A teiniaguá



Baixar 1.58 Mb.
Página1/24
Encontro02.08.2016
Tamanho1.58 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   24



http://groups.google.com.br/group/digitalsource

Sumário:

A teiniaguá


O Sobrado - V
A guerra
O Sobrado - VI
Ismália Caré
O Sobrado - VII

A Teiniaguá
- I -
Em 1850 a vila de Santa Fé foi elevada a cabeça de comarca. Seu primeiro juiz de direito, o dr. Nepomuceno Garcia de Mascarenhas, natural do Maranhão, veio morar com a esposa numa das casas de alvenaria que o coronel Bento Amaral mandara recentemente construir na Rua dos Farrapos. Era o dr. Nepomuceno um homem de estatura mediana, que impressionava logo pelo comedimento de gestos, palavras e opiniões. Andava sempre de sobrecasaca preta e dificilmente se separava de sua bengala de castão de prata. De olhos empapuçados e mortiços, voz velada e lenta, tinha um ar de sonâmbulo, acentuado pelo andar tateante e meio cansado, que aos íntimos ele explicava ser devido ao fato de ter pés chatos. Passava o juiz de direito por bom latinista, razoável matemático e exímio jogador de xadrez. Era maçom, adorava Chateaubriand e nas horas vagas fazia sonetos.

Juiz íntegro, homem austero, o novo magistrado de Santa Fé se impôs desde logo ao respeito e a admiração dos habitantes da cidade afeiçou-se de tal maneira àquele lugar, cujos bons ares lhe haviam restaurado a saúde da esposa, que resolveu não mais sair dali. E como prova de estima e gratidão à vila e seus habitantes, orgamizou e mandou publicar por conta própria, numa tipografia de Porto Alegre, o primeiro Almanaque de Santa Fé, que apareceu em janeiro de 1853, com informações sobre a topografia, a geologia, a fauna e a flora do município, além dum calendário completo, com conselhos aos agricultores e horticultores, bem como páginas amenas e instrutivas de literatura e humorismo, charadas, logogrifos, enigmas pitorescos, etc...

Abria o almanaque uma descrição literária da cidade, feita pelo próprio dr. Nepomuceno. Começava assim: "A vila de Santa Fé, cabeça da comarca de São Borja, e da qual tenho a desvanecedora honra de ser o primeiro juiz de direito, é uma das flores mais formosas do vergel serrano. Situada sobre três colinas e cercada de campinas onduladas, lembra ela ao viandante, singelo mas gracioso presepe. Prodigamente dotada pela natureza, seus bons ares e suas cristalinas águas são propícios à longevidade, razão pela qual muitos de seus habitantes, em geral de costumes morigerados, passam dos noventa anos, como foi o caso extraordinário do preto escravo conhecido pela antonomásia de Sinhô d'Angola, o qual durou mais duma centúria, e do cacique Fongue, que viu pela primeira vez a luz do dia na redução de Santo ângelo, por volta de 1750, e o qual ainda hoje por aqui vive em pleno gozo de suas faculdades mentais".

O Almanaque oferecia também a seus leitores um "escorço histórico" da vila, no qual o autor prestava uma homenagem à família Amaral, cujo fundador foi "esse venerando cidadão, o coronel Ricardo Amaral, o primeiro povoador destes campos, um bandeirante na verdadeira extensão do vocábulo, e que morreu como um bravo, no lendário combate do passo das Perdizes". Vinha a seguir uma referência de dez linhas ao filho de Ricardo, Francisco Amaral, "o fundador de Santa Fé", e depois uma página inteira dedicada a seu neto, o coronel Ricardo Amaral, "que tanto contribuiu para o engrandecimento deste município, de cuja Câmara foi o primeiro presidente". Após a enumeração das qualidades morais de Ricardo Amaral Neto e de seus feitos na paz e na guerra, a biografia terminava assim: "... e em 1836 baqueou como um bravo, de armas na mão, dentro de sua própria casa, defendendo a legalidade". Havia por fim três páginas dedicadas à personalidade do coronel Bento Amaral - "atual chefe político deste município, deputado à Assembleia Provincial, verdadeiro varão de Plutarco que perpetua no tempo e na admiração de seus corvos um nome honrado e uma tradição de virtudes cívicas e privadas".

O Almanaque circulou em Santa Fé e arredores, onde foi lido, comentado e apreciado. E através de seus dados estatísticos e de suas informações escrupulosamente colhidos pelo próprio dr. Nepomuceno - ficaram os santa-fezenses sabendo que a vila possuía agora sessenta e oito casas, entre as de tábua e de alvenaria, e trinta ranchos cobertos de capim; e que sua população já subia a seiscentas e trinta almas. Informava ainda o dr. Nepomuceno que Santa Fé contava com quatro bem sortidas casas de negócio, uma agência do correio - "cuja mala, lamentamos dizê-lo, chega apenas uma vez por semana" - uma padaria, uma selaria e uma marcenaria. "A ciência de Hipócrates está representada entre nós pelo ilustrado dr. Cari Winter, natural da Alemanha e formado em Medicina pela Universidade de Heidelberg e que fixou residência nesta vila em 1851, data em que apresentou suas credenciais à nossa municipalidade. Não podemos deixar de mencionar o nosso Clotário Nunes, médico homeopata bem conceituado, e o curandeiro conhecido popularmente por Zé das Pílulas, muito procurado por causa de suas ervas medicinais cujos segredos diz ele ter aprendido dos índios coroados, dos quais parece ser descendente.”

Causou também muito boa impressão a parte do almanaque em que o dr. Nepomuceno rememorava as guerras em que os filhos de Santa Fé haviam tomado parte. "Nossa vila (e aqui peço vénia para usar o possessivo nossa, uma vez que me considero um santa-fezense de coração se não de nascimento) tem pago pesado tributo de sangue e heroísmo no altar da pátria. Muitos foram os oficiais e soldados que deu para as lutas de que esta província tem sido teatro, e pode-se dizer sem exagero que não houve geração que não tivesse visto pelo menos uma guerra. Durante a luta civil que por espaço de dez anos ensangüentou o solo generoso do Continente, muitos toram os santa-fezenses que participaram dela, quer nas hostes farroupilhas quer nas forças legalistas. Não me cabe aqui, como magistrado e como homem isenso às paixões políticas, manifestar simpatias ou lançar diatribes. O que passou passou e mais vale esquecido do que lembrado, pois uma luta fratricida é mil vezes mais horrenda do que as guerras entre as nações. Graças ao Supremo Arquiteto do Universo o sol da paz raiou benfazejo no horizonte da província, e os inimigos de ontem se deram as mãos e recomeçaram a trabalhar juntos em prol da grandeza da Pátria comum. Mas, ai!, ainda nem bem se haviam cicatrizado as feridas abertas pela guerra civil e já de novo eram nossos irmãos arrancados ao aconchego dos seus lares e ao seu trabalho pacífico, convocados mais uma vez pelo pressago clarim da guerra. Rosas, o tirano argentino, ameaçava a integridade de nosso Brasil, e era necessário fazer frente a essa ameaça. E assim mais uma vez os santa-fezenses formaram os seus batalhões de voluntários e nessa luta, que nem por ser relativamente curta foi menos cruenta, muitos foram os filhos desta vila que tiveram atuação destacada. Entre eles é de justiça salientar o jovem Bolívar Terra Cambará, filho dum intrépido soldado, o capitão Rodrigo Severo Cambará, morto heroicamente num combate que se feriu nesta mesma vila em princípios de 1836. Bolívar, esse denodado jovem, cujo nome parece trazer em si uma destinação gloriosa, guiou os seus cavaleiros numa carga de lança, destruindo um quadrado inimigo e arrancando, ele próprio, das mãos dum adversário a bandeira argentina! Esse ato de bravura valeu-lhe a promoção ao posto de primeiro-tenente, e uma citação especial em ordem do dia.”

As anedotas do Almanaque foram muito apreciadas, bem como as poesias, algumas da lavra do próprio dr. Nepomuceno, e outras de poetas famosos como Camões, Tomás Antônio Gonzaga e Gregório de Matos. No "fecho de ouro" dum de seus sonetos, o juiz de direito concluía com rimas ricas que sob o veludo da rosa às vezes um acúleo se esconde.

Pouco tempo depois do aparecimento do Almanaque, o sonetista teve ocasião de sentir na própria carne a pungente verdade do verso. Sim - refletiu o magistrado - seu anuário podia ser comparado a uma linda e perfumada rosa que a todos deleitara com suas cores e seu perfume. Mas trazia ela um espinho escondido e inesperado: o artigo intitulado "Residências de Santa Fé", que ele próprio escrevera sob o pseudônimo de Atala. Essa página, traçada com sinceridade e sem a menor intenção de ofender ou criticar quem quer que fosse, desgostara e irritara o coronel Bento Amaral. Ocupava-se o infeliz ensaio do sobrado que um tal Aguinaldo Silva mandara construir em Santa Fé. Depois de mencionar a simplicidade rústica da maioria das casas do lugar e de elogiar a solidez e a sobriedade do casarão de pedra dos Amarais, "tão cheio de invocações históricas", Atala escreveu: "O forasteiro que chega à nossa vila há de por certo quedar-se surpreso e boquiaberto diante duma maravilha arquitetônica que rivaliza com as melhores construções que vimos no Rio Pardo, em Porto Alegre e até na Corte. Referimo-nos à casa assobradada que o sr. Aguinaldo Silva, adiantado criador deste município, mandou recentemente erguer na Praça da Matriz, num terreno de esquina com as dimensões de trinta e cinco braças de frente por uma quadra completa de fundo. Essa magnífica residência deve constituir motivo de lídimo orgulho para os santafezenses. Dotada de dois andares e duma pequena água-furtada, destacam-se em sua fachada branca os caixilhos azuis de suas janelas de guilhotina, dispostas numa fileira de sete, no andar superior, sendo que a do centro, mais larga e mais alta que as outras, está guarnecida duma sacada de ferro com lindo arabesco; por baixo desta sacada, no andar térreo, fica a alta porta de madeira de lei, tendo de cada lado três janelas idênticas às de cima. Ao lado esquerdo do sobrado, no alinhamento da fachada, vemos imponente portão de ferro forjado ladeado por duas colunas revestidas de vistoso azulejo português nas cores branca, azul e amarela, e encimadas as ditas colunas por dois vasos de pedra de caprichoso lavor. O terreno, a que esse portão dá acesso, está todo fechado por um muro alto e espesso que por assim dizer (perdoe-se-nos a ousadia da imagem) aperta a casa como uma tenaz. O efeito é assaz formoso, pois o "Sobrado" (assim é a residência conhecida na vila) dá a impressão desses solares avoengos, relíquias de nossos antepassados lusitanos. Não devemos esquecer outro encanto, qual seja o seu vasto quintal todo cheio de árvores de sombra e frutífcras, como laranjeiras, pessegueiros, guabirobeiras, lindos pés de primavera, cinamomos, magnólias e um esplêndido e altaneiro marmeleiro-da-índia.



"Convidados gentilmente pelo sr. Aguinaldo Silva para visitar-lhe a residência, pudemos verificar que esta se acha dividida em dezoito amplas peças, mui bem arejadas e iluminadas, com pé-direito bastante alto; e que as portas que separam essas peças umas das outras terminam em arco, em bandeirolas com vidros nas cores amarela, verde e vermelha. Os móveis são de autêntico jacarandá, muito pesados e severos, tendo pertencido, como nos informou o dito sr. Silva, a uma Casa Senhorial de Recife, e sendo de lá trazidos para Porto Alegre num patacho e desta última localidade para cá em carretas.”

O artigo terminava com um parágrafo que por assim dizer constituía a ponta do traiçoeiro espinho: "Assim, pois, seria o sobrado do sr. Aguinaldo Silva um solar digno de hospedar até Sua Majestade dom Pedro II, caso o nosso querido imperador nos desse a altíssima honra de visitar Santa Fé".

Pois esse artigo, escrito com um entusiasmo inocente e desinteressado, deixara o coronel Amaral furioso.

- Essa é muito boa! - exclamou ele um dia na loja do Alvarenga. - O imperador parando na casa do Aguinaldo! É de primeiríssima! Uma idéia estúpida assim só podia ter saído da cabeça daquele pé-de-pato!

Ficou muito vermelho e começou a sentir uma comichão na cicatriz em forma de P que lhe marcava uma das faces. O padre Otero, que tinha ido comprar um emplastro na loja, ouviu a explosão, e como era amigo do juiz de direito, com quem habitualmente jogava longas partidas de xadrez apesar de sabê-lo pedreiro livre, arriscou:

- O dr. Nepomuceno não escreveu isso por mal, coronel...

- Não sei se foi por bem ou por mal - retrucou o outro, fitando o olhar encolerizado na face amarela do vigário. - O que sei é que escreveu. Ele devia saber quem é esse Aguinaldo Silva.

Pigarreou com fúria e escarrou no chão.


- II -
Mas, para falar a verdade, em Santa Fé ninguém sabia ao certo quem era Aguinaldo Silva. Claro, pela entonação da voz, via-se logo que o homem era do norte. Ele próprio declarara ter nascido no Recife; o que não contava, mas os outros murmuravam, era que tivera de fugir de lá, havia muitos anos, por ter matado a esposa e o homem com quem ela o traíra. "Isso não é crime" - observara um dia o Alvarenga, de cuja loja o nortista era bom freguês. - "Um homem de vergonha não podia fazer outra coisa." Mas pessoas que sabiam da história com todos os pormenores explicavam que o duplo assassínio fora premeditado. Ao descobrir que a mulher o enganava, Aguinaldo a obrigara a marcar um encontro com o amante em seu próprio quarto de dormir. Simulara uma viagem mas ficara escondido debaixo da cama, e saltara do esconderijo em dado momento para estripar a facadas tanto o amante como a mulher. Havia no drama um detalhe dum trágico grotesco que os maldizentes usavam como remate humorístico do caso: “O homem estava começando a tirar a roupa quando Aguinaldo saiu de baixo da cama. O infeliz nem teve tempo de dizer ai: a faca do marido rasgou-lhe o bucho”. Risadas. “No fim, acho que ele não sabia se segurava as calças ou as tripas.” Pausa dramática. “Mas tanto as calças como as tripas acabaram caindo no chão.” Novas risadas.

Eram essas as histórias que corriam em Santa Fé. Mas ninguém sabia de nada com certeza. Contava-se também que depois de passar alguns anos no Rio de Janeiro e em Curitiba, com nome trocado, Aguinaldo viera para a província de São Pedro, onde durante a guerra civil andara ora com as tropas farroupilhas ora com as forças legalistas, ao sabor de suas conveniências. Os que o conheciam de perto pintavam-no como um homem ladino, de olho vivo para os negócios, e que, obcecado pelo medo de ser logrado e sabendo que a melhor maneira de a gente se defender é atacar, tinha a preocupação permanente de lograr os outros. Baixo, de pernas muito curtas para o tórax anormalmente desenvolvido, era levemente corcunda e tinha, plantada sobre os largos ombros ossudos, uma cabeça triangular, de pescoço curto, e uma cara de chibo que a pêra grisalha acentuava. Era feio, mas duma fealdade aliciante e simpática, muito ajudada por uma voz de inflexões macias e musicais. Apesar da cor amarelada do rosto, tinha uma saúde de ferro e aos setenta e dois ainda fazia tropas, dormia ao relento, e campereava com o entusiasmo e a eficiência dum moço de vinte. Por muito tempo Aguinaldo recusara vestir-se como os gaúchos da província. Conservara a indumentária de couro dos vaqueiros do Nordeste - o que lhe valera muitas vezes a desconfiança e a má vontade dos continentinos - e mesmo agora que decidira abandoná-la em favor da bombacha, do pala e do poncho, conservava ainda o chapéu de sertanejo, de abas viradas para cima, o que, como dizia o dr. Nepomuceno, lhe dava uns ares napoleômicos. Aguinaldo amava o dinheiro mas não era sovina. Gostava de pagar "comes e bebes" para os amigos, vivia ajudando os necessitados, e era generoso para com seus agregados, peões e comissionados. Quando pela primeira vez aparecera em Santa Fé, no ano em que fora assinada a paz entre farroupilhas e legalistas, causara a pior das impressões. Chegara escoteiro, montado num cavalo magro e manco, e fazendo questão de mostrar a toda a gente que tinha as guaiacas atestadas de moedas de ouro. Começaram então a murmurar na vila que Aguinaldo havia descoberto uma Salamanca lá para as bandas de São "Borja. "Salamanca? Lorotas!" - retrucavam outros. - "Isso é dinheiro de contrabando. Conheço pelo cheiro."E um dia, numa roda de bisca na casa do Alvarenga, o padre Otero comentou: "Seja como for, não deve ser dinheiro limpo". Mas os que precisavam de crédito para seus negócios não se preocuparam com averiguar a origem dos patacões, cruzados e onças de Aguinaldo Silva, quando este se aboletou num rancho nos arredores de Santa Fé e começou a emprestar dinheiro a juro alto. Quando sabia que um lavrador ou criador estava em dificuldades financeiras, procurava-o, ambicioso, e oferecia-lhe um empréstimo, pedindo como garantia terras ou gado num valor que em geral correspondia ao dobro ou ao triplo do capital emprestado. Se o homem era bem-sucedido nos negócios, lá voltava o dinheirinho para a bolsa de Aguinaldo, acrescido dos gordos juros. Mas se a dívida se vencia e o devedor não estava em condições de liquidá-la, Aguinaldo, sem desmanchar dos lábios o sorriso amigo, sem a menor dureza na voz cantante, executava a hipoteca. Foi assim que com o passar dos anos, em que fez também muitas tropas e vendeu-as a charqueadores, Aguinaldo se apossou de várias propriedades de Santa Fé - inclusive da de Pedro Terra - e multiplicou sua fortuna de tal forma que já se dizia estar ele tão rico de campos, gados e moeda sonante quanto o próprio Bento Amaral.

Muito religioso, Aguinaldo ia à missa todos os domingos e fazia donativos à Igreja. O padre Otero gostava de ouvi-lo contar histórias do sertão de Pernambuco em torno de cangaceiros, cabras valentes, lutas de família e casas assombradas, ficava admirado de ver como aquele caboclo analfabeto sabia narrar com fluência e colorido, com um sabor até literário.

Também dava muito na vista em Santa Fé o apego que Aguinaldo Silva tinha por dois filhos do lugar: Bolívar Cambará e Florêncio Terra. Conversando certa ocasião com o padre Otero, Aguinaldo lhe dissera:

- Esses dois meninos são mesmo que filhos meus. Vosmecê sabe, seu vigário, perdi toda a minha gente. Da minha família só me sobrou uma neta, a Luzia, que está estudando num colégio na Corte. Quero que ela tenha o que eu não tive e o que os pais dela não tiveram. Tudo do bom e do melhor.

E um dia quando o vigário e Aguinaldo se encontravam na praça, debaixo da figueira, conversando e olhando para o Sobrado, enquanto trabalhadores lhe caiavam a fachada, o padre Otero perguntou:

- Ainda que mal pergunte, amigo, não acha que o Sobrado é um pouco grandote pra uma família tão pequena? Vosmecê não disse que só tinha uma neta?

- Disse. Mas acontece que um dia a Luzia vai casar e ter filhos. E os filhos da Luzia vão casar também e ter família. Quero reunir toda a cambada no Sobrado...

Ficou um instante pensativo, olhando para a casa. Depois acocorou-se à maneira dos sertanejos e começou a picar fumo. E assim nessa posição, com uma palha de milho atrás da orelha, contou ao padre que um dia, quando menino, vira uma cena que nunca mais lhe saíra da memória: um senhor de engenho coçando as barbas brancas e sorrindo à cabeceira duma mesa comprida a que estavam sentados, comendo, rindo e conversando, os vinte e tantos membros de sua família - filhos, filhas, genros, noras, netos... Desde esse momento Aguinaldo decidira trabalhar como um burro para um dia ter também casa e família grande, com mesa farta e alegre.

- Mas Deus não quis que eu visse minha família reunida - murmurou ele, enrolando o cigarro. - Foi matando todos, um por um...

Ergueu os olhos para o vigário, ficou a contemplá-lo por alguns segundos, e depois murmurou:

- Nunca fui ao confessionário, padre, mas vou lhe contar aqui um segredo que nunca contei a ninguém. - Riu. - Não sei por que estou lhe dizendo isto, mas de repente me deu vontade...

Calou-se poi um instante, seus olhos se perderam na direção dos campos. Depois, baixinho, num cicio, olhando furtivamente para os lados, contou:

- A Luzia não é minha neta de verdade. Peguei ela num asilo, quando ainda de colo. Era órfã de pai e mãe. Mas criei a menina como se fosse minha neta. Um homem não pode viver sem ninguém de seu, pode, padre?

O vigário sacudiu a cabeças negativamente. E o nortista acrescentou:

- Ela não sabe da verdade. Pensa que é minha neta mesmo. O padre Otero ficou um instante pensativo e depois disse:

- Não desanime, seu Aguinaldo. Vosmecê está ainda forte e se a Luzia casar o Sobrado pode estar cheio de crianças dentro de poucos anos.

- Se eu viver até lá.

- Há de viver, sim, se Deus quiser.

Aguinaldo fechou um olho, ficou um instante como que dormindo na pontaria e finalmente perguntou:

- Mas será que o Velho quer mesmo?

Dessa conversa resultou um novo donativo gordo para a Igreja. O vigário o recebeu sorrindo e a refletir assim: Esse caboclo pensa que pode comprar a dinheiro favores de Deus. Mas bendisse os cruzados do pernambucano, pois precisava deles para custear um puxado que ia fazer na casa paroquial e para comprar uns castiçais novos para o altar-mor.
Quando Luzia deixou o colégio e mudou-se para Santa Fé, onde passou a ser a "senhora do Sobrado", todos acharam que, mais do que ninguém, ela merecia o título. E durante muito tempo a neta de Aguinaldo Silva foi o assunto predileto das conversas da vila. As mulheres reparavam nos seus vestidos, nos seus penteados, nos seus "modos de cidade", mas, bisonhas, não tinham coragem de se aproximar da recém-chegada, tomadas duma grande timidez e duma sensação de inferioridade. Em muitas esse acanhamento se transformava em hostilidade; noutras tomava a forma de maledicência. Luzia era rica, era bonita, tocava cítara - instrumento que pouca gente ou ninguém ali na vila jamais ouvira - sabia recitar versos, tinha bela caligrafia, e lia até livros. Os que achavam que Santa Fé não podia dar-se o luxo de ter um sobrado como o de Aguinaldo, agora acrescentavam que a vila também "não comportava" uma moça como Luzia. Para alguns severos pais de família tudo aquilo que a forasteira era e tinha constituía uma extravagância ostensiva que os deixava até meio afrontados. E quando viam Luzia metida nos seus vestidos de renda, de cintura muito fina e saia rodada; quando aspiravam o perfume que emanava dela, não podiam fugir à impressão de que a neta do pernambucano era uma "mulher perdida" e portanto um exemplo perigoso para as moças do lugar. Por outro lado, o passado escuro de Aguinaldo não contribuía em nada para melhorar a situação da moça. Aqueles homens, dum realismo rude, olhavam para o Sobrado e para seus moradores como para intrusos e acabavam dizendo: "Isso não vai dar certo".

Os rapazes da vila, conquanto se sentissem atraídos por Luzia, concluíam quase todos que ela não era o tipo que desejavam para esposa. A moça causava-lhes um vago medo que eles não sabiam explicar com clareza, mas que em geral resumiam para si mesmos numa frase: "Não nasci pra corno". No entanto, desde o momento em que a rapariga chegara, Bolívar Cambará e Florêncio Terra ficaram fascinados por ela, cercaram-na de atenções e não perdiam pretexto para visitar o Sobrado. Faziam isso, porém, de maneira diferente. Bolívar não escondia seus sentimentos: mostrava-se como sôfrego, apaixonado, explosivo. Florêncio, entretanto, mantinha-se reservado, silencioso, mas duma fidelidade canina; portava-se, em suma, como um cachorro triste que - temendo ou sabendo não ser querido pela dona - limitava-se a ficar de longe a contemplá-la com olhos cálidos e compridos, cheio dum amor dedicado mas que não tem coragem de se exprimir.

Aguinaldo percebera tudo desde a primeira hora e observava, deliciado, a maneira como a neta tratava os dois rapazes, mangando com ambos, dando a um e outro esperanças que ela própria se encarregava de desmanchar dias ou horas depois com um gesto, uma palavra ou um encolher de ombros.

Como era natural a história se espalhou depressa pela vila: Bolívar e Florêncio, primos irmãos e amigos de infância, estavam apaixonados por Luzia Silva. Qual dos dois a moça iria escolher?

- Escolhe o Florêncio - dizia um - porque é o preferido do Velho.

- Não. O preferido do Aguinaldo é o Bolívar - afirmava outro.

- Mas, no fim de contas, qual é o preferido da moça?

- Decerto os dois! - maliciava um terceiro. - Ela tem olhos de mulher falsa.

- Mas não pode casar com os dois...

- Ué... Casa com um e depois fica amásia do outro. Gente de cidade grande não tem vergonha na cara.

Um dia alguém disse:

- O Florêncio e o Bolívar vão acabar brigando. É uma pena. Primos irmãos... cresceram juntos como unha e carne. Agora vem essa bruaca estrangeira...

- Mas ela não é estrangeira. Nasceu em Pernambuco.

- Sei lá! Não sendo continentino pra mim é estrangeiro.

Em princípios de 1853, quando os santa-fezenses ainda comentavam o almanaque do dr. Nepomuceno, espalhou-se por toda a vila a notícia de que Luzia Silva ia contratar casamento com Bolívar Cambará.

Um habitante antigo do lugar, que conhecera o capitão Rodrigo, murmurou:

- Se o rapaz puxou pelo pai, tenho pena da moça...

Mas um futro, que sabia das histórias que corriam sobre o passado de Aguinaldo, retrucou:- Mas se a moça puxou pela avó, a corrida vai ser parelha..

  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   24


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal