A viagem da quaresma



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A VIAGEM DA QUARESMA

Por Pe. Alexander Schmemman

É importante voltar agora à ideia da Quaresma como peregrinação espiritual, cujo sentido é de nos transferir de um estado espiritual a outro. Muitos ignoram esse objetivo e consideram a Quaresma apenas um período onde se é “obrigatório” cumprir um “dever” religioso (a comunhão anual) e onde há restrições alimentares. Muitos leigos e padres adotam essa visão simplista, e é vigente cumprir a restauração litúrgica e espiritual da Quaresma. Para isso, importa haver uma compreensão autêntica do ritmo e da estrutura desse tempo.

No começo da Quaresma, como para inaugurá-la, encontramos o grande “Cânone Penitencial de Santo André de Creta”, como o diapasão que dará o tom a toda a melodia. Dividido em quatro partes, ele é lido nas grandes Completas, na noite dos quatro primeiros dias da Quaresma. O melhor que pode se dizer, é que ele é como uma lamentação penitencial, que nos dá a extensão e a profundidade do pecado, e que sacode a alma de desespero, arrependimento e esperança. Com uma arte excepcional, Santo André entremeia a confissão dos pecados e o arrependimento com os grandes temas bíblicos: Adão e Eva, o Paraíso e a Queda, os Patriarcas, Noé e o Dilúvio, Davi, a Terra Prometida e finalmente Cristo e a Igreja. Os acontecimentos da historia sagrada se revelam como acontecimentos da minha vida; os gestos de Deus no passado, como atos que a mim dizem respeito, a mim e á minha salvação; a tragédia do pecado e a traição, como minha tragédia pessoal. Minha vida é mostrada como fazendo parte desta luta gigantesca e universal entre Deus e as potências das trevas que se revoltam contra Ele.

O Cânone começa por essa nota profundamente pessoal:

Por onde começarei a deplorar as ações da minha vida deplorável, ó Cristo? Quais serão os primeiros tons deste cântico de dor?...”

Um após outro, os pecados se revelam em sua relação profunda com o persistente drama da relação do homem com Deus; a história da queda do homem é a minha história:

...manchei a vestimenta da minha carne, sujei a imagem e a semelhança de Deus. ...deixei em trapos minha veste primitiva que me havia tecido, ó meu Criador, e desde então eis-me jazendo na nudez!...

Assim, durante quatro noites consecutivas as nove odes do Cânon recontam a história espiritual do mundo, que é também a minha história, cujo significado, no entanto, é eterno, porque toda alma humana - única e insubstituível - atravessa, por assim dizer, o mesmo drama e descobre a mesma realidade suprema.

Os exemplos escriturísticos são muito mais do que simples “alegorias”. A palavra “pecado” tem, na tradição bíblica e cristã, uma profundidade e densidade que o homem moderno é incapaz de compreender e, que faz da confissão de seus pecados algo muito diferente do verdadeiro arrependimento cristão. A cultura em que vivemos e que modela a nossa visão do mundo, exclui de fato a noção de pecado. Porque se o pecado é antes de tudo a queda do homem de uma “vocação elevada”, ou seja, a rejeição pelo homem desta “vocação elevada”; que significado terá o pecado no quadro de uma cultura que ignora ou nega essa “altura” e essa “vocação”? Que define o homem “por baixo”? Uma cultura que, mesmo quando não nega Deus abertamente é de fato totalmente materialista, ignorando a vocação transcendente do homem? Neste contexto, o pecado é visto como fraqueza natural, fruto de uma “inadequação” com raízes sociais e que pode ser eliminada por uma melhor organização econômica e social. Por isso que o homem moderno, mesmo quando confessa seus pecados, não se arrepende mais. Na forma que ele compreende a religião, ou ele enumera formalmente as transgressões, ou divide seus “problemas” com o confessor, esperando da religião um tratamento terapêutico. Mas em nenhum caso o arrependimento é o choque que o homem toma ao ver em si mesmo “a imagem da glória inefável”, apercebendo-se que a sujou, rejeitou-a e traiu-a na sua vida; em nenhum caso, trata-se de um lamento que soa no mais profundo da consciência humana; em nenhum caso é um desejo de retorno, um abandono ao amor e à misericórdia de Deus. Assim, não basta dizer “eu pequei”; esta confissão só tem sentido se o pecado compreendido e vivido em toda sua profundidade e tristeza.

É justamente o papel de o Grande Cânone revelar-nos o pecado e conduzir-nos, assim, ao arrependimento; e isso não por definições e enumerações, mas numa profunda meditação na história bíblica que é, de fato, a história do pecado, do arrependimento e do perdão. Essa meditação nos introduz num mundo espiritual diferente; propõe-nos outra visão do homem, de sua vida, objetivos e motivações. Ela restabelece em nós a armadura espiritual fundamental, no interior da qual o arrependimento torna-se novamente possível. Quando escutamos:

Não imitei a justiça de Abel, ó Jesus! E não te ofereci dons agradáveis, nem obra alguma que fosse de Deus, nem sacrifícios puros, nem uma vida irrepreensível...”

Compreendemos que a historia do primeiro sacrifício nos revela algo essencial sobre nossa própria vida e sobre o próprio homem. Compreendemos que o pecado é antes de tudo a recusa da vida enquanto oferenda e sacrifício a Deus ou, em outras palavras, a recusa da orientação divina da vida; compreendemos que o pecado é, então, em suas raízes, o desvio de nosso amor para longe de seu Fim supremo. É essa revelação que nos permite então dizer:




“Enchendo de vida o pó, tu me concedeste, ó Criador,

Carne e ossos e Tu me animaste de um sopro de vida!

Hoje, meu Redentor e meu Juiz, aceita minha penitência.”

Para se entender bem o Grande Cânone, é preciso ter uma certa compreensão das Santas Escrituras, que não somente transmite-nos os ensinamentos bíblicos, mas justamente nos revela o modo bíblico de viver. Se hoje em dia muitos a acham chata e sem interesse, é porque sua fé não é alimentada pela fonte das Santas Escrituras que, para os Padres da Igreja, era a fonte da fé. Devemos reaprender a penetrar no mundo tal como a Bíblia o revela, e também reaprender como viver nele; e não há melhor via para isso do que a Liturgia da Igreja.



A viagem da Quaresma começa então por um retorno ao “Ponto de Partida”; o mundo da Criação, da Queda e da Redenção, o mundo no qual todos os fatos existem com relação a Deus e onde o homem encontra a verdadeira dimensão de sua vida, e tendo-a encontrado, arrepende-se.



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