A tristeza como essência: a formaçÃo do brasileiro n’os sertões de euclides da cunha



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A TRISTEZA COMO ESSÊNCIA: A FORMAÇÃO DO BRASILEIRO N’OS SERTÕES DE EUCLIDES DA CUNHA

Felipe Charbel Teixeira
I
Este texto não é o resultado de um estudo profundo sobre Euclides da Cunha, tampouco uma incursão demorada no problema da formação da nacionalidade. Não sou um especialista em “pensamento social brasileiro”, se é que se pode ter o “pensamento” como objeto. Não apresento conclusões definitivas ou sequer parciais. Mas, se não discutir aqui algumas questões suscitadas na leitura d`Os Sertões, onde mais poderei apresentá-las? O que fazer com uma experiência singular de leitura? Deixar as questões se esvaírem, ou traze-las ao debate? Neste espaço, pretendo expor certas dúvidas e pontos de vista decorrentes do contato com este grande e estranho livro. Grande por sua profundidade e conseqüências históricas. Estranho pelo hibridismo e estilo pomposo, pouco convidativo. Proponho-me, neste trabalho, a expor os resultados de uma experiência de leitura, oriundos do contato direto com um texto clássico e alguma literatura circundante.

O foco da leitura: a idéia de filosofia da história que perpassa o livro de Euclides da Cunha, a qual atua decisivamente para a construção de seus argumentos. Mais ainda, em como essa filosofia da história incide, n`Os Sertões, para a elaboração da idéia de uma essência nacional – identificada com a tristeza –, a qual teve sua origem no insulamento do mestiço curiboca, ocorrido no século XVII, e se torna identificável pelo contato, em fins do XIX, entre duas temporalidades distintas: o choque da “civilização de empréstimo” litorânea com o sertão “atávico”. Trata-se da constatação de uma “contemporaneidade do não-contemporâneo” – expressão cunhada por Reinhart Koselleck para caracterizar a simultânea percepção de um processo histórico e de suas descontinuidades –, a partir da qual Euclides da Cunha vislumbra uma solução para o impasse da nacionalidade: a suprassunção – no sentido hegeliano de aufhebung, ou a síntese que de fato não sintetiza, mas conserva e renova – de dois elementos fracos com vistas à formação de uma raça forte, o brasileiro. Forte porém triste, é o que quero dizer. Pois justamente da tristeza vem parte dessa força, na medida em que esta se dá a ler como marca do amadurecimento, da fusão do homem com o meio, o tornar-se a própria terra.


II
Ao ler Os Sertões, chamou-me a atenção exatamente a primeira parte da obra – A Terra –, essas cinqüenta páginas malditas, que todos dizem: “Não leia!”. Ali, na imobilidade da mesologia, Euclides destila suas impressões primeiras, resultados do contato de três meses com a região sertaneja. Atentei, sobretudo, para as metáforas acerca da natureza: “mandacarus tristes”, “o sol como inimigo”, “pedras nuas”, “matos doentes”, vegetações vitimadas por “espasmos dolorosos”; tudo emoldurado por paisagem de “monotonia inaturável”. No decorrer da leitura, as metáforas foram se revelando mais que figuras de linguagem: trata-se de efetiva antropomorfização da natureza, a atribuição de caracteres humanos a rochas e paisagens, árvores e plantas. A natureza apresenta em-si seu próprio telos: ela é “solenemente triste”, fechada, inabitável.1 Repele o homem, impossibilita a civilização, escreve desolação e a tristeza nas flores que brotam e nos seres que se arriscam a viver.

Na segunda parte do livro – O Homem –, os espasmos continuam, e dessa vez afligem diretamente àqueles que lá habitam. Ao tratar da formação das raças brasileiras, Euclides percebe, com pesar, a ausência de unidade antropológica, questão que, aliás, afligia à maior parte da intelectualidade brasileira naquele início de século XX. No caso de Euclides, porém, ela ganha um contorno inesperado: o problema da miscigenação deixa de ser tratado como problema, e passa a ser visto como parte da solução dos impasses da nacionalidade.



Ao mesmo tempo em que busca a semente antropológica capaz de incidir para a formação de uma raça forte, Euclides se vê diante de alguns impasses, originados no abismo entre observação empírica e comprovação teórica. Diz ele: “O brasileiro, tipo abstrato que se procura (...) só pode surgir de um entrelaçamento complexo”.2 Tanto a existência de três matrizes raciais distintas – branco, negro e indígena –, quanto a diversidade climática, incidiam para a dificuldade da construção de um “tipo antropológico” bem definido. No litoral, habitava uma “civilização de empréstimo”, marcada pela imitação dos valores estrangeiros e pela mestiçagem desbragada; caboclos e mulatos, no litoral e no interior, ajudavam a diluir os elementos positivos das três raças, perpetuando as características negativas de cada uma delas. Levando em conta estes fatores, Euclides tece um juízo decisivo:
“Não temos unidade de raça. Não a teremos, talvez, nunca. Predestinamo-nos à formação de uma raça histórica em futuro remoto, se o permitir dilatado tempo de vida nacional autônoma. (…) Estamos condenados à civilização. Ou progredimos, ou desaparecemos”. (Os Sertões, p. 84).
Condenados à civilização, porém sem unidade de raça: apenas o futuro remoto poderia garantir a formação de um povo forte, autêntico e, sobretudo, homogêneo. O branqueamento parecia a Euclides não só uma idéia distante, como inadequada teórica e socialmente. A miscigenação é, em princípio, condenada. Onde buscar, portanto, as raízes dessa raça forte? O olhar para o sertão parece abrir a Euclides um novo horizonte, simultaneamente futuro e passado: ilhado em um torrão inóspito do sertão da Bahia, vivia um povo valente, capaz de proporcionar justamente as bases étnicas de que carecia a “civilização de empréstimo”. Ainda que “desgracioso”, refletindo a “fealdade típica dos fracos”3, o habitante do sertão demonstra uma completa adaptação ao meio físico. Naquele canto esquecido do Brasil, Euclides enxerga o que falta aos litorâneos: vigor, determinação e autenticidade.
III
Estas impressões, porém, precisavam ser justificadas à luz da ciência. Concordo com Luiz Costa Lima quando este aponta a inadequação da maior parte das leituras d`Os Sertões, que ora procuram analisar o livro como “obra literária”, ora como um texto “revelador da realidade brasileira”. Nem um, nem outro: o texto de Euclides da Cunha possui, sim, um caráter científico, e tratá-lo como obra literária ou simplesmente “reveladora” é passar por cima da própria argumentação do autor, seus propósitos e objetivos. A literatura, para Euclides, possuía um aspecto meramente ancilar; e a “revelação da realidade” era apenas uma parte de seu empreendimento. Como sustenta Costa Lima, o livro é marcado por leituras – mas sobretudo desleituras – de autores como Comte, Gumplowicz e Spencer. Suas considerações são formuladas com bases nestas teorias raciais e evolutivas, e muitas vezes se chocam com as premissas originais desses autores, precisando ser reinventadas, ou simplesmente esquecidas.

Penso que, para além das referências teóricas citadas, existe n`Os Sertões um constante diálogo, no plano filosófico, com Hegel, sobretudo o Hegel das “Lições sobre a Filosofia da História”. Sabe-se que Euclides valorizava o filósofo alemão.4 Não se sabe, porém, a extensão dessa leitura, ou os usos que dela fazia. Não pretendo me aprofundar neste ponto, uma vez que o propósito deste trabalho está na exposição de uma experiência de leitura, a partir da qual identifiquei, na argumentação d`Os Sertões, elementos do modelo hegeliano de filosofia da História. Cabe destacar, nesse sentido, o aspecto não linear do movimento da História, a idéia de um telos que se apresenta desde o início como destino, o progresso por “saltos” e não por simples causalidade, além da presença de uma suprassunção final, pela qual se dá a atualização do brasileiro, cuja essência já existia em estado embrionário. Assim como faz com Spencer, Comte e Gumplowicz, Euclides se vale de Hegel a seu modo, atentando para o que poderia lhe servir, e descartando elementos de maior complexidade. Ainda assim, trata-se de uma reflexão riquíssima sobre a história brasileira em movimento, e sobre os usos possíveis e originais do passado.
IV
Euclides procura pensar o lugar especial do Brasil em relação aos estágios evolutivos da “história mundial”. Se sua intuição parecia lhe dizer que o sertanejo era a “rocha viva” da nacionalidade, era preciso delinear a constituição histórica desta sub-raça, e explicar: (a) por que razão ela poderia fundar a base étnica da futura nacionalidade, o que levava a (b), a necessidade de discutir os fatores que teriam incidido para esta formação única e especial. O autor busca no passado colonial respostas para os dilemas presentes; analisa a origem do sertanejo, assim como o momento evolutivo deste grupamento étnico em relação ao restante do país, e em como o homem do sertão poderia ser incorporado como elemento fortificador, capaz de dar à “civilização de empréstimo” os caracteres que ela não possuía. Para tanto, Euclides parte da formação do “paulista”; ao longo do século XVII, “período agudo da crise colonial”5, estes teriam se formado como “tipo autônomo”. Após subir para o Norte, acabarão se insulando no sertão.

Assim, Euclides vê na “onda impetuosa do Sul” o impulso primeiro na direção da nacionalidade, isto porque a ação dos bandeirantes teria incidido para o contato e fusão do elemento português com os habitantes das regiões remotas do país. As vagas de ocupação interiorana seguiam, em suas palavras, “incansáveis, com a fatalidade de uma lei”.6 Lei esta que representava o próprio destino histórico da formação da nacionalidade, impulso originário que atraia o sulista ao encontro dos silvícolas do Norte. Neste encontro marcado, paulistas e indígenas dão origem ao curiboca, mestiço sertanejo que herda o espírito aventureiro dos bandeirantes e a vitalidade dos silvícolas. Como veremos, a realização do destino histórico da nacionalidade valeu-se de sinais, os quais se impunham aos diversos grupamentos populacionais, chamando-os ou repelindo-os ao contato. A natureza atuava como essa força por um lado acolhedora e por outro cruel, impelindo o sulista ao encontro histórico – como elemento ativo da formação –, junto ao repelido indígena do Norte, aprisionado por um meio devastador. Desse encontro, resultará a própria essência nacional, que ficará adormecida por trezentos anos no inóspito sertão.
V
Para garantir o que, nas palavras de Euclides, era um “cruzamento inevitável”, foi necessária a atuação da natureza, verdadeiro agente da filosofia da História. As distinções climáticas, aliadas a diversos tipos de cruzamentos raciais, “preparou o advento de sub-raças diferentes”, nas várias latitudes do território. Ao sul do país, os paulistas encontraram uma natureza extremamente receptiva e convidativa, que os impelia a longas explorações e incursões aventureiras. Em primeiro lugar, havia a Serra do Mar, que anulava o apego ao litoral; assim, desde os primórdios da colonização, o paulista se via distante dos perigos da “civilização de empréstimo” litorânea. Este primeiro insulamento na região vicentina permitiu o desenvolvimento das características centrais desses homens, o que contribuiu decisivamente para a aventura em direção ao Norte, a qual deu origem ao segundo insulamento, este sim, como veremos, o fator determinante para a formação do sertanejo. Também os rios convidavam o bandeirante às entradas; nasciam no mar, e corriam para o interior, revelando em seus caminhos a “atração misteriosa das minas”. Levado pela natureza, o homem cumpre seu destino de tecelão da História; recebe os chamados do meio, como se de algum modo tivesse a intuição da racionalidade deste destino.7

O acolhimento da natureza foi fator crucial para o sucesso das vagas sulistas. Diz Euclides que “as circunstâncias históricas, em grande parte oriundas das circunstâncias físicas, originaram diferenças iniciais no enlace das raças, prolongando-as até o nosso tempo”. Enquanto os paulistas eram chamados e acolhidos pela natureza, no Norte o espetáculo da colonização sofria incríveis reveses: as invasões holandesas atuaram como elemento inibidor, ao trazerem para a região os indesejados colonizadores portugueses. “Apertados entre os canaviais da costa e o sertão”, os habitantes da região não se aventuravam ao interior; se, ao sul, a natureza havia se mostrado acolhedora, “o filho do Norte”, nas palavras do autor, “não tinha um meio físico, que o blindasse de igual soma de energias”.8 Se, ao sul, a natureza se mostrava receptiva, no norte do país ela desvendava toda sua hostilidade. Afirma Euclides que “o colono nortista, nas entradas para oeste ou para o sul, batia logo de encontro à natureza adversa”.9

Natureza que acolhe, natureza que repele: natureza, agente da Razão, mecanismo do encontro marcado: o destino histórico da nacionalidade. No Norte, a história se desenrolava de maneira teatral, porém pouco eloqüente.10 Já os paulistas representavam a marcha inexorável da História, arrebatadora, como tufão a impor certos Desígnios, capazes de quebrar o caráter cíclico da existência inerte naquelas distantes terras sertanejas. Chegaram para construir o embrião da nacionalidade, para impor a força do homem mesmo em ambiente agressivo. O mestiço sertanejo nascia, segundo Euclides, “de um amplexo feroz de vitoriosos e vencidos”, do enlace entre a “gente entusiasta e enérgica das bandeiras” com a “impulsividade do indígena”.11 Nestas paragens, ficaram, nas palavras do autor, “inteiramente divorciados do resto do Brasil e do mundo, murados a leste pela Serra Geral, tolhidos no ocidente pelos amplos campos gerais, que se desatam para o Piauí e que ainda hoje o sertanejo acredita sem fins. O meio atraía-os e guardava-os”.12

Livre de elementos estranhos”, formou-se na região dos sertões um tipo humano completo, resultante de cruzamentos uniformes, que acabaram, segundo Euclides, dando um nó nos princípios teóricos do evolucionismo, amplamente difundido no início do século XX, que diziam que, de fusões étnicas, poderiam surgir tão somente sub-raças enfraquecidas. Dá-se, no sertão, o oposto: a gênese de uma sub-raça única, dotada de “fisionomia original”, homens de características aventureiras e taciturnas, lúgubres e enérgicas, fortes e acomodadas. Por conta de seu isolamento, o homem dessa região acabou se alijando do movimento da História, o que se revelou profícuo. No final do século XIX, a campanha de Canudos revelou ao Brasil esta população, onde predominavam crenças medievais e características de momentos históricos anteriores. Segundo Euclides, “uma grande herança de abusões extravagantes, extinta na orla marítima pelo influxo modificador de outras crenças e de outras raças, no sertão ficou intacta”. Caracterizados por um tipo de atavismo, estes homens representavam o próprio momento em que haviam se insulado, adquirindo, nas palavras do autor, “a forma grosseira de um campeador medieval desgarrado em nosso tempo”13, como se ali o tempo tivesse permanecido imóvel, desligado do “movimento geral da evolução humana”.14



Habitavam um mesmo território, em fins do século XIX, dois tipos distintos, separados por quase trezentos anos de História.15 Afirma Euclides que “o retrógrado do sertão (…) está fora do nosso tempo”.16 A percepção de que coexistiam duas temporalidades distintas, ao mesmo tempo em que aturdia ao autor, o estimulava a pensar a renovação da decrépita civilização litorânea: aquela “rocha viva” atávica continha em si o mito da pureza originária, a bravura dos remotos bandeirantes que seguiam inexoravelmente o fluxo da História, se deixando levar pelos chamados da natureza. Utilizando a terminologia de Koselleck, abre-se a Euclides um novo espaço de experiências, oriundo da articulação entre passado e futuro, entre origem e progresso.17 Como se, num piscar de olhos, o embrião da História nacional se dispusesse à sua observação, às suas experimentações e elucubrações. Ali, naquelas paragens desérticas, estavam preservadas, quais vestígios arqueológicos, as sementes originárias de nossa nacionalidade. E, daquele homem rústico e retrógrado – porém dotado de força e boa compleição –, poderia emergir o antídoto da “cultura de empréstimo” litorânea.

Euclides lamenta que a ação do Exército tenha abortado a possibilidade de incorporação lenta dos sertanejos. A guerra acabou dizimando não só aqueles homens, mas também a esperança do autor de que se pudesse constituir, em território brasileiro, uma raça forte, capaz de engendrar uma nacionalidade autêntica e bem formada. Mesmo assim, Euclides se vê com a missão de mostrar ao mundo, sobretudo aos “futuros historiadores”, aquilo que observou, uma vez que, naqueles homens, estava a essência nacional, aquilo que poderia constituir futuramente as bases da nação. Mas que essência? O que ela traz consigo?


VI
O isolamento a que foi submetido incrustou no sertanejo algumas características. Por um lado, ele é um forte. Diz o autor que “basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear das energias adormecidas” para que ele se transfigure, e adquira “inesperadamente o aspecto dominador de um titã acobreado e potente”. Aliado a esse aspecto, contudo, podem ser percebidos nos sertanejos elementos de abatimento, resignação e impulsividade; trata-se, nas palavras de Euclides, de uma “intercadência impressionadora entre extremos impulsos e apatias longas”. Se é um forte, o sertanejo também é um homem triste. Isto se deve ao fato de que, por conta do insulamento de três séculos, ele acabou por adquirir as características centrais do meio circundante. Diz Euclides que o sertanejo é a “perfeita tradução moral dos agentes físicos de sua terra”, de tal modo que “reflete nestas aparências que se contrabatem, a própria natureza que rodeia”, natureza que “o talhou à sua imagem: bárbaro, impetuoso, abrupto”.18 Agente da filosofia da História, a natureza não só chama e repele o homem, mas também o marca lentamente, imprimindo no tipo humano as agruras de um meio hostil.

Em diversas passagens do livro, a natureza é antropomorfizada,19 de modo que acaba por condicionar o próprio tipo humano que com ela entra em contato. Nos sertões, impera a hostilidade da natureza em relação ao homem; este, ao resistir, e sobreviver em condições tão desfavoráveis, acaba resignando-se, incorporando “o traço melancólico das paisagens”. Aquela terra, de “aspecto estranho”, não pode gerar senão um homem abatido; revelando estados de espírito tipicamente humanos – “natureza torturada”, “mandacarus despidos e tristes” –, a natureza grita e impõe ao homem o “aspecto atormentado das paisagens”. Estes espetáculos de uma natureza-agente impressionaram Euclides, deixando nele a certeza de que, naquele lugar, não poderia viver senão um homem triste. Trata-se da “impressão dolorosa” que, segundo o autor, “nos domina ao atravessarmos aquele ignoto trecho do sertão”. Sobre o Arraial de Canudos, diz que “emoldurava-o uma natureza morta: paisagens tristes; colinas nuas, uniformes…”.20

Marcados pela “fatalidade inexorável” da seca, homem e natureza acabam por adquirir um “aspecto desolado”. Algumas plantas “unem-se, intimamente abraçadas, transmudando-se em plantas sociais”. Monstruosos e deselegantes “cabeças-de-frade” – tipo de vegetação que lembra cabeças decepadas – brotam na região, como se mercassem a “desordem trágica” que ali impera. Esta “vegetação agonizante, doente e informe” acaba gravando “em tudo monotonia inaturável”21, a mesma monotonia que caracteriza a vida dos sertanejos, imersos nos ciclos das secas e períodos de estio; até mesmo as festas religiosas – responsáveis pela renovação constante de crenças anacrônicas – contribuem para este fastio generalizado.
VII
Nos sertões, “o martírio do homem” nasce do “martírio secular da Terra”. Martirizado, “permanentemente fatigado”, abatido e taciturno: tomado por constantes “preocupações com o futuro”, o sertanejo se fez “homem quase sem ter sido criança”. “Batalhador perenemente combalido e exausto”, ele “reflete, nestas aparências que se contrabatem, a própria natureza que o rodeia”. Em sua vida “monótona e primitiva”22, carrega a marca da tristeza, como que numa “variante trágica” da própria existência, o saber-se “dirigido de cima”.23 Diz Euclides que “o heroísmo tem nos sertões, para todo o sempre perdidas, tragédias espantosas. Não há revivê-las ou episodiá-las. Surgem de uma luta que ninguém descreve – a insurreição da terra contra o homem”.24 Este sentido trágico da vida sertaneja, resultado da experiência direta com a natureza rude, escreveu, nos trezentos anos de insulamento, a essência triste do homem daquela região, rocha viva que guarda consigo tanto o confronto com o meio, quanto o impulso de tornar-se terra.


1 Euclides da Cunha. Os Sertões, pp. 54-5.

2 Ibid., p. 82.

3 Idem.

4 Cf. Luiz Costa Lima. Terra Ignota, p. 123: “Depois de citar o Hegel das Lições sobre a Filosofia da História, Euclides anotava: ‘Aos sertões do Norte, porém, que à primeira vista se lhes equiparam [i.e. às estepes], falta um lugar no quadro do pensador germânico”.

5 Ibid., p. 107, 97.

6 Ibid., p. 98.

7 Ibid., p.113, 99, 96, idem, ibid., ibid, 110.

8 Ibid., p.100, 99, 98.

9 Ibid., p.98.

10 Cf. Ibid., p. 94.

11 Ibid., p.109, 113, 111, 114.

12 Ibid., p.113.

13 Ibid., p. 125, 155, 134.

14 Ibid, p.156.

15 Euclides mobiliza diversos elementos para mostrar essa coexistência de temporalidades distintas. O homem do sertão seria atávico, marcado por “divertimentos anacrônicos” (p. 145), “corridas de tártaros” (p.144), “monoteísmo incompreendido” (p.154), etc. “Ali, as tradições do passado permanecem intactas” (p. 121).

16 Ibid., p. 185.

17 Cf. Reinhart Koselleck. “L`idèe d`Histoire”, p. 51.

18 Euclides da Cunha. op. cit., p.130, idem, 133, 135, idem.

19 Este aspecto foi notado por Luiz Costa Lima em “Nos sertões da oculta mímesis”, p. 224.

20 Euclides da Cunha. op.cit., p. 24, 21, 23, 25, 30, 31, 203.

21 Ibid., p. 43, 49, idem, 50, 49, 52, 54, 55, 54.

22 Ibid., p. 73, 130, 132, 133, 135, 147.

23 Cf. Luiz Costa Lima. “Nos sertões…”, p. 238.

24 Euclides da Cunha. op. cit., p.150.



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