A vida como ela é



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A vida como ela é...”: proximidades e distinções na produção jornalística da década de 50
Autor: PARENTE, Tiago Coutinho – Estudante de Graduação da Universidade de Fortaleza – Unifor - CE
Resumo:

Este artigo, resultado parcial de meu trabalho de conclusão de curso, tem como tema central apresentar uma análise do conteúdo da coluna “A vida como ela é...”, de Nelson Rodrigues, publicada no jornal Última Hora, entre os anos 1951 e 1961. O fato de a coluna contrastar, em parte, com a lógica de produção jornalística proposta no período é o que reforça seu estudo para a compreensão das nuances históricas que circunscrevem a prática jornalística. Na década de 50, o Brasil, influenciado pela lógica estadunidense de produção jornalística, implementa o lide, a objetividade e a produção industrial como matrizes do jornalismo. O Última Hora, herança do Diário Carioca, segue esta linha editorial. No entanto, a coluna “A vida como ela é...”, construída em forma de crônica, quebra a objetividade proposta, apesar de se inserir ainda na lógica da produção industrial. O artigo analisa, sob a vertente dos Estudos Culturais, as relações do período histórico da coluna com o conteúdo por ela apresentado. Toma-se, como exemplo genérico das crônicas, o texto “A dama do lotação”, no qual podemos detectar elementos da cidade moderna da década de cinqüenta, envoltos em conflitos amorosos e inusitados - temática tão cara na obra rodriguiana.


Palavras-chaves: Crônica; Jornalismo; Nelson Rodrigues.
Brasil, década de 50. Após a II Guerra Mundial, os Estados Unidos, país vitorioso do conflito, começam a proliferar parte de seu capital pelos países da América Latina, a fim de conseguir extensão político-econômica. O Brasil havia apoiado a tropa dos Aliados e recebia abertamente interferências dos Estados Unidos. Dentre elas, nos interessa saber do amplo investimento na imprensa nacional. Afinal, havia se iniciado, neste mesmo período, a Guerra Fria. Havia um amplo interesse de repercutir o conflito e de disseminar o imperialismo estadunidense. No Brasil, em 1946, o Estado sancionou uma lei com a proibição do investimento estrangeiro na imprensa nacional. No entanto, era totalmente inócua, pois o capital estrangeiro burlava a ordem por meio de anúncios publicitários, permitindo injeção de grandes valores (Sodré, 1966).

Nesse período, não é de se estranhar o posicionamento da imprensa brasileira, que se voltou todo para o liberalismo, apoiando a abertura das fronteiras nacionais ao mercado externo. Afinal, como relata Samuel Wainer em suas memórias,

nos anos 50, a imprensa brasileira tinha como anunciante [brasileiro], basicamente, pequenos comerciantes – a indústria nacional não alcançara sua maioridade, e tampouco havia grupos financeiros de grande porte. Como os recursos obtidos com as vendas em bancas e assinaturas eram insuficientes, os meios de comunicação precisavam valer-se de outras fontes de renda, utilizando como moeda de troca seu peso junto à opinião pública (Wainer, 2000: 224).

No mesmo período, houve descobertas de indícios de pequenas reservas petrolíferas brasileiras. Nesse momento, o capital estrangeiro iniciava uma campanha para a internacionalização do combustível, alegando não haver quantidade suficiente no Brasil para a nação se preocupar com empresas de exploração petrolífera. No entanto, após descoberto reservas brasileiras, mudou-se o discurso internacional. Agora, dizia-se que o Brasil não possuía condições financeiras para investimentos exploratórios, portanto deveria entregar ao capital externo a exploração do petróleo brasileiro.

Toda a imprensa nacional defendia este posicionamento. Apesar da situação imprópria para o discurso nacionalista, Getúlio Vargas conseguiu se eleger presidente do país com o apoio de vários setores da burguesia. E, se antes, durante o Estado Novo, “o nacionalismo de Getúlio Vargas era um nacionalismo confuso, às vezes primário. Agora, não: ele voltara ao poder decidido a percorrer um caminho traçado com clareza na solidão da fronteira gaúcha” (Wainer, 2002: 124). Ele sabia, no entanto, das dificuldades de manter o discurso com o qual havia sido eleito caso não houvesse apoio da mídia. A solução seria ter a imprensa do seu lado, mas
Vargas não tinha condições, pelas mudanças dos tempos, para subornar a grande imprensa, como se fizera antes no Brasil. (...) Mas já era rotina a abertura de generosos créditos a empresas jornalísticas, nos estabelecimentos bancários e previdenciários do Estado. Vargas julgou que esse caminho, largamente batido, lhe permitiria ter pelo menos um órgão oficioso, de base popular, capaz de permiti-lhe enfrentar a maciça frente dos jornais controlados pelas agências estrangeiras de publicidade. Foi assim que vultuosos e rápidos créditos possibilitaram, em 1951, a Samuel Wainer fundar o vespertino Última Hora, que logo conquistou lugar de destaque na imprensa carioca e brasileira (Sodré, 1966: 457-458).

A “Última Hora”, sob o comando de Wainer, com a sua origem extremamente atrelada a Getúlio, surgia com o interesse de “romper com a formação oligárquica da imprensa brasileira e dar início a um tipo de imprensa popular e independente (...) e pretendia ser, portanto, um jornal de oposição à classe dirigente e a favor de um governo que, em última análise, representava a tendência popular” (LEAL). Seu slogan de inauguração fora: “um jornal vibrante, uma arma do povo”.

Samuel Wainer, munido de um alto investimento financeiro privado, por meio de empréstimos, alguns ilegais, convidou diversos jornalistas famosos do Rio de Janeiro e ofereceu a eles o triplo do salário comum da época. O jornal tinha a perspectiva de ser de massa e trazia como novidades as cores na primeira página e amplas fotos. Entre os grandes nomes da “Última Hora”, estava, locado para a editoria de esporte, Nelson Rodrigues. Trataremos dele mais à frente.

A linha editorial seguia um estilo que consideramos hoje o de um jornal popular, que se propõe a ser defensor do povo. Qualquer semelhança com o título “pai dos pobres” apregoado a Vargas não se mostra apenas como mera coincidência. Entre as novidades editoriais, havia grande quantidade de colunistas e a abordagem de assuntos habitualmente desprezados pelos demais jornais: esporte e polícia. A “Última Hora” dava

espaço aos temas, preocupações e aspirações populares fazendo valer a imagem de ‘defensor do povo’. Esta imagem foi, para este jornal, o seu patrimônio mais precioso – ainda que não fosse exclusividade dele, pois, com maior ou menor intensidade, outros periódicos também posaram como ‘advogados’ das classes populares (Siqueira, 2003).

Na continuidade da linha da “defesa do povo”, o “Última Hora” implementou os “tribunais populares”, tendo como principal objetivo julgar os crimes econômicos cometidos contra o povo, onde, em júris simulados, eles discutiam os preços abusivos da época.

Marcado por esses elementos popularescos na sua linha editorial, sempre com muitas notícias de mortes e esportes, o “Última Hora” compra o parque gráfico do extinto jornal “Diário Carioca”, falido em 1949, e herda algumas características estruturais. O “Diário Carioca” entrou para a história da imprensa brasileira por ter implementado a técnica da objetividade estadunidense de se produzir jornalismo.

Ruy Castro, autor da biografia de Nelson Rodrigues, conta que “ninguém mais podia ser literato na redação, a não ser em textos assinados, e olhe lá” (Castro, 1992: 231). Houve então a incorporação, nas reportagens do “Diário Carioca”, da objetividade. Seria necessário trazer nas primeiras linhas o lide, respondendo às básicas e conhecidas perguntas quem, quando, onde, por que e como.

Outros elementos foram incorporados às lógicas das redações juntamente com o lead. A função de copy-desk foi criada no sentido de colocar na redação um revisor que serviria justamente para fiscalizar a chamada objetividade jornalística, ou, nas palavras de Nelson Rodrigues, esfriar a notícia. Esses elementos da “modernização do jornal”, ocorridos no início da década de 50, marcam também a transição da imprensa brasileira artesanal para um jornal de escala industrial e, segundo Werneck Sodré, de caráter burguês, financiado, muitas vezes, pelo capital estrangeiro. Sodré fala que o objetivo era transformar o jornal em um produto de longo alcance, com larga escala e, principalmente, com fim comercial, expandindo ao máximo suas fronteiras econômicas.

A empresa jornalística, mesmo tomada isoladamente, tem já dimensões e complexidades tais que o capital para montá-la está ao alcance de poucos. No Brasil, por isso, desapareceu a pequena imprensa; só a grande existe. (...) As empresas existentes, por sua vez, ampliam-se e incorporam revistas, emissoras de rádio e de televisão. Em alguns casos, transcendem o campo específico e integram indústrias mais diversas (Sodré, 1966: 447).

Com a mesma lógica encontramos a “Última Hora”. Logo na sua trajetória inicial, o periódico conseguiu atingir tiragens extremamente elevadas, chegando a 45 mil exemplares nos dias úteis e a 70 mil aos domingos (Sodré, 1966). Obviamente há a facilidade explicita de o “Último Hora” herdar toda a estrutura do “Diário Carioca”. Hoje, nenhum dos dois maiores jornais do Ceará consegue o mesmo. Portanto, podemos compreender a dimensão de alcance do “Última Hora”.

Mesmo com a moda da objetividade e da produção jornalista em larga escala, Samuel Wainer tenta ousar e propõe a Nelson Rodrigues uma coluna diária com a temática popular, voltada para temáticas do cotidiano ou policiais, onde ele faria o trabalho de repórter e poderia escrever um texto narrativo. Surgia então, a coluna “A vida como ela é...”. Nelson passou a escrever suas primeiras notícias. Chegou mesmo a apurar os fatos e a produzir textos que fugissem da lógica da “objetividade”. Depois, ele mesmo passou a inventar as histórias (Castro, 1992).

Samuel Wainer descobriu tarde as invenções de Nelson, a coluna já era sucesso no Rio de Janeiro, comentada em todos os botequins. Havia, no entanto, uma ambigüidade no público. Por fugir das técnicas jornalísticas, sempre era colocado em xeque se as histórias contadas partiam ou não da realidade. No começo, a coluna se apresentava muito trágica, mórbida, com muitas desgraças contextualizadas fora da cidade do Rio de Janeiro. Depois, a pedido dos leitores, passou a relatar em “A vida como ela é...” a capital carioca, pois

os jornais precisam ter o sotaque de suas cidades e Nelson não demoraria a abrir os olhos para o filão da ambivalência. (...) com um fascinante elenco de jovens desempregados, comerciários e “barnabés”, tendo como cenário a Zona Norte, onde eles viviam; o Centro, onde trabalhavam; e, esporadicamente, a Zona Sul, aonde só iam para prevaricar (Castro, 1992: 237) .

O sucesso dos textos de Nelson se dava principalmente pela temática. Ele apresentava os elementos da sexualidade urbana carioca sem nenhum constrangimento. A temática mais recorrente, sem dúvida alguma, era o adultério. Porém outros pontos apareciam com constância: crimes passionais, suicídios, homossexualidade, conflitos familiares, triângulos amorosos.

Castro (1992) acredita que o sucessso da coluna se dava porque havia toda uma narrativa em cima da culpa e da repressão. A característica da repressão nos faz lembrar da idéia de gênese da malandragem trazida por DaMatta (1984). Para ele, o Brasil se configura como

um país onde a lei sempre significa o ‘não pode!’ formal, capaz de tirar todos os prazeres e desmanchar todos os projetos de iniciativas. De fato, é alarmante constatar que a legislação diária do Brasil é uma regulamentação do ‘não pode’, a palavra ‘não’ que submete o cidadão ao Estado sendo usada de forma geral e constante (DaMatta, 1984: 98). As proibições, continuando na linha de raciocínio do autor, fazem parte do mundo da rua, diferente do mundo de casa. DaMatta trabalha os termos casa e rua “como duas ‘categorias sociológicas’ fundamentais para a compreensão da sociedade brasileira de uma maneira globalizada” (DaMatta, 1997: 14).

Para o autor,

...estas palavras designam, acima de tudo, entidades morais, esferas de ação social, províncias éticas dotadas de positividade, domínios culturais institucionalizados e, por causa disso, capazes de despertar emoções, reações, leis, orações, músicas e imagens esteticamente emolduradas e inspiradas (DaMatta, 1997: 15).

Desta forma, o conflito entre o mundo da casa e o mundo da rua estão presentes constantemente nas histórias contadas por Nelson Rodrigues, em “A vida como ela é...”. O mundo da casa, segundo o antropólogo, “demarca um espaço definitivamente amoroso, onde a harmonia deve reinar sobre confusão, a competição e a desordem” (DaMatta,1984: 27). Estes últimos elementos estão presentes principalmente no mundo da rua, onde há o discurso da lei do Estado e do anonimato.

Nelson Rodrigues apresenta em seu texto esse conflito dos personagens de não conseguirem perceber as fronteiras entre a casa e a rua. Assim, o universo familiar, escondido nas paredes da casa, passa a ser mostrado, por meio de sua coluna, no espaço público, ou seja, na rua. Apesar de bastante lida e com longa duração (dez anos), “A vida como ela é...” rendeu a Nelson a fama de “tarado” e de que as experiências apresentadas seriam, quase todas, pessoais. Vale lembrar que estamos lidando no contexto de um Rio de Janeiro na década de 50, quando não havia motéis, nem pílulas, nem a liberdade sexual a qual gozamos hoje. As famílias mantinham laços fortes e rigorosos, além de morar, na mesma casa, um número variado de parentes: maridos, cunhadas, sogras, tias e primas.

Em colunas diárias, Nelson contava histórias banais de pessoas comuns e populares. Hélio Pellegrino o chamava de Homero do subúrbio, o Homero da cultura carioca. “Ele era um profundo conhecedor do subúrbio. Ele era um intérprete, ele era o porta-voz, ele era um deputado dessa realidade social. E ele conseguiu um coloquial. Conseguiu uma naturalidade da linguagem” (Pellegrino IN: Magaldi, 2003, p. 241). No entanto, as crônicas publicadas, dada a lógica do jornal, eram efêmeras e, por si só, já se bastavam, sem precisar de nenhuma atualização anterior. Sua principal intenção era entreter os leitores diariamente e garantir boas vendas.

As histórias contadas por Nelson Rodrigues tratavam de pessoas anônimas de um Rio de Janeiro que completava seu processo de urbanização iniciado no final do século XIX. Crônicas de personagens sem sobrenomes, geralmente com finais trágicos e/ou surpreendes. Como a do casal Solange e Carlinhos. Este, desconfiado da fidelidade da esposa, pede a ajuda do pai para saber como se comportar diante da desconfiança. O pai o julga um tolo: “mas você está maluco? Que cretinice é essa? (...) Imagine! Duvidar de Solange!” (Rodrigues, 1992: 219). Mesmo com os conselhos do pai, Carlinhos ressalta a possibilidade de assassinar a esposa, caso se confirme a sua condição de corno.

Mas Carlinhos estava certo. O fato se consumara quando descobrira a relação de Solange com Assunção, o melhor amigo de Carlinhos. Ao intercalar a esposa sobre o amigo, ela nega tudo. No jogo de encenações, ele inventa ter colocado um detetive a sua procura e saber todo o seu paradeiro. De revólver em punho afirma “Vou matar esse cachorro do Assunção!”. Solange clama “Não! Ele não! (...) Ele não foi o único! Há outros!” (Rodrigues, 1992: 221-222). A mulher então confessa ter traído Carlinhos com, pelo menos, metade do Rio de Janeiro. Todas as tardes, Solange pegava o lotação e encontrava um parceiro sexual. Isso virou sua rotina diária. Diante da impossibilidade da vingança da metade do Rio de Janeiro, Carlinhos, deitado na cama, apesar de vivo biologicamente, anuncia “Morri para o mundo”. O cidadão fica deitado na cama sem comer, sem beber, sem se mexer. Enquanto isso, a esposa vela o corpo, mesmo estando vivo, mas não deixa de sair todas as tardes para o passeio “pecaminoso” de lotação. Um suicídio simbólico. Carlinhos, “em poucas palavras, faz-se do suicídio um ato de covardia, um crime contra as leis, a sociedade e a honra” (Marx, 2006: 26).

Eis o enredo do texto “A Dama do Lotação”, um dos mais famosos da coluna “A vida como ela é...”, transformado em película, em 1978, pelo diretor Neville D’Almeida. Por esta história, conseguimos, vagamente, perceber elementos de um Rio de Janeiro da década de 50. A presença da modernidade se faz representada principalmente pela existência do bonde. No entanto, o elemento do anonimato também ganha força, uma vez que Solange trai Carlinhos com pessoas desconhecidas, encontradas ao léu no lotação. A honra de Carlinhos fica comprometida, não podendo ele reafirmá-la. Afinal, são muitos e desconhecidos os que contribuíram para a sua “desonra”. Ele abdica, portanto, a sua vida, pois não consegue aceitar a condição de traído, mesmo que anonimamente na cidade.

O interessante, no entanto, é perceber que o suicídio de Carlinhos é simbólico e se dá dentro do ambiente da casa. Não chega à rua, pois “os suicídios, quando se tornam públicos, podem arruinar as famílias deixando-as para trás” (Marx, 2006: 56). Apesar de morto para o mundo e de Carlinhos ser um cidadão insignificante diante da metrópole que se consolida como o Rio de Janeiro, ele não torna a sua traição um fato público. Sua vergonha permanece no lado de casa, onde, apesar de tudo, encontra o amor e a proteção da esposa, que ora por ele diariamente, mesmo sem esta abandonar o espaço da rua. Essa dicotomia “casa/rua”, exemplificada aqui, permanecerá constante e com outras complexidades na coluna “A vida como ela é...”.

A nuança do conteúdo era de fundamental importância para a envergadura da coluna, sucesso no Rio de Janeiro. Mas outro elemento considerável dentro dos textos publicados por Nelson Rodrigues era a sua narrativa e o gênero da crônica. Essas características, como vimos, estavam cada vez mais escassas dentro da produção jornalística brasileira. Benjamim (1985), em seu artigo intitulado O Narrador, mostra as aproximações existentes entre o narrador e o cronista. Ele dizia:

E, no amplo espectro da crônica, todas as maneiras com que uma história pode ser narrada se estratificam como se fosse variações da mesma cor. O cronista é o narrador da história. (...) No narrador, o cronista conservou-se, transformado e por assim dizer secularizado (Benjamin, 1985: 209).

Não por acaso, Nelson Rodrigues elege a crônica como o gênero a dar maior destaque dentro dos jornais. Apesar de folhetinista, sua consolidação como intelectual no Brasil aconteceu principalmente através do teatro e da crônica. Na mídia impressa, portanto, prevaleciam as crônicas. Outro elemento que faz com que Nelson seja considerado, neste trabalho, um narrador está que, nas palavras de Benjamin,

o grande narrador tem sempre suas raízes no povo, principalmente nas camadas artesanais. Contudo, assim como essas camadas abrangem o estrato camponês, marítimo e urbano, nos múltiplos estágios do seu desenvolvimento econômico e técnico, assim também se estratificam de múltiplas maneiras os conceitos em que o acervo de experiências dessas camadas se manifesta para nós (Benjamin, 1985: 214).

Nelson Rodrigues passeia pela Zona Norte do Rio de Janeiro, firmando suas raízes na urbanidade popular. Além disso, a crônica permite ao jornalista a elaboração artesanal do texto. Marcado pelo hibridismo e acolhedor de características tanto da atualidade, quanto da subjetividade, a crônica é assumida e, ao mesmo tempo, renegada pelo texto jornalístico e literário, ou uma mistura dos dois estilos. Independente da categoria a qual se encontra inserida, a crônica atua principalmente como relato histórico. Ela funciona “ora [como] relato histórico, ora [como] ficção literária, mas com o único objetivo de representar as relações dos homens com o tempo em que vivem” (Pereira, 2004: 17-18).

Grande parte dos estudos acadêmicos tenta apresentar um conceito que consiga discriminar e “resolver” a questão: “o que é crônica?”. Conceitos como “ensaio”, “folhetim”, “conto”, “notícia” e “reportagem” ajudam a dar um mínimo de entendimento do que vem a ser este gênero. José Marques de Melo (2002) lembra que

a proximidade da crônica em relação à literatura nem sempre lhe confere o mesmo status dos gêneros literários como o romance, o conto ou o poema. Tanto assim que Antônio Cândido não hesita em dizer que a crônica é a literatura ao ‘rés-do-chão’, um ‘gênero literário menor’ (...) se caracteriza pela ligeireza, pela superficialidade, pela simplicidade, pelo coloquialismo. E também pela efemeridade (Melo, 2002: 152).

Jorge de Sá (1987), em seu pequeno ensaio introdutório no assunto, tenta fazer a distinção entre a crônica e o conto. Para ele, a primeira parte dos pontos efêmeros e cabe, ao narrador, dar concretude ao fato. Desta forma, mesmo publicada nos jornais, caducando em menos de 24 horas, ela pode assegurar sua permanência. Sá delimita os dois conceitos. Enquanto

... o contista mergulha de ponta-cabeça na construção do personagem, do tempo, do espaço e da atmosfera que darão força ao fato “exemplar”, o cronista age de maneira mais solta, dando a impressão de que pretende apenas ficar na superfície de seus próprios comentários (Sá, 1987: 9).

O conto, ainda pela perspectiva de Sá, apresenta densidade da condição humana, sem atribuir valoração moral, enquanto a crônica é um registro de um narrador-repórter, a soma do jornalismo com a literatura e, por ser publicada em jornal, traz a tona elementos ideológicos do meio ao qual está veiculado.

Se um texto, por si só, possui elementos ideológicos, o que dizer, portanto, quando a publicação recorrer ao suporte jornal? Como vimos anteriormente, o conteúdo da coluna e o “Última Hora” eram comprometidos com a linha política de Getúlio Vargas. “A vida como ela é...”, com o seu tom “subjetivo” e narrativo, na contramão das publicações objetivas em voga na época, vem com o intuito tanto de sedução do público leitor, como de mantê-lo representado em um jornal “do povo”. A crônica representa, portanto, a ideologia vigente daquele jornal. Nessa caso, ela também incorpora a lógica de elementos específico na produção jornalística como, por exemplo, a efemeridade, a transitoriedade e a instantaneidade.

A crônica é “um espaço ao mesmo tempo de reflexão e deleite sobre os fatos cotidianos, habilmente captados por jornalistas capazes de expressá-los de forma amena e crítica.” (Pereira, 2004: 8). Sempre há na crônica, e de forma avançada, “a concepção historicista e da necessidade de revelar fatos (...) [ela] passa a enfocar as relações fragmentadas do mundo moderno, cujo modo de compreensão não tem como instrumento apenas o código literário” (Sá, 1987: 23).

No Brasil, pela concepção de Marques de Melo (2002) o gênero está “situado na fronteira entre a informação de atualidades e narração literária, configurando-se como um relato poético do real” (Melo, 2002: 147). Marques de Melo concentra sua análise principalmente entre a fronteira do jornalismo e da literatura, percebendo a crônica como um elemento informativo para o jornal. E acaba por esquecer o gênero como uma herança da questão da literatura popular e do folhetim. Interessante, no entanto, é perceber as aproximações de outros trabalhos a respeito da crônica, entendo-a como ficção. No seu próprio ensaio intitulado “A Crônica”, Marques de Melo (2002) cita os portugueses Jorge Letria e José Goulão (1982) que dizem:

Este gênero jornalístico é o que mais contactos tem com os gêneros literários clássicos. Os fatos são, portanto, um pretexto para o autor da crônica. A partir daí ele dá vazão aos seus sentimentos e, com absoluta legitimidade, pode entrar no domínio da ficção. A associação de idéias, o jogo de palavras e conceitos, as contraposições, misturam o real e o imaginário como forma de fazer realçar o primeiro (Letria e Goulão apud Melo, 2002: 151).

O pensamento de Melo se aproxima das idéias de Sá (1987). Este entende a crônica como gênero que “funciona como uma espécie de passagem secreta por onde ingressamos no espaço do prazer, sem que isso elimine a nossa consciência da realidade opressora” (Sá, 1987: 18).

A idéia de prazer, facilidade de compreensão e tempo estão sempre presentes na crônica. Por esses motivos, ela permanece como estilo de texto e consegue atravessar as fronteiras do tempo e ultrapassar as páginas de jornal. Embora histórica, demarcadora de um tempo e de seus valores e costumes, a crônica fictícia pode ser também atemporal. A coluna “A vida como ela é...” representa também essa discussão. O seu hibridismo a deixa aberta para inúmeras conceituações. Questiono até mesmo a idéia de efemeridade. Não é verdade que as crônicas de Nelson Rodrigues, mesmo arredio aos padrões estabelecidos de sua produção, continuam trazendo discussões atuais? Como diz Sá (1987), as crônicas, devido ao ritmo intenso de produção, nem sempre possuem qualidade intensa. Porém há textos de muita qualidade que, em geral, ganham as páginas dos livros. Segundo Sá, quando chega ao suporte de brochura, a crônica recebe outra conotação, outro valor e deixa, de certa forma, de ser efêmera, escapando da perversidade do tempo.

Por causa do exercício freqüente, a crônica é um constante treino estético, que não consegue se manter sólido em uma unidade literária. Ela varia o estilo de acordo com a intenção data pelo autor. Assim o que determina se uma crônica se aproxima da literatura ou do jornalismo, ou do folhetim, não é a crônica propriamente dita, enquanto gênero, mas o tom empregado pelo autor. A maior herança recebida pelo folhetim foi a de ser um espaço onde se permite uma variação textual e temática. Ou seja, são crônicas os textos publicados em “A vida como ela é...”, cheios de elementos fictícios, assim como também são crônicas, tão legítimas quanto, os textos de memórias e/ou esportivos publicados por Nelson Rodrigues.

A crônica, portanto, abre espaço para narração e para a reflexão simultaneamente, desde que se ocupe de um episódio do cotidiano, seja ele real ou não. Ela permite o espaço para a diversificação das figuras de linguagens e permite devaneios textuais muitas vezes proibidos ao jornalismo. Por isso há uma maior facilidade de o jornal apresentar alguns comportamentos sociais por meio da crônica, pois esta possui maior liberdade para o sentimento, para a ficção, para as sensações e emoções. Nelson Rodrigues soube muito bem desse artifício e o utilizou com maestria. Emoções, sensações e sentimentos não faltavam em seu texto. Não por acaso, ele atingiu o sucesso por meio desses textos, ora confundidos com reportagens, ora como crônica, ora como uma bela narrativa popular.


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