A sombra da Análise Bioenergética



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A sombra da Análise Bioenergética


Luiza Revoredo de Oliveira Reghin

e-mail: reghin@uol.com.br

Novembro de 99

Texto apresentado na mesa redonda “Biodinâmica e Bioenergética – um diálogo”, promovida pelo Instituto de Biodinâmica. Composição da mesa: André Samson, Léia Cardenuto, Luiza Revoredo Reghin, Maria Conceição Valadares e Ricardo Rego.

Ao leitor:
Resolvi escrever este artigo aceitando a solicitação de colegas que me incentivaram a dividir com outros o que hoje acredito ser a nossa direção. Afirmaria hoje que nossa tarefa é o desapego do eu e abertura para o outro, buscando outras formas de relacionamento, não mais rivalizado, mas criativo.

Acredito que só assim nos tornamos aptos a responder às questões do mundo atual, que são para além das técnicas psicoterapêuticas e crescimento dos nossos institutos, trata-se da sobrevivência da espécie e do planeta, de assegurar formas de existir.

Procurei ser a mais fidedigna possível no conteúdo e na ordem em que os fatos e a fala se desenrolaram, por isso você acompanhará meu trabalho no verbo pessoal.

Um abraço,

Luiza

Após agradecer o convite dos diretores do Instituto de Biodinâmica - André e Ricardo – e passado meu susto inicial por ter sido identificada na mesa como a “pura bioenergética” , ficou o prazer de responder àquela proposta: sairmos das posturas defensivas que tiveram sua parte na construção das identidades dos institutos a que pertencemos.



Em 1992 Ricardo publicou um texto na Revista Reichiana número 1, onde relacionou a Biodinâmica e a Bioenergética à personalidade dos seus criadores, Gerda Boyesen e Alexander Lowen respectivamente e fez um quadro comparativo entre as duas abordagens, situando-as em polaridades opostas.

Podemos descrever sim nossas abordagens por aspectos polares, tal como Ricardo o fez e, continuando a elaborar estas diferenças, poderíamos pensar nos ciclos de desenvolvimento, definindo a Biodinâmica com um funcionamento predominante no ciclo matriarcal e a Bioenergética no patriarcal.

Segundo Carlos Byington, o ciclo matriarcal caracteriza situações onde predominam o cuidar e o ser cuidado, o prazer e a fertilidade, o acesso fácil ao inconsciente e à profundidade, ao natural e espontâneo, a capacidade lúdica e criativa. Neste ciclo temos a indiscriminação sujeito-objeto e a dificuldade de reter e comunicar.

O ciclo patriarcal caracteriza situações onde predominam a organização, a coerência, a dedução e indução lógica, mas a delimitação intensa leva à separação das polaridades consciente/inconsciente, ao dogmatismo e à hierarquização. Permite a codificação e a planificação, o que torna o indivíduo (e a cultura) mais dirigida ao dever e à tarefa, às causalidades e perde-se a capacidade de observar o imprevisível.

Estes dois ciclos são egocêntricos, portanto narcísicos, porque o indivíduo vê os dois lados do outro (o positivo e o negativo) mas não os relaciona dinamicamente entre si, não coloca as partes num todo coerente e que permita o contato com a propria sombra.

Porque adorei a proposta desta mesa redonda? Porque é um convite a sairmos do reducionismo e aprisionamento nestes ciclos, é um convite para irmos na direção da alteridade, ciclo que caracteriza o encontro dialético e criativo entre polaridades. Não se trata mais da defesa de posições fechadas ou nos relacionarmos a partir de pré-conceitos; a busca pela alteridade pressupõe olhar os processos históricos, com a consciência de que somos sujeitos a eles, para buscar nosso grounding, fundamentando nossas posições e contextualizando nossas abordagens e dessa forma analisarmos a nossa sombra.

Num movimento sincrônico, acaba de ser lançada a Revista Reichiana número 8 com um texto do André Samson e um da Odila Weigand que são muito esclarecedores a respeito dos rumos atuais destas duas abordagens.Recomendo a leitura.

Valendo-me da caracterização “pura bioenergética” sinto-me autorizada a analisar a sombra da bioenergética e convido os colegas biodinâmicos a fazerem o mesmo com relação a sua abordagem.

Para iniciar minha tarefa, listo alguns pontos negativos da Bioenergética levantados por Gerda Boyesen no seu livro “Entre Psiquê e Soma – Introdução à Psicologia Biodinâmica” e por Ricardo Rêgo no seu artigo anteriormente citado:

-O terapeuta bioenergético força e dirige demasiadamente o processo, sua função assemelha-se à um monitor de ginástica, com uma ênfase no fazer.

-A Bioenergética trabalha sobre o mesoderma e busca primeiro uma vitalização, o que pode ,sob algumas circunstâncias, mascarar as profundezas do ser.

-A Bioenergética faz um trabalho predominantemente egóico, o que leva à formação da couraça secundária.

-A Bioenergética provoca a dor, é invasiva e repete assim a história. Gerda pergunta: Qual o valor terapêutico da dor?

-A Bioenergética quebra as defesas e compele à descarga.

-A Bioenergética tem uma ênfase nos trabalhos expressivos, certa compulsão no “botar para fora”. Gerda reconhece a utilidade destas técnicas em algum momento do processo.

-A Bioenergética trabalha no aqui e agora e para a autonomia. Gerda utiliza o conceito e as posições do grounding , criadas por Lowen, em um momento específico do processo.

-A Bioenergética classifica os indivíduos,utilizando-se de uma hierarquia caracterológica.
Baseada no conceito de grounding, criado por Lowen e aceito por Gerda e amplamente pelos corporalistas, definido como contato com a terra, consciência de si, da sexualidade e da realidade em que vive, pensei em buscar dados na história dos EUA (ampliando assim a busca que Ricardo fez na história pessoal dos criadores das 2 abordagens), para refletir as condições de possibilidade que fizeram surgir a Análise Bioenergética nos EUA na década de 50.

Encontrei um artigo precioso sobre a história do corpo nos EUA,denominado “Os Staknovistas do Narcisismo: body-building e puritanismo ostentatório na cultura americana do corpo”, de Jean-Jacques Courtine, publicado no livro Políticas do Corpo. Sigo, então, reproduzindo alguns dados destes artigo, úteis para a nossa análise.


A passagem do século XIX ao XX foi marcada por um movimento denominado por Jackson Lears de “paradigma da liberação progressiva”, onde se transitou do mar de lágrimas puritanas à uma cultura hedonista de consumo, de um formalismo rígido a uma exuberância descontraída.

No século XIX a possibilidade de assegurar a salvação na terra passou a depender da conduta humana, onde cuidados com o corpo e a saúde asseguravam a salvação da alma. Ao mesmo tempo, em função dos ideais democráticos, proliferaram nos EUA os reformadores de saúde, com ações de duas ordens:



  1. controle negativo do corpo: a promoção da cura ocorria pela evitação de qualquer estimulação (restrição de energia) ,que era considerada nociva, através de práticas como banhos e regimes;

  2. auto - governo ativo: começou-se a buscar a produção de energia, a incitar a energia do corpo através de estratégias preventivas cotidianas.

Assim, a partir de 1830 aquele homem romântico, pálido e lânguido deixa de existir, dando lugar à potência muscular e em 1840 temos o corpo musculoso como imagem ideal do corpo americano.

Na década de 1850 impõe-se a idéia de que os americanos podem e devem transformar de maneira ativa suas formas corporais e as atividades físicas passam a integrar as disciplinas escolares. Em 1860, após a Guerra Civil, aumenta muito o número de academias, vistas como “ilhotas de salubridade”, regeneradoras da vida sedentária, do estresse urbano e do trabalho.

No final do século temos a retomada nos EUA de um movimento que surgiu na Inglaterra no início do século, denominado Cristandade Muscular, onde Cristo é visto como um homem de ação, um atleta espiritual. Ao associar a ginástica como um serviço à Deus e à uma educação moral, este movimento favorece a cultura esportista de massa nos EUA, com hábitos de ordem, exatidão, disciplina, essenciais ao bom funcionamento de uma sociedade industrial.

A questão do responsabilizar-se pela própria saúde inscreve-se na genealogia religião –saúde –comércio . A Medicina também passou a conceber o corpo não mais como uma entidade, mas como um processo sobre o qual se poderia intervir e modificar, um corpo mecânico: moldar o corpo = moldar a alma = moldar a personalidade.

O ócio tão condenado pelo sistema e religião, passa a ser combatido através da prática generalizada e cotidiana de exercícios físicos .O tempo passa a ser enquadrado num modelo de atividade contínua, ninguém ficaria mais sem fazer nada e assim as marcas de uma confusão entre trabalho e lazer, dever e prazer, útil e agradável se constróem.

Para ilustrar, na década de 1870 com a imigração em massa dos povos do Sul e do Centro da Europa, as mulheres são encorajadas à prática da bicicleta, pois acreditava-se que isto fortalecia o útero e garantia então a qualidade da reprodução da raça.

O corpo musculoso é sinal de superioridade em oposição à fraqueza, que é considerada um crime. A virilidade masculina ficou indissociável do peito inflado e nessa valorização estética e moral do volume muscular, o homem americano literalizava a superioridade do macho e, eventualmente, da raça branca. Isto pode também ser visto como uma resposta à ameaça de perda de potência viril frente à redefinição de papéis dos dois sexos.
Neste século, com o declínio da burguesia tradicional e a ascensão das classes médias, a aspiração passa a ser ao sucesso e não à ordem. O enriquecimento material e a satisfação dos desejos são critérios de êxito e o que propicia isto é a profissão, portanto privilegia-se o espírito de competição.

As mulheres ocupam lugar na publicidade, viram modelos, aparecem as misses. Temos o paradoxo “ascensão do sexo frágil” com a rigidez da pose e o sorriso congelado que “prevenia” o real desenvolvimento. Beleza é um capital e força um investimento – qualquer que seja o sexo, o corpo passa a ter um papel de promoção individual no imaginário americano.

Em 1930 há um relaxamento da moralidade pública nos EUA, o consumo de álcool cresce, o tabaco é liberado para mulheres, as discussões sobre sexualidade perdem o caráter de tabu. Aparecem as fórmulas que expressam esta felicidade da atividade corporal, que se universalizam “Have fun, enjoy yourself” (Divirta-se, aproveite) . A alegria é um dever moral, consequência da forma física e desenvolve-se na América de entre guerras uma cultura do instante (aqui- agora), rompendo com a disciplina e as tradições – é a moral do corpo mais leve, do “feeling good” (sentir-se bem).

É importante assinalar aqui que em 25-30 aparece o termo “imagem corporal” de Paul Schilder e desenvolve-se a linguagem gestual. Entre 50 e 60 prolifera a literatura psicanalítica, que permite uma integração mais completa do corpo, pensado como um componente da personalidade. Exatamente neste período Wilhelm Reich é perseguido e preso nos EUA e surge a Análise Bioenergética.

Nesta época o músculo já era um modo de vida na cultura americana, que vivia os seguintes paradoxos:

1.A busca de um prazer pessoal coexiste com o desejo de vencer e com disciplinas e sofrimentos. Sofrer distraindo-se, disciplinar-se e desenvolver ainda são máximas das culturas ocidentais contemporâneas.

2.O sentido religiosos nas práticas corporais foi esvaziado em direção à saúde, que tornou-se uma obsessão. O corpo é dominado no ciclo absorção- eliminação ( fluxos, acúmulos e gastos de energia, incorporar, canalizar e eliminar) e o indivíduo torna-se gestor do próprio corpo. Mas esta gestão é ansiosa, tem um caráter persecutório (e não hedonista), produziu uma servidão do corpo com o correspondente aspecto narcísico, que é o esforço disciplinar e a intensificação dos controles.
Como já disse anteriormente, é nesse panorama cultural dos EUA que surge a Análise Bioenergética, Lowen é um filho da terra, com características rígidas e narcisistas, com uma formação prévia em Educação Física, disciplinado e persistente – recém chegado de 5 anos na Suíça, onde foi cursar Medicina para ter acesso à formação com Reich.

A partir desta leitura, não fico admirada pela não identificação de Lowen com a fase do trabalho reichiano de Orgono quando volta da Suiça, e que tenha então estruturado os fundamentos teórico- técnicos da Análise Bioenergética com os princípios que conhecemos, baseado nas idéias da primeira fase do trabalho reichiano. Podemos entender que tenha estruturado as tipologias caracterológicas, as posições de estresse e todos os exercícios bioenergéticos para “ativação do mesoderma” (cultura do músculo), que preconize o “fazer kicking” (bater pernas) 300 vezes por dia e usar o “stool” (banco bioenergético) diariamente para manutenção do fluxo energético e da saúde.

O fantástico, a meu ver, é que Lowen apropria-se exatamente dos parâmetros incorporados na cultura americana, mas os utiliza com outra proposta, a de buscar um corpo vivo. Acredito que a grande aceitação inicial da Análise Bioenergética deu-se exatamente por isso. Lowen tratou como na homeopatia, pelo semelhante: esforço, dor, disciplina, até mostrar a atitude caracterológica correspondente, chegando à entrega ao corpo. Seus grandes temas: Narcisismo e Medo da Vida analisam a história desse corpo e cultura super controlados e busca a vida nos corpos sensórios através da expressão. Sim, hoje sabemos que não basta expressar, que as questões vão muito além, as ameaças às possibilidades de existir exigem reflexão e elaboração contínua e a criação de novos dispositivos que viabilizem os fluxos liberados nos corpos individuais e coletivos.

Como toda escola, a Bioenergética correu e corre riscos de estase, sendo importante destacar a análise que a Odila faz no seu artigo recém- publicado na Revista Reichiana 8, onde descreve o fechamento da comunidade bioenergética no movimento preconizado por Lowen ,denominado “back to the basics” (volta às origens). Além disso, questiono-me sobre a responsabilidade de todos nós analistas bioenergéticos, especialmente os ligados à formação de terapeutas, pela pouca divulgação ou distorção na comunicação dos rumos da Análise Bioenergética nestas décadas. Muitas das reflexões e acréscimos feitos ao longo destas décadas ficou circunscrito à comunidade dos analistas bioenergéticos e dessa maneira contribuimos para uma visão reducionista da bioenergética, a dita “bioenergética clássica”, a que praticamente todo corporalista conhece e costuma citar como “A” Bioenergética, a que trabalha basicamente com alta carga, quebra de defesas e expressões catárticas,uma abordagem que acabou por ser incorporada como uma técnica.



Gostaria ao menos de citar os escritos de Bob Lewis, um trainer americano que já desde a década de 60 analisa muitas das questões levantadas pela Gerda, trabalhando com uma expressão que diz “antes de perder a cabeça, precisamos ter uma cabeça”, desenvolvendo recursos para trabalhar com as estruturas pré-edípicas e atento às transferências, à questão do ritmo, o lugar e função do terapeuta na relação, o campo, com toques e movimentos suaves, com o paciente deitado, é...a Bioenergética trabalha com o paciente sentado, deitado e de pé, com movimentos suaves e pressões mais fortes, com a estrutura e com a expressão, trabalha no pêndulo, no ir e vir do passado para o presente, atento às questões do desenvolvimento, cuidando da quantidade de carga de cada indivíduo, utilizando a caracterologia como pano de fundo para o diagnóstico e não para enquadre....e assim por diante.Aqui no Brasil, nossa cultura faz uma demanda com especificidades para nossa clínica e o trabalho com os excluídos nas clínicas comunitárias dos institutos vem nos ajudando a construir um grounding brasileiro para a Análise Bioenergética. De qualquer forma, como e porque um terapeuta busca, incorpora, pratica, reflete e comunica determinada abordagem, acredito que é uma questão comum à todos nós; as ditas preferências por determinados recursos, o jeito de mover-se nas relações e tudo o mais que é da ordem do humano são as questões presentes no desenvolvimento de todo profissional.
Um outro ponto de análise que me ocorre, mas que ficará para uma outra oportunidade, diz respeito a como a Análise Bioenergética foi absorvida aqui no Brasil desde a década de 70 e porque os primeiros princípios desta abordagem persistiram aqui. Provavelmente enganchou nos elementos de uma estrutura patriarcal, com uma passagem pouco elaborada do período colonial para o industrial, que teve seus reflexos na manutenção de relações hierárquicas ( o poder do terapeuta). Que a ordem “expresse-se” ou “livre-se das amarras” caiu perfeitamente num país que vivia em pleno período militar, nós sabemos disto, mas porque se permaneceu somente nisso? Que no país do Carnaval, como costuma-se dizer, é difícil ser introvertido, nós também sabemos, mas porque continua-se a patologizar a introversão? O que levou o universo corporalista a cada vez mais reduzir o corpo a feixes de músculos , abandonando o corpo simbólico? O que implica a máxima repetida “o corpo não mente” ? E as questões são infindáveis, se nos propusermos a analisar o que produzimos e reproduzimos com as nossas práticas, porque ainda que na contemporaneidade muito se pesquise a intimidade e tudo o que está por dentro da pele, com certeza todas as ditas verdades do corpo são provisórias. Qualquer que seja a escola a que pertençamos, nossa tarefa é a mesma, reconhecer que o corpo é um processo que se reconstrói a cada momento e por isso mesmo o corpo é o lugar do surpreender. Ser terapeuta é viver esta habilidade, é cultivar coração e mente abertos.

Bibliografia:
BYINGTON, Carlos - A identidade pós- patriarcal do homem e da mulher e a estruturação quaternária do padrão de alteridade da consciência pelos arquétipos da anima e do animus .In Junguiana n.4, Revista da SBPA, 1986.
BOYESEN, Gerda - Entre Psiquê e Soma – Introdução à Psicologia Biodinâmica. Summus Editorial, 1986.
COURTINE, Jean-Jacques - Os Stakhanovistas do Narcisismo: Body-building e puritanismo ostentatório na cultura americana do corpo. In Políticas do Corpo, organizado por Denise Bernuzzi Sant’Anna, Estação Liberdade, 1995.
REGO, Ricardo - Apontamentos para uma abordagem integrada em Psicoterapia Reichiana. In Revista reichiana n.1, Publicação do Departamento Reichiano do Instituto Sedes Sapientiae, 1992.
SAMSON, André – Curva orgástica como parâmetro de saúde: a solução de compromisso. In Revista Reichiana n.8, Publicação do Departamento Reichiano do Instituto Sedes Sapientiae, 1998.
WEIGAND, Odila – Bioenergética: Um panorama atual. In Revista Reichiana n.8, Publicação do Departamento Reichiano do Instituto Sedes Sapientiae, 1998.






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