A utopia amorosa de jules michelet



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A UTOPIA AMOROSA DE JULES MICHELET
Ana Paula Vosne Martins
Seminário da Linha de Pesquisa Intersubjetividade e Pluralidade: reflexões e sentimentos na História - Outubro de 2009

Retrato de Michelet por Thomas Couture, 1843. Óleo sobre tela.

Gravura em papel de Athénäis Mialaret.
Introdução
Inverno de 1849. O professor Jules Michelet havia preparado seu curso no Collège de France no qual abordaria um tema no mínimo inusitado para um prestigiado historiador que já se notabilizara por seus estudos sobre a França e a Revolução. Entre 25 de janeiro e 8 de março suas aulas trataram do amor, um sentimento que para o notável professor cristalizava os ideais de felicidade, unidade e harmonia, tanto no plano individual quanto no coletivo. Seus alunos que tanto o admiravam e que haviam se manifestado ruidosamente em seu favor no ano anterior, quando Michelet fora afastado temporariamente de suas funções no Collège, já conheciam algumas das suas idéias sobre este assunto, enunciadas no livro publicado em 1846, “O Povo”, especialmente na terceira parte, “Da libertação pelo amor. A Pátria.” O que seus alunos não sabiam ainda é que o quinquagenário professor estava totalmente apaixonado por Athénäis Mialaret, uma jovem preceptora de 23 anos, praticamente a mesma idade da sua filha Adèle. Ambos vinham se correspondendo desde 1847, ela em Viena, ele em Paris, trocando idéias e compartilhando interesses por vários assuntos, como a educação das mulheres, a história e a revolução libertadora dos povos. Quando Athénäis se instalou definitivamente em Paris em 1848 ambos iniciaram um relacionamento amoroso que transformou a vida do viúvo e solitário professor, como seus alunos puderam perceber.

As aulas daquele início de ano reforçaram uma idéia muita acalentada por Michelet: o amor vivido por um casal poderia ser o mesmo sentimento que transformaria a vida social. Unindo a experiência individual com a experiência coletiva a partir do mesmo sentimento Michelet pregava para seus alunos um ideal de vida social fundado numa concepção orgânica, vital, sentimental, no qual a renúncia ao egoísmo, ao orgulho, e à vaidade de indivíduos solitários e perdidos na confusão estéril da vida moderna daria lugar à felicidade da vida simples de um casal amoroso (como ele e Athénäis) e à liberdade, à justiça e à fraternidade recriadas pelo amor social (como deveria ser a sua amada França). Por mais que Michelet defendesse a idéia de separação da esfera da vida privada e da vida pública – necessárias para o desenvolvimento de ambas - seu pensamento social e moral se articulava à noção de complementaridade ou mesmo de continuidade das duas esferas da vida através do elo fecundo que as unia: o amor. Contrastando com o frio daquele inverno o coração aquecido de Jules procurava, através das palavras, instilar no espírito de seus jovens alunos uma nova religião, uma nova moral, um novo e verdadeiro sentimento que deveria transformar não só as suas vidas, mas a humanidade.

Esta reflexão que apresento de forma ainda aproximativa, lacunar e também de certa forma apaixonada, visa começar uma discussão no interior de nossa linha de pesquisa a respeito das complexas inter-relações dos sentimentos e das práticas sejam elas sociais, políticas ou do pensamento. Entendo que as problematizações em torno do objeto que nossa linha vem definindo abarcam um conjunto bastante heterogêneo de questões suscitadas e não equacionadas pela modernidade (não vou estabelecer diferenças conceituais nem cronológicas entre modernidade e pós-modernidade) como a noção universal de indivíduo, a tensão entre paixões (ou sentimentos) e a razão, as difíceis mediações entre o indivíduo e suas paixões, e a sociedade e a ordem que deve imperar para que o primeiro, movido por desejos egoístas ou de destruição, não coloque em risco a permanência da segunda. A partir deste esboço sumário das questões acima enunciadas penso que o diálogo salutar entre a história e outros campos do conhecimento e da imaginação criadora (literatura, cinema e artes plásticas) pode contribuir para a produção de uma reflexão a respeito dos diferentes processos históricos das inter-relações entre as subjetividades (identidades, sentimentos, individualidades, desejo, imaginação, racionalidade) sempre flutuantes, instáveis, negociáveis, e as configurações coletivas nas quais elas se constituem ou se afastam, com as quais são coerentes ou divergentes.

Este texto é um exercício reflexivo em torno destas questões. Sua origem está ligada à minha experiência com duas disciplinas optativas que ministro no curso de graduação: História do Amor e História do Pensamento Utópico e Distópico. Por outro lado meu contato com a obra de Michelet ocorreu quando desenvolvi meu doutorado, em especial os livros publicados entre as décadas de 1840 e 1860 que compõem uma etapa da produção do pensamento e da escrita do autor muito peculiar por ele ter se afastado da disciplina histórica e voltado para outros assuntos, como o amor e a mulher.1 Contudo, apesar destas motivações é preciso ressaltar que a escolha recaiu em Michelet porque ele talvez seja um notável exemplo daquelas inter-relações comentadas no parágrafo anterior.

Na época em que ele escreveu e viveu a disciplina histórica se constituía como um conhecimento reconhecido por suas premissas científicas e seu comprometimento com a verdade; era o momento da fundação da história profissional. Os homens respeitáveis que tiveram seus nomes e reputações construídos neste mesmo processo fizeram um esforço notável para estabelecer uma relação de absoluta exterioridade com seus temas e objetos de estudos, procurando assim explicar o passado a partir de um conjunto de premissas como a objetividade, a neutralidade, a imparcialidade, a empiria e principalmente o afastamento de qualquer influência da imaginação e das emoções tanto na escolha de seus temas de estudos, quanto na escrita que deveria narrar a partir de um efeito especular, ou seja, estender aos leitores o espelho da verdade histórica, sem nenhum ornamento, sem nenhum julgamento de valor, sem nenhuma paixão, sem nenhuma interferência da subjetividade do historiador.2

Michelet compartilhava com alguns destes valores e devido ao seu incansável trabalho junto aos arquivos franceses e sua dedicação à história ele havia conquistado uma sólida reputação e sua carreira ia muito bem, apesar de alguns percalços devido ao seu enfrentamento com o clero e depois com o establishment político. Contudo havia uma diferença notável se comparado aos seus colegas de profissão contemporâneos e sucedâneos: Michelet misturou de maneira muito complexa e criativa sua vida pessoal, seus anseios, medos, desejos, dúvidas, sonhos, banalidades do cotidiano e seus sentimentos, com o trabalho da reflexão e a prática histórica. A escrita de Michelet é constantemente atravessada por metáforas poéticas e sentimentais; por mitos reinterpretados à luz de sua experiência psicológica com as mulheres, especialmente as mulheres mais velhas ( a eterna mãe que nunca irá abandoná-lo)3; por analogias complexas entre a Natureza, as mulheres, o povo e a pátria; por metáforas religiosas e espirituais que às vezes colorem seu texto de um tom messiânico. Também é preciso lembrar que Michelet transitou por diferentes estilos ao longo de sua prolífica vida intelectual. O historiador que por tantos anos trabalhou na monumental História da França (iniciada em 1833 e concluída em 1867, com dezessete volumes), nos ensaios críticos e em diferentes publicações sobre a história, também enveredou por outros caminhos como a história natural, o ensaio político e as memórias. Durante sua longa vida Michelet manteve um diário, publicado postumamente, no qual registrou com minudência sua vida pessoal, íntima, sexual e também outros aspectos relacionados ao trabalho, às amizades, aos desafetos, às decepções com o tempo e os homens, mas também suas esperanças, afinal Michelet jamais foi um homem derrotado pela descrença ou que tenha se deixado abater pelos infortúnios e mesquinharias. Sua vida e seus livros são exemplares desta atitude inconformista e romântica. Mas, antes de tudo ele fez algo completamente distinto de seus colegas de profissão: entrecruzou perspectivas analíticas diferentes, misturou campos semânticos que deveriam ficar separados de acordo com o paradigma científico, usou referências de sua vida sentimental e pessoal para construir análises mais amplas do passado, da sociedade contemporânea e principalmente projetou-as para o futuro, vislumbrando uma ordenação social profundamente marcada pelos valores e sentimentos forjados no cadinho de uma experiência múltipla da vida reflexiva, sentimental e moral.

É sobre este procedimento reflexivo-sentimental que gostaria de me debruçar a partir de agora, tomando como fio condutor a definição de amor elaborada por Michelet e a sua projeção para o mundo e para a humanidade, formulando um pensamento desiderativo positivo, otimista e vitalista para uma nova sociedade constituída harmoniosamente pelo amor. Vamos à utopia amorosa de Michelet.
Do amor e da utopia

Vou começar pela adjetivação que atribuo ao pensamento utópico de Michelet. O amor não era um tema visitado pelos filósofos, historiadores ou pensadores sociais do século XIX. Era mais ou menos consensual que este tema seria mais apropriado para a imaginação, para a criação literária e a expressão poética. Numa concepção binária do pensamento, o amor, assim como outros sentimentos não podiam ser misturados com a reflexão filosófica ou científica, afinal eram terrenos absolutamente estranhos um ao outro. O saber e a reflexão constituíam o domínio da racionalidade, da verdade e da universalidade; o amor e os sentimentos eram associados a outras dimensões da vida humana como os desejos, a instabilidade das paixões, as incertezas, os equívocos, aquele território que alguns filósofos, poetas e escritores românticos definiam como o incerto e insondável coração humano. Como se atrever a enveredar com a pretensão desveladora da razão num terreno tão avesso ao estabelecimento de verdades, de certezas, de classificações? Impossível, pensavam os racionalistas e desapaixonados filósofos, historiadores e cientistas do século XIX.

No entanto, nem sempre o amor suscitou este tipo de reação. Há uma longa e bem consolidada tradição filosófica que pensou o amor, de maneira bem diferente da definição sentimental que predominou na escrita de romances e ensaios filosóficos desde o século XVII. Esta tradição remonta aos textos platônicos, sendo retomada e recriada num contexto muito diferente, que foi o humanismo renascentista.4 Os filósofos neo-platônicos elaboraram uma filosofia que ansiava pela aproximação entre a ascese amorosa de Platão e a espiritualidade cristã e sua visão teocêntrica dos valores éticos, estéticos e espirituais, tão bem formulada por Marsílio Ficino em sua leitura humanista e cristã do “Banquete”.5 Para Ficino, seus discípulos e admiradores que escreveram posteriormente sobre o amor, este não era um sentimento, mas um movimento da alma, um desejo de beleza, do bem e da verdade cuja origem e fim estava em Deus. Seguindo o princípio hierárquico da ascese platônica os humanistas que filosofaram sobre o amor afirmavam que este era um movimento que começava nos corpos, ou melhor, na admiração pela beleza dos corpos e rostos belos, no entanto tal impressão era um primeiro movimento, jamais seu fim. A luz divina que tudo iluminava resplandecia ainda mais maravilhosamente nas almas e como os amantes anseiam e buscam a beleza, deviam ir além da matéria e do que o olho via. A beleza da alma só é percebida pela mente, defendiam os filósofos neo-platônicos. Certamente esta visão extremamente espiritualizada e filosófica do amor era muito restrita aos círculos humanistas das cortes renascentistas italianas, mas ela fez fortuna, tendo em vista as publicações dos tratados de amor que tanto inspiraram a escrita cortês na primeira metade do século XVI.6

Outra tradição importante na abordagem do amor é a poético-literária, a qual remonta à lírica trovadoresca e às narrativas medievais do amor cortês. Contudo, sem ir tão longe, vou me reportar ao gênero literário do romance em suas origens seiscentistas e setecentistas na França e na Inglaterra. Este gênero literário foi por muito tempo considerado menor, secundário, quando comparado à poesia épica ou às poesias bucólicas tão ao gosto de evasão da época. Contudo, um desejo de interiorização e revelação dos sentimentos emergiu no contexto da racionalidade e da teatralidade da vida de corte, dando oportunidade para a produção de narrativas centradas em histórias de amor, de exaltação dos sentimentos e de valores como virtudes cristãs, sensibilidade, fortaleza de caráter, justiça e sacrifício. Estas histórias diferem em muito da poesia épica, cujos heróis fictícios ou históricos são invariavelmente homens intrépidos. Quando a deusa Fortuna parecia os ter abandonado enfrentavam com galhardia seu destino, mesmo que este fosse trágico. São, portanto, narrativas centradas em homens e nos seus destinos de condutores de reinos, de exércitos e de povos. Os romances que começaram a ser escritos no século XVII têm quase sempre personagens heróicas femininas. Suas histórias são de mulheres virtuosas, mas com sensibilidade para um sentimento elevado e puro como começa a ser definido o amor. Geralmente enfrentam muitos obstáculos, às vezes da família, às vezes de indivíduos inescrupulosos e maus que podem levá-las à perdição e até mesmo à morte. São histórias carregadas de moralidade e de sentimentalismo, nas quais a manifestação do estado interior das personagens e das suas emoções contrasta com a frieza, o cálculo e a racionalidade das relações políticas e sociais dos ambientes de corte e de salões. 7

Alguns homens passaram a se aventurar nas águas da sensibilidade feminina romântica que nascia na sociedade moderna européia, como Richardson e antes dele o famoso Daniel Defoe com a sua heroína às avessas Moll Flanders. O que se observa ao longo do século XVIII é uma mudança de foco no tratamento dado ao amor. Se os romances escritos no século anterior ou mesmo no começo do século XVIII eram ainda um tanto quanto contidos na descrição das emoções, nota-se que os romances produzidos ao longo do século XVIII, em especial na segunda metade do século, passam a enfatizar muito a sensibilidade amorosa e a manifestação de emoções como a melancolia e a tristeza. As lágrimas começaram a verter com mais abundância, naturalidade e facilidade nos romances, como bem notou a historiadora Anne Vincent-Buffault.8 E o motivo de tantas lágrimas e sofrimento foi o amor, um sentimento cada vez mais associado à moralidade elevada de homens e mulheres excepcionais, de coração puro, dispostos ao sacrifício de um afastamento ou mesmo da separação se o amor colocasse em risco a honra da(o) amada(o). Embora as mulheres escritoras do século XVIII tenham alcançado sucesso editorial com este tipo de romance foram Rousseau e Goethe que se notabilizaram por romances nos quais a nova sensibilidade amorosa estava cristalizada.9

Este tipo de abordagem sentimental do amor, definido cada vez mais como uma força arrebatadora que mudava completamente a disposição interior dos homens e das mulheres, conheceu seu momento de apogeu no século XIX, mas sem aqueles dispositivos morais tão presentes nos romances do século anterior. Cada vez mais as(os) escritoras(es) oitocentistas enveredaram por uma narrativa realista na qual as personagens não amavam apenas através das cartas e das revelações para amigos e confessores, ou no recesso melancólico e lacrimoso de seus solitários aposentos, mas fisicamente, ou seja, a dimensão sexual do amor começou a ser tratada pelos romances, mesmo que fosse para reforçar o seu perigo e a ameaça que pairava em especial sobre as mulheres. Não só a literatura, mas também a ópera oitocentista explorou com veemência a tríade amor-dor-morte, como a fazer um jogo ambíguo com os leitores de romances e freqüentadores de teatro: acenar para os gozos infinitos do amor e solapar o desejo com o destino invariavelmente trágico das personagens que morrem ou são abandonadas gemendo a intolerável dor de amor.

Há ainda uma terceira abordagem sobre o amor que é importante lembrar porque acredito que esta tenha exercido uma influência maior sobre o pensamento de Michelet. Trata-se da abordagem naturalista do amor, também presente no sensível Rousseau, mas em outro romance seu de imenso sucesso: o romance pedagógico Emílio (1757). Rousseau explica que o novo homem, Emílio, deveria ter uma companheira, Sophie, e que ambos viveriam juntos ligados pelo amor, um sentimento natural, conforme definia o filósofo. Este amor não difere muito do amor que depois vai ligar suas personagens do livro de 1761, mas há algumas diferenças notáveis. No mundo novo de Emílio e Sophie as descrições de Rousseau são da vida em comum de um casal estabelecida na complementaridade de gênero, que para ele é estabelecida pela Natureza. Portanto, Rousseau aponta para uma concepção de amor que se funda na naturalidade do desempenho de cada papel, na felicidade simples do marido que volta para o lar e lá encontra sua esposa na calmaria da ordem doméstica, único lugar que o homem pode se refazer do mundo e da sua diversidade. O amor é para o Rousseau que escreveu Emílio um sentimento simples, sem dificuldade, obstáculos, excessos, nem faltas. É um sentimento natural, portanto avesso aos artifícios da mundanidade e aos cálculos e interesses egoístas. Seu livro ensina como um casamento poderia ser fundado no amor e que este sentimento era algo bem real, acessível aos indivíduos que se dispusessem a reencontrar sua verdadeira natureza.

Esta abordagem naturalista e realista do amor encontrou muitos admiradores, especialmente entre os médicos iluministas e os higienistas do século XIX. Muitos médicos sabiam da miséria emocional e sexual de seus pacientes, embora este assunto ainda estivesse muito envolto pelos pudores e sensibilidades mais aguçadas. Contudo, com a familiaridade que os médicos vão adquirindo naquele contexto junto às famílias burguesas principalmente, foi possível perceber que muito havia para ser mudado nas relações conjugais e o espírito reformador de muitos deles não ficou insensível a estas mudanças. Sem se declararem defensores das mulheres muitos médicos do século XVIII e do XIX tiveram a coragem de sair em sua defesa contra a violência e o descaso dos maridos. Outros iam além e diziam que a origem de tantos sofrimentos conjugais estava no momento de se decidir quando e com quem se casar. Interesses familiares pautados pelo dinheiro e pela posição social acabavam se sobrepondo aos sentimentos e mesmo ao bom senso, referindo-se aos casamentos entre meninas e homens velhos. Estes médicos eram, na sua maioria, leitores das obras de filósofos e naturalistas, portanto não podiam admitir que decisões tão importantes para a felicidade individual fossem submetidas aos interesses egoístas e insensíveis das famílias. Cada vez mais pode se observar nos tratados médicos da época, em especial nos livros sobre higiene do século XIX a abordagem do casamento. Este deveria unir homens e mulheres jovens e saudáveis, de posição social não muito diferente, e que sua escolha deveria ser a mais racional possível, pautada em simpatias mútuas (não esqueçamos que os médicos são quase sempre muito contidos no uso das palavras), afinidades de espírito e de interesses, enfim, naquela simplicidade natural já anunciada por Rousseau.

Tem-se, portanto, um quadro bastante conhecido sobre o amor na época que Michelet escreveu seus textos sobre o assunto, composto por diferentes nuances, sem dúvida, mas todos se referem à importância deste sentimento, tanto para a felicidade, quanto para a infelicidade humana.

Como pretendo defender neste texto que Michelet constrói uma utopia fundada no amor é preciso mesmo que brevemente tratar do pensamento utópico e da ausência da problematização do amor nos textos produzidos por esta tradição do pensamento social oitocentista. De maneira geral pode-se afirmar que a literatura utópica não trata do amor, a não ser de maneira subliminar, geralmente para se referir à organização da família. Não se pode dizer que o texto fundador desta tradição na modernidade, “A Utopia”, de Thomas More, seja um texto insensível ao amor, afinal More foi um humanista cristão e segundo seus biógrafos um excelente marido. No entanto, More não problematizou este sentimento. A sua sociedade ideal era baseada na ordem e na igualdade e quando fala das famílias é para afirmar que o mesmo princípio ordenador estava presente na sua formação. Das famílias utopianas ficamos sabendo o que era preciso saber: unidade formada por pai, mãe e filhos sob a autoridade do homem mais velho. O amor? Talvez More pudesse até imaginar um casal prolífico vivendo harmoniosamente porque a esposa utopiana era naturalmente obediente e porque seu marido era um homem honrado e que a respeitava. Se na Utopia tudo é equilibrado e visa a harmonia podemos pensar que More imaginava o amor como uma decorrência da ordem. Nada mais.

Dando um salto para o pensamento utópico do século XIX quase nada encontraremos sobre o amor na nova ordem social da utopia. A utopia é a descrição pormenorizada da ordem social, da igualdade entre os seres humanos, do equilíbrio das instituições e da harmonia e unidade do corpo social. Nem mesmo Fourier, o utópico mais visionário e iconoclasta do início do século XIX tratou do amor. Ao descrever a vida nos falanstérios (unidades passionais da Sociedade Harmoniosa) Fourier refere-se às paixões, mas sua ênfase está no desejo e no prazer. Quando escreve sobre o novo mundo amoroso Fourier explica que o amor é o sentimento mais importante para a humanidade, embora seja a paixão mais proscrita da civilização. Ao fazer sua distribuição passional Fourier imagina uma sociedade harmoniosa que se funda numa outra ordem, a ordem das paixões, portanto bem diferente dos reformadores e pensadores utópicos contemporâneos. Ele coloca no centro do novo mundo as combinações passionais, as atrações, os prazeres. Embora Fourier tenha sido o pensador mais radical no interior do pensamento utópico, o amor para ele significava paixão e desejo, levados à máxima variação e combinação. Nada mais estranho a Michelet do que esta “paixão borboleteante”.10

O amor como princípio da unidade social e da harmonia universal


Michelet foi herdeiro de algumas destas tradições, mas as interpretou de maneira muito própria e recorreu a outras fontes, inspirando-se muito livremente também nas suas próprias experiências amorosas. De maneira geral pode-se afirmar que Michelet tinha uma concepção naturalista de amor, como leitor de Rousseau e dos médicos, embora ele tenha se afastado de Rousseau e se aproximado muito mais dos médicos e da tradição naturalista e higienista, tão importante e prestigiada na época que Michelet escreveu seus livros tratando do assunto.

Nosso autor ultrapassa a definição naturalista ao dizer que o amor é um sentimento ao mesmo tempo natural e social, individual e universal, traçando um percurso que vai dos homens, das mulheres e da família à pátria e a uma idéia mais extensa de fraternidade incluindo outras pátrias num elo amoroso universal. As referências de Michelet para tratar do amor são principalmente as ciências naturais (zoologia, botânica, fisiologia, anatomia), a medicina (higiene, obstetrícia, ginecologia) e também o romantismo, seja pela sua vertente literária (Goethe, Stendhal, o círculo romântico em torno de Victor Hugo, George Sand, Eugene Sue) seja pela vertente poética com raízes no século XVIII, particularmente Byron. Mas Michelet não se alinha a nenhuma destas vertentes do romantismo, sem abandonar, no entanto, algumas das mais importantes premissas do pensamento romântico, como a utopia, a idéia de unidade e de harmonia. No que diz respeito ao amor Michelet procurou criar uma combinação entre as diferentes referências e definições que ele conhecia, definindo o amor como algo ao mesmo tempo natural, moral e social.

Neste texto defendo a hipótese que esta definição de amor constitui o centro do seu pensamento social e seu ideal de sociedade e de humanidade. Se o pensamento utópico é um pensamento desiderativo que almeja a transformação da realidade a partir do enraizamento de uma imaginação exigente nesta mesma realidade múltipla, heterogênea e imperfeita, pode-se dizer que Michelet construiu um pensamento com esta peculiaridade, mas de forma diferente dos outros pensadores utópicos. De maneira geral o pensamento utópico imagina uma sociedade nova fundada na igualdade e na ordem social. A utopia de Michelet não se pauta nem na igualdade (Michelet não trata da abolição da propriedade privada e sempre se refere à luta pela sobrevivência num mundo competitivo) nem também na racionalidade científica de Saint Simon, de Owen ou de Cabet. Sua utopia se fundamenta numa concepção orgânica e moral da sociedade na qual homens, mulheres, pais, mães e filhos unidos pelo amor constituem a unidade a partir da qual se irradia um sentimento amoroso que regenerará a sociedade como um todo, humanizando a idéia do amor divino que a tudo toca e transforma. Para Michelet o amor é o sentimento universal que regulará a vida social no futuro: esta é a sua utopia.

Para entender como este pensamento foi construído é preciso conhecer dois livros escritos em momentos bem diferentes, mas que fazem parte de um mesmo conjunto de publicações do autor. Estes livros são “O Povo”, publicado em 1846 e “O Amor”, de 1858. Ambos foram incluídos pelos biógrafos e estudiosos da obra do autor num conjunto denominado por alguns como obras menores, secundárias, os petit romans. Certamente que se compararmos estas publicações com a obra histórica de Michelet elas podem parecer, pela ótica racionalista da profissão histórica dos séculos XIX e XX, como algo no mínimo extravagante para um historiador que estudou temas tão relevantes para o imaginário político da época, como a nação e a revolução. No entanto, não há nada de extravagante nem de inusitado nestas obras. Elas estão completamente articuladas ao pensamento de Michelet sobre a vida, o mundo, o tempo e o que poderíamos chamar de devir humano. Como romântico que foi, ele não compartilhava da nascente e crescente idéia de especialização ou de afastamento do historiador do mundo, como se com esta atitude garantisse a imparcialidade e a objetividade. Contrariamente, Michelet tinha uma visão articulada destas coisas. Não concebia o trabalho reflexivo como algo estanque, separado das impressões, dos sentimentos e da imaginação que a vida afetiva proporcionava, seja ela pensada a partir da vida privada e do amor conjugal, seja a partir dos sentimentos despertados pelo passado comum ou pelos indivíduos comuns, como os trabalhadores, os camponeses, as crianças e as mulheres fortes do povo.

Michelet entendia que o lugar do homem de letras e de conhecimento, do que hoje denominamos intelectual, não era pensar o mundo estabelecendo uma relação de exterioridade e de alteridade com ele, mas sim inserir-se nele. Compreender o mundo para poder contribuir com a sua mudança, com o seu aperfeiçoamento requeria do historiador/pensador uma atitude de empatia, de vontade de se misturar, ou como ele mesmo dizia, de não ter medo de estender a mão para os simples, os trabalhadores, de ouvi-los, observar seus ritmos, sua faina, seus costumes e práticas cotidianas que se repetiam ao longo do fluxo do tempo.11 Desta forma seus petit romans não são obras de evasão ou de uma atitude contemplativa frente à Natureza ou aos outros (mulheres, povo, crianças), mas obras pedagógicas, afinal o mundo perfeito ainda não existia e muito havia a ser transformado. Michelet jamais abandonou a determinação iluminista e romântica da reforma e da educação e estes livros, em particular “O Povo” e “O Amor”, são exemplares desta atitude otimista.

Os livros que compõem este conjunto de publicações que foram escritos entre as décadas de 1840 e 1860 são escritos num estilo no qual a imaginação e as emoções são entretecidas com a descrição e a análise já bem conhecidas do historiador de França. Foram sucesso imediato de público, como atestam a diversas edições e as resenhas elogiosas e receptivas na imprensa parisiense. Cabe lembrar que Michelet vinha desde o começo da década de 1840 enfrentando problemas com o clero, devido aos seus ataques aos jesuítas e à sua influência na educação na França. Por outro lado, o contexto político do liberalismo político e econômico começava a dar sinais de esgotamento, anunciando uma crise que, a princípio, a Revolução de 1830 parecia ter conseguido estancar, mas que somente abafou as intensas contradições do projeto liberal e do regime monárquico. As esperanças de que a França e o povo francês poderiam cumprir o seu destino anunciado pela Revolução, eram revividas pelos românticos e pelos socialistas, mas os obstáculos eram muito grandes, a começar pelos próprios agentes da libertação, o povo. Michelet compartilhava destas idéias e ao indispor-se com os liberais ele começou a elaborar suas idéias sobre a necessidade de se retomar o caminho da liberdade através do projeto revolucionário. No entanto, o povo estava amortecido, havia esquecido de sua missão histórica, de seu papel no processo histórico da libertação. Desta forma, Michelet começou a se dedicar à hercúlea tarefa pedagógica cuja missão seria despertar a chama, que segundo ele não havia se apagado, mas estava lá, bruxuleante, no fundo do coração dos franceses. Seus livros se inserem neste projeto pedagógico popular de falar para os simples, de instigar a chama, de chamá-los para cumprir a sua missão histórica. Contudo, Michelet sabia também das dificuldades deste empreendimento e em algumas passagens de seu diário e do livro de 1869, Nos fils, ele afirma melancolicamente: Se abrirem meu coração depois da minha morte ler-se-á nele a idéia que me acompanhou: Como virão os livros populares? O problema! Ser velho e jovem ao mesmo tempo, ser um sábio, um menino! Remoí estes pensamentos ao longo de toda a minha vida. Eles se apresentavam sempre e me prostravam. Então, senti a miséria, a impotência dos homens de letras, dos sutis. Eu me desprezava. Nasci povo, tinha o povo no coração... Pude, em 46, estabelecer o direito do povo mais do que nunca se fez... Mas sua língua, sua língua me era inacessível. Não consegui fazê-lo falar.12

Pode não ter conseguido fazê-lo falar, mas não deixou de tentar compreendê-lo e ensiná-lo, a começar por suas experiências pedagógicas com a Rústica, cognome dado por ele à sua criada Victoire, ensinando ela e outras duas criadas a ler. Esta experiência com o povo dentro de sua casa começou a dar uma dimensão das dificuldades de comunicação entre o homem de letras e o povo, mas Michelet não era de recuar frente aos desafios. Não queria repetir o que segundo ele era uma incompreensão ou mesmo uma visão distorcida do povo francês. Esta visão estava nos romances, daí Michelet não se alinhar às representações literárias do povo conforme ele as percebeu nos romances de George Sand, sua amiga, de Victor Hugo, também seu amigo, de Eugene Sue e de Balzac.13

Michelet dizia já conhecer o povo, aquele povo do passado, com suas lutas, seus costumes e crenças, suas habilidades e seu coração. O projeto pedagógico de Michelet não podia ser produzido fechado num gabinete. Ele precisava ter contato com o povo e o faz viajando pela França, por suas diferentes regiões, almejando conhecer o povo vivo, suas práticas de trabalho, suas crenças, seus hábitos alimentares, seus falares, suas técnicas. Operários, camponeses, marinheiros, mulheres, crianças, todos são amorosamente observados pelo viajante atento e amigo do povo e nesta busca ele se encontra também como pertencente ao mesmo povo. No prefácio do livro, dedicado ao seu amigo do Collège, Edgar Quinet, ele começa assim o texto: Este livro é mais que um livro: sou eu mesmo. Michelet não só descreveu o povo que encontrou nas viagens pela França, mas ao fazê-lo e de uma forma bastante diferente do que fizeram os escritores, ele recorre à metáfora da pintura para dizer ao amigo Quinet que o pintor não conhece só a forma, mas o que ela encobre, ou seja, não há pintura sem anatomia.14 Indo além nesta metáfora, ele encontra o povo na sua existência cotidiana, tanto no presente, quanto no passado. Encontra o povo vivo e para tanto precisa criar uma narrativa que seja exemplar, uma pintura realista deste todo orgânico. Ele narra então a história da sua família, uma história marcada por sacrifícios, por seriedade, austeridade, muito trabalho, amor ao conhecimento e sofrimentos. Apesar de tudo, do seu reconhecimento como homem de letras, ele diz ao seu amigo, continuei sendo povo.

Na terceira parte do livro Michelet define o amor como sentimento social. Diferentemente do que disseram os filósofos, o homem não seria o lobo do homem, nem um ser egoísta que teve que ser constrangido pela força para viver em sociedade. Para ele seria exatamente o contrário: a Natureza teria já preparado os homens para querer viver juntos. As diferenças entre eles (resumidas no par fracos e fortes) não eram obstáculos, pelo contrário, um atraía o outro pelo desejo amoroso: a criança se afasta do corpo da mãe ou da nutriz para brincar com a outra criança de sua idade; a mulher ama o homem porque ele é mais forte e a protege; a criança ama o amigo porque ele é superior, seja na força, seja na capacidade intelectual. Assim, o anseio mais caro do amor é se tornar igual; seu medo é continuar superior, conservar vantagem sobre o outro.15 Para Michelet a desigualdade não é um problema; ela é uma realidade natural que o amor, também uma força natural, transforma em harmonia, equilíbrio, bem estar e felicidade. Retomando Aristóteles, ele diz que a Cidade ideal não é feita com iguais, mas diferentes, porém harmonizados pelo amor, dia a dia mais parecidos. A democracia é o amor na Cidade, e a iniciação.16

Segundo esta interpretação das diferenças e do papel harmonizador do amor, este teria ainda um outro efeito muito apreciado por Michelet, numa retomada das idéias de Rousseau: os fracos são favorecidos pelos fortes através do amor e assim se inverte a posição, pois os mais fracos se tornam os primeiros, como as crianças e as mulheres, seres fracos que passam a ser o objeto do amor e da proteção dos fortes maridos e pais. É a Natureza estabelecendo a paz, a harmonia e a felicidade nesta ordem amorosa na qual as diferenças e as desigualdades são mantidas, mas invertidas, exercitando a capacidade moral dos fortes para a proteção, numa iniciação amorosa.

Sem poder me demorar mais nesta análise gostaria, contudo, de ressaltar a moral do sacrifício presente nesta idéia de iniciação amorosa e também a noção de expansão sentimental que aglutina a família e a pátria. O sacrifício do forte em favor do fraco; o sacrifício do fraco, especialmente da mulher, como veremos, em favor do forte; o sacrifício do povo pela Mátria/Pátria, enfim todos se imolam no mesmo altar amoroso. Neste livro nota-se como Michelet articula esta idéia sacrificial com a história da sua família, na qual todos, especialmente suas tias maternas e sua mãe doente, se sacrificaram por ele, por seu futuro, por um ideal de superação e de aperfeiçoamento que Michelet mistura com a história do povo francês e da França. Estava ali apresentado o ideal de sociedade na qual o sacrifício e o amor se combinavam para formar um povo e uma nação.

O amor, o homem, a mulher

Há um intervalo de doze anos entre a publicação dos livros “O Povo” e “O Amor”. Michelet esteve muito ocupado com seus desafetos clericais e com a política, sendo afastado do Collège e de suas funções frente à seção histórica dos Arquivos por não ter jurado fidelidade ao Império de Napoleão III, tendo se imposto um auto-exílio a partir de 1852. Também teve dissabores na vida pessoal, pois seu filho com Athènäis faleceu um mês após o nascimento. Sua filha do primeiro casamento, Adèle, faleceu em 1855. Apesar de todos estes problemas esta foi uma época de febril produção. Seus livros de história natural são publicados nesta década, escritos em pareceria com Athènäis, que era uma mulher culta, com certificado de professora primária pela Universidade de Toulouse cuja educação fora muito bem cuidada por sua família de classe média alta.17

“O Amor” é um livro desconcertante, se comparado com “O Povo” ou mesmo com os outros dois livros que o antecederam. A crítica não deixou de notar esta diferença. “O Amor” é um livro que não é romance, não é ensaio filosófico ou moral, não é um manual de casamento. É um livro ousado porque mistura todos estes estilos numa armação naturalista e realista sobre o corpo, sexo e amor que chocou alguns espíritos mais sutis. Para a época o realismo naturalista era um estilo estético ainda pouco aprazível e só aceitável nas páginas secretas dos manuais de obstetrícia e de ginecologia.18 Michelet teve coragem de tratar este tema tão poético e literário a partir do realismo, embora não se possa dizer que o livro seja um exemplar do realismo, afinal Michelet mistura estilos, combina realismo com romantismo e introspecção. De qualquer forma, seus leitores mais sensíveis não deixaram de perceber esta virada realista.

Parece-me que este livro é um aprofundamento das questões colocadas no livro “O Povo”. Aqui o amor havia sido anunciado como um sentimento coletivo e harmonizador da Cidade do futuro. Contudo, Michelet precisava ser coerente com a sua definição natural de amor e no livro que dedica a este assunto ele procura traçar sua própria natureza e seu movimento irradiador para a sociedade e para a humanidade. O livro é todo construído a partir de um pensamento que se arquiteta por pares dicotômicos e pelo princípio da antítese. Segundo Lionel Gossman o texto micheletiano é sempre estruturado pela antítese, determinando a seleção dos elementos da análise e as suas variações e ligações. Gossman mostra como desde a “Introdução à História Universal”, de 1831, Michelet constrói sua análise a partir de pares dicotômicos como espírito/matéria; homem/natureza; ocidente/oriente; vales/desertos; seco/úmido; líquido/sólido; passivo/ativo; vida/morte e claro, homem/mulher.19 Esta forma de pensar e escrever através de pares dicotômicos é bastante revelador da maneira como Michelet constrói os significados e os organiza de tal forma que os pares sempre constituem uma diferença natural, irredutível, mas não irreconciliável, afinal o forte e o fraco, como mais acima exposto, não ocupam lugares fixos de dominação e subordinação, mas trocam seus significados e seu lugar na iniciação amorosa. Diferentemente de seus contemporâneos deterministas que viam nesta forma de classificação do mundo, das coisas e especialmente dos seres humanos uma oposição de natureza, de status e de destino, Michelet via as diferenças como complementares. Somente assim é possível entender o significado do seu livro sobre o amor, sem imputar-lhe um rótulo apressado e abusivo de misógino.

De maneira geral pode-se dizer que o livro se situa entre o ensaio naturalista, moral e a reflexão histórica. Ele foi escrito num estilo que mescla o ensaio informado pelas ciências naturais; os conhecimentos da medicina sobre o corpo e a sexualidade feminina; os dados estatísticos sobre casamento, óbitos, doenças e natalidade; as referências literárias e ensaísticas sobre casamento e amor. Tudo isto é entretecido por metáforas literárias, poéticas e religiosas e também pela imaginação do autor. Às vezes o texto parece ser de um romance, criando diálogos entre o casal amoroso, mesmo que eles não sejam denominados, como Emilio e Sophie. Outras vezes o texto assume a voz do narrador Michelet; em outras passagens é impessoal, como um relatório médico ou estatístico; às vezes assume claramente a forma do ensaio moral, com máximas e prescrições. Mas o que é muito característico deste livro é a referência subjetiva, a intensa experiência sexo-afetiva de Michelet e de Athénäis que costuram as páginas, que se imiscui aqui e ali no texto. Quando eles se casaram Michelet passou a relatar cada detalhe da vida conjugal e do seu ardor sexual pela jovem esposa. O casal teve muitas dificuldades para consumar o casamento. Michelet não entra em detalhes sobre a causa das dificuldades, mas parece ter sido uma causa ginecológica. Ela freqüentou médicos que procuraram resolver seus problemas, inclusive menstruais, e o apaixonado marido foi meticuloso neste sentido, registrando todos os sintomas e as consultas. Michelet demonstra neste livro sentir um tremendo abalo entre seus desejos sexuais intensos e ao mesmo tempo compaixão por sua amada e jovem esposa que não conseguia permitir o seu acesso nupcial ou que mesmo depois, quando o sexo já fazia parte da vida conjugal, continuava a sofrer com as doenças ginecológicas, vindo a perder o único filho que tiveram logo depois do parto. Michelet escreveu “O Amor” fortemente influenciado por estas duras e doces experiências sexuais e afetivas e ao que parece Athénäis exerceu forte influência na escrita do livro, como o fez nos outros referenciados acima.20

No entanto, não foi somente a vida amorosa do segundo casamento que foi revivida no seu livro sobre o amor. Michelet teve uma experiência sentimental e amorosa bastante conturbada e as figuras femininas obsedantes que pairam no texto micheletiano, seja ele o diário, sejam seus livros, são a mãe sacrificial e a amante inacessível e doente. As mulheres de Michelet são doentes e morrem cedo, um tópos muito recorrente na literatura, na poesia e na pintura romântica, cheias de noivas e amantes mortas e desfalecidas. Pode-se pensar num desejo interditado pela doença e pela morte, sintoma de uma organização das relações de gênero marcada pela oposição de dois mundos ou de duas espécies humanas, a masculina e a feminina. A imaginação artística e poético-literária procurou sublimar esta incomensurabilidade, mas o fez através de uma interdição ainda mais radical, a morte, encontrando um caminho para o desejo através do olhar contemplativo sobre o corpo desfalecido, ferido ou morto.

Michelet reitera este tópos, especialmente no seu livro sobre o amor. Parece tão contraditório que um livro que tenha sido elaborado para enaltecer o amor como elemento vital de continuidade e de transformação da humanidade revolva a cada página a morte, o sofrimento, a dor. Estes elementos compõem a visão naturalista (não esqueçamos dos males de Athénäis) e moral que ele tinha do amor. Não se pode esquecer que o pensamento micheletiano navega nas águas do sacrifício, da piedade pelos que sofrem, pois eles o fazem sempre em favor de alguém ou de alguma causa, não importa se grande ou pequena. No par fraco/forte da narrativa do amor, Michelet escreve para o forte, mas sua compaixão está com o fraco, pois dele depende a continuidade da vida e da história. Este ser fraco e doente que é a mulher (inclusive as mulheres da sua vida)21 é visto com muita condescendência por ele e já havia sido defendida nos seus curso do Collège e no livro odiado pelo clero francês, O padre, a família, a mulher (1845), no qual critica duramente o que ele considerava uma nefasta influência dos padres na vida conjugal enquanto diretores de consciência das mulheres. Para Michelet, sem esta influência as mulheres poderiam melhor cumprir sua função natural de gerar e dar à luz a crianças que garantiriam a força da França.

Ainda é preciso lembrar de outra referência a respeito desta visão tão particular sobre o amor: as leituras que Michelet fez sobre a Índia. Quando escreveu a “Introdução à História Universal” ele associou a Índia aos primórdios da humanidade e à época do predomínio das forças da Natureza sobre o homem. Já ao escrever “O Povo” ele mudou de opinião ao ler os poemas épicos Mahabharat e Ramayan, dizendo que a Índia era o grande rio de leite que corre do Oriente para o Ocidente, alimentando os homens com a compaixão, a humildade, a piedade, todos sentimentos que Michelet acreditava que deveriam predominar na Cidade do futuro. Suas leituras sobre a Índia confirmam suas idéias sobre o amor, o sacrifício e a justiça como os fundamentos da vida social cujo aprendizado começava no casamento e no amor vivido pelo homem e a mulher.

Não é meu objetivo resumir este complexo livro, mas gostaria de salientar algumas questões que são indicativas da forma como Michelet construiu seus argumentos a respeito da relação entre o amor, a vida social e a história. Ele começa o livro pintando um quadro muito pessimista a respeito da vida social e afetiva da sua época. Declínio dos casamentos, abandono das mulheres enganadas pelos pérfidos egoístas que não as viam senão para satisfazer seus instintos animais; crescimento do número de suicidas mulheres em Paris, tudo parecia apontar para uma profunda crise moral e social que requeria ação e mudança. Michelet parte do princípio que é preciso reformar a sociedade, mais ainda, transformá-la, não só pela revolução, mas pelo amor, a única transformação verdadeira. Para tanto seria preciso observar lá onde o amor nasce, cresce, frutifica, para então entender como ele se expande para a sociedade.

Michelet define que o objeto do amor é a mulher, esta desconhecida que começava a ser revelada pela luz da ciência e da medicina. Falar do amor é falar da mulher, diz nosso autor. Contudo, sua natureza tão peculiar pela fragilidade e pelo sofrimento físico imposto pelo útero sangrento, requer que ela seja protegida, cuidada, adorada, pois na sua fraqueza reside o mistério da vida e da continuidade humana. É dever do mais forte, o homem, encontrá-la e libertá-la e este encontro Michelet denomina de criação do objeto amoroso. Como Perseu, o marido deve libertar a sua esposa Andrômeda das correntes da ignorância (da mãe, do padre, das superstições tolas de amigas e primas) e da própria Natureza, conhecendo seus fluxos, seus ritmos naturais, suas necessidades mal compreendidas pela Igreja e pelos filósofos do passado obscurantista. A libertação a que faz menção não tem nenhuma relação com a autonomia do pensamento ou dos direitos de cidadania. Este é um terreno masculino e Michelet não imagina como um ser fraco e ferido pela Natureza (não esqueçamos do útero sangrento) poderia sobreviver aos impulsos constantes da vida competitiva no mundo dos fortes. A libertação é um ato passivo para a mulher. Quem age é o homem que pelo amor a traz para seu lar, que cuida dela, como se cuida de um pássaro, de uma flor bela e frágil, que conhece seus sofrimentos e suas dores periódicas porque é um homem informado dos conhecimentos médicos.22 Ele a liberta para a eternidade, pois Michelet afirma que nada é mais estranho e ameaçador para a mulher do que a mudança. Ela é o elemento fixo e o homem cria um lugar fixo para ela reinar absoluta: seu lar. Ali ele a constrói como sua estrela, sua filha, sua mãe, sua amada.

O casal amoroso é complementar em tudo, da natureza dos corpos, aos gostos alimentares; das suas funções no mundo aos seus gostos. Se ela é fraca, ele é forte; se ele é carnívoro, ela é frugívera; ele sai para o mundo; ela fica cuidando do jardim; ele ganha a vida no mundo dos negócios e na bolsa de valores, ela faz a vida no seu ventre. É somente com a gravidez e o parto que este ser tão frágil e doente vence o forte, pois ela dá à luz, algo misterioso e divino que o forte não pode fazer.

Para Michelet esta experiência natural, física, emocional e moral que é o amor no casamento constituía o fundamento de vida social e do devir histórico. Entretecendo sua própria vida sentimental com estas descrições de sangue, amor e compaixão, o autor não havia traçado um idílio burguês isolado do mundo. Ele tem consciência que sua descrição da casa e do amor conjugal poderia levar alguns a pensar que ele estava defendendo uma vida reclusa e afastada do mundo. Mas não é isto que Michelet defendia. O afastamento da casa e da esposa era tão somente para protegê-las dos intrusos e dos maledicentes. A partir desta unidade natural/moral que é o casal e a família que vão constituir com os frutos do casamento, Michelet vislumbra os fundamentos da nova sociedade.

Sua utopia amorosa se desenha, portanto, a partir de um princípio romântico de unidade, mas diferentemente dos escritores utópicos, ele não projeta uma sociedade a partir de suas instituições políticas, nem da organização do trabalho e da ausência da propriedade. O projeto do que ele denomina de Cidade do futuro tem seus pilares fincados no casal, em Perseu e Andrômeda, no masculino e do feminino, no forte e do fraco, ativo e passivo, que complementares e unidos pelo amor hão de irradiá-lo para a humanidade. No último capítulo do livro “O Povo” Michelet diz que a educação deve se pautar na simplicidade para que possa produzir uma impressão forte na criança e daí criar o homem e a vida do coração. Vejamos como Michelet almeja esta unidade:



Que a mãe tome a criança e a conduza a um jardim e a beije...e ternamente lhe diga: ‘Tu me amas, só a mim conheces... Mas escuta, não sou tudo. Tens outra mãe... Temos uma mãe comum, todos nós, homens, mulheres, crianças, animais, plantas, tudo o que vive, uma mãe terna que nos alimenta sempre, invisível e presente. Amemo-la, querido filho, abracemo-la de coração. 23

Outro dia é a vez do pai tomar para si a condução da criança e ele vai levá-la para a festa pública na qual se encontra com a multidão de Paris:



Vê, meu filhinho, eis a França, eis a Pátria! Tudo isso é como se fosse um homem só. A mesma alma, o mesmo coração. Todos morreriam por um; e cada um deve também viver e morrer por todos. Os que lá embaixo passam armados vão combater por nós. Estão deixando o pai; a velha mãe, que precisam deles... Tu farás o mesmo, jamais esquecerás que tua mãe é a França. 24

O nacionalismo romântico de Michelet se expressa através do ritual amoroso que iniciou com o casal. Este se separa nos seus deveres com a pequena criança. A mãe o inicia no jardim da mãe natureza, mostrando que o amor é uma força natural que a tudo abriga e une. Segundo Michelet este dia ficará gravado no seu coração para sempre. Em seguida é o pai quem conduz a criança para fora do jardim, para o mundo público da confraternização e da festa onde tremula a bandeira tricolor da revolução, da França. Ali ele aprende que o amor natural tomou outra cor e dimensão, e que todos são os filhos da Mátria, esta que surge em sonhos como uma jovem mãe adorada ou uma nutriz robusta que nos aleita aos milhões.25

Fecha-se assim o ciclo: da divindade para a humanidade e desta para a divindade recriada na religião do amor pela Pátria-mãe dadivosa. Eis a sua utopia amorosa, fundada na natureza e na moral; na idealização do casal amoroso cujo sentimento inunda não só os seus corações, mas a sociedade, transformando-a numa grande família na qual o amor e a justiça hão de unir a todos.

Estes dois livros aqui analisados sumariamente podem nos colocar muitas questões. Primeiro a ausência de um sentido linear na construção dos argumentos e nas análises elaboradas pelo autor. Ele transita por diferentes domínios e referências. Nada lhe é estranho, só os excessos e a atitude seca e desinteressada dos “sutis”, como ele denomina os filósofos racionalistas. Segundo porque seu texto se alimenta de fontes diferentes, da história, dos mitos, da poesia e das artes, mas principalmente da vida, da vida afetiva que teve com as mulheres e por aquela que só ficou no sonho e na imaginação. Outra questão importante diz respeito à construção de seu texto. Para um historiador do século XIX Michelet foi audacioso ao misturar estilos, ao ornamentar seu texto com metáforas mais apropriadas na época ao texto literário ou à poesia. E por fim, como já disse anteriormente, reafirmo que a utopia amorosa de Michelet nos coloca frente ao exercício estimulante de pensar como historicamente se entretecem as relações entre o plano dos afetos e dos sentimentos, parte constitutiva das subjetividades, e o plano da racionalidade, dos projetos políticos e sociais, vislumbrados por Michelet na sociedade harmonizada pelo amor.






1 Refiro-me aos livros “O Povo” (1846), “O Amor” (1858), “A Mulher” (1859) e “A Feiticeira” (1862).

2 Sobre a construção da profissão histórica no século XIX ver SMITH, Bonnie. Gênero e História: homens, mulheres e a prática histórica. Bauru: EDUSC, 2003.

3 Sem poder agora me aprofundar nesta questão, Michelet foi obcecado pela figura materna. Seus amores juvenis e de homem adulto envolveram mulheres mais velhas do que ele, a começar por Pauline Rousseau, sua primeira esposa, sete anos mais velha, e seu segundo amor, Mme. Dumesnil, o “anjo branco”. É importante ressaltar que estes amores que remetem à mãe de Michelet estão dramaticamente associados à morte. Athénäis rompeu com este círculo de mulheres mais velhas e abriu outro com o qual ele parecia se deliciar, o incesto, que a julgar pelas anotações de seu diário, fazia parte dos jogos eróticos do casal que se tratava como pai e filha.

4 Não incluo nesta discussão a definição sensualista e física do amor, muito presente nos autores clássicos, em especial Ovídio, tão lido e comentado na era cristã e presente nas bibliotecas dos mosteiros medievais, nas vilas dos grandes senhores renascentistas e nas cortes monárquicas, para delícia e diversão de seus leitores. OVÍDIO. A arte de amar. Lisboa: Europa-América, 1998.

5 A complexa definição filosófica do amor elaborada por Ficino está no livro De amore. Comentário a “El Banquete”de Platón, publicada em 1469.

6 Já desenvolvi este tópico de maneira mais elaborada no texto “Tratados de Amor: uma análise da inserção de Tullia D’Aragona (1547) na tradição filográfica do Renascimento Italiano.” Disponível em

http://www.poshistoria.ufpr.br/fonteshist/AnaPaula_Martins.pdf




7 Sobre este tema ver DENIS, Delphine e SPICA, Anne-Elisabeth (orgs.). Madeleine de Scudéry: une femme de lettres au XVII siècle. Paris: Artois Presses Université, 2002.

HAASE-DUBOSC, Danielle. “Intellectuelles, femmes d’espirit et femmes savantes au XVIIe siècle”. In : RACINE, Nicole e TREBITSCH, Michel (orgs.). Intellectuelles: du genre en histoire des intellectuels. Bruxelas: Complexe, 2004. pp. 57-72.




8 VINCENT-BUFFAULT, Anne. História das lágrimas.

9 Refiro-me aos romances “Júlia ou a Nova Heloísa”, de Jean-Jacques Rousseau (1761) e “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Johan Wolfgan von Goethe (1774).

10 Na classificação proposta por Fourier para a organização da Sociedade Harmoniosa as paixões são divididas em 12 categorias, sendo 3 delas denominadas de paixões distributivas: a cabalística, a compósita e a borboleteante. Esta seria o amor pela variedade, numa atitude abertamente contrária à divisão social do trabalho. Ver FOURIER, Charles. O novo mundo amoroso.

11 Esta mesma atitude de observação e de inserção se nota nos estudos sobre a natureza. Michelet publicou alguns livros de história natural, mas o método é o mesmo, ou seja, não só observar a natureza de maneira distanciada, mas sentir seus ritmos, permitir-se ao afeto, às emoções e não só à observação fria e distanciada da descrição pormenorizada. Boa parte destas obras foi escrita junto com a sua segunda esposa Athénäis.

12 Apud. VILLANEIX, Paul. Prefácio. MICHELET, Jules. O Povo. São Paulo: Martins Fontes, 1988. p.XLII.

13 Ver “A Edgar Quinet”, prefácio do livro “O Povo”, a crítica que Michelet faz aos escritores franceses e à representação distorcida, segundo ele, do povo.

14 P.9

15 P.175.

16 P.176.

17 Por ordem cronológica os livros publicados são: “O Pássaro”(1856); “O Inseto”(1857); “O Amor”(1858); “A Mulher”(1859); “O Mar”(1861); “A Montanha”(1868).

18 Sobre esta discussão ver meu texto “Imagens secretas: o espetáculo das imagens científicas do corpo feminino nos livros de obstetrícia.” In PELEGRINI, Sandra & ZANIRATO, Silvia Helena. (org.) Dimensões da imagem. Interfaces teóricas e metodológicas. Maringá: Editora da Universidade Estadual de Maringá, 2005. 99-120.

19 GOSSMAN, Lionel. “The go-between: Jules Michelet, 1798-1874.” In MLN

20 Athénäis mereceria um estudo mais aprofundado. Ela foi muito interessada por história natural e se correspondeu durante dois anos com Charles Darwin. Publicou livros e foi parceira de seu marido em alguns de seus livros, sendo este trabalho reconhecido por Michelet. Sobre ela ver o verbete no dicionário organizado por OGILVIE, Marilyn B. & HARVEY, Joy D. The biographical dictionary of women in science. New York: Routeledge, 2000.

21 É importante salientar que a mulher só é fraca fisicamente para Michelet, e não como acreditavam os misóginos de então que defendiam ser a mulher naturalmente inferior, tanto física como moralmente. Para Michelet as mulheres são seres forjados na dor e no sacrifício, portanto de elevada moralidade.

22 Michelet diz que os maridos deviam ler os livros de obstetrícia, especialmente para entender o sofrimento que das mulheres e seu sacrifício para dar à luz.

23 P.223.

24 P. 224.

25 Comentário na nota 1 do quarto capítulo da última parte. P.198.



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