A ética no uso da Internet em Escolas ethics in the use of internet in schools



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A ética no uso da Internet em Escolas
EThICS IN THE USE OF Internet IN SCHOOLS
Maria do Carmo Alves Silva1

Fabio Wellington Orlando da Silva2

1Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais- DPPG- mariac_alves@yahoo.com.br

2Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais- DPPG- fabiow@des.cefetmg.br


Resumo

A Internet, por sua característica liberal, sem muitas normas nem regulamentações, ao ser utilizada na Educação requer uma Escola preparada com princípios permeados por uma posição crítica e consciente. Esses princípios são valores culturais que devem ser construídos em todas as instâncias da educação, particularmente a escolar. Com tal pressuposto, empreendeu-se um estudo sobre a ética na Internet em uma disciplina de Informática, em uma turma de um curso superior de Administração Ambiental e Marketing. A técnica utilizada baseia-se na teoria da ação comunicativa de Habermas, envolvendo debates sobre a importância da internet como tecnologia de comunicação e informação, e sobre algumas questões éticas suscitadas por sua aplicação na educação. Essa abordagem despertou os alunos para o tema, com significativa modificação de comportamento como, por exemplo, aprender a respeitar o outro na comunicação pela Internet ou tornar-se um usuário mais crítico e exigente.



Abstract
The use of the Internet in Education requires prepared schools guided by principles of ethics and critical thinking. This work investigates ethics and the Internet in an Informatics classroom, environmental Management and Marketing course. The method used is based on Habermas’ communication action theory, including debates about the importance of the Internet as information and communication technology, and the ethics in the use of the Internet in education. This approach motivated the students for the subject, and changes in their behavior were verified, including increased respect to other internet users and improved critical thinking regarding internet use.

Palavras-chave

Educação, ética, comunicação, informação, internet e tecnologia.


Keywords
Education, ethics, communication, internet and technology.
INTRODUÇÃO
A Internet é uma rede de computadores que interliga milhões de pessoas em todo o mundo, conecta universidades, empresas, centros de pesquisa, residências e órgãos governamentais, podendo ser considerada, por esse motivo, uma poderosa ferramenta de comunicação e de informação.

Cada computador interligado à rede, ou seja, cada usuário interconectado, é considerado um nó, segundo a acepção de Castells1 na qual a rede é um “conjunto de nós interconectados”. Esses nós integrantes da rede formam as vias de passagem das informações.

O recurso mais utilizado da Internet é a WWW (World Wide Web), que possibilita uma forma de acesso e recuperação de informações através de links a documentos, em que um link corresponde a uma conexão ou ligação entre pontos da rede. Assim, a WWW permite ao usuário "navegar" pela Internet para obter informações distribuídas em diversos pontos.

Para "navegar" através da Internet, usam-se aplicações como os Web Browsers, ou navegadores, por meio dos quais o usuário tem acesso a diversos endereços da Web. Os navegadores mais utilizados são o Netscape Navigator e o Microsoft Internet Explorer, os quais exibem documentos com textos formatados e imagens. A formatação do texto para inserção na Web é realizada por uma linguagem chamada HTML (HyperText Markup Language). Em um documento HTML, é possível inserir links que conectem um documento a outros documentos na Web, abrindo o leque de informações acessíveis.

Devido a seu caráter aberto, ninguém em particular é dono da Internet, nenhuma instituição, ou mesmo grupo de instituições, é proprietária dessa enorme rede, que por ser uma poderosa fonte de informações tem sido usada de maneira crescente no processo educacional. Nessa linbha, Castells, em entrevista ao Jornal “Le Monde”, chega a afirmar que “a Internet é um espaço descentralizador e cidadão; um fenômeno econômico, social e político2.

Por não possuir normas nem regulamentações, a Internet tem uma característica liberal, e, portanto, sua utilização na Educação requer uma Escola preparada com princípios permeados por uma posição crítica e consciente, obtida através de discussões relativas à sua importância e riscos. Nesse contexto, há necessidade da realização de pesquisas que esclareçam os diversos aspectos desse uso, sem coibir a expressão da liberdade, defendida por Paulo Freire3, que a associa com a educação e com a esperança, ao afirmar que: “Num mundo a que faltasse a liberdade e tudo se achasse preestabelecido, não seria possível falar em esperança. Mais ainda: não seria possível falar em mundo”.

A importância da Internet como fonte de informação e comunicação sem limites de espaço e tempo, e as novas oportunidades para a educação, como realização de cursos a distância e pesquisas, se completam com a transformação da vida social do aluno, ao fazer novas amizades e comunicar-se com pessoas de interesses comuns. Ana Sofia Marcelo4 em sua dissertação de mestrado afirma que a ligação à Internet vai condicionar invariavelmente a forma como os sujeitos interagem no contexto comunicacional,...”.

A internet pode ser um dos agentes transformadores da educação, contribuindo para favorecer o trabalho do professor, enriquecendo e diversificando a sua forma de encaminhar o processo de ensino-aprendizagem. Entretanto, para atingir estes objetivos a Escola deve estar comprometida com a formação do ser humano, direcionando o uso das recentes tecnologias para fins sociais, a preservação do meio ambiente e a melhoria da qualidade de vida, o que implica em uma atitude ética, exigindo a reflexão sobre as ações morais e suas conseqüências para o educando e a sociedade em que se insere.

Na escola, o aluno compreende o mundo e seu papel de cidadão e começa a integrar-se à sociedade e à cultura e, portanto, é nela que ele pode aprender a utilizar a Internet de forma crítica e responsável, com vistas à convivência solidária, através de um diálogo reflexivo sobre opiniões e interesses coletivos. Neste contexto, é que se destaca a importância da ética, definida em um Dicionário de Filosofia5 como:
Parte da Filosofia prática que tem por objetivo elaborar uma reflexão sobre os problemas fundamentais da moral (finalidade e sentido da vida humana, os fundamentos da obrigação e do dever, natureza do bem e do mal, o valor da consciência moral etc.), mas fundada num estudo metafísico do conjunto das regras de conduta consideradas como universalmente válidas.
De acordo com Frankena6, “A ética é um ramo da filosofia; é a Filosofia Moral, ou pensamento filosófico acerca da moralidade, dos problemas morais e dos juízos morais”. Assim sendo, agir numa determinada situação é um problema prático-moral; mas questionar e refletir sobre essa atitude são de competência da ética.

Essas reflexões buscam valorizar a vida humana e respeitar o meio ambiente, exigindo decisões ético-sócio-históricas, como afirma Vázquez7,


O homem é livre de decidir e agir, sem que a sua decisão e a sua ação deixem de ser causadas. Mas o grau de liberdade está, por sua vez, determinado histórica e socialmente, pois se decide e se age numa determinada sociedade, que oferece aos indivíduos determinadas pautas de comportamento e de possibilidades de ação.
Para analisar o comportamento e as atitudes dos alunos, ao utilizarem a Internet, devem ser feitas reflexões e avaliações baseadas em cidadania, ética, conhecimento e responsabilidade, analisando o uso da tecnologia bem como o papel da Escola, do Educador e do educando nesse processo.

Os princípios éticos não são impostos, mas se efetivam na ação e na reflexão acerca das situações cotidianas, que podem ser trazidas para o ambiente educacional através de uma dinâmica de comunicação e debates orientados.

A atitude reflexiva da Filosofia sobre as novas tecnologias de comunicação e informação (NTCI) serve como instrumento na arte de pensar e transformar a realidade social de nossos dias, compreendendo a importância da Internet e avaliando a melhor forma de seu uso.

Por ser parte integrante da filosofia que estuda os valores morais e os princípios ideais da conduta humana, a ética nos permite reflexões sobre atitudes pessoais, sendo a responsabilidade dessas ações, única e exclusivamente, de quem as praticou. Como afirma Vasquez8, “por mais fortes que sejam os elementos objetivos e coletivos, a decisão e o ato respectivo emanam de um indivíduo que age livre e conscientemente e, portanto, assumindo uma responsabilidade pessoal.”

A necessidade de discussão sobre princípios éticos no uso da internet, dentro do ambiente escolar, é enfatizada pela afirmação de Masiero9:
O estudo da ética em computação por parte dos profissionais da área e também de outros indivíduos que tomarão as decisões no futuro é fundamental para determinar se essa poderosa tecnologia se desenvolverá de forma benéfica ou maléfica para a sociedade.
A ética existe como uma referência para os seres humanos em sociedade, é uma reflexão crítica sobre a moralidade, mas ela não é puramente teoria, é um conjunto de princípios e disposições voltados para a ação, sócio-historicamente produzidos, baseados em liberdade e responsabilidade, cujo objetivo é tornar a sociedade cada vez mais humana, justa e igualitária.

A importância da historicidade da ética fica ainda mais clara quando se lê Vázquez10:


Portanto, a moral é um fato histórico e, por conseguinte, a ética, como ciência da moral, não pode concebê-la como dada de uma vez para sempre, mas tem de considerá-la como um aspecto da realidade humana mutável com o tempo.
A consciência e a responsabilidade são valores culturais, que devem ser construídos em todas as instâncias da educação, particularmente a escolar. Com esse pressuposto, empreendemos um estudo sobre a ética na Internet em uma disciplina de Informática Aplicada, em uma turma de um curso superior de Administração Ambienteal e Marketing. O objetivo foi estudar a relação entre a forma de utilização da Internet pelos alunos antes e após a reflexão e diálogos sobre a Ética na Internet.A técnica utilizada baseia-se na teoria da ação comunicativa de Habermas, envolvendo debates sobre a importância da internet como tecnologia de comunicação e informação, e sobre algumas questões éticas suscitadas por sua aplicação na educação. Essa abordagem despertou os alunos para o tema, com significativa modificação de comportamento como, por exemplo, aprender a respeitar o outro na comunicação pela Internet ou tornar-se um usuário mais crítico e exigente.

A ÉTICA DO DISCURSO DE HABERMAS

A teoria de Habermas foi escolhida como referencial para o presente trabalho em decorrência da similaridade das condições para o exercício de sua ética do discurso e as características de funcionamento da rede mundial de computadores. Habermas é o último representante da "Teoria Crítica da "Escola de Frankfurt". Sua concepção propõe como princípio da reflexão ética a Teoria da Razão Comunicativa, segundo a qual um grupo de indivíduos que dialogam atinge o consenso e o acordo através da linguagem, de uma comunicação verdadeira e de escolhas esclarecidas, sem pressões ou coerções, tendo como pressupostos fundamentais a comunicação ideal entre os homens, a argumentação, o discurso e a linguagem. A idéia desse consenso marca a reflexão ético-moral-filosófica de Jürgen Habermas.

Segundo ele, deve-se buscar a identidade e a emancipação individual e social através da reflexão filosófica crítica e do esclarecimento racional, a fim de fazer com que a autonomia do indivíduo se generalize graças ao procedimento do diálogo comunicativo público. Esse diálogo ocorre por meio da linguagem, considerada como 11:
O verdadeiro traço distintivo do ser humano, pois lhe atribui a capacidade de tornar-se um ser individual, social e cultural, fornecendo-lhe uma identidade e possibilitando-lhe partilhar estruturas de consciência coletiva.
Com isso, ele pretende mostrar que é possível, ainda nos dias de hoje, estabelecer relações de caráter ético com base em dois princípios: o princípio da universalização (“U”) e o princípio do discurso (“D”)12.

O princípio U estabelece que:


Toda norma válida tem que preencher as conseqüências e efeitos colaterais que previsivelmente resultem de sua observância universal, para que a satisfação dos interesses de todo indivíduo possa ser aceita sem coação por todos os concernidos. 13
A esse princípio, segue-se o princípio D: “Toda norma válida encontraria o assentimento de todos os concernidos, se eles pudessem participar de um discurso prático.14

Com esses princípios, a universalização de interesses é criada através do agir comunicativo, uma vez que por meio dele se dará o entendimento. A razão é a condição de emancipação do homem, e essa razão pode ser uma razão comunicativa. Essa abordagem filosófica defende a libertação e emancipação dos sujeitos por meio de uma interação que objetive a construção de uma verdade aceita por todos. O único critério de decisão é, sem dúvida, a força do melhor argumento, excluindo qualquer forma de coerção.

Na ótica de Habermas, a escola, na qualidade de agente fundamental da transmissão cultural, da socialização e da formação da personalidade do aluno, encontra-se imersa completamente no mundo da vida e depende dos processos da ação comunicativa para garantir a produção e a reprodução do saber e da cultura no contexto da Ética do Discurso.

Levar a racionalidade comunicativa para dentro da Escola, criando condições de um debate sobre o Uso da Internet, significa permitir que questões relacionadas aos novos recursos tecnológicos passem a fazer parte do contexto pedagógico. Essa prática de ensino valoriza a experiência do aluno, permite a discussão de temas atuais de grande interesse para todos e estimula o desenvolvimento de uma noção de cidadania competente e democrática.

Com base no estudo da ação comunicativa de Habermas, propusemos debates sobre a importância da internet como tecnologia de comunicação e informação, e da ética em seu uso na educação. Esta concepção pedagógica exigiu dos alunos e professores participantes uma posição crítica frente às formas de uso da Internet e sua importância. Pois, se o conhecimento e a utilização da internet são fatores importantes no desenvolvimento da sociedade, para que essa tecnologia se torne realmente útil é necessário debater sobre o seu uso. Estes debates, com bases filosóficas, trarão benefícios à educação tecnológica, no momento em que despertarem nos participantes uma reflexão crítica capaz de direcionar sua utilização.

Na prática, a internet na educação deve contribuir para atender as reais necessidades dos alunos e o debate sobre seu uso será a forma pela qual o conhecimento desta tecnologia contribuirá para o processo de criação de uma nova realidade. A Internet propicia uma plataforma nova e estimulante a partir da qual pode-se obter uma maior compreensão de opiniões diversas por ser um meio de comunicação global que, como tal, permite uma forma de comunicação entre um elemento e outro, e entre um elemento e vários. Portanto o requisito básico da "razão comunicativa" fica ressaltado e a prática da Ética Discursiva facilitada. Além disso, a Internet é um novo espaço social, livre, sem normas ou convenções estabelecidas, ao qual podem se aplicar idéias da Ética Discursiva, obtidas por consenso.



3- MATERIAIS E MÉTODOS
A pesquisa foi realizada com 127 estudantes de um curso superior de Administração Ambiental e Marketing de Belo Horizonte (MG). Ela tem um caráter descritivo e qualitativo, na forma de estudo de caso, constituída por entrevistas, questionários, atividades em aula, narrativas individuais e em grupo.

Foram utilizadas múltiplas fontes de informações e uma variedade de processos de investigação, entre eles as entrevistas formais e informais, questionários fechados e abertos, com o objetivo de avaliar a estrutura e a dinâmica do procedimento didático utilizado, e o debate orientado. A opção por debates está associada à afirmação do próprio Habermas15A pesquisa é uma Instituição Social onde os seres humanos interagem; daí determinar pela comunicação entre os pesquisadores o que pode aspirar no plano teórico: a validação.”

O Estudo de Caso proposto é descritivo por pretender descrever a natureza, ocorrência ou seqüência dos fenômenos que caracterizam a realidade da situação pesquisada, e qualitativo por permitir a liberdade de expressão através de debates, questionários e entrevistas, examinados pelo pesquisador.

O estudo inicia-se com a aplicação de um questionário para verificar o conhecimento inicial dos alunos de utilização das novas Tecnologias de comunicação e informação (NTCI). Um segundo questionário procurou levantar algumas características pessoais dos alunos, como sexo, idade etc., e as finalidades do uso da Internet . Ele é constituído por uma série ordenada de perguntas de múltipla escolha, em linguagem simples e direta para facilitar a compreensão do que está sendo perguntado, acompanhado de uma texto explicando a proposta da pesquisa, instruções e incentivo ao seu preenchimento, instruções de devolução e agradecimento.

Nas aulas seguintes, foram apresentados diversos temas relacionados à ética na Internet para serem debatidos e analisados pelos estudantes, como: divulgação de dados impróprios; transmissão de vírus digitais; acessos não autorizados a sistemas computacionais; discriminação com base em raça, sexo, religião, idade, deficiências, nacionalidade etc.; violação de direitos autorais, patentes, segredos de negócios e licenças; plágio de trabalhos ou idéias; acesso não autorizado a dados particulares; direitos humanos, propriedade e cópia de softwares e muitos outros.

Durante o semestre letivo, com quatro aulas semanais, alguns temas são debatidos em aula e a turma é incentivada a pesquisar e ler textos sobre ética na Internet em sites oficiais, educacionais e reconhecidos, durante o período de dois meses, quando o conteúdo programático da disciplina se relaciona ao tema “Uso da Internet”.

A discussão sobre o tema abriu espaço para a manifestação de opiniões e argumentações que justificassem estas opiniões. Destacou-se a característica de liberdade da Internet, o que despertou a necessidade da criação de princípios de etiqueta, aceitos por um consenso, embasados por princípios de diálogo, de cooperação, de negociação e de participação, para os quais os alunos são estimulados. Normas de etiqueta para uso da internet, chamadas de "netiquetas", foram então criadas pelos alunos e apresentadas recomendações para a convivência democrática na rede mundial. Fica claro que essas normas não são oficiais, mas criadas como tentativa de melhorar as relações sociais dos próprios alunos na Internet.

No fim do período, os alunos participam, individualmente, ou em grupo, de entrevistas para esclarecer suas percepções sobre o trabalho realizado, a forma de uso da Internet, baseada em princípios éticos analisados e discutidos durante as aulas. Comparações das formas de utilização da Internet, adotadas anteriormente, e neste momento final, podem ser feitas.



RESULTADOS

O primeiro questionário nos revela a heterogeneidade da turma, que apresenta alguns alunos com vasto conhecimento de Informática e outros com desconhecimento total. Fica claro, também, que muitos deles não têm acesso à Internet, não possuindo nem endereço eletrônico. O computador não é um equipamento que todos possuam, o que comprova o fato de a escola ser ainda o ambiente no qual esses alunos têm conhecimento das NTCI.

No segundo questionário, diversos serviços da Internet foram destacados para que os alunos assinalassem os que utilizassem. Entre esses serviços, alguns podem, se forem utilizados corretamente, favorecer o aluno, melhorando sua qualidade de vida, aprimorando seus conhecimentos ou mesmo apresentando-lhes oportunidades profissionais.

O segundo questionário foi aplicado antes e depois dos debates sobre “ética no uso da internet”, nos quais os alunos tomaram conhecimento das diversas alternativas de busca e pesquisa oferecidas pela internet e analisaram as formas de utilizá-las. As mudanças observadas, sintetizadas na Tabela 1, justificam a importância desses momentos de reflexão entre professor e alunos e são analisadas a seguir.

O item 1, “Acesso a redes bancárias”, mostrou uma queda significativa de 63% para 39% justificada pelos esclarecimentos sobre hackers e vírus durante as aulas sobre segurança na rede.

Tabela 1 – Alteração de comportamento dos estudantes após o debate sobre a Ética na internet





USO DA INTERNET

ANTES(%)

DEPOIS(%)

1

Acesso a Redes Bancárias

62,79

38,89

2

Agenda Cultural

39,53

58,33

3

Busca de estágios e empregos

41,86

66,67

4

Compras

11,63

33,33

5

Compreensão de Deveres

16,28

25,00

6

Compreensão de Direitos Humanos

13,95

25,00

7

Comunicação Aluno-Aluno

53,49

66,67

8

Comunicação Aluno-Professor

44,19

44,44

9

Comunicação entre amigos

76,74

52,78

10

Comunicação Profissional

58,14

61,11

11

Conhecimentos Gerais e Notícias

76,74

80,56

12

Correio Eletrônico

67,44

77,78

13

Direitos Ambientais

25,58

33,33

14

Discussões em Tempo Real

13,95

30,56

15

Ensino à Distância

6,98

13,89

16

Entretenimento – Lazer

46,51

61,11

17

Estudo de Disciplinas Específicas

18,60

44,44

18

Estudo de Idiomas

16,28

11,11

19

Obtenção de Imagens e Sons

44,19

61,11

20

Obtenção de Textos, artigos e teses

53,49

38,89

21

Orientações Médicas

6,98

0,00

22

Participação em fórum de discussão

6,98

11,11

23

Pesquisa em Grupo

51,16

38,89

24

Pesquisa Individual

62,79

50,00

25

Vídeo-conferência

11,63

13,89

O item 2, que se refere à agenda cultural, apresentou um acréscimo de 40% para 58%, o que demonstra um despertar do interesse dos alunos por formas diversas de cultura através da rede.

O item 3, “busca de estágios e empregos”, passa a ser uma das maiores utilizações da internet, 3º lugar na ordem decrescente de buscas, que antes era pesquisada por 42% e, após as reflexões sobre a importância da internet, passa a ser de 67%, refletindo o despertar da busca de oportunidades profissionais através das NTCI.

O item 4, relativo às compras, sobe de 12% para 33%, mas as preocupações com as informações pessoais, fornecimento de números de cartões ou cheques são evidenciadas nas entrevistas, sendo a compra realizada por boletos bancários, em empresas virtuais conhecidas e com a máxima segurança possível. Os alunos demonstram ter grande interesse nesse tipo de comércio virtual, por ser prático, cômodo, competitivo e interessante, mas que exige precauções para se evitarem os riscos.

O item 5, que mostra a busca da compreensão dos deveres dos cidadãos, analisados nos debates sobre ética como deveres de luta contra a corrupção, a fome, a miséria, a violência, o dever de solidariedade com o outro, de respeito a natureza e responsabilidade no uso dos recursos naturais, apresenta um aumento de 16% para 25%, um resultado coerente com o item 6, relativo à compreensão de direitos, que apresentou um aumento similar de 14% para 25%. A compreensão dos direitos humanos bem como o conhecimento dos deveres de todos os cidadãos é de grande importância nos relacionamentos sociais.

O item 7, comunicação aluno-aluno, aumentou de 53% para 67%, e se justifica pelo incentivo à criação do E-group da turma e endereços eletrônicos dos colegas que ainda não possuíam, objetivando trocas de informações úteis e mensagens afetivas.

O item 8, comunicação aluno-professor, teve um acréscimo muito pequeno explicado pela falta de participação de alguns professores nesta forma de contato com os alunos, muitos dos quais não fornecem e-mails pessoais. Questionados sobre essa atitude, os professores alegam preocupação com sua individualidade e segurança. Quanto aos alunos, durante as entrevistas, disseram-se “Vexados” em pedir o e-mail ao professor.

O item 9, comunicação entre amigos, que antes dos debates era o mais utilizado, com 78% de adesão, reduziu-se para 53% o que foi esclarecido pelos alunos em entrevista posterior à aplicação dos questionários pelo fato de os novos contatos com colegas da Faculdade, importante para seu desempenho no curso, exigirem parte do tempo disponível.

O item 10, que se refere à comunicação profissional, aumentou de 58% para 61%, pequena alteração, porém significativa, já que os relacionamentos profissionais podem ser melhorados por contatos feitos com os colegas da empresa para a qual se trabalha.

O item 11, que já era de grande importância para os alunos, mesmo antes dos debates, já que 77% utilizavam a internet para adquirir conhecimentos gerais e se manter atualizados com o noticiário, aumentou para 81% e continua sendo a primeira utilização da internet no ambiente escolar.

O item 12, que se refere ao correio eletrônico, aumentou de 67% para 78% o que era de se esperar, já que alguns alunos que não possuíam endereço eletrônico, após sua criação passaram a utilizar-se do correio para enviar mensagens aos colegas e amigos. Além desse aumento, foi observada uma preocupação com a qualidade do conteúdo das mensagens enviadas, que se tornaram mais verídicas, relevantes e necessárias.

O item 13, de pesquisa dos direitos ambientas, passou de 26% para 33%, percebido durante as aulas e comprovado pelas entrevistas como, sendo os alunos de Administração com conotação em meio ambiente, responsáveis por este aumento.

O item 14, discussões em tempo real, teve um grande aumento justificado pelas participações em chats e vídeos-conferência incentivadas pelas informações passadas durante as aulas, sobre Hardware, especialmente as WebCam, que são acessíveis e muito fáceis de instalar e utilizar.

O item 15, ensino a distância, dobrando de 7% para 14%, mostrou resultado positivo dos debates cuja grande preocupação era despertar no aluno o interesse por cursos na Web, importantes no seu aperfeiçoamento e atualização em diversas áreas.

O item 16, que se refere a entretenimento e lazer, sendo uma das utilizações da internet mais destacadas, sobe de 47% para 61%, justificada pelos alunos que antes não conheciam os recursos da internet, ao iniciar o seu uso, se interessam principalmente pelos jogos, revistas, shoppings virtuais, músicas, vídeos passando, depois de certo tempo, a se preocuparem com usos mais aplicados.

O item 17, estudo de disciplinas específicas, apresentou o maior aumento de busca, foi de 19% para 44% e trouxe conseqüências benéficas para alunos e professores. Grande parte dos estudantes está voltando à escola depois de longos anos afastados por problemas de desinteresse ou impossibilidade. Esta volta traz problemas de dificuldade de aprendizagem de novos conteúdos, por deficiências básicas, observadas principalmente em matemática e português. A descoberta da Internet como recurso de apoio aos estudos dessas disciplinas entusiasma o aluno a rever conceitos e aprimorar seus conhecimentos, o que o auxilia no desenvolvimento das disciplinas básicas do curso de administração.

O item 18, estudo de idiomas, apresentou uma queda, justificada pelos alunos em entrevistas pelo fato de terem considerado inicialmente o acesso à sites estrangeiros, etapas de um jogo em línguas diversas, filmes e músicas como estudo de línguas e após debates, passarem a considerar EAD, Webquestions e softwares específicos de ensino de idiomas.

O item 19, obtenção de imagens e sons, mostrou um aumento de 44% para 61%, esperado pelo grande interesse despertado e observado em aulas pelos recursos gráficos liberados pela internet.

O item 20, obtenção de textos, artigos e teses, apresentou uma diminuição de 53% para 39%, explicada pelos alunos em entrevistas por se sentirem receosos de que essa utilização pudesse ser considerada plágio ou cópia.

O item 21, orientações médicas, também teve um decréscimo, 7% para 0%. Questionados sobre o porquê dessa mudança, alguns alegaram não terem tido necessidade, outros por insegurança quanto à veracidade dos sites específicos da área.

O item 22, participação em forum de discussão, teve um aumento significativo de 7% para 11%, o que é muito relevante, já que esse tipo de comunicação se torna cada dia mais importante por possibilitar a troca de conhecimentos, experiências e debates entre pessoas com interesses comuns.

Os itens 23 e 24, que se referem às pesquisas em grupo, sofreram redução de 51% para 39% e de de 63% para 50%, respectivamente, explicadas pelos alunos pelo fato de se apresentarem a eles novas formas de busca de informações através da internet.

O item 25, que se refere às vídeos-conferências, teve um aumento de 12% para 14%, pequeno, porém significativo, já que o laboratório ainda não possui Web-câmeras e a grande maioria dos alunos também não sabe utilizá-las.

No geral, observou-se uma mudança para melhor nas formas de utilização da Internet. Esta melhora, considerada como o uso mais consciente dos recursos oferecidos pelo laboratório de Informática da Faculdade, reflete a visão crítica dos alunos quanto à importância, os benefícios e os riscos do uso desta tecnologia.

Ao analisarmos as respostas aos questionários, surpreendemo-nos com algumas mudanças na forma de utilização da Internet pelos alunos após os debates e reflexões. Alguns desconheciam sites de grande importância em sua vida acadêmica e profissional, assim como muitos não faziam idéia do poder social dessa mídia.

Quanto às formas de utilização, percebe-se que o aluno, ao se interessar pelos recursos da Internet, inicia seu uso com finalidades recreativas e profissionais, pesquisa sites de Bancos, faz download de jogos, envia e recebe e-mails sem se preocupar com riscos e conseqüências.

Durante os debates sobre “A ética no uso da Internet em Educação”, os alunos se apresentaram interessados e satisfeitos por descobrir os recursos das Novas Tecnologias de Comunicação e Informação (NTCI), passando a buscar informações de seu interesse, cursos de aperfeiçoamento, notícias de temas atuais, além de desenvolver a participação e a solidariedade com os colegas.

Alguns alunos criaram E-groups da turma e trocaram informações, outros discutiram temas atuais em Fóruns de Discussão e interagiram com estudantes de outras faculdades e profissionais da área de seu interesse.

É interessante acrescentar que temas relacionados à Ética também foram pesquisados e cresceu, a olhos vistos, a preocupação com o uso consciente desta tão poderosa tecnologia.

Questionados quanto ao resultado deste trabalho de conscientização e reflexão sobre a importância da ética no uso da Internet, muitas foram as respostas dadas em entrevistas e algumas foram selecionadas e são apresentadas a seguir:




  1. “Aprendi a usar a Internet com mais seriedade e descobri muita coisa boa”.




  1. “A Internet é uma ferramenta muito importante para nós, só precisa ser usada com discernimento”.

  2. “Os debates fizeram a gente refletir sobre a falta de ética de muitas pessoas que usam a Internet, até de nós mesmos”.




  1. “Sentimos a necessidade da ética para usar os recursos tão importantes da Internet”.




  1. “Gostei de participar dos debates sobre ética e Internet e poder dar minhas opiniões abertamente”.




  1. “Descobri que a Internet tem muito poder”.




  1. “Alguns sites que pesquisamos, como o de direitos ambientais, vão ser úteis para nós durante todo o curso”.




  1. “Estas aulas de discussão e tecnologia fizeram com que nossa turma ficasse mais unida”.




  1. “Aprendi a respeitar o outro na comunicação pela Internet”.




  1. “Fiquei mais crítico e mais exigente com a Internet”.



DISCUSSÃO

A proposta inicial desta pesquisa foi discutir, com os alunos, o uso da internet dentro de princípios éticos. A opção de fazê-lo através de debates sobre temas relacionados na busca de um consenso se sustenta na ação comunicativa de Habermas.

O que Habermas nos permite desvendar é a necessidade de entender o universo educativo como um espaço no qual os sujeitos, através da linguagem e seus símbolos, entrem em diálogo e construam consensos.

Habermas pressupõe a Ética do Discurso como um paradigma que torna possíveis as interações intersubjetivas entre os sujeitos, capazes de conjugar consenso e crítica para uma pedagogia da competência comunicativa lingüisticamente estruturada no processo discursivo, capaz de proporcionar entendimento mútuo.

A busca pelo entendimento faz com que os alunos participantes dos debates façam uso da razão discurso-comunicativa para manifestar suas opiniões e buscar o entendimento, em prol de uma vida livre e justa.

Aplicado o primeiro questionário, fica evidenciada a necessidade de uma orientação para as formas de utilização desta mídia, sua importância no contexto social, seus riscos e benefícios.

Após aprender a utilizar os recursos da Internet e realizar pesquisas corretamente, o aluno participa de debates sobre ética que provocam alterações de comportamento diante das tecnologias de comunicação e informação, comprovadas pelas atitudes destes alunos, observadas pelo professor e descritas abaixo:
Busca informações sobre Direito, Legislação e Defesa do consumidor;
Investiga sobre saúde, Medicina e vida saudável;
Realiza cursos à distância;
Pesquisa sobre animais, ambiente e natureza;
Atualiza seus conhecimentos gerais;

Envia currículo para estágios e empregos;


Estuda assuntos atuais nacionais e internacionais;
Participa de Fóruns de discussão;
Apóia os colegas que apresentam menor desenvoltura em pesquisas;
Averigua sites oficiais;
Realiza downloads de softwares freeware úteis;
Descobre sites sobre ciência, conhecimento e saber;
Entra em sites de jornais, revistas e televisão;
Faz contatos com alunos de outras Faculdades;
Escreve textos sobre temas pesquisados inserindo opiniões próprias, sem fazer cópia direta;
Procura se informar sobre arte, cinema, teatro, eventos e cultura;
Lê sobre temas relacionados à Ética;
Torna-se mais participativo e solidário;
Envia e-mails corretamente;
Preocupa-se com a responsabilidade do uso desta ferramenta;
Descobre a Internet como fonte de inserção social.
Essa mudança de comportamento frente ao uso da Internet reflete uma nova visão desta ferramenta, capaz de transformar a vida do estudante, melhorando seu trabalho e sua vida pessoal, desde que utilizada de maneira consciente, crítica e responsável, tirando o maior proveito desta tecnologia.

Esse despertar para a importância da forma de utilização da Internet, no contexto educacional, bem como no âmbito profissional e social, é de grande valia para os alunos. Saber utilizar a Internet com seriedade e respeito faz do aluno um ser humano mais ativo e solidário, integrado à nova tecnologia, consciente de sua importância, crítico quanto as suas falhas e preocupado com os problemas dela provenientes.

O resultado superou as expectativas. Ficou clara a consciência, a responsabilidade, a solidariedade e a crítica despertada nos alunos através dos debates realizados em sala de aula simultaneamente ao uso da Internet.

Outras formas de discussão sobre as NTCI podem e devem ser testadas em salas de aula, em diferentes níveis educacionais, na busca de uma consciência crítica por parte dos alunos, usuários presentes e futuros destas tecnologias de comunicação e informação.

Espera-se que esta pesquisa sirva para estimular a reflexão sobre o uso de tecnologias na educação, em especial a Internet, objetivando uma conscientização quanto à sua importância na busca de uma sociedade mais justa e igualitária.


1REFERÊNCIAS
 Castells, Manuel. A era da informação: economia, sociedade e cultura. São Paulo: Paz e Terra, 2001. Volume I. Sociedade em Rede. 498 p.


2 Le Monde. Uol.com/Mídia Global. Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves. http://www.elsonrezende.hpg.ig.com.br/internet/castells.htm 13/01/2005.


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4

MARCELO, ANA SOFIA. Internet e Novas Formas de Sociabilidade. Tese de mestrado em Ciências da Comunicação. Portugal: Universidade da Beira Interior Covilhã, 2001. 6 p.




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6 William K. Frankena. Ética. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. 16 p.


7 Sánchez, Vázquez Adolfo. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984. 113 p.

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9 Masiero, Paulo César. Ética em computação. São Paulo: Edusp. , 2004. 25 p.


10 Vázquez, Adolfo Sánchez. Ética. 7ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S.A. , 1984. 25 p.



11 ARAGÃO, LÚCIA MARIA DE CARVALHO. Razão Comunicativa e Teoria Social Crítica em Jürgen Habermas. 2ª edição. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. 1997. 51 p.


12 HABERMAS, JÜRGEN. Consciência Moral e Agir Comunicativo. 2ª Edição. Rio de Janeiro-RJ: Tempo Brasileiro, 2003. 143 a 149p.


13 HABERMAS, J. Consciência moral e agir comunicativo. 147 p.


14 HABERMAS, J. Consciência moral e agir comunicativo. 148 p.


15 OS PENSADORES. Volume XLVIII (48). 1ª Edição. São Paulo: Abril Cultural, 1975. 282p.






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