A vontade de abrangência milton santos



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A vontade de abrangência

MILTON SANTOS


Qual o papel do intelectual nessa encruzilhada turbulenta da história? Pode

ele contribuir, pela reflexão, ao aperfeiçoamento da vida democrática e das

instituições? Cabe fazer tais perguntas no Brasil deste fim de século, onde,

aparentemente, homens de estudo se instalaram no poder?

O antigo debate sobre o papel social dos intelectuais, mais vivo em países

como a França, mais débil noutros como os Estados Unidos, onde a filosofia

dominante do pragmatismo constitui por si mesma uma dificuldade, merece

ganhar nova força com a emergência do fenômeno da globalização. Diante do

papel político das empresas e do mercado global, frequentemente mais ativos

que os Estados e os partidos na formação da opinião, as massas atônitas

reclamam explicações mais consistentes. Estarão os intelectuais preparados e

dispostos ao enfrentamento dessa tarefa?

A questão essencial é que a centralidade do trabalho dito intelectual tem,

hoje, como eixo a técnica e o mercado, ambos planetários, pois constituem os

esteios centrais da própria globalização. Enquanto a velha oposição entre

trabalho manual e trabalho intelectual se torna insuficiente, a

tecno-ciência acaba por obter um comando excessivo nas tarefas de elaboração

das idéias. Pede-se, agora, aos homens do saber a elaboração das soluções

mercantis e o respectivo discurso, a ser utilizado pelos governos e

empresas. Não é essa a cantilena dos Ministérios da Educação e da Ciência?

Desse modo, levantam-se graves riscos às atividades de pensar, graças,

sobretudo, às armadilhas da instrumentalização. Esta é cada vez mais

presente, crescentemente exercida pelo mercado; mas, também, pela reclamada

busca de sucesso; pela substituição do modo, isto é, a busca incessante da

verdade, pela moda, com a qual a notoriedade é garantida à custa da

inteireza; e até mesmo por toda sorte de ativismos, isto é, partidismos,

militantismos, unilateralismos e sloganismos, caminhos de facilidade que

atropelam a possibilidade de um pensamento livre.

Para completar, provisoriamente, essa lista, lembremos que a

institucionalização crescente da vida universitária acaba por forjar uma

teia, cada dia mais sólida e visível, em que o trabalho rasteiro é deixado a

alguns assessores, que recrutam subserviências no baixo e médio clero,

editando medidas ditas saneadoras da administração e das finanças, cujo

resultado final é a limitação à liberdade do pensar e do dizer, enquanto,

espertamente, autoridades superiores cada vez mais comprometidas com os

meios e mais descompromissadas com as finalidades da educação inundam o

mercado com discursos eloquentes, mas vazios.

Esses riscos, que já se vinham delineando havia algum tempo, agravaram-se

com a globalização, momento da história que consagra o reino do efêmero e

abre espaço, tornado excessivo, às demandas de um saber prático em

detrimento do saber filosófico, daí a confusão cada vez maior entre ser

letrado e ser intelectual. Nas condições atuais, quando, no dizer de Ramsey

Clark, pensamos com um revólver apontado contra nossa cabeça, o exercício

das idéias genuínas pode até parecer uma inutilidade. Tudo conspira para a

primazia do pensamento calculante, a começar pelas próprias dificuldades de

difusão de idéias fundamentais.

Para isso, aliás, contribui uma indústria editorial cada vez mais inclinada

à busca do lucro, em detrimento da qualidade das obras e ao elogio da

banalidade, com a fabricação de best sellers de retorno garantido e, também,

com a síndrome do "show business" que agora acompanha as atividades

propriamente intelectuais, ameaçando-as de prostituição desde a origem. São,

também, cada vez mais frequentes as manifestações organizadas como grandes

promoções e nas quais é difícil às estrelas escapar à condição de um produto

oferecido, uma marca, uma grife, cuja presença apenas legitima a ocasião.

Hoje, a moda cruel no marketing de idéias é dar a palavra a um oponente, a

pretexto de democratizar o debate, enquanto o grosso da tropa fala de outra

coisa, isto é, do que realmente conta.

Nessas condições, o intelectual trabalha sobre o fio da navalha, já que aos

jovens se torna difícil ser autêntico, e os intelectuais estabelecidos,

frequentemente atraídos por prementes solicitações para aparecer, estão sob

a mesma ameaça.

É normal que os produtores de idéias aspirem a que o seu trabalho seja

conhecido: é a forma pela qual podem, ao mesmo tempo, influenciar a evolução

da sociedade e obter aquele reconhecimento indispensável à continuação da

sua tarefa. O perigo é que o mundo do marketing, sob diferentes disfarces, e

a vontade, escancarada ou secreta, de ser um intelectual "bem-sucedido"

levem à confusão entre o exercício do papel de intelectual e o mero

desempenho como um ator de vaudeville.

O intelectual público tem como ponto de partida uma vontade de abrangência,

uma filosofia certamente banal, mas solidamente ancorada nos fatos e na

reflexão, que permite encontrar, ao mesmo tempo, as idéias, abertas a um

público maior, e as respectivas palavras: simples, precisas, inteligíveis.

Daí seu papel pedagógico e, às vezes, profético. As metáforas não serão um

artifício mercadológico, mas o resultado de uma pesquisa frequentemente

longa, tanto das idéias como do discurso que as exprime. Cabe, todavia, na

busca das palavras justas e do discurso acessível, fugir ao escorregão nas

banalidades e chavões, isto é, escapar ao panfleto. É, talvez, esse o limite

à ação do intelectual público, uma fronteira de reconhecimento difícil,

inclusive porque é difícil avaliar a priori o jogo de influências entre um

autor e o seu público. Cabe, mesmo, indagar sobre o que é esse público e

como ele é conduzido, a partir da própria forma de sua convocação.

As cascas de banana no caminho daqueles que se querem manter, ao mesmo

tempo, intelectuais íntegros e intelectuais públicos são numerosas,

obrigando a um permanente estado de alerta para obedecer, ao mesmo tempo, ao



imperativo da crítica da história e ao da sua própria autocrítica, como seu

intérprete.


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