A vocaçÃo sacerdotal como dom a acolher o segredo do Tiago



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A VOCAÇÃO SACERDOTAL COMO DOM A ACOLHER





1. O segredo do Tiago

Naquela noite. o pai e a mãe ficaram perplexos. quando o Tiago em vez de dar as boas-noijes. se senta na beira da cama com cara de quem quer falar mas sem saber como começar. A ansiedade do olhar imediatamente lhes diz que desta vez não são assuntos banais da faculdade, dos amigos. ou do grupo de catequese. de que é responsável.


Percebendo-lhe a dificuldade o pai encoraja-o.
- Então, que se passa filho?
- É... penso que já não quero mais seguir Direito. - Começou por dizer.
- Como? - Exclama a mãe sobressaltada -.
Tiveste tão bons resultados no semestre passado!
- É verdade. mas a questão não é essa...
- Queres mudar de curso? - Continua a mãe.
- Mais ou menos. Não sei se tenho vocação. Mas há já algum tempo que sinto que devo ser outra coisa que não advogado.
Fez-se silêncio absoluto. Era difícil saber se de surpresa. susto. de alegria ou estranheza...
Os três ficaram calados, pensativos até que o pai quebra o silêncio.
- Mas pões Direito de parte?
- Ainda não pus completamente o curso de parte. Mas estou cada vez mais decidido a ser padre.
- Como te surgiu essa ideia agora? - Volta a mãe a perguntar - Quem te influenciou para isso?
Tiago começou a explicar como tudo despertou no momento da preparação para o crisma e sobretudo quando entrou no grupo de jovens onde se vivia a fé com alegria, onde se rezava, onde se sentiu a crescer em ideal e em compromisso. Já há algum tempo que tinha falado da questão ao animador do grupo e que este, na altura, o tinha encaminhado para um padre por quem estava a ser acompanhado.
- Não te agrada casar, ter mulher e filhos. a tua casa? Ser bom cristão como marido, como pai, como profissional? - Pergunta o pai.
Sim gostava do casamento. Reconhecia valor e apreço pela vocação laical.
Simplesmente o Tiago sentia que a sua vocação consistia na disponibilidade plena, e por isso aceitava todas as outras componentes, o celibato e essas coisas para estar livre de preocupações familiares e económicas.
Cada vez mais silenciosos os pais interrogavam-se porque é que a vida sacerdotal atraía assim o seu filho mais velho. Parecia tão convencido do que queria.
E agora é o Tiago que vai cortando os silêncios.
- Sabe mãe, não foi ninguém que me meteu esta ideia na cabeça. Aliás nem queria que fossem vocês a usar desse processo para me demover desta minha opção.
E Deus que dá a vocação. Ninguém me influenciou ou caçou. Também não tenho medo de ter vocação. Não fiquem assustados, Deus não me leva por maus caminhos.
A conversa continuou ainda pela noite dentro e, nessa noite, ninguém dormiu.

2. Reacções desfavoráveis

O tema da vocação sacerdotal tem sido nos últimos anos um tema bastante frequente devido à escassez de sacerdotes à frente das comunidades paroquiais e também devido à elevada média etária do clero. Mas nem por em algumas dioceses o número de candidatos ao sacerdócio ter vindo a aumentar de modo progressivo, as reacções não deixam de ser muitas vezes desfavoráveis a esta questão.


Pudemos distinguir algumas reacções típicas.
Com os tempos que correm? Com a atitude positiva diante do sexo, a exaltação da liberdade, o critério do lucro a determinar a escolha profissional, o conforto, o consumismo descontrolado?
Esta estranheza dá depois lugar à indiferença, à auto justificação ou mesmo à polémica.
Não está o ser humano feito para viver em casal? A estrutura psico-física do homem e da mulher não está orientada para a união. O celibato, não é algo que vai contra a natureza? Que sentido têm hoje renúncias desumanas que mais parecem autênticas mutilações?
O coro das críticas aumenta quando se refere à questão da obediência. Que sentido tem esse compromisso num mundo que consagrou a liberdade e os direitos humanos. Não é por acaso uma despersonalização?
Entre cristãos ilustrados, as críticas ou receios encontram ainda argumentos religiosos. Acabamos de descobrir a igualdade fundamental de todos os cristãos; o chamamento universal à santidade; a dignidade da vocação laical, que não é inferior às outras; a importância vital dos leigos para a acção de fermento da Igreja no mundo.
Tem cabimento a questão vocacional?
portanto muita gente, mesmo entre cristãos, que confessam não entender a vocação sacerdotal.
Os abandonos ocorridos nas últimas décadas, muito mais numerosos que em épocas anteriores, originam maior desconfiança. O que leva a que, a partir desse facto, se façam muitas generalizações contrárias aos dados e ao bom senso.
"Só foram os que não servem para mais nada ou que já não têm coragem de voltar atrás, pela idade". "A maioria dos que se ordenavam ou faziam votos, não sabiam o que faziam". "Iam só para conseguir os estudos". "Era gente pobre que não tinha outra saída".

3. Como compreender tais reacções

Toda a vocação, s6 se entende internamente, a partir de Deus. Acontece que estamos numa sociedade que sofre de grande miopia para a percepção do Mistério.
Por isso, tem dificuldade em reconhecer sentido numa vocação de entrega seja ela qual for e também a sacerdotal que pelas suas renúncias é manifestação visível desse Mistério.
Muitos cristãos deixam-se contagiar por esta falta de fé.
À falta de fé acrescenta-se a falta de generosidade. Estamos numa sociedade neo-conservadora e materialista, cujos modelos de identificação são homens e mulheres que triunfam nos negócios, na posição social, no poder. Estes são os valores em jogo e, mesmo entre cristãos, em que domina o individualismo e o materialismo prático. Na carência de vocações sacerdotais, este elemento tem um papel decisivo e explica a fana de generosidade, de ideal, de espírito de sacrifício.
Analisado a partir daqui, a estranheza diante do tema vocacional transforma-se numa grave acusação de mediocridade que o Espírito faz hoje em dia às comunidades cristãs. Muitos dos medos anti-vocacionais revelam pura e simplesmente fuga ao sacrifico e resposta negativa a Jesus.
Isto prejudica todas as vocações e causa dano grave ao Reino de Deus e à Igreja.

4. Família, a Igreja doméstica onde Deus se revela e onde se realiza o seu chamamento

A família é uma autêntica encruzilhada onde conflui o interesse sócio-cunural, político e religioso que vimos de analisar, e centro de possível permanência dos valores humanos e dos especificamente cristãos. Isto é, onde se "dizem" as coisas mais importantes para a orientação de uma vida. Mas é num ambiente secularizado e até descristianizado que ela é chamada a desempenhar essa missão de célula base da sociedade, Igreja doméstica e primeiro Seminário. Neste sentido a família é comunidade insubstituível de referência (fé-moral-espiritual) enquanto cultiva e acompanha o caminho vocacional dos filhos.
Torna-se por isso necessário e urgente entender a família como comunidade vocacional onde a opção de vida de um dos seus membros, implica e compromete vitalmente a todos e a cada um. Neste sentido, o sacerdócio é um dom a ser conquistado na oração, estima e amor mútuos. Esta união e comunhão de desígnios oferece ao candidato e ao sacerdote um contributo específico importante, à sua formação permanente.

5. O contexto da Revelação: "Estar nas coisas do Pai"

Fazer leitura do texto do evangelho: Lc 2, 41-52.


Neste texto salta de imediato o facto da perda de Jesus que, contrariamente aquilo que todos fazem, não empreende o caminho do regresso, fica em Jerusalém, no Templo, como resultado de uma decisão, pudemos dizer, por uma exigência vocacional.
Pudemos intuir o entusiasmo com que em Nazaré, durante meses, se esperou e se preparou pela oração e pelo diálogo esta viagem.
Uma vez em Jerusalém, não será difícil imaginar a emoção e a certeza de Jesus de estar no Templo como casa do Pai, envolvido pelo Seu Mistério, a alegria de ver que Deus é tomado a sério como Deus. Por outro lado, sentiria que alguma coisa estava mal e que devia ser de outro modo. A decisão misteriosa de ficar em Jerusalém, sem que ninguém o percebesse tem em vista a missão que assumirá alguns anos mais tarde.
Outro aspecto é o da busca realizada pelos pais até que o descobrem no Templo tranquilamente sentado entre os doutores. Eles estão preocupados e angustiados, Ele entregue às suas reflexões como se se tratasse de um comportamento normal...!
Primeiro procuraram-no onde ele não se encontrava. Finalmente vêm encontrá-lo onde e como não esperavam.
"Por que me procuráveis? Não sabíeis que tenho que estar nas coisas do Pai"! A resposta de Jesus revela aspectos que Maria e José ignoravam. Como que a dizer-lhes: "a vossa busca é boa porque parte do amor que me tendes, mas não está bem orientada, porque parte de uma compreensão incompleta do mistério da vontade do Pai. Vim para isto, é esta a minha vocação". Deste modo afirma Jesus a consciência do seu caminho vocacional que terminará com a entrega definitiva ao Pai na cruz.
Esta actuação anuncia a primazia absoluta do Pai e pretende ajudá-los a intuir, numa mais profunda afinidade com o mistério do Reino, o facto novo, as consequências vocacionais dessa primazia.
Esta é a história de toda a vocação, uma vez que, toda a vocação traz consigo uma ruptura, um sofrimento e um afastamento que a tornam incompreensível à luz da razão mas que leva a considerar as "coisas" do Reino como "coisas" do Pai e portanto como dom do alto.
O comportamento de Jesus aos doze anos, no Templo, ensina ainda que o devido respeito aos pais não pode impedir nunca a realização de uma vocação ao sacerdócio.
Como normalmente não impede, em geral, a opção matrimonial de um filho ou a escolha que faça duma profissão.

6. Trabalho de grupos

1. O segredo do Tiago

"Você decide" o final a dar a esta história inspirada em casos concretos.


Elencar primeiro os finais possíveis, partindo das várias atitudes concretas dos pais em relação à possível vocação sacerdotal dos filhos.
- Uns opõem-se, oferecem resistência de ordem económica, afectiva ou psicológica e outras...
- Outros, ao opor-se, procuram reconduzir o candidato aos estritos limites de uma lógica demasiadamente humana, se não mesmo mundana, ainda que sustentada por um sincero afecto.
- Outros, apesar de se oporem, oferecem um confronto claro e sereno cujos estímulos que daí derivam podem constituir uma preciosa ajuda para que a vocação sacerdotal amadureça de modo consciente e decidido.
- Alguns pensam que os filhos seriam mais felizes na vida matrimonial que na vida de consagração em celibato e procuram dissuadir.
- Outros, não se opondo a que seus filhos optem pelo sacerdócio, não estão dispostos ou não sabem animá-los e permanecem indiferentes.
- Outros estariam dispostos a fazê-lo se tivessem a certeza de que esa era a verdadeira vocação. Ou consideram que deveriam tanto eles como os seus filhos ter uma certeza metafísica.
- Face ao excesso de utilitarismo e consumismo há pais que, querendo o melhor para os seus filhos, desejariam uma boa posição económica e social - que não encontram na vida sacerdotal.
- Alguns, inclusive, interrompem os estudos dos seus filhos, para os profissionalizar.
- Há também pais que confundem a simples proposta vocacional como forma de pressão ou indisposição e por isso afastam essa hipótese, deixando os filhos à mercê das pressões ou imposições que recebem do ambiente cultural e social.
- Outros há que negativamente pressionam mesmo e empurram para o Seminário mesmo contra a vontade dos seus filhos.
- Há também aqueles que vêem com alegria a possível vocação de especial consagração de alguns dos seus filhos e os acompanham nesse caminho formativo com a oração, o respeito, o bom exemplo das virtudes domésticas e a ajuda material e espiritual, sobretudo nos momentos difíceis.
- Qual a nossa hipotética ou mesmo real atitude?

2. Reaç6es desfavoráveis

Fazer um levantamento dos "medos" e "teias de aranha" em relação à vocação sacerdotal, quer por defeito quer por acréscimo, resultado desconhecimento da especificidade desta vocação.

3. Como compreender tais reações

Apontar algumas propostas de superação das distorções anteriores.



4. Família, Igreja doméstica onde Deus se revela e onde se realiza o seu chamamento

- Apresentar pistas, desafios e opções em ordem a um processo vocacional concreto, efectivo e afectivo, realizado em família.


- Como há-de a família, enquanto comunidade de vida, ambiente educativo e Igreja doméstica dar à Igreja e ao Mundo "Padres para este tempo"?
- Tempo trágico - que precisa de sinais de esperança, de quem os descubra e testemunhe.. .
- Tempo do hedonismo, da ostentação e do poder, impregnado de materialismo prático - que precisa de quem seja farol e sinal de esperança, de quem se revista de uma forte vivência espiritual e seja cada vez mais um intercessor e orante pelo seu povo...
- Tempo de discórdia, marcado por nacionalismos violentos, fundamentalismos, racismos, rupturas geracionais - que precisa de quem seja acolhedor, dialogante e comunicativo, arauto da novidade permanente e universal do Evangelho...
- Tempo de múltiplas servidões, escravaturas do sucesso, do poder, do prazer - que precisa de quem seja instrumento do verdadeiro serviço e fermento da libertação, desenvolvendo um sentido crítico e compreensivo das situações...
- Tempo pleno de interrogações e em difusa procura do divino, marcado pelo fim de ideologias e pelo ressurgimento de vendedores de sonhos - que precisa de quem esteja seguro da sua identidade - configurado a Cristo Bom Pastor e Cabeça da Igreja - tenha coragem de a testemunhar...

5. Contexto da Revelação: "Estar nas coisas do Pai"

1. Dialogar no sentido de tornar consciente a situação em que como família nos encontramos relativamente ao plano de Deus, a partir do momento existencial, eclesial, social.


2. Elaborar uma celebração da palavra que inclua o texto base deste capítulo (Lc 2, 41-52) a ser proposta à comunidade na Semana dos Seminários.

7. Oração

"Oh Maria, que viveste no sofrimento e na oração o desabrochar da personalidade de Jesus, o seu crescimento, a manifestação aos homens da sua missão, assiste agora com paciência e bondade de mãe à manifestação dessa personalidade em cada um dos membros da nossa comunidade familiar para correspondermos ao desígnio maravilhoso do Pai, um desígnio que jamais terá fim. Amen".


(In Textos de Reflexão - Congresso Diocesano da Família - Dez. 94 -Porto)


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