A vida e o trabalho na favela da rocinha



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FRAGMENTOS DE MEMÓRIAS:

A VIDA E O TRABALHO NA FAVELA DA ROCINHA

Silvio de Almeida Carvalho Filho (UERJ/UFRJ)1


Estudar a história da favela da Rocinha no Rio de Janeiro levou-nos a perceber que a questão social situava-se na fissura existente entre a jurisdição política da democracia, fundada sobre o reconhecimento dos direitos dos cidadãos e a lógica estritamente econômica do capitalismo, provocadora da miséria e da desmoralização das classes subalternas. Deparamo-nos com uma liberdade individual que, para os “que se encontravam sem vínculos e sem suportes, privados de qualquer proteção e de qualquer reconhecimento”, significava não a competência para usufruir, mas o total desamparo ante as necessidades básicas de um ser humano, submetido a pior das servidões.2

O exame das condições de vida e de trabalho dos moradores da Rocinha indicia como eles abarbavam a precariedade social, que evitamos qualificar de “exclusão social” já que esse termo designa um estado. Como analisamos o fenômeno processualmente, optamos por substituí-lo pelos conceitos de vulnerabilidade e de desvinculação sociais, indicadores de etapas negativas do percurso pessoal e coletivo, construídos pelo sociólogo francês Robert Castel. O processo de integração, vulnerabilidade e desvinculação possui uma dinâmica que flui em vários eixos, cada um dos quais corresponde a um caminho que vai de um pólo positivo – inserção, inscrição, integração – a um pólo negativo – exclusão, desvinculação, ruptura. Arquitetamos cinco eixos básicos desse percurso, o econômico-ocupacional, o das redes de solidariedade, o da política (cidadania), o cultural (valores simbólicos) e o do âmbito da vida. Desse modo, entendemos como integração social, o estágio no qual os indivíduos ou grupos encontram-se agregados positivamente nos eixos do trabalho, das redes de solidariedades, da cidadania, das condições de vida e mesmo no do simbólico A precarização em vários desses mancais, especialmente no âmbito econômico-ocupacional e nas redes de solidariedade, leva a um estágio de vulnerabilidade ou mesmo de desvinculação social, esse último considerado a etapa mais chã do processo. No entanto, detectamos que nem sempre “há uma correspondência unívoca e sistemática entre” os direcionamentos ocorrentes em cada eixo.3 Deixando mais claro: um indivíduo pode estar se precarizando no âmbito econômico-ocupacional, todavia, permanecer perfeitamente integrado no eixo das redes de solidariedade. Assim, por esse último fato, não se desvincula socialmente, entrando, apenas numa situação de vulnerabilidade.

No mundo do trabalho, o processo de integração, vulnerabilidade e desvinculação sociais desenvolve-se “entre uma inserção estável e regular que conjuga o binômio assalariamento (rendimentos) e proteção social, típica” das sociedades salariais nas potências centrais do capitalismo, e “uma condição de ruptura dos vínculos”4, que pode ser representada, entre outras, por um desemprego crônico, por um trabalho temporário ou informal. Essa situação leva à vulnerabilidade ou, caso o indivíduo esteja também negativamente posicionado em outros eixos, à desvinculação. Privilegiamos o trabalho em empregos instáveis às custas de seus braços como um dos vértices sustentadores da inscrição dos habitantes da favela da Rocinha na estrutura social, evitando um estado de desvinculação social.

No eixo das redes de solidariedades, a inserção correspondia a vínculos familiares sólidos e estáveis, a relações de amizade, de vizinhança, assim como a liame com o sistema de previdência social. A fragilidade desses laços podia levar o indivíduo ao isolamento. Na favela da Rocinha, a ameaça ou a ocorrência de processos de desvinculação social eram perceptíveis quando o desemprego prolongado, a doença ou a velhice não eram compensados por um cabeamento de vínculos de proteção, ou seja, pelo sistema de interdependências fundadas sobre o pertencimento comunitário.

Importante fator no processo social por nós investigado encontrava-se no eixo das condições gerais de vida, onde, entre o pólo positivo “saudável” ao negativo da morte, encontramos diferentes estágios de morbidades, de graus de esperança de vida, de acessos aos serviços de saúde, assim como aos benefícios de água potável e de esgotamento sanitário. Vemos aí as infidelidades do meio com as quais o favelado defrontara-se para permanecer saudável em um território discriminado.

A Rocinha surgiu, na década de 1920, nos morros da Praia da Gávea, atual São Conrado, havendo indícios que parte de seus primeiros habitantes provieram dos operários das várias indústrias da Gávea e do Jardim Botânico, todavia o maior contingente adveio do êxodo rural. Em 1945, quando Renato Caruso, dono de vasta área na localidade, doou-a em troca de votos para se eleger vereador, o espaço encheu-se de casebres, ocupados por pessoas. Muitos procediam dos sertões do Nordeste o que propiciou a Rocinha, já na década de 1950, ser apresentada como um gueto nordestino. Contudo, também se originaram de outras regiões, tais como municípios do centro-norte do Estado do Rio de Janeiro ou áreas agrícolas do Estado de São Paulo que, a partir da crise econômica da cafeicultura, na década de 1940, tornaram-se paragens de êxodo rural.5

Muitos dos habitantes da Rocinha, chegados nas décadas de 1940 e de 1950, eram filhos de agricultores pobres, na maioria das vezes não-proprietários, mormente praticantes de agricultura ou de pecuária voltadas para subsistência. Suas famílias possuíam prole numerosa, de quatro a dez filhos, que, numa faixa variável entre os sete e os dez anos, colaboravam com a formação da renda familiar, trabalhando na agricultura, na pecuária ou em outros pequenos misteres. Realizavam serviços para famílias mais abastadas que a sua, passando, às vezes, devido distância da morada de seus pais, a viver com os seus patrões. Assim, as péssimas condições da vida rural fragmentaram a família, levando os filhos ao êxodo, muitas vezes, dispersando-os ao longo do território brasileiro.

Vindos, portanto, de áreas com índices de escolaridade baixíssimos, na década de 1930, eram analfabetos ou possuíam um mínimo conhecimento das primeiras letras e contas. A história do paraibano Bernardino Francisco de Souza, carpinteiro, morador na Rocinha, desde 1949, bem exemplifica a precariedade da formação “escolar” dos antigos moradores. Seu pai, um homem analfabeto, ante as possibilidades da miserável vida no agreste nordestino, não via necessidade dele freqüentar a escola, já que lá a “leitura não dava comida a homem”. Então, “a primeira caneta que” lhe “deram”, em sua terra natal, “foi uma enxada”.6 Grande porção dos moradores da Rocinha, em especial as mulheres, nas décadas anteriores a 1960, era analfabetos, semi-alfabetizados ou, quando muito, possuíam o nível primário de instrução. Assim, a ausência de qualificação educacional para funções mais complexas no mercado de trabalho urbano tornara-os vulneráveis.

A proximidade do trabalho foi constantemente um dos critérios essenciais para os pobres escolherem sua moradia. No Estado do Rio de Janeiro, diversos migrantes residiam na Baixada Fluminense, no subúrbio ou em outra favela carioca, muito longe do emprego na zona sul, tendo de utilizar como transportes populares, como trens superlotados, aumentando-lhe o cansaço do dia. Alguns até dormiam no trabalho para economizar tempo, dinheiro e não sofrer o grande desconforto do trajeto. Para solucionar esse problema, a escolha foi Rocinha.

Muitos, anteriormente, residiram em condições habitacionais tão ou mais precárias que na favela e lá chegaram famintos e sem mobiliário, apenas com a roupa do corpo e alguns trapos.7 A “‘história do morro’”, ressaltava um favelado, “‘é igual que torcer uma roupa quando sai da bica. Um lenço cheio de lágrimas’”. Apesar de tanto amargor, revelador da vulnerabilidade e da desvinculação social, residir nesse espaço discriminado constituíra-se num refrigério, pois se não adentraram no paraíso, pelo menos, estavam num purgatório, ante ao inferno que antes experimentaram. Os da Rocinha foram os que lutaram para ter um teto, sentindo-se resistentes e, de certo modo, parcialmente vencedores, pois conseguiram lá constituir um lar.

Desde os primórdios, antes mesmo da intensificação da política de remoções na década de 1960, o favelado temia as constantes ameaças das retiradas individuais ou coletivas realizadas pelas autoridades municipais e estaduais em nome da legalidade, da saúde, da segurança ou da moralidade pública. Os guardas, que policiavam o terreno onde a favela se estabeleceu, sempre estavam a arrancar os paus sustentadores dos barracos, depois, vieram os planos de remoção coletiva, sendo os moradores instalados próximo à Estrada da Gávea os mais incomodados pelas forças públicas. Todavia, as autoridades, possuindo a missão de “impedir a construção de barracos no local, [...] faziam ‘vista grossa’, mediante recompensa em dinheiro” ou mesmo por relações de amizade.8 As ações denunciavam que a população instalada na Rocinha, fê-lo, desde o início, em grande parte, à margem da lei e por tolerância daqueles que não deveriam legalmente consentir a ocupação daquelas terras.

Dessa forma, os pobres elaboraram suas táticas para burlar a repressão contra a construção de seus barracos. “Na época de Getúlio”, ou seja, nesta extensa temporalidade do depoimento oral, os novos favelados, apressadamente, erguiam suas toscas habitações, primordialmente à noite, e imediatamente colocavam dentro uma criança, segundo uns, ou uma família, segundo outros, mesmo que emprestada, garantindo assim a não demolição do casebre pela polícia. Caso contrário, chegava um caminhão cheio de guardas, armados de pé-de-cabra, marretas, foices e machados para desmantelar o barraco. Esta repressão, na verdade, achava-se amparada pelo Código de Obras de 1937 da Prefeitura do Distrito Federal que proibia a construção de novas ou de qualquer melhoria nas casas existentes em áreas de ocupação ilegal. A restrição existia, mas as táticas para ocupar as terras são criativas, contínuas, criando uma situação de fato. Desde a década de 1950, segundo alguns relatos, o governo federal e a prefeitura tentavam estorvar que os barracos de madeira se tornassem de alvenaria, visando com isso impedir que a ocupação ilegal pudesse instalar-se mais solidamente. Caso houvesse infração a esta resolução, a polícia sentia-se no direito de destruir a nova vivenda. Alguns, para burlar, edificaram cômodos com paredes de tijolos sob a de tábuas. Apesar das proibições e derrubadas, as casas de alvenaria gradativamente impuseram-se. 9

Até a primeira metade da década de 1950, quando a urbanização da cidade parava no Hotel Leblon, no final do bairro de mesmo nome, a Rocinha ainda possuía grande parte de sua área não ocupada, com espaços entre os barracos preenchidos por vegetação, ou seja, lá só havia “mato”. Devido à origem rural de grande parte dos habitantes, adotou-se o hábito de criar animais até mesmo de grande porte, como bois, assim como se plantavam algumas fruteiras ao longo das encostas. Dessa maneira, arrumava-se alguma forma de melhorar a qualidade da alimentação.10

Com o decorrer dos anos, passou-se a disputar, palmo a palmo, qualquer nesga de chão humanamente desocupado. Essas contendas surgiram com mais intensidade desde fins da década de 1960 com o advento cada vez mais crescente de recém-chegados, inclusive, do Nordeste. Com o avolumar de novos ocupantes, qualquer quintal, onde, às vezes, um mais antigo morador criava galinhas, porcos, alguns cabritos a devorar as sebes ou, quiçá, colocara um varal mais extenso para secar roupas, encontrava-se potencialmente ameaçado. Quando esse terreno era invadido para a edificação de mais um barraco e o seu dono não se arriscava utilizar a própria força bruta em defesa de sua posse, recorria-se, vez por outra, ao poder de polícia do Estado que lá vinha tentar conciliar as partes.11 Mas, comumente, parece que se aceitava as perdas de forma mais tácita e consensual.

Já na década de 1940, algumas pessoas chegaram na favela pagando-se locação. Fenômeno esse que com o tempo não só se espalhou, assim como encareceu pelo fato da localidade ser na zona sul. Preferiam locar em uma favela que ter abrigo em algum terreno ou casebre próprios em locais longínquos do trabalho. Muitos favelados, ao juntarem algum dinheiro, conseguiam comprar ou erguer barracos para alugarem, obtendo uma renda extra, além dos parcos salários e pensões.12

A favela, atualmente a maior da América Latina, já era de enorme extensão na década de 1970, já classificada como uma “‘uma cidade marginal’”, “‘dentro da zona sul’”, “‘debruçada sobre o mar’”.13 Em outras palavras, era um estorvo situar um bolsão de pobreza em sítio, então, muito valorizado pelo capital imobiliário, indisponibilizando a área para a utilização da elite carioca. A extensão demográfica e o peso político da Rocinha tornavam-na, então, um “‘pesadelo para as políticas remocionistas’”, prenunciando a futura crise das mesmas, no decênio seguinte, quando, em decorrência disso surgiram os primeiros planos de urbanização da favela.14

Ao longo da história, a Rocinha vivenciou uma realidade que ameaçava qualquer índice de desenvolvimento humano da ONU. Ora carecia água, ora faltava luz; convivia-se com as valas negras, a falta de qualquer padrão mínimo de limpeza urbana, encontrando-se as ruas, no início da década de 1980, enlameadas com valas, buracos e amontoados de lixos, onde cães, gatos e ratos fuçavam, obrigando o transeunte a respirar um odor não muito agradável e andar com cuidado. Pelas ruelas da Rocinha, vendia-se comida popular e barata, tais como churrasquinho, milho verde, pipoca e bebidas, com pouca preocupação com a higiene. Disso tudo, resultava um meio ambiente desfavorável à saúde pública, acarretando vulnerabilidades coletivas.

Quanto ao acesso a tratamento de saúde recorria-se ao hospital público Miguel Couto. Os habitantes com alguma condição financeira, também utilizaram uma clínica médica particular na Estrada da Gávea, pertencente ao Dr. Mário Dufles, que até o início do século XXI, era lembrado como um bom profissional.

Semelhantemente às mulheres pobres brasileiras, as da Rocinha, nas décadas de 1940 e 1950, tiveram grande prole, chegando, às vezes, a dezenas de filhos. As grávidas, em geral, davam luz a seus filhos em casa, recorrendo às parteiras da vizinhança. Em casos graves e excepcionais, procuravam os médicos obstetras do Hospital Miguel Couto. Muitas vezes, quando se desejava, juntamente com o parto, realizar a laqueadura das trompas, recorria-se, clandestinamente, a médicos particulares, decisão derradeira e corajosa, tomada quando possuíam mais que uma dúzia de filhos.

O aborto, apesar de ser no Brasil ilegal, era uma prática muito comum entre essas mulheres, realizada, ás vezes, sozinhas e até com talo de couve. Outras o perpetravam com parteiras e “curiosas”, mas também com médicos. Um cirurgião, atuante na localidade, chegou a ser preso por realizar tais práticas. A precariedade na saúde reprodutiva feminina, com dificuldade de acesso aos serviços de saúde pública ou mesmo de informações sanitárias, acarretava-lhes vulnerabilidades, tais como morbidades, menor esperança de vida e, inclusive, mortalidade materna, infantil.

Nesse espaço discriminado pelos órgãos públicos, o acesso a uma rede encanada de água e esgotos era caro, ineficiente ou inexistente. Os favelados, na década de 1960, conseguiram água, procedente de quatro ou seis bicas coletivas ou de um poço no Largo do Boiadeiro, existente de acordo com a sorte do dia.15 No início dos anos de 1980, quando tiveram acesso à água encanada, optaram por um sistema de distribuição aérea de canos de PVC, muito freqüentemente pendurados no beiral dos telhados, nas lajes ou cravados com buchas plásticas nas paredes. Essa escolha foi feita por serem as construções muito próximas, os terrenos acidentados e com pouco dinheiro para obras de infra-estrutura, podendo assim se evitar a danificação dos canos, ante o constante trânsito de pedestres e de cargas. Além disso, as redes aéreas apresentavam facilidades de reparos e evitavam ligações clandestinas.

O não planejamento cartesiano de suas serventias expressou-se na relação entre o território da casa e o da rua. Sendo pouco espaço para muitos habitarem, conquistou-se o doméstico em detrimento do reservado à circulação pública. A região apresentava-se como um bairro-labirinto de ruelas estreitíssimas e becos tortuosamente entrelaçados, com moradas sem numeração. Saber diferenciá-las constitui habilidade para os locais, já que estranhos, só após muitas visitas e permanências, conseguem adentrar nas estranhas do lugar, sem se perderem. Portanto, para se localizar uma residência, podia-se levar, até duas horas, sendo que, às vezes, nem se conseguia, necessitando do auxílio de moradores. E, mesmo assim, tinha-se que se encontrar uma espécie de micro-localidade dentro da favela, ou seja, algum ponto referencial muito conhecido. Para se chegar a um endereço, havia que subir escadas, pular buracos, poças de lama, águas pútridas e tentar descobrir a entrada da habitação. A dificuldade de localização estorvava o exercício da cidadania do residente na Rocinha, pois impedia o serviço dos correios com o recebimento de correspondências e contas, mas também entravava o pedido de crédito em lojas. Logo, viver na Rocinha era ser, para muitos, um indivíduo “sem endereço”, obstando exercer atos simples da vida, portando, reafirmava a identidade negativa, potencializadora da vulnerabilidade. Além disso, apresentar a Rocinha como residência significava quase uma imediata discriminação social, então, muitos negavam-na, assumindo, por vezes, endereços de parentes e amigos “do asfalto”, ou a substituíam pelo bairro vizinho de São Conrado.

Ao longo história da Rocinha, encontramos-na povoada por trabalhadores manuais, desqualificados, mal remunerados, com baixa ou nenhuma escolaridade, “paus para toda obra”: operários industriais, funcionários públicos subalternos, peões da construção civil, biscateiros, vigias, motoristas, balconistas, carregadores, carpinteiros, sapateiros, mensageiros, birosqueiros, vendedores ambulantes, datilógrafos, barbeiros, ajudantes de cozinha em bares e hotéis. 16

Em relação ao trabalho feminino, ressaltamos que a dupla ou até tripla jornada era inerente à vida da favelada, muito tempo antes da mulher de classe média sofrê-la. Muitas desejaram se dedicar integralmente à criação de seus filhos, mas isso constituiu um sonho passageiro, pois era necessário complementar a renda familiar e, por vezes, garantir o sustento total da família. Dentre as atividades femininas remuneradas, as lavadeiras foram numerosas, tanto no decênio de 1940 quanto no de 1980, porque, as senhoras burguesas, não tendo máquinas de lavar roupa, a elas recorriam, possibilitando às pobres tomar conta da prole e ao mesmo tempo perceber alguma renda.

Alda Botelho, entre as décadas de 1940 e 1960, cobrava por peça lavada e passada, cujo controle da entrega e da devolução eram assentados em caderninhos conferidos pelas patroas. Sua faina era pesada, já que chegou a servir a 40 famílias, utilizando água de riacho na favela, sabão ordinário e um pesado ferro de passar roupa a carvão, precisando andar a pé nas ruelas da favela, tomar ônibus carregando a roupa passada com cuidado para entrega-la nas residências. Afora isso, sozinha cuidava de dez filhos. Cozinhava em um fogareiro a carvão, depois em um fogão de pedra à lenha, cujo uso comum aos moradores deve ter contribuído para o desflorestamento da área e, provavelmente na década de 1950, passou para o fogão a querosene e no decênio seguinte para o a gás de cozinha, cujo botijão tinha inicialmente de se encomendar fora da favela, só o recebendo três dias depois. Além dessas tarefas, em meados da década de 1940, a caça por ganhar um “dinheirinho” próximo ao lar, levou-a a exercer pequeno comércio, vendendo sanduíches de mortadela e café, mantido dentro de uma chaleira, já que, no Brasil, não se usavam garrafas térmicas antes da década de 1960. Esses artigos eram dispostos em uma mesa, dentro de sua casa, próxima a uma janela que dava para uma trilha, ainda no meio do mato, por onde passavam alguns moradores da Rocinha em plena expansão. Obtinha também dinheiro extra, fazendo lanches para casamentos e aniversários ou trabalhando como faxineira horista no Hospital Miguel Couto.

Todavia, a possibilidade de lidar em casa não ocorreu a todas: muitas tiveram de trabalhar fora, em especial, como empregadas domésticas, cozinheiras, copeiras. A própria Alda, pelas mudanças tecnológicas e pela poluição do riacho, teve que encontrar outras saídas econômicas. Seu último emprego foi ser arrumadeira, faxineira, lavadeira ou cozinheira no Hotel Trampolim, na Estrada da Gávea, parando de trabalhar apenas quando casou a última filha. Confirma-se assim o que Alba Zaluar disse sobre a Cidade de Deus: as mulheres pobres e faveladas só param de trabalhar de forma remunerada quando consideram todos os filhos criados. Nesse estágio de vida, eles podem gerar a renda familiar que elas antes produziam para manter a casa.17 Exemplificamos, com a trajetória de Alda Botelho, a vulnerabilidade feminina na Rocinha, mas, ao mesmo tempo, o esforço de integração social através do trabalho manual e feminino, mal remunerado.

Grandes setores de nossas elites assumiram ao longo da história, na explicação do processo de favelização, a visão do individualismo metodológico, ou seja, a de que os fenômenos sociais resultam de empreendimentos que só se remetiam a iniciativas individuais. Ademais, era-lhes mais fácil atribuir a pobreza dos favelados à vagabundagem e não à condição de desapropriados. Os moradores da Rocinha intuíam que sua identidade construía-se a partir de um lugar social qualificado pela burguesia como uma arritmia ou um desarranjo da ordem social, considerada lógica e harmoniosa. Não obstante, essa “loucura” assentava-se “no âmago... da razão e da verdade”18, porquanto indiciava as antinomias da vida social dita “coerente” e “integrada”, lograda apesar ou por causa dessa contradição. Sabia-se desde a Belle Époque que nos morros cariocas viviam vagabundos, ratoneiros e outros tipos de infratores, temendo-se assim que os favelados descessem e invadissem a urbe. No entanto, apesar de Lícia Valladares atestar que, após a década de 1960, as ações políticas voltadas para os favelados, não mais os classificavam como “classes perigosas”, possuímos indícios de que, no início da década de 1980, grande parte da “comunidade” da Rocinha estava cônscia de que numerosas frações da urbe carioca sentiam-se ameaçadas por ela19. A Rocinha sofreu, portanto, o estigma da marginalidade e da criminalidade, atributo das favelas desde o início do século XX, sendo apresentada pelos meios de comunicação de massa, na década de 1970, como um “‘reduto de delinqüentes e pivetes’”.20 Este preconceito favoreceu e ampliou o processo de vulnerabilidade social em que viviam os habitantes desta localidade.

Todavia, após essa época, a circunstância tornou-se mais complexa: àqueles citados marginais se aditaram os narcotraficantes. Esse contínuo temor vem gerando políticas públicas de controle, de moralização, de tutela e, mais freqüentemente, de repressão sobre este segmento da população carioca.

Contudo, a quase totalidade desses pobres compõe-se de trabalhadores “honrados” e com famílias, em sua maior parte, bem constituídas. Ademais, grande parte da patologia social atribuída apenas ao espaço favelado era gerada fora dela, pela má distribuição da terra e da renda no país. Lá se aloca o varejo do narcotráfico, todavia, encontra-se no “asfalto” a maioria dos consumidores e dos atacadistas de drogas.21

A insegurança social não era uma prerrogativa dos moradores da cidade formal, pois os favelados conviveram com dois tipos de violência, a do policial e a do traficante. O morador possuía a consciência que, residir lá, significava ter, de repente, numa inversão de funções da policia, a sua casa invadida por ela ou ser capturado como um transgressor, mesmo sem “ter culpa no cartório”. Inclusive, um favelado, se não portasse carteira de identidade ou de trabalho, mesmo trajando roupa suja de tinta e cimento, característica da construção civil, podia ser considerado suspeito de criminalidade e conduzido à delegacia, como se o ônus da prova coubesse ao acusado. De fato, essas práticas participavam da fisiologia da estrutura secular da segurança pública em regiões pobres, estando presentes na favela do Morro da Providência, já no início do século XX. Esses episódios denotavam um desrespeito aos ideais de cidadania, pois para os favelados não valiam, em realidade, as mesmas leis de propriedade particular que organizavam a vida social das camadas médias cariocas. Na Rocinha, a violência policial contra a população local gradativamente aumentou, sendo percebida, na década de 1980, como muito maior do que nos dois decênios anteriores. Neste novo tempo, tinha-se “mais medo da polícia do que do vagabundo”. Antes, os moradores sentiam-se mais protegidos com um policiamento constante, encontrando-se uma maior violência policial no recôndito das delegacias, sendo dificilmente publicizada na rua.22

Muitos conviveram com criminosos, silenciando sobre os mesmos, caso contrário, ficavam sem casa e, às vezes, sem a sua vida ou a de algum ente querido. Outros presenciaram inocentes adultos e até crianças serem abatidos por bala perdida devido às diligências policiais ou às lutas entre facções rivais de delinqüentes. Alguns, embrutecendo-se com tanta violência, resolveram também assumi-la como prática.

Desde as origens da Rocinha, surgiram redes de solidariedade, baseadas no parentesco, na vizinhança e na amizade, ou, inclusive, nas associações comunitárias e religiosas, como uma das formas de integração social. Às vezes, as redes foram fortificadas com laços de compadrio. Muitos migrantes conseguiram sobreviver às dificuldades da cidade, devido ao auxílio de terceiros. Essas redes solidárias davam a familiares, amigos ou conhecidos vindo de outras regiões toda sorte de apoio, oferecendo-lhes a sua própria casa como moradia, mesmo que temporária, já que os que vinham não possuíam dinheiro acumulado nem para erguer um barraco. Auxiliaram também os indivíduos na busca de ascensão social, seja arrumando um emprego ou emprestando algum capital inicial para que eles iniciassem uma atividade como autônomo.

As organizações associativas, tais como as igrejas, exerceram, através da formação de circuitos de solidariedade, o papel de vetor de integração social, fazendo com que seus fiéis se sentissem irmanados a uma comunidade de amparo, portanto, amenizadora das ameaças de vulnerabilidade social. Este auxílio eclesial foi possível através da constituição de redes intrafavela ou daquelas que permitiram o fluxo de auxílios extramuros, advindos do âmbito urbano, nacional ou mesmo internacional. As igrejas cristãs na favela da Rocinha constituíam importantes unidades de pertencimento para essas populações socialmente vulneráveis.

Por tudo acima relatado, pode-se, talvez, concluir que viver na favela é sobreviver em um caos urbano. Por conseguinte, esboçou-se em seus habitantes a sensação de que as dificuldades comuns moldaram a sua identidade, do mesmo modo perceberam que por “estarem todos no mesmo barco”, desprotegidos de um auxílio mais efetivo do poder público, só podiam enfrentar suas mazelas através de uma política conjunta e comunitária. Em suas memórias, povoam as reminiscências sobre os mutirões para a limpeza de valas, a fundação de associações em defesa dos interesses dos moradores, os abaixo-assinados, as idas ao Palácio do Governo para as reivindicações. Mas, essas ações, mesmo as mais “ousadas”, ainda se constituíam dentro das técnicas de atuação e de expressão que o campo político tolerava naquele momento.23 Na verdade, eles pelejaram para se tornar parte do espaço integrado da cidade, transformando-se em cidadãos. Todavia, ainda hoje permanecem vulneráveis.



1 Disponibilizamos nosso e-mail para estabelecer interlocução a partir desse texto: silvioacf@terra.com.br

2 Castel, R., 1998:45; cf. p. 30-1; 34-5, 44, 297.

3 Escorel, Sarah. 2000. Vivendo de teimosos. Moradores de Rua da Cidade do Rio de Janeiro. In: Bursztyn, Marcel (org.). No Meio da Rua. Nômades, Excluídos e Viradores. Rio de Janeiro: Garamond, p. 139-171, p. 141, cf. 143; Castel, R., 1998:25-6.

4 Escorel, 2000:142.

5 Cf. VARAL de lembranças: história e causos da Rocinha/ União Pró-Melhoramentos dos Moradores da Rocinha”. Rio de Janeiro: A União Tempo e Presença Edições, 1983, p. 20-1, 28, 34, 43; Noronha, Santos. As Freguesias do Rio Antigo. Introdução, notas e bibliografia por Paulo Berger. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1965 (1 ed. de 1900), p. 52; GERSON, Brasil. 2000. História das Ruas do Rio de Janeiro. 5 ed. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, p. 308-9; Segala, 1991:6, 100. SOUZA, Bernardino Francisco de Souza. Depoimento. Rio de Janeiro (Favela da Rocinha): 15/11/2002. (mimeo e fita-cassete); LIMA, Alberto Moreira Lima. Depoimento. Rio de Janeiro (Favela da Rocinha): 19/08/2002 (mimeo e fita); Botelho, Alda Dias. Depoimento. Rio de Janeiro (Favela da Rocinha): 6/10/2001. (mimeo e fita-cassete).

6 Souza, B. F. de, 15/11/2002; cf. Botelho, Alda Dias, 6/10/2001; Lima, A. Moreira, 19/08/2002.

7 Varal, 1983:5, cf. 16-8.

8 Varal, 1983:37cf. p. 6- 7, 39; Federação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema). Relatório do projeto de ecodesenvolvimento. V.4: Favela da Rocinha, in: Cadernos da FEEMA. [Rio de Janeiro] s.d. Série Relatório Técnicos 3180, (mimeo), p. 4018; ZALUAR, Alba e ALVITO, Marcos. 1999. Introdução. In: ZALUAR, Alba e ALVITO, Marcos (orgs.). Um século de favela. 2 ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas Editora, pp. 7-24, p. 9; Rocha, 2000:19; Botelho, Alda Dias, 6/10/2001.

9 Cf.Varal, 1983:46, 52, 55; Botelho, Alda Dias, 6/10/2001.

10 Varal, 1983:6, cf. p.18, 23; cf. Botelho, Alda Dias, 6/10/2001.

11 Cf. Varal, 1983:52.

12 Cf. Botelho, Alda Dias, 6/10/2001.

13 Movimento, 24/01/1977 e O Globo, 23/10/1976 apud Segala, Lygia. O Riscado do Balão Japonês: Trabalho Comunitário na Rocinha (1977-1982). Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1991. 2 vs. (Dissertação, Mestrado em Antropologia Social), vol. 1, p.5.

14 O Globo, 25/10, 1971, passim apud Segala, 1991:5 cf. p. 10.

15 Cf. Varal, 1983:23, 37, 52, 64; 67; Alves, 1997:14;

16 Cf. Botelho, Alda Dias, 6/10/2001; SAGMACS, 13 de abril de 1960:20; Varal, 1983:17-18, 20, 22, 28-9.

17 Cf. Botelho, Alda Dias, 6/10/2001; Disponível em: http://www.dako.com.br/ empresa/historia/tehistoria02.shtml. Acesso em 04/07/2004; Gallo, Mayrant. Pode vir quente que eu estou fervendo in: Correio da Bahia, 29/05/2003. Disponível em: http://www.correiodabahia.com.br /2003/05/29/noticia.asp?link=not00007653.xml Acesso em 12/09/2003; ZALUAR, Alba. 1985. “A Máquina e a Revolta”. As Organizações Populares e o Significado da Pobreza. São Paulo, Editora Brasiliense, p. 94.

18 Foucault, Michel. 1995. História da Loucura. 4 ed. São Paulo: Editora Perspectiva, p.14; cf. Cunha, Olívia Maria Gomes. Cinco Vezes Favela – uma reflexão in: Velho, Gilberto e Marcos Alvito (orgs.). 2000. Cidadania e Violência. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/Editora FGV, pp. 189-218, p. 189; Castel, R. 1998:356; Varal, 1983:4, cf. p.3; p. 14; Zaluar e Alvito, 1999. Introdução, p. 7.

19 Cf. Valladares, Lícia. Cem anos pensando a pobreza (urbana) no Brasil in: Boschi, Renato (org.). Corporativismo e Desigualdade: a construção do espaço público no Brasil. Rio de Janeiro, IUPERJ, Rio Fundo Editora, 1991, pp. 81-112, p. 98-9; Varal, 1983:4.

20 O Globo, 02/09/1975, passim apud Segala, 1991:6.

21 Cf. Varal, 1983:4, Cabral, 1997:9; Rocha, 2000:18.

22 Varal, 1983: 39; Zaluar e Alvito. 1999. Introdução, p. 8; Da Matta, Roberto. 1991. A Casa & a Rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. Rio de Janeiro, Editora Guanabara Koogan, p. 79.

23 cf. Varal, 1983:7; Bourdieu, 1989:165.



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