A sociedade vitoriana no século XIX através da literatura



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A sociedade vitoriana no século XIX através da literatura

Maytê Regina Vieira (UDESC)

No século XX a chamada Escola dos Annales modificou o entendimento sobre o que era o campo do historiador. Sob influência de homens como Marc Bloch para quem,
Como primeira característica, [do conhecimento histórico] o conhecimento de todos os fatos humanos no passado, da maior parte deles no presente, deve ser, segundo a feliz expressão de François Simiand, um conhecimento através de vestígios. Quer se trate das ossadas emparedadas nas muralhas da Síria, de uma palavra cuja forma ou emprego revele um costume, de um relato escrito pela testemunha de uma cena antiga ou recente, o que entendemos efetivamente por documentos senão um "vestígio" quer dizer, a marca, perceptível aos sentidos, deixada por um fenômeno em si mesmo impossível de captar? (BLOCH, 2002. p. 73)
Houve assim, uma ampliação na tipologia das fontes de forma contínua. Todo tipo de produção humana passou a ser considerada documento histórico. (KARNAL; TATSCH, 2009). Entre elas a literatura por sua capacidade de, quando devidamente analisada, revelar seu contexto e suas influências. Ao historiador não importa a classificação da obra como "[...] literatura maior ou literatura menor, escritos clássicos ou não, eruditos ou populares, bem-sucedidos no mercado ou ignorados, incensados ou amaldiçoados." (FERREIRA, 2009, p. 71). O que interessa é ver nas obras os desejos, as angústias, as frustrações e suas conexões com a sociedade a que foram contemporâneos e suas representações sociais, ideológicas, sexuais, nacionais, além de vários outros aspectos. Ainda Ferreira (2009, p. 88), nos convida a olhar com novos interesses "um simples romance, que pode ser uma via de acesso à história em seus dados de realidade e suas projeções subjetivas."

Com esta perspectiva escolhemos o romance Drácula do irlandês Abraham (Bram) Stoker como fonte literária e possibilidade de um vislumbre da chamada "Era Vitoriana" que compreende a regência da rainha Vitória, que durou de 1837 à 1901. Este foi o período de maior expansão do império inglês com domínios que comportavam colônias no Ocidente e Oriente dando a Inglaterra o epíteto de "Império onde o sol nunca se põe", além da Segunda Revolução Industrial introduzindo os motores movidos a óleo e eletricidade. A partir de então, tudo se acelerou revolucionando o transporte, as comunicações, as etapas de produção, as máquinas dominaram o cotidiano em todas as partes. (SILVA, 2006). A Era Vitoriana também é conhecida como um período de intensa repressão sexual, rígidas regras de moral e florescimento do modelo de família burguesa.

Bram Stoker nasceu em 1847 em Dublin (Irlanda) e foi funcionário público, jornalista, crítico e diretor teatral. Seu interesse pela escrita se desenvolveu desde a infância e acabou por se tornar sua principal atividade. Em 1878 casou-se com a atriz Floresce Balcombe e mudou-se para Londres tornando-se gerente do Royal Lyceum Theatre sob a direção do ator Henry Irving. Stoker trabalhou para Irving durante 27 anos nos quais viajou pelo mundo e pode se dedicar à escrita. A amizade e parceria com Irving lhe permitiu circular pela alta sociedade londrina.

Drácula foi publicado em 1897 e apagou todas as obras anteriores e posteriores de seu autor, que ficaram esquecidas. A obra mantém um sucesso centenário, com publicações e traduções por todo o mundo desde seu lançamento e sua consagração através de suas adaptações no teatro, no cinema e em várias outras produções. O autor faleceu em Londres em 1912 sem ver o sucesso absoluto de sua criação.

Conforme Jarrot (1999), o século XIX descobriu o gosto pela literatura fantástica que demonstra as questões existenciais dos homens, sua obsessão pelo desconhecido e pela morte. A literatura fantástica, considerada um subgênero fora dos cânones da considerada arte literária pela academia em geral, demonstra as inquietações de sua época e exerce um grande fascínio pelo público em geral, sendo de alto consumo, tanto a fantástica como os romances policiais, de ficção científica, etc.


Embora os primeiros vampiros literários retratados por Goethe, Coleridge, Southey, Polidori, Byron e Nodier fossem basicamente parasitas, possuidores de poucas caracteristicas para se fazerm benquistos às pessoas que os encontravam, exerceram, não obstante, uma função vital ao ajudar na personificação do lado mais obscuro dos seres humanos. Os escritores romãnticos do século 19 se propunham à tarefa de explorar o lado escuro da consciência humana. (MELTON, 2003. p. XXIII).

 

Para escrever Drácula, Stoker passou vários anos pesquisando o folclore europeu e as histórias mitológicas dos vampiros. Conhecendo as características dos vampiros anteriores, Stoker juntou todos os ingredientes em seu vampiro, que se tornou o padrão para todos os posteriores (BRITES, 2007). Acrescentou mais algumas características numa mistura de conhecimento das lendas antigas e invenção. Criou um ser diabólico, ligado a Satã e temente a Deus e aos símbolos católicos, é a partir dele que o vampiro passa a temer o crucifixo. Ele cria também a sensualidade no relacionamento entre o vampiro e sua vitima, o elo profundo que se forma com a vítima que bebe o sangue do vampiro.



Segundo Melton (2003), igualmente são criações suas o fato do vampiro precisar descansar num caixão com sua terra nativa, a necessidade de convite para entrar nos locais privados (residências), a habilidade da transformação em morcego e pequenos animais, em névoa, o controle das tempestades e não ser refletido em espelhos. Tudo isto criou o conde Drácula, o Príncipe das Trevas, inspiração do vampiro moderno. A partir dele centenas de romances, contos e histórias em quadrinhos desenvolveram o conceito de vampiro.

Para escrever seu livro, Stoker gastou anos de pesquisa em bibliotecas e museus, muitos foram os livros que utilizou. Segundo suas notas, disponibilizadas pela pesquisadora Elizabeth Miller (2008), ele tomou conhecimento do nome Drácula em um livro chamado Um relato dos principados da Valáquia e Moldávia, escrito em 1820 pelo diplomata britânico William Wilkinson quando esteve em Bucareste. Neste livro o autor menciona a história de Drácula e numa nota de rodapé informa que na Valáquia Drácula significa diabo. Ao tomar conhecimento deste nome e seu significado, Stoker o usa para denominar seu vampiro. Conforme McNally e Florescu (1995), o autor teve contato com um manuscrito que descreve as atrocidades de Drácula publicado em 1485, o que colaborou para chamar sua atenção. Até então o vampiro era um personagem puramente ficcional, sem qualquer ligação com a realidade, até que o autor descobriu, em suas pesquisas sobre o folclore da Europa Oriental, o nome perfeito para o seu nobre estrangeiro e sedutor vampiro: o Conde Drácula.



Drácula foi publicado em 1897, próximo ao fim do século XIX. Stoker o escreveu durante a década de 1890. Para Jarrot (1999) certamente ele foi influenciado pelos acontecimentos de sua época como os crimes insolúveis de Jack, o Estripador que horrorizaram a Londres de 1888 por sua impunidade e sua perícia médica e também pelos escritores góticos como os de Robert Louis Stevenson (O médico e o monstro – 1886), Oscar Wilde (O retrato de Dorian Gray – 1891), entre outros da literatura fantástica do século XIX. Com seu ápice nos séculos XVIII e XIX, o estilo gótico tinha ambientes medievais como castelos, ruínas, florestas e igrejas. Havia sempre um segredo ou uma maldição, além de elementos como loucura, devassidão e deformação do corpo, tudo para despertar medo. Seus principais personagens eram fantasmas, demônios, espectros, todo tipo de monstro. Na literatura gótica também apareciam influências da sociedade: o sistema patriarcal, as questões de gênero, política, sexualidade, concepções religiosas, filosóficas e cientificas. Um típico ambiente gótico seria um antigo e arruinado castelo, com quadros vivos, salas assombradas, escadas labirínticas, porões com fantasmas e mortos-vivos, tudo muito sombrio e escuro. (JUNIOR, 2008). Através da passagem abaixo, podemos observar o estilo gótico que permeia a obra:
Subitamente, me dei conta de que o cocheiro estava puxando os cavalos no pátio de um amplo castelo em ruínas, de cujas janelas altas e negras não saía um único raio de luz, e cujas ameias quebradas formavam uma linha irregular contra o céu iluminado pela lua. [...] Afinal empurrei uma porta pesada que estava entreaberta, e me encontrei numa capela antiga e arruinada que havia evidentemente sido usada como cemitério. (DIÁRIO DE JONATHAN HARKER in: STOKER, 2002. p. 243 e 278)
Drácula é um descendente dos heróis byronianos: dominador, predador e sublime; é um transgressor dos costumes dos liberais ingleses que se fundavam em alianças de sangue, enquanto ele se nutria do sangue sem nenhuma aliança. É uma criatura que viola os limites de todas as formas possíveis, sejam eles os da família, do direito, da geografia ou do tempo. Estuda o mundo em que está entrando e se vale das mesmas armas dos caçadores para criar um mundo de caos a sua volta. Toda a ciência utilizada para combatê-lo se prova ineficiente, pois não há comprovação cientifica do que ele faz ou do que é. (DUPERRAY, 2005).

Drácula conta narra a história do procurador Jonathan Harker que vai à Transilvânia levar os documentos de compra de várias propriedades em Londres para um nobre boiardo, o conde Drácula. Ao chegar ao castelo, o jovem burguês é aprisionado pelo nobre que deseja ir para o coração da civilização. Jonathan consegue fugir do castelo e juntando-se à um grupo de amigos passa a caçar o monstro para erradicar o perigo. Drácula, ao descobrir sua fuga, passa a assediar as mulheres do grupo, a jovem noiva de Harker, Mina e sua amiga de infância, Lucy. A caçada termina com a vitória do grupo burguês ajudado pelo médico, filósofo e cientista Van Helsing, mas não sem a perda da jovem Lucy que se torna vampira e é destruída sob a alegação da necessidade de salvação de sua alma. Esta é a trama em linhas gerais, de forma bem simplificada. O romance traz em sua narrativa a idéia da vitória da luz sobre a escuridão, a razão e a ciência sobre a superstição, a moral e os bons costumes sobre a luxúria e os desejos. Vamos discutir alguns pontos que esclarecem a influência do meio social sobre a obra.

A sociedade vitoriana está representada nos heróis Jonathan Harker, um procurador burguês; Arthur Holmwood, um aristocrata, herdeiro de títulos de nobreza; John Seward, um médico psiquiatra; Abraham Van Helsing, um cientista, metafísico que se divide entre a ciência e a crença na religião; Quincy Morris, um representante da força nascente, os Estados Unidos. Através deles, representantes da nova classe média, burguesia e nobreza renovada, é mostrado como a Inglaterra vê suas colônias e lugares sob seu domínio, como o Leste Europeu, representado pela Transilvânia: atrasado, supersticioso, sem tecnologia, dominado por uma nobreza arcaica que explora o povo e literalmente, suga seu sangue. As impressões a respeito da alteridade e da suposta superioridade inglesa já são claras nas primeiras páginas do livro com a descrição que Jonathan registra em seu diário durante a viagem.


Trata-se [a Transilvânia] de um dos lugares mais inóspitos e menos conhecidos da Europa. Não consegui descobrir através dos mapas e livros a localização exata do Castelo Drácula, pois ainda não há mapas dessa região comparáveis aos nossos; [...]. Li que todas as superstições existentes no mundo reúnem-se nos Cárpatos, como ali estivesse o centro do redemoinho da imaginação; [...]. Parece-me que quanto mais avançamos em direção ao Oriente, menos pontuais são os trens. [...]. Os tipos mais estranhos que vimos foram os eslovacos, mais bárbaros que o resto, [...]. Se fossem aparecer num palco de teatro, seriam tomados imediatamente por um bando oriental de bandidos. São, porém, conforme fui informado, bastante inofensivos e têm bem pouca autoconfiança. (STOKER, 2002. p. 230-231)(grifos nossos).
Eis, portanto, um vislumbre da maneira como eram vistos os povos do Leste Europeu no período: bárbaros, supersticiosos, facilmente confundidos com bandidos. Seus sistemas de transporte são desorganizados e não confiáveis. O conde, por sua vez, é descrito por Jonathan com uma aparência quase animalesca e bestial, um exemplo do que a civilização deve combater. (COSTA, 2010).
Seu rosto tinha um acentuado perfil aquilino, com um nariz magro e pronunciado e narinas curvadas de uma forma peculiar; sua testa era larga e arredondada, e o cabelo escasseava nas têmporas, mas era farto no resto da cabeça. Suas sobrancelhas eram muito densas e quase se encontravam acima do nariz, com pêlos cerrados que pareciam se enrolar de tão profusos. A boca, até onde eu conseguia vê-la sob o bigode farto, era rígida e de aparência cruel, com dentes brancos e peculiarmente afiados. Os dentes superiores projetavam-se sobre os inferiores e apareciam entre os lábios, que eram notavelmente corados e revelavam uma surpreendente vitalidade num homem daquela idade. Quanto ao resto, suas orelhas eram pálidas, com extremidades bastante pontiagudas. O queixo era largo e forte, e as maçãs do rosto, firmes, ainda que magras. O efeito geral era da mais extraordinária palidez. [...] Por mais estranho que pareça, havia cabelo nas palmas [das mãos]. (STOKER, 2002. p. 246-247)
Hobsbawn (1996) informa que a burguesia inglesa do século XIX mantinha um estilo de vida baseado no núcleo familiar e na separação do público e do privado. O ambiente de trabalho, o ambiente externo era considerado hostil, um campo de batalha para a sobrevivência e manutenção dos confortos familiares. O homem, como sustentáculo financeiro e a mulher como sustentáculo moral. Cabia à ela manter a ordem do lar e fazer com a que a casa fosse um ambiente de paz e tranqüilidade, além de ser uma espécie de moeda de troca para a ampliação dos bens e propriedades através do dote do casamento. Sendo assim, sua reputação deveria ser irretocável e suas atitudes castas e obedientes, primeiro ao pai, depois ao marido.

Em uma carta dirigida à amiga Mina Murray, Lucy Westenra conta sobre suas dúvidas a respeito do casamento, visto que tem três pretendentes, Arthur Holmwood, Jack Seward e Quincey Morris; e deve escolher um deles. Sua descrição sobre os deveres e o papel de uma esposa e mulher são esclarecedores.


Você e eu, querida Mina, que estamos noivas e vamos tomar juízo muito em breve, tornando-nos sensatas senhoras casadas, podemos desprezar a vaidade. [...] Uma mulher deveria dizer tudo a seu marido – você não acha, querida? – e tenho que ser justa. Os homens gostam que as mulheres, e com certeza, suas esposas, sejam honestas e corretas como eles, embora elas nem sempre o sejam tanto quanto deveriam. [...] Minha querida Mina, por que os homens são tão nobres quando nós, mulheres, somos tão pouco dignas deles? (STOKER, 2002, p. 287-289)
Ao ser vampirizada por Drácula, Lucy subverte totalmente este papel tornando-se uma mulher fatal, dona de seus próprios desejos, tendo que ser contida por todos os homens do grupo, pois tornou-se uma monstruosidade ao não ser mais recatada, nem virtuosa, qualidades que devem ser mantidas em Mina a qualquer custo. (ARGEL; MOURA NETO, 2008).

Em seu estudo sobre a sexualidade, Foucault (1998) afirma que a partir da metade século XIX a medicina geral e a medicina sexual foram separadas e abriram-se caminhos para a responsabilização da espécie, portanto o sexo deveria ser controlado e administrado, tanto quanto o casamento e a fecundidade. A família burguesa passou a controlar e reprimir a sexualidade das crianças e dos adolescentes tornando o desejo sexual uma patologia. Enquanto a mulher deveria ser mantida ocupada com suas obrigações domésticas e, aquelas que tivessem qualquer traço de desejos sexuais eram consideradas histéricas e doentes, necessitando de tratamento. O sexo passou a ser mantido em segredo e recolhido ao quarto privado do casal. (FOUCAULT, 1998, p. 112-114). Hobsbamn (1996) diz que dentro desta dinâmica o desejo sexual é visto como uma falha de caráter e nas mulheres não pode ser tolerado.

Após a morte de Lucy, o grupo descobre uma série de ataques próximo ao cemitério onde está seu corpo, Van Helsing sugere que são feitos por uma vampira, no caso, Lucy e os homens vão investigar ficando chocados com sua visão.
Lucy Westenra, e no entanto, tão mudada. Seu encanto havia se transformado numa crueldade inflexível e impiedosa; sua pureza, em voluptuosidade lasciva. [...] Eram os olhos de Lucy, na forma e na cor, mas estavam impuros e tomados por um fogo infernal, em lugar da pureza e delicadeza que conhecíamos. Naquele momento, o que ainda restava do meu amor se transformou em ódio e aversão; se ela tivesse que ser morta naquele instante, eu teria realizado a tarefa com uma selvagem satisfação. Enquanto ela olhava, seus olhos faiscaram com um brilho ímpio, e a face se contorceu num sorriso voluptuoso. (STOKER, 2002, p. 448-449).
A partir do momento em que a mulher se mostra dona de seus desejos ou tendo desejos, não é mais digna de ser amada e respeitada, é um monstro, não mais parte de um grupo social. Voluptuosidade, perversidade e sensualidade são características da vampira, ela é a encarnação do inferno, a mulher fatal que seduz e amedronta, sua sedução é sua arma mortal. Para Jarrot (1999) o leitor do século XIX entendia a analogia da seguinte forma: as mulheres vampiras eram o símbolo da mulher sexualmente ativa, esta ou era mentalmente desequilibrada ou era possuída pelo demônio.

No início do romance, quando Jonathan esta aprisionado no castelo de Drácula ele se depara com três vampiras, as noivas do conde, e seu encontro é marcado por uma aura de erotismo, medo, prazer e repulsa.


Todas as três tinhas dentes brancos e brilhantes que cintilavam como pérolas contra o fundo cor de rubi de seus lábios voluptuosos. Havia algo nelas que me causava desconforto, desejo e ao mesmo tempo um terrível temor. Senti em meu íntimo um desejo ardente e depravado de que elas me beijassem com aqueles lábios vermelhos. [...] Eu podia sentir o tato macio dos lábios na pele ultra-sensível do meu pescoço, e a dureza de dois dentes afiados que não faziam mais do que tocá-lo. Fechei os olhos num êxtase lânguido e esperei – esperei, com o coração aos pulos. (STOKER, 2002, p. 267-268)
Mais à frente, Jonathan escreve: "Estou sozinho no castelo com aquelas mulheres terríveis. Argh! Mina é uma mulher, e nada há em comum. São demônios saídos do próprio inferno!" (STOKER, 2002, p. 283).

O vampiro é o destruidor da moral e do caráter feminino libertando seus impulsos e desejos, contaminando suas vítimas com seu sangue através de sua mordida. O caráter erótico do romance é maquiado e escondido, como o "beijo" do vampiro – metáfora para o sexo – e a troca de sangue entre o vampiro e a vítima – metáfora para o ato sexual. Mas o resultado do contato com ele é sempre o mesmo: a morte ou pior, a transmutação em outro vampiro propagando seu mal. O vampirismo é tratado por Stoker como uma doença – uma metáfora para a sífilis – prova disto é que não conseguindo determinar o mal que estava acometendo a jovem Lucy, Jack Seward convoca o colega Van Helsing para ajudá-lo a tratá-la, ambos são médicos. Uma das soluções para conter sua doença é a transfusão de sangue, método que estava sendo aperfeiçoado e testado no final do século XIX, quando Stoker escreveu seu livro. Implicada em sua fala está o sangue como transmissor de doenças e mais, como transmissor das doenças sexualmente transmissíveis, portanto doenças ligadas a práticas antiéticas, em desacordo com as regras familiares, os bons costumes e a religião, afinal, as doenças sexuais estavam ligadas à promiscuidade e à falta de moral. “A combinação de domínio sexual e poder sobrenatural proporcionam uma imagem erótica à qual é impossível resistir, [...]". (BARTLET; IDRICEANU, 2007. p. 195).

Outro aspecto interessante é a representação da ciência e da modernidade no livro. A narrativa é costurada através dos registros pessoais e das cartas trocadas entre os personagens. Os registros em diários são feitos usando as modernas máquinas da Inglaterra industrializada. Mina Murray usa uma máquina de escrever, Jack Seward um fonógrafo, Jonathan faz seus registros pela taquigrafia e Van Helsing utiliza-se das inovações médicas como a transfusão de sangue e a técnicas psicanalíticas. Ainda assim, na luta contra o monstro são utilizados símbolos e artefatos religiosos, demonstrando o peso da religião e o desejo de uni-la á ciência, o que é feito pelo personagem de Van Helsing. (MÉNÉGALO, 2005).

Para Ferreira (2002), todo o romance é permeado por metáforas religiosas, dualidades e conflitos. A Transilvânia, origem do conde, terra cheia de superstições, um lugar maldito "[...] onde o demônio e sua prole ainda caminham com pés humanos" (STOKER, 2002, p. 283) e o Reino Unido científico, industrial, moderno. Drácula e Harker são opostos, um cristão, outro um vampiro que suga o sangue do jovem para rejuvenescê-lo e permitir sua viagem à Londres com o intuito de reviver a periferia velha e esquecida com o sangue jovem da metrópole. Mina é virtuosa e espera casar-se com Jonathan, não sucumbe a Drácula e se mantém casta; Lucy oscila entre três pretendentes, finalmente toma sua decisão por conta da obrigação de escolha e, ao se tornar vampira, sucumbindo ao conde, se transforma na mulher fatal, anticristã e devassa.

A religião é uma simbologia para o aprisionamento dos desejos sexuais e da licenciosidade do conde, além disto, ele é individualista, egoísta, o que não é permitido num período que não aceita a individualidade e a independência; e, teme os tempo e os símbolos religiosos representantes do poder da Igreja.
Seja por sua afronta antinatural aos desígnios da Providência, suas características tirânico-predatórias ou seu desrespeito à instituição da monogamia, Drácula desempenha o papel de epítome dum individualismo intemperante que – decorrente da acumulação de poder por parte de índoles indomáveis – sobrevive às custas da debilitação do outro. (FERREIRA, 2002, p. 58)
Existem inúmeros outros aspectos e pontos que poderiam ser analisados, ou mesmo, muito o que aprofundar naqueles que já mencionamos. Nosso espaço nos limita e, visto que este é apenas um esboço, deixamos em aberto para novas perspectivas ou aprofundamentos. O fato é que o romance Drácula de Bram Stoker é rico em simbologias e interpretações o que comprova e corrobora a contribuição fundamental da literatura, independente de seu status acadêmico, nos estudos históricos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ARGEL, M.; MOURA NETO, H. (orgs.). O vampiro antes de Drácula. São Paulo: Aleph, 2008.
BARTLET, W.; IDRICEANU, F. Lendas de sangue: o vampiro na história e no mito. São Paulo: Madras, 2007.

BRITES, Carlos. (Org.) O livro negro dos vampiros. São Paulo: Andross, 2007.


DUPERRAY, Max. Dracula ou du fantastique. In: FIEROBE, Claude. (ed.) Dracula: mythes e métamorphoses. Villeneuve d'Ascq: Presses Universitaires du Septentrion, 2005. p. 79-92.
FERREIRA, A. C. A fonte fecunda. In: PINSKY, C. B.; LUCA, T. R. (orgs.). O historiador e suas fontes. São Paulo: Contexto, 2009. p. 61-92.
FERREIRA, C. V. Ambigüidade libertária: Drácula e o duplo. In: _____. (org.). Voivode: estudos sobre vampiros, da mitologia às subculturas urbanas. Jundiaí, SP: Pandemonium, 2002. p. 49-59.
FOUCAULT, M. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1998.
HOBSBAWN, E. J. A era do capital, 1848-1875. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
JARROT, Sabine. Le vampire dans la littérature du XIXe au XXe siècle. Paris: L'Harmattan, 1999.
JUNIOR, Gonçalo. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.
KARNAL, L.; TATSCH, F. G. A memória evanescente. In: PINSKY, C. B.; LUCA, T. R. (orgs.). O historiador e suas fontes. São Paulo: Contexto, 2009. p. 9-28.
MCNALLY, R. T.; FLORESCU, R. Em busca de Drácula e outros vampiros. São Paulo: Mercuryo, 1995.
MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros – A enciclopédia dos mortos vivos. São Paulo: M. Books do Brasil, 2003.
MÉNÉGALO, G. Figurations du mythe de Dracula au cinema: du texte à l'ecran. In: FIEROBE, C. (ed.) Dracula: mythes e métamorphoses. Villeneuve d'Ascq: Presses Universitaires du Septentrion, 2005. p. 157-186.
MILLER, Elizabeth. Bram Stoker, vampires e Dracula. Disponível em: < http://www.ucs.mun.ca/~emiller/>. Acesso em: 20 dez. 2012.
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STOKER, Bram. Drácula. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.


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