínio brilhante de inteligência analítica, fazendo definhar, em apenas um quarto de século, todo viço poético de seu lirismo inaugural.


1 Crane Simplicity Introduction 1.

2 Todos os informes respeitantes à obra de Drerup (Aus einer alten Advokatenrepublik. Demosthenes und seine Zeit. Auch ein Kriegsbuch. Paderborn, 1916), bem como para os da de Eric Bethe a seguir, foram tirados do ensaio de Tadeusz Zawadzki (1996: 149-155).

3 Drerup fundava assim o descortino de sua análise pela ótica de patriotismo enviesado proclamada por um artigo de jornal (Kölnische Zeitung, 109, 31 de janeiro de 1916) em que se acusava a insidiosa maquinação beligerante de que a Alemanha era então vítima.

4 Tadeusz Zawadski (1996: 151).

5 Athen und der Peloponnesische Krieg im Spiegel des Weltkrieges. Neue Jahrbücher für das klassische Altertum, Geschichte und deutsche Literatur und für Pedagogik. Tome 39, 1917, p. 73-87.

6 Referenciar Cornford.

7 Zawadzki sugere em nota o nexo atual das circunstâncias do conflito bélico que acutizavam a sensibilidade analítica do historiador moderno: “On a l’impression que la sous-alimentation de l’Allemagne durant la guerre 1914-18, suite du blocus maritime, a rendu Bethe tout spécialement attentif à cet aspect de la guerre du Peloponnèse” (1917: 153).

8 Tadeusz Zawadski, obra citada, p. 154.

9 Idem, ibiden, p. 155.

10 Confira-se: Calder III (1979: 387). Um segundo filho também morto na guerra e o terceiro que retornou mutilado (Momigliano, 1982: 61).

11 Arnaldo Momigliano (1982: 59-63) mapeia magistralmente o panorama histórico dos delineamentos político-ideológicos em que a praxis filológica de Schwartz gesta, entre anos 1890 a 1919, sua concepção do método analítico integrado ao projeto de autonomia e total secularização da escrita da história porque se extinguisse a tradicional contrapartida de uma história eclesiástica: únivocos procedimentos operam a interpretação quer dos Evangelhos quer de Tucídides.

12 Tais são as considerações com que Hans-Peter Stahl analisa a obra de Schwartz (2003: 18-21).

13 Arnaldo Momigiano aponta, justo nesse sentido, as circustâncias em que Schwartz compôs Das Geschichtswerk des Thukydides: atuando durante toda a Guerra (1913 a 1918) em Estrasburgo, já em 1916 sustentava a proposta de anexação da Alsácia pelo Reich. Face à derrota alemã, retirou-se para Munich, onde veio à luz sua obra. Ainda em 1929, mantinha-se fiel à mesma tese (Momigliano, 1982: 61).

14 Our Great War and the Great War of the Ancient Greeks, 1920.

15 Murrayy (1920: 10-12).

16 “The Peloponnesian War does, however, resemble the present global war in so many ways that the trial seems to me worth while, even at the risk of a fall” (Lord, 1945: 223-225).

17 “The physical situation, therefore, in the Peloponnesian War is much like that of the present war: a central, closely united core is opposed to a losely knit confederacy” Lord, 1945: 229).

18 Assim, lembra Lord, numa leitura do Dialogo de Melos realizada na Universidade de Toronto em 1914, papéis históricos intercambiáveis identificam Alemanha com Atenas, Inglaterra com Esparta, sobrando para a Bélgica do século XX o destino que coubera a Melos no V (idem, p. 232).

19 Lord (1945: 235).

20 Lord (1945: 248).

21 Lord (1945: 241).

22 Lord (1945: 245).

23 Lord (1945: 242).

24 Assim reflete Lord a relevância histórica dos fenícios: “The Phoenicians themselves were part of the world of the fifth century. They dwelt at Tyre and Sidon and at Carthage, restless traders, builders of factories, getters of money, thoroughly practical, realistic business men. They produced a great civilization that has made one contribution, and only one, to the modern world, the word ‘assassin’” (226). Confira-se ainda seu pronunciamento, tão breve quão arbitrário, sobre o Thucydides Mythistoricus de Cornford: “probably the worst book on Thucydides in English” (274).

25 Vejam-se as reflexões mais criticamente inteligentes por que Albert Thibaudet entendeu as vicissitudes da conclusão da paz que terminou a Guerra do Peloponeso em 404 colocando-se, em 1919, o mesmo tipo de questão que inquietou Lord em 1943.


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