A terminologia espírita a partir do livro dos espíritos



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A TERMINOLOGIA ESPÍRITA A PARTIR DO LIVRO DOS ESPÍRITOS
Celina Márcia de Souza Abbade1

Introdução

As palavras nomeiam tudo que existe no mundo: os seres, as coisas, os sentimentos, as ações... Elas são capazes de retratar a trajetória sócio-histórico-cultural de um povo. Novas descobertas nos levam a novas palavras. Dessa forma, novas palavras são criadas ou novas significações são dadas as já existentes para dar conta de definir novos fenômenos, novas ideias que surgem e acontecem a cada dia. Cada palavra tem o seu sentido próprio, a sua designação específica de acordo com o contexto em que é empregada. Ainda que existam palavras que possam substituir outras, não existe palavra igual à outra.

A Lexicologia explica a partir das relações de sentido, algumas relações de semelhanças entre palavras que dizem a mesma coisa, ou melhor, que possuem aproximação de significação. Na verdade, nenhuma palavra poderá substituir por completo outra. Sempre teremos mudanças no sentido moral, coloquial, literário, profissional, geral etc. Segundo Ullmann: “Muito poucas palavras são completamente sinônimas no sentido de serem permutáveis em qualquer contexto, sem a mais leve alteração do significado objectivo, do tom sentimental ou do valor evocativo.” (ULLMANN, 1964-294).

Se existe a dificuldade em se estabelecer relações sinonímicas em determinadas palavras, quando as mesmas penetram no campo das crenças e da religiosidade a coisa fica mais complicada ainda. O Espiritismo é uma doutrina espiritualista que se intitula sob a tríade de filosofia, ciência e religião. Ficou conhecido a partir da publicação consecutiva de cinco obras iniciadas pelo Livro dos Espíritos (KARDEC, 2009[1857]), em que Allan Kardec, o codificador da doutrina, apresentou diversas palavras novas à época para dar conta do que queria definir ou explicar, ou de fenômenos que sempre existiram, mas que as lexias existentes não davam conta de suas significações.

O esforço de Allan Kardec para dar um caráter particular e distinto das correntes espiritualistas do século XIX, ao expor as novas ideias designadas por ele mesmo de espíritas, levou o mesmo a preocupar-se com a sua terminologia e criar palavras visando tornar mais claro o que estava sendo apresentado. Isso levou inclusive ao nome da doutrina, Espiritismo, criada para se opor a palavra já existente Espiritualismo, ainda que o Espiritismo seja mais uma doutrina espiritualista: Espiritismo designa exclusivamente os princípios codificados por Allan Kardec, enquanto o Espiritualismo designa qualquer doutrina que creia em algo além da matéria.

Assim, foram-se delineando os termos que compõe a doutrina, pois, como o próprio Kardec inicia sua obra: “Para as coisas novas necessitam-se de palavras novas, assim o que quer a clareza a linguagem para evitar confusão inseparável do sentido múltiplo dos mesmos vocábulos.” (KARDEC, 2009[1857]- p.7).

A proposta aqui é a de apresentar a Terminologia do Espiritismo, a partir do levantamento de termos criados pelos espíritos que guiaram Allan Kardec com o intuito de explicar fenômenos ou coisas já existentes e ainda não nomeados ou até mesmo nomeados, mas com outras significações, gerando ambiguidades de interpretação. Termos estes que deram ao Espiritismo uma terminologia específica que, até então, não se tem conhecimento de sua compilação em uma única obra.

Metodologia

A necessidade de definir, organizar, elencar e estudar a utilização e significação das palavras de uma língua deve ter sido a mola propulsora que deu início aos estudos lexicais. A Lexicologia, ciência que estuda o léxico de uma língua em todas as suas relações linguísticas, pragmáticas, discursivas, históricas e culturais, vai, a partir da diversidade que o estudo da palavra possibilita, abranger diversos domínios linguísticos como: formação de palavras, etimologia, criação e importação de palavras, estatística lexical etc.

À luz da Terminologia, ramo da Lexicologia que estuda os termos e a organização das linguagens especializadas, e dos recursos que se têm disponíveis para o estudo das palavras, buscar-se-á levantar e compreender as criações lexicais da doutrina espírita, religião que surge nos finais do século XIX com uma literatura composta a partir de cinco livros escritos por um pedagogo e cientista francês, Hippolyte Léon Denizard Rivaill, conhecido pelo pseudônimo de Allan Kardec: O Livro dos Espíritos (1857), O Livro dos Médiuns (1859), O Evangelho Segundo o Espiritismo (1863), O Céu e o Inferno (1865) e A Gênese (1868). Nessas cinco obras que deixou para a posteridade, Allan Kardec estabeleceu os princípios básicos da doutrina espírita, que mescla conceitos filosóficos e religiosos com algumas terminologias científicas do século XIX. E foi preciso se criar uma terminologia específica para coisas que ainda não haviam sido nomeadas, apesar dessas coisas já existirem desde o início dos tempos. Dessa forma, Kardec, ao codificar a Doutrina Espírita, deu-lhe um caráter próprio, precisando muitas vezes, além de criar novas palavras, dar novos significados às já existentes, ao comparar a versão espírita com as correntes espiritualistas existentes, buscando sempre demonstrar as diferenças entre ambas.

A proposta metodológica, seguindo os pressupostos teóricos da Terminologia e das relações de sentido da Lexicologia, seguirá os seguintes passos: estudo e levantamento dos termos encontrados inicialmente no Livro dos Espíritos (KARDEC, 2009[1857]) que são específicos dessa doutrina; organização desses termos em ordem alfabética; definir as lexias a partir de consulta a dicionários da língua portuguesa e de obras específicas da doutrina; levantar, caso existam, as formações neológicas ou buscar, a datação em que a lexia deixou de ser um neologismo; estender a pesquisa às outras quatro obras da codificação espírita O Livro dos Médiuns (1859), O Evangelho Segundo o Espiritismo (1863), O Céu e o Inferno (1865) e A Gênese (1868); organizar o vocabulário de termos espíritas.

Dessa forma, partindo dos estudos terminológicos, tem-se como proposta de pesquisa realizar o levantamento dos termos criados nas obras da codificação do Espiritismo, uma religião que se diz também filosofia e ciência, cujo próprio nome já é um termo específico: Espiritismo.

Resultados e discussão

A língua de um povo é a sua identidade, o seu retrato sociocultural. Atualmente não há dúvida de que o estudo lexical de uma língua acaba por desembocar na história, cultura, costumes e crenças de quem utiliza essa língua. O acervo lexical de um povo é construído ao longo de sua história social, política, econômica, religiosa...

Em cada época as palavras se modificam, se ajustam, se acoplam, são esquecidas, são relembradas, são criadas, diversificando o seu sentido de acordo com a época vigente, sendo proibida e permitida de acordo com a sociedade em que esteja inserida.

A Lexicologia é hoje é um caminho seguro para se entender a história de um povo a partir do estudo do seu vocabulário. Com os estudos lexicológicos, temos a possibilidade de estudar as palavras de uma língua nas mais diversas perspectivas. O resgate da identidade e história de um povo partindo-se dos estudos linguísticos e lexicais nos leva a conhecer perspectivas e processos de evolução da alma humana na busca do entendimento de sua origem e de seu destino.

Ao surgir uma nova ciência ou uma nova coisa, novas palavras surgem juntas para dar conta de suas definições. Dessa forma, novos termos foram criados para explicar um novo dogma dando origem a uma terminologia específica do Espiritismo.

Espera-se com tal proposta, conseguir realizar um vocabulário de termos espíritas, abrangendo as obras da codificação espírita, contribuindo assim para tornar cada vez mais científico e claro as propostas dessa doutrina.

A partir de Kardec, não precisamos, por exemplo, confundir mais reencarnação com ressurreição e nem com outra lexia que designava ambas: metempsicose, ou seja, transmigração do espírito de um corpo para outro, seja este corpo humano ou não. A reencarnação é a volta da alma ao plano físico em um novo corpo material e foi definida por muito tempo como ressurreição, conceito superado do ponto de vista científico e lógico pois contraria os princípios mais elementares dessas ciências, que continua sendo defendida entre os católicos. A própria Bíblia traz em diversas passagens o fenômeno da reencarnação, com o nome de ressurreição.

Assim como ressurreição, diversas outras lexias existentes na nossa língua precisam de novas criações para que se evitem na polissemia, ambiguidade de sentidos.

Allan Kardec em suas obras não apenas criou palavras, como também as definiu de maneira que, a doutrina por ele codificada, fosse menos ambígua do que os livros sagrados que embasam o cristianismo até então.

A proposta é a de apresentar o maior número possível dessas lexias tidas como criações dos espíritos que guiaram Allan Kardec a escrever a codificação dessa doutrina que vem se expandindo e criando adeptos em todo o mundo e que no Brasil, compreende o maior número de seguidores do planeta.

Que mais uma vez a Lexicologia esteja a serviço da história da humanidade e da busca de uma melhor clareza nas definições que permeiam os diversos campos do conhecimento humano.

Referências bibliográficas
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. de Salvador Gentile; rev. Elias Barbosa. Araras: IDE, 2009[1857]. 182 ed.

ULMANN, Stephen. Semântica: uma introdução à ciência do significado. Trad. de J. A. Osorio Mateus. 2. ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1970.





1 Professora titular do Programa de Pós-Graduação em Estudo de Linguagens da Universidade do Estado da Bahia- PPGEL-UNEB, E-mail: celinabbade@gmail.com



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