A "Virada Russa" e a Pilhagem Russa Somente os ratos e eu podemos admirar essas obras de arte. Imperatriz Catarina II da Rússia



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A "Virada Russa" e a Pilhagem Russa
Somente os ratos e eu podemos admirar essas obras de arte.

Imperatriz Catarina II da Rússia


"No jardim" de Auguste Renoir, obra prima que tomou o caminho do Leste
Com a exposição "Virada Russa", que exibe obras do Museu Estatal Russo de São Petersburgo, no CCBB do Rio de Janeiro, volta-se a se falar no Brasil do Museu Hermitage. O imenso prédio cinzento da longínqua - para nós - São Petersburgo, guardava segredos que levaram cerca de meio século para, enfim, serem revelados ao mundo das artes. A revista americana "Time" foi a primeira a escrever sobre o assunto, gerando uma polêmica que está longe de acabar.

Tudo começou quando São Petersburgo ainda se chamava Leningrado, uma homenagem ao grande estadista Lênin. O Hermitage, um magnífico complexo arquitetônico construído em 1764 pelo arquiteto Bartolomeo Rastrelli (1700-1771), para ser palácio de inverno da Imperatriz Catarina II, seria o guardião desses segredos.

O ano agora é 1945, a Europa estava em ruínas no final da Segunda Guerra Mundial e as forças aliadas - de um lado com os Estados Unidos e do outro, a então poderosa União Soviética - entravam na Alemanha nazista que ainda fazia ouvir seus últimos estertores.

Na mostra do Centro Cultural do Banco do Brasil, uma reunião de mestres que marcaram o movimento artístico e cultural ocorrido na primeira fase da Revolução Russa, entre 1890 e 1930. Assim pode ser definida a exposição "Virada Russa", que o CCBB Rio está apresentando. Trata-se da maior e mais importante mostra exibida no Brasil sobre a Vanguarda Russa, evento que mudou a história da arte naquele país. O que também mudou e muito a história da arte na Rússia foi a pilhagem que aconteceu na Segunda Grande Guerra, para onde voltamos agora.

No meio do exército russo que invadiu a Alemanha, um batalhão que não lutava, um batalhão diferente, especializado em arte, tinha uma missão: saquear e levar para a Rússia toda e qualquer obra de arte - pinturas, esculturas, antiguidades, jóias, objetos de decoração -, tudo que pudesse ter algum valor. E eles se "viraram" muito bem. A desculpa para a pilhagem? "Indenização de Guerra!" A mentalidade russa, na época, era que a Alemanha deveria pagar pelos prejuízos causados na cruzada de Hitler pelo mundo. Um comportamento bem diferente do que tiveram os aliados, que segundo a "Time", "restituíram as obras arte aos seus proprietários de direito o mais rápido possível, após a guerra, enquanto os russos se recusaram a fazê-lo".


"Dançarina Sentada", de Edgar Degas
Os soviéticos saquearam museus, galerias e os bunkers onde os alemães escondiam as obras de arte: foi assim que objetos antigos e quadros de grandes mestres da pintura como Vincent Van Gogh, Paul Gauguin, Pierre-Auguste Renoir, Pablo Picasso, Paul Cézanne, Edgar Degas, Henri de Toulouse-Lautrec, Édourd Manet e Henri Matisse, entre outros, foram parar nos porões do Museu Hermitage. Tentando justificar a pilhagem, o historiador russo Albert Kostenevich declarou: "Em 1945, os exércitos aliados agiram de forma similar ao russo, cada um tinha equipes dirigidas por especialistas e encarregadas de reunir trabalhos de arte. Elas nem sempre pararam para refletir sobre a natureza das instituições nacionais ou sobre os direitos dos cidadãos nos países derrotados. Estavam com pressa de coletar objetos preciosos, o que, sob aquelas condições, significava apenas salvá-los. Claro que houve uma diferença (e que diferença!) entre as maneiras com que americanos e soviéticos lidaram com estes tesouros de arte. Os oficiais americanos, quando tomavam posse de objetos de museu, geralmente não os removiam da Alemanha; já os soviéticos mandaram para o Leste tudo que consideraram importante. Estas ações pareciam muito apropriadas - afirmou Kostenevich-, pois a nação, tendo sofrido perdas indizíveis como resultado da invasão nazista, pensava da mesma forma. Todos achavam que a Alemanha devia pagar pelos prejuízos irreparáveis que havia causado".

Entre as obras levadas para o Hermitage pelos russos, algumas pertenceram ao Museu Kunsthalle, de Bremen, e a colecionadores particulares da Alemanha, entre eles o industrial Josef Karl Otto Krebs, que morreu em 1941, possuidor de quadros de Van Gogh, Cézanne e Gauguin; e a Otto Gerstenberg, cuja coleção estava guardada na Galeria Nacional de Berlim, de onde foi levada.

Em 1995, o Hermitage-São Petersburgo anunciou uma exposição que continha parte das obras saqueadas na Alemanha no fim da guerra, e os segredos vieram à tona. Lá estavam a Place de la Concorde, de Edgar Degas, que muitos consideravam perdida; Paisagem com Casa e Lavrador, de Van Gogh; A Bebedora de Absinto, de Picasso; No Jardim, de Renoir; Tapera Mahana, de Gauguin; De Manhã, Partida para o Trabalho, de Van Gogh; Banhistas, de Paul Cézanne, Bailarina Henriette, de Matisse, entre outras obras primas. E o Hermitage, que já possuía centenas de pinturas européias compradas no século XVI, entre elas A Sagrada Família, de Rafael e A Volta do Filho Pródigo, de Rembrandt, teve seu acervo enriquecido aos olhos do mundo, passando a receber turistas de todo o planeta, contrariando a Imperatriz Catarina II (1729-1796), que escrevera quando residia no Palácio de Inverno do complexo do Hermitage: "Somente os ratos e eu podemos admirar essas obras de arte".

Quanto aos ratos, não se sabe, mas as autoridades russas ainda discutem o direito de posse e o retorno das obras para a Alemanha, sendo que dois tratados, um em 1990 e outro em 1992, já foram assinados. Algumas peças já foram devolvidas, mas a maioria continua lá, no Hermitage e em outros museus da Rússia. Ao leitor cabe ressaltar que a Alemanha, durante a guerra, também saqueou, principalmente dos judeus. E claro está que, em outras guerras, outros países fizeram o mesmo (muitos já devolveram ou estão devolvendo obras); mas um erro não justifica o outro e este artigo trata especificamente do caso Hermitage.




Place de la Concorde, de Edgar Degas

Obras Devolvidas

Há pouco tempo atrás o New York Times e O Globo noticiaram, com direito a chamada na 1ª. página, a devolução de valiosíssimas obras de arte ao Museu de Bremen, na Alemanha. Mas não foi um gesto de grandeza do governo russo. Dois desenhos de Albrecht Dürer - Casa de Banho de Mulheres e Maria sentada com Criança e um desenho de Rembrandt - Mulher de pé com as mãos levantadas, entre outros, que haviam sido levados pelos russos de um castelo da Alemanha nazista e que foram doados ao Museu de Belas-Artes do Azerbaijão (parte da Extinta União Soviética), foram recuperadas pela alfândega americana. As obras estavam em poder de um japonês que as roubou do referido museu e que pretendia vende-las para custear um transplante de rim. Avaliadas em US$ 15 milhões, as peças foram devolvidas aos verdadeiros donos pelas autoridades americanas.

No CCBB do Rio de Janeiro o Museu de São Petersburgo apresenta a "Virada Russa" com o abstracionismo de Kandinsky, o suprematismo de Maliévitch, a genealidade de Chagall, a vertente construtivista de Tatlin e o não-objetivismo de Rodchenko.

"Virada Russa" exibe raridades como os clássicos Promenade, de Chagall, que representa um momento mais lírico dentro do surrealismo, e os três quadros de Malievitch que marcam o início do suprematismo na pintura - A Cruz, O Quadrado e O Círculo Negro sobre um fundo branco, que abriram uma página absolutamente nova na história da arte, e que pela primeira vez poderão ser vistos juntos em uma exposição no Rio (Virada Russa estreou no CCBB de Brasília).


O Museu

Inaugurado em 1852, o Museu Hermitage ocupa quatro palácios contíguos, sendo o maior deles o antigo Palácio de Inverno - residência oficial dos czares. Localizado em São Petersburgo, é um dos maiores museus de arte do mundo e sua vasta coleção possui itens de praticamente todas as épocas, estilos e culturas da história russa, européia, oriental e do norte da África, e está distribuída em dez prédios, situados ao longo do rio Neva, dos quais sete constituem por si mesmos monumentos artísticos e históricos de grande importância. Organizado ao longo de dois séculos e meio, o Hermitage possui hoje um acervo de mais de 3 milhões de peças. Seus prédios abrigam a exposição permanente que abrange a história da arte russa do século X ao século XX.



O núcleo inicial da coleção foi formado com a aquisição, pela imperatriz Catarina II, em 1764, de uma coleção de 225 pinturas flamengas e alemãs, essas sim, compradas legalmente do negociante berlinense Johann Ernest Gotzkowski.


Paisagem com Casa e um Lavrador, de Vincent van Gogh, uma das telas levada da Alemanha para o Hermitage


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