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Aboud, Sérgio - UFF



Masculinidade e homoerotismo no Barão de Lavos
Esbraseado e tremendo (...) a imunda boca, numa insalubre avidez, num insustável furor, doido, convulso, a um dado ponto se colou, sôfrega sugando...

Ao cabo (...) o barão balbuciou:

- Nunca ninguém te tinha feito isto?

Ao que o rapaz, filosofalmente, abotoando-se:

- Ainda ontem... um padre. (...)

[Pensando] o barão. - Como? ... Então não era só ele? ... Outros havia também que... E muitos, talvez, quem sabe?... Muitos, sim, provavelmente... Muitos! Bem mais do que ele, do que o mundo imaginava!



(Barão de Lavos, páginas 380 e 381)
Esta comunicação faz parte da pesquisa, ainda em andamento, que está sendo feita para minha dissertação de mestrado em Literatura Portuguesa, no Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense e propõe a refletir e analisar a obra O Barão de Lavos de Abel Botelho, autor representante do naturalismo português. A proposta é realizar uma leitura de gênero, pensando algumas questões do masculino, principalmente, os conceitos de masculinidade, homossociabilidade e homoerotismo, e as possíveis configurações no romance. Através desta análise e reflexão, pretendemos levantar a hipótese da presença e participação social de sujeitos praticantes do homoerotismo na sociedade lisboeta do final do século XIX1. A obra contemplada também nos permite a discussão sobre a possibilidade da existência de uma identidade sexual já construída neste período.

Para realizarmos este exercício faremos, uma aplicabilidade conceitual de masculinidade, homossociabilidade e homoerotismo e poderemos perceber como muitas vezes estes se interligam apesar de serem distintos e como podemos trabalhar com textos literários em nossas pesquisas de forma reflexiva, levando em consideração a proposta teórico metodológica apresentada durante o curso2 “Crise da masculinidade, crise da narrativa”, ministrado pelo Profº José Carlos Barcellos da Faculdade de Letras da Universidade Federal Fluminense, durante o segundo semestre letivo do ano de 2001. Também serão consideradas as questões debatidas durante as sessões do Grupo de Estudos em Homoerotismo, deste mesmo Instituto.

Neste romance, O Barão de Lavos, Abel Botelho, descreve a história de D. Sebastião, último nobre da sua linhagem. Um homem jovem de 32 anos, casado, mas que sofre do terrível vício da pederastia3, vício esse que vai ser a sua ruína física e moral principalmente, de acordo com os discursos da época.

Inicialmente publicado como folhetim, o romance faz parte de uma série de obras intitulada por Abel Botelho de patologias sociais. Sendo este o primeiro romance a abordar explicitamente o tema do homoerotismo, que temos notícia, na literatura de língua portuguesa, sendo publicado dois anos4 antes do Bom Crioulo de Adolfo Caminha.

O que primeiro nos chama a atenção no texto de Abel Botelho é que, já de início, no primeiro capítulo, o narrador nos diz a que veio. O narrador principia a narrativa descrevendo uma noite de agitação em um local público de diversão e, sem subterfúgio algum, nos é mostrado o personagem principal em ação:

Um homem vagueava ali, contudo, que não parecia dar-se grande pressa em entrar. Ia e vinha, parava, esquadrinhava a multidão, passava automaticamente de grupo a grupo, nesta ansiedade tortuosa de quem procura com aferro alguém. (...) Devia de ser um rapaz quem ele procurava; porque os olhos deste homem alto e seco poisavam de preferência nas faces imberbes, (...) dos adolescentes. Fitava-os com uma fixidez gulosa e sombria(...) Percebia-se mesmo, (...) que ele não procurava determinadamente alguém. Pelo contrário, parecia comparar, confrontar, escolher. (...) Roçava-os de leve com os braços; tocava-lhes a coxa com a bengala, como distraído; (...) E, de cada vez que o moço interpelado se afastava, aborrecido ou indiferente, este noctívago caçador de efebos lá seguia em cata de outro (...).5
Botelho inicia a obra mostrando D. sebastião, o Barão de Lavos, durante um flerte noturno, em verdadeiro procedimento de caça, procurando um jovem efebo. Interessante essa descrição pois desde o início não temos dúvida sobre a personalidade e os desejos do Barão. Mais ainda, podemos aproveitar esta passagem como um dos vários indícios que vão aparecendo durante o restante do livro, para entendermos que havia lugares públicos e privados onde homens podiam procurar por outros homens para encontros sexuais e afetivos, demonstrando a ação homoerótica que estava presente em Lisboa no século XIX.

Apesar de ser representado desde o início do livro como alguém propenso a este vício6, a descrição física de D. Sebastião não é a de um sujeito efeminado. Podemos verificar isso mais adiante:


Tinha 32 anos, o barão, e contudo dir-se-ia ao vê-lo que orçava já pelos quarenta. (...) Via-se a magreza estirando e cavando em volta dos malares salientes a face desfibrinada. (...) e a descamação farelenta da pityriasis polvilhava-lhe abundante o bigode e as sobrancelhas. Uma calvície prematura principiava a despovoar-lhe a frente e os lados da cabeça, rasgando uma testa larga, dominadora, inteligente.7
Sobre esta descrição do barão podemos considerar, os estudos de George Mosse8. Segundo o pesquisador, neste período, ainda não estava difundida, no senso comum, a associação entre homoerotismo e afeminamento.

Sem procurar usar o texto como justificativa para essa idéia, mas percebendo como o narrador justifica desde a adolescência a predestinação da personagem pelas características físicas que esta apresentava, e um caráter não confiável, furtivo, não digno de um homem:



(...) não inspirava simpatia; traía-lhe a inconsistência do caráter essa linha apagada, miúda das feições. O olhar era de ordinário baixo; não cruzava com firmeza; e sempre que sentia um outro olhar a interrogá-lo fito, as pálpebras desciam logo (...).9;
Percebemos a degradação do barão como conseqüência inevitável, de seu comportamento. Degradação econômica, social, física e moral.

O comportamento sexual do protagonista se caracteriza exclusivamente pelo papel ativo nas relações com os rapazes, parecendo que esse é o último sentido de sua masculinidade, apesar de que, em alguns momentos, D. Sebastião, por uma fração de segundo, quase se deixava dominar pelo desejo de experimentar outra forma de contato sexual com seus parceiros.

Tal desejo é reprimido no decorrer de quase todo o romance; só bem perto do final é que vamos vê-lo se concretizar. Nesta seqüência, aliás, uma das mais interessantes, já encontramos o barão falido, separado de sua esposa e um amante fixo, bastante arruinado pela sífilis, quase chegando ao momento de sua morte.

Estava ele, mais uma vez, em uma seqüência de caça de mais um efebo, quando encontra um jovem ruivo que ele já cercava há muito tempo. Depois de muito jogo de sedução, D. Sebastião consegue travar contato com o rapaz que o segue até uma estalagem, os dois não trocam nenhuma palavra até entrarem no quarto. Neste comportamento, podemos perceber que o rapaz já estava habituado a essa abordagem silenciosa e pública, a essa troca de dinheiro por sexo.

O narrador nos descreve de forma interessante e casual o hotel para onde eles vão, como um lugar simples em que se alugavam quartos para encontros rápidos. A própria atendente do hotel, descrita como uma rude virago, não mostra surpresa em alugar um quarto para dois homens :

Mal deu de olhos no barão, com o gaiato, dardejou-lhe a mocetona um olhar comiserativo, e, sem arredar do serviço:

- Pode subir... tem quarto.10
Mais uma vez surge-nos o claro indício de que existiam lugares, onde homens poderiam estar com outros homens para encontros amorosos.

É neste quarto simples de hotel que se desenrola a seguinte cena:



Esbraseado e tremendo (...) a imunda boca, numa insalubre avidez, num insustável furor, doido, convulso, a um dado ponto se colou, sôfrega sugando...

Ao cabo (...) o barão balbuciou:

- Nunca ninguém te tinha feito isto?

Ao que o rapaz, filosofalmente, abotoando-se:

- Ainda ontem... um padre. (...)

[Pensando] o barão. - Como? ... Então não era só ele? ... Outros havia também que... E muitos, talvez, quem sabe?... Muitos, sim, provavelmente... Muitos! Bem mais do que ele, do que o mundo imaginava!



- E porque não? (...) Quem era capaz de com segurança lhe apontar a linha terminal entre a porcaria e o asseio? Quem de dizer-lhe onde começa o vício e onde acaba a virtude? (...)

E o barão, já na rua, [meditando] (...) Alçava com orgulho a cabeça, sentia-se reabilitado, reavia a própria estima.11
Pela primeira vez, o barão não consegue se controlar e permite-se praticar a felação no jovem, provando pela primeira vez da seiva masculina. Ainda surpreso com o que fez, mais espantado fica quando o jovem lhe diz que aquilo é comum. Ora, neste momento do romance vemos este fantástico protagonista pensando na questão da identidade, verificando que não é único no mundo e que, portanto, suas práticas sexuais não eram tão incomuns como ele imaginara.

Neste momento do romance Abel Botelho nos presenteia com uma excelente possibilidade de pensarmos na questão da identidade, questão essa que merece uma reflexão e um estudo mais aprofundado nesta dissertação proposta.

Por todos estes vestígios apresentados no romance, conseguimos pensar na possibilidade de um trabalho enriquecedor, por acreditarmos que:

as investigações históricas e [literárias] devem compreender as relações homossexuais em diferentes sociedades [e que] podem (e devem) contribuir no sentido de se pensar os significados mais profundos e complexos das relações (...) homossexuais no mundo contemporâneo12


bibliografia


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1 Tanto Luiz Mott (Pagode português: a subcultura gay em Portugal, 1988) quanto David Higgs (Lisbon". In: Queer Sites: gay urban histories since 1600, 1999) nos auxiliam quando apresentam esta possibilidade na mesma Lisboa, durante o século XVI.

2 Tomaremos como base a bibliografia usada durante o curso citado, uma boa parte dela está sendo citada neste trabalho.

3 Esta expressão é usada por Abel Botelho para descrever os desejos do seu personagem. Compreensível pelo contexto sócio, histórico e literário no qual estava inserido.

4 1899.

5 Este fragmento e outros que aparecerão citados durante este trabalho são do romance trabalhado. Eu indicarei apenas as páginas do texto. PP 8 e 9.

6 Como dito antes, expressão usada muitas vezes pelo autor para descrever os desejos e tendências da personagem.

7 P51.

8 George Mosse in The Image of Man: The Creation of Modern Masculinity.

9 P 379.

10 P 379.

11 PP 380 e 381.

12 ENGEL, Magali. História e Sexualidade in CARDOSO, C. e VAINFAS, R.. Domínios da História. Rio de Janeiro, Campus,1997 p 301.

X Encontro Regional de História – ANPUH-RJ



História e Biografias - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - 2002



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