A vida pelo time de futebol



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Encontro23.07.2016
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A vida pelo time de futebol
Torcedores da Galoucura são acusados de matar um membro da torcida rival, mas juiz entende que eles podem responder processo em liberdade

Ney Rubens

Uma pesquisa divulgada pelo Sistema GLOBOSAT no final de 2010 revelou que o número de pacotes vendidos do Pay-Per-View (pague para ver) do Campeonato Brasileiro de futebol cresce em média 20% a cada ano. Em 2008, na Série A, foram vendidos, segundo a empresa, cerca de 520 mil assinaturas. Em 2009 foram 596 mil pacotes. Na segunda divisão, a chamada Série B do futebol, o volume de vendas atingiu 121 mil pacotes em 2009, 14 mil a mais que 2008.

Os dados do ano passado ainda não foram divulgados, mas os números podem indicar algo além do que a simples melhora na condição financeira do brasileiro. De acordo com o mestre em Psicologia do Esporte da Fundação Dom Cabral, Marcel de Almeida Freitas, o medo da violência influência no aumento do número de pessoas que preferem ficar em casa. “Com as atuais condições de violência nos estádios, o torcedor do bem prefere preservar sua família e seu bem-estar ficando em casa, do que em um campo de futebol. O fator psicológico e o medo da violência pesam muito nessa decisão de se privar de frequentar os estádios. A própria condição atual do futebol de ter se tornado um produto mercadológico ao invés de espetáculo, facilita o consumo de casa com as câmeras disponíveis, o conforto e a garantia de não ser agredido por nenhum desconhecido durante a partida que acompanha”, disse.

Um estudo feito pelo sociólogo e professor Maurício Murad, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), confirma em números esta nova tendência. O levantamento contabilizou 42 mortes no Brasil por causa de briga de torcidas nos últimos anos. Isso torna o país líder mundial em mortes por causa de confrontos nos estádios. O estudo foi baseado em artigos de jornal com dados fornecidos por jornais, revistas e rádios das principais cidades do país entre os anos de 1999 e 2008.

Em Belo Horizonte e região metropolitana, há uma guerra entre as duas maiores torcidas dos dois maiores clubes de futebol. Nos últimos oito anos, oito torcedores de Atlético e Cruzeiro perderam a vida nos confrontos entre as duas torcidas organizadas, Galoucura e Mafia Azul. O levantamento sombrio foi feito pelo Ministério Público (MP).

A vítima mais recente foi Otávio Fernandes, estudante de 19 anos que saiu de Montes Claros, no norte de Minas Gerais, para tentar ao lado da família uma melhor vida na capital mineira. Não chegou aos 20 anos, porque a paixão pelo Cruzeiro o aproximou da Mafia Azul.

No último dia 27 de novembro, por volta de 19h, as câmeras de segurança de um shopping gravaram dezenas de integrantes da Galoucura, segundo a polícia, o espancando até a morte.

Nas cenas covardes de selvageria, as armas foram placas, postes e cavaletes de trânsito, com os quais a cabeça de Fernandes foi alvejada. Chutes, socos, pisões, todo tipo de golpe foram dados pelos irados atleticanos que haviam acabado de sair de um evento de vale-tudo, um tipo de luta livre. Numa das cenas, não exibidas pelas emissoras de televisão por ser muito forte, a massa encefálica do estudante jorrou de seu crânio, tamanha a violência de um golpe aplicado com um pedaço de ferro.

As imagens foram exploradas aos montes por todos os programas de televisão e sites noticiosos. E cada golpe contra o Otavio Fernandes também acertava os seus familiares, que durante dias assistiram estarrecidos o massacre.


“Foi uma coisa muito chocante, muito triste. Temos tanta resistência à pena de morte, mas isso que aconteceu com o meu sobrinho foi pior do que a pena de morte. Cada vez que vejo as imagens, fica mais arrasada", desabafou a dona de casa Maria da Graça Fernandes, tia de Otavio Fernandes.
A mãe de Otavio e o irmão gêmeo dele, Gustavo, voltaram para Montes Claros depois da tragédia que se abateu sobre a família.

Foi também pela televisão que a família assistiu os cinco, dos doze integrantes da Galoucura denunciados pelo MP por participação no crime serem soltos pela Justiça. E o pior, saírem da cadeia sorrindo. Um deles chegou a mandar um abraço para os companheiros que ficaram na cela.

"Essa situação seria diferente se tivéssemos dinheiro. Essas pessoas não são seres humanos. Têm que estar na cadeia. Eles saíram todos rindo, mandando abraço para pessoas da cela. Eu não posso implorar na porta do fórum porque não vai adiantar nada", lamentou Gustavo.

"O que a família quer é justiça. Eu fico impressionada como um juiz põe na rua pessoas que mataram. Mataram meu sobrinho. São elementos que oferecem risco para a sociedade. Se esses rapazes ficarem impunes, o que vai ser da nossa sociedade,” completou Maria da Graça.

David Miranda Agostinho viu Otavio Fernandes ser morto. Ele também foi agredido e chegou a ser hospitalizado. Recuperado, afirmou que não vai frequentar estádios de futebol: “Foi uma selvageria total. Eles (os agressores) pareciam loucos. Bateram na gente de tudo quanto foi jeito. Depois do que eu passei, eu nunca mais quero contato com esse pessoal de torcida organizada. Foi uma crueldade as agressões que sofremos e eu nem sou coligado a nenhuma torcida”, disse David.

O juiz Maurício Torres, do Tribunal do Júri de Belo Horizonte, aceitou a denuncia do MP por homicídio doloso, tentativa de homicídio e lesões corporais contra os acusados, mas alegou ao decidir pela soltura dos 12 atleticanos que no inquérito policial não havia provas suficientes para deixá-los na cadeia. A Delegacia de Investigação de Homicídios e Proteção a Pessoa de Belo Horizonte (DIPP), comandada pelo delegado Wagner Pinto, indiciou 41 torcedores da Galoucura.

O promotor do Tribunal do Júri, Francisco de Assis Santiago, denunciou apenas 12: “Não vi provas contundentes contra o restante, contra estes, sim,” afirmou. A defesa dos suspeitos disse que o inquérito policial colocou na cena do crime pessoas que estavam por perto, na casa de shows onde acontecia o festival de luta livre, e “as que apareceram agredindo Otavio Fernandes não foram identificadas, mesmo com as imagens,” afirmou Dino Miraglia, advogado da Galoucura.

Com a decisão judicial todos os acusados irão responder o processo em liberdade. O promotor Francisco de Assis, não gostou e recorreu da soltura dos atleticanos entre eles o presidente da Galoucura, Roberto Augusto Pereira, o Bocão; o vice-presidente da torcida, Willian Palumbo, o Ferrugem; além dos diretores Marcos Vinícius Oliveira de Melo, o Vinicin; Josimar Júnior de Souza Barros, o Avatar, e Mateus Felipe Magalhães, o Tildan.


“A gente aprende a conviver com as decisões mesmo sem concordar. O que me resta é recorrer. Só que me preocupa muito as decisões dos magistrados em colocar em liberdade os que praticam a violência”, afirmou.

“Se eu pedi que eles ficassem presos, é porque tenho a convicção de que são culpados,” concluiu.

O advogado paulista Ângelo Carbone participa de um programa de televisão e recentemente defendeu o goleiro Bruno no processo relacionado à morte de Eliza Samudio. Depois que as imagens das agressões de Otavio Fernandes foram exibidas, ele se “ofereceu” para representar a família dele. No último dia 20, Carbone impetrou dois mandados de segurança perante a Justiça Mineira. Um deles pedia o fim da Galoucura e o outro a suspensão de todas as atividades da torcida. O motivo seria que ele e a família da vítima teriam sofrido ameaças por integrantes da agremiação. O desembargador Nelson Missias de Morais negou os dois pedidos com a alegação de que eles têm de serem feitos na esfera cível, não criminal.

No passado

A primeira vítima, segundo um estudo realizado pela Universidade de Campinas (Unicamp) em parceria com a Universidade de Amsterdã, na Holanda, foi em Minas Gerais quando morreu a primeira pessoa em uma briga de torcidas.



Em 1967, o cruzeirense Joaquim Lima da Rocha foi assassinado por seu colega de trabalho Crispim Modestino Costa, que atirou duas vezes  após uma discussão. O crime ocorreu logo após a um jogo entre Atlético e Valério de Itabira, em bar às margens da antiga BR-3, a atual BR-040, em Belo Horizonte.
Uma das responsáveis pelo estudo, a professora de Sociologia do Esporte da Unicamp, Heloisa Baldy Reis, disse que a violência nos estádios se tornou desmedida com o uso descontrolado das armas de fogo. “Os conflitos sempre existiram, mas se tornaram letais com o advento da arma de fogo. A facilidade de acesso a elas fez o número de homicídios dispararem e é determinante para que o Brasil figure como uma das nações mais violentas”, disse.
Entretanto ao contrario daqueles que defendem a extinção das torcidas organizadas, Heloisa se disse contra: “A criminalidade não pode ser atribuída às organizadas, mas ao fenômeno de pequenos grupos violentos de jovens que se propagam em algumas comunidades. Não falo de renda, mas de grupos de classe alta ou baixa que se formam com a intenção de ser violentos e agressivos. O fechamento de uma grande torcida poderia significar a proliferação de células menores”, explicou.

Já o promotor Francisco de Assis, que também um dos diretores do America Mineiro, defende maior punição aos brigões e o fim das organizadas: “Infelizmente as sanções aplicadas nesses casos de violência e lesões corporais são insatisfatórias. Sou totalmente a favor da extinção das torcidas organizadas. Galoucura e Máfia Azul para não torcem por Atlético e Cruzeiro e sim para elas mesmas. São facções não clubísticas que consideram títulos e prêmios as mortes e agressões que cometem”, concluiu.


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