Acesso aos Estudos Superiores de Alunos com Deficiência



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Acesso, Permanência e Prosseguimento da Escolaridade de Nível Superior de Pessoas com Deficiência: Ambientes Inclusivos

UNICAMP - PROESP/CAPES




Acesso aos Estudos Superiores de Alunos com Deficiência

M. Teresa E. Mantoan

LEPED, Faculdade de Educação UNICAMP tmantoan@unicamp.br
Maria Cecília Calani Baranauskas

Instituto de Computação – UNUCAMP c.baranauskas@gmail.com




1.Introdução

Visando garantir aos alunos com deficiência o direito de realizar seus estudos de nível superior em ambientes inclusivos de ensino e aprendizagem, está em desenvolvimento na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) o projeto “Acesso, Permanência e Prosseguimento da Escolaridade de Nível Superior de Pessoas com Deficiência: Ambientes Inclusivos”, financiado pela CAPES, com apoio da Pró-Reitoria de Pós-Graduação (PRPG), Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP) e Pró-Reitoria de Desenvolvimento Universitário (PRDU) de nossa universidade.


Este é um projeto de caráter interdisciplinar, que partiu do envolvimento de pesquisadores, professores e alunos dos cursos de pós-graduação stricto sensu da Unicamp sediados na Faculdade de Educação (FE) e no Instituto de Computação (IC); pesquisadores, professores e especialistas do Centro de Estudos e Pesquisas em Reabilitação Professor Dr. Gabriel Porto da Faculdade de Ciências Médicas (CEPRE/FCM) e do Laboratório de Acessibilidade da Biblioteca Central da Unicamp (LAB/BC). Como resultado da própria proposta do projeto, esse grupo inicial já se expandiu incluindo alunos e pesquisadores de outras unidades como por ex. Engenharia Mecânica, Engenharia Civil e Arquitetura, Núcleo de Informática Aplicada à Educação, entre outros.
O grupo trabalha dentro de uma visão inclusiva de pesquisa, contando com a participação de pesquisadores com e sem deficiência e também com a colaboração de profissionais que não têm um vínculo formal com a universidade. A cada ação no escopo do projeto, outras pessoas são agregadas ao grupo, ampliando a abrangência de suas ações.
Este trabalho situa o contexto de nosso Projeto, apresenta e discute a natureza da pesquisa envolvida e a abordagem teórico-metodológica sendo adotada na condução de nossas ações. Em particular discutimos o modelo adotado para o design e desenvolvimento de um espaço inclusivo na Web, fundamentado em princípios do Design Universal e desenhado a partir da perspectiva inclusiva de participação das várias partes interessadas, incluindo-se aí pessoas com diferentes tipos de deficiência.

O Design Universal representa uma maneira de pensar a criação de produtos para toda a gente, apesar das suas diferenças ou inabilidades. Os seus princípios também devem ser considerados no processo de design de sistemas interativos. Na perspectiva de Design Participativo, o artefato criado não é somente projetado para os usuários, mas com eles, colaborativamente. Semiótica Organizacional (SO) é uma disciplina que propõe teoria e métodos que permitem analisar sistemas de informação a partir de três funções de informação humana: expressão de significados, comunicação de intenções e criação de conhecimento. Assim, entendemos Design situado no paradigma do Design Universal, tendo como pressuposto fundamental a participação do usuário na expressão de significados, na comunicação de intenções e na construção conjunta de conhecimento. Tal processo deve ser conduzido iterativa e interativamente pelo grupo de pessoas envolvidas na criação do produto de design, de forma participativa. A SO oferece artefatos que possibilitam e mediam as ações dos sujeitos na situação de design.


Técnicas do Design Participativo e conceitos e artefatos da Semiótica Organizacional têm sido utilizados no processo de construção de espaços virtuais inclusivos no contexto deste Projeto. Os principais desafios de se buscar um processo inclusivo são discutidos, nas ações propostas e realizadas até então.


2. Contexto do Projeto

A necessidade de adequar o ensino superior à legislação brasileira vigente1, que propõe o acesso das pessoas com necessidades especiais a todos os níveis de ensino público e privado não surpreendeu a Unicamp nos seus propósitos de atendimento aos alunos com deficiência.


Foram criados, em 1999, nesta IES uma sala de acesso à informação e um laboratório de apoio didático em um espaço da Biblioteca Central Cesa Lattes da Unicamp, denominado Laboratório de Acessibilidade (LAB), inaugurado oficialmente no dia 09 de dezembro de 2002.
O LAB constitui um espaço para o qual convergem trabalhos de diversos grupos de pesquisadores da Unicamp, sediados no Centro de Estudos e Pesquisas em Reabilitação Professor Dr. Gabriel Porto (CEPRE) da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), no Instituto de Artes (IA), na Faculdade de Engenharia Elétrica (FEEC), na Faculdade de Educação (FE) e no Instituto de Computação (IC). Nesse Laboratório têm ocorrido atividades diversas, cujo enfoque é estimular a autonomia e a independência acadêmica dos usuários, a produção de material adaptado, além do desenvolvimento e aplicação de softwares destinados a usuários com deficiência, especialmente para aqueles com problemas físicos e sensoriais.
A demanda crescente de usuários com deficiência a este Laboratório, assim como aos cursos desta IES, e a tendência atual de uma configuração inclusiva dos ambientes sociais e escolares tem mobilizado os que atuam no LAB, para atender a todos os que o procuram (alunos, professores, pesquisadores, outras IES) em suas expectativas.
A existência de um embrião de trabalho tão importante como este constituiu o cenário inicial deste projeto e a oportunidade oferecida pelo PROESP/2003 veio aglutinar todas essas propostas acadêmicas e outras em potencial que estavam dissociadas.

3. Natureza e Caracterização do Projeto
O paradigma educacional que nos sustenta neste projeto tem como princípio a inclusão irrestrita à escola, o que supõe o reconhecimento e valorização das diferenças dos alunos, a convivência e o compartilhamento incondicional do saber, em todos os níveis de ensino.
O Proesp/2003 foi concebido a partir de um conceito de ambiente inclusivo que, embora esteja focado, especificamente, nos alunos com deficiência (regulares e prospectivos) da Unicamp, ampliou o seu público-alvo, estendendo-se, indistintamente às necessidades de todos os que compõem a nossa comunidade universitária. Não nos restringimos a questões relativas à acessibilidade no ambiente físico e arquitetônico do campus, enfatizando o acesso ao conhecimento, que é o grande desafio da educação, nesses tempos de universalização do saber.

Para atender à abrangência e complexidade de nossas pretensões, este projeto, é de natureza interdisciplinar, implicando a integração de áreas de conhecimento da educação, da computação e Atendimento Educacional Especializado (ensino especial) para a planificação e execução das ações propostas.


Envolve pesquisadores, professores e alunos dos cursos de pós-graduação strictu senso desta IES sediados na Faculdade de Educação e no Instituto de Computação; pesquisadores, professores e especialistas do Centro de Estudos e Pesquisas em Reabilitação Professor Dr. Gabriel Porto da Faculdade de Ciências Médicas e do Laboratório de Acessibilidade da Biblioteca Central da Unicamp.
A investigação faz a articulação entre as áreas temáticas dessas Unidades da Unicamp, que abordam a inclusão escolar e social, a acessibilidade às tecnologias e ao conhecimento, as tecnologias assistivas em geral, na perspectiva de ambientes educacionais verdadeiramente inclusivos. Esses ambientes são projetados e podem ser utilizados não apenas por pessoas com deficiência, extrapolando o design especializado. A intenção é reduzir/eliminar barreiras físicas e posturais que geram a exclusão dentro e fora dos espaços educacionais formais.
Nossas linhas de atuação perpassam os tópicos: Atendimento Educacional Especializado; ensino inclusivo; acesso ao conhecimento e à tecnologia; tecnologia assistiva; interação humano-computador e ambientes inclusivos de aprendizagem.

Para atingir o objetivo central do projeto - garantir aos alunos com deficiência o direito de realizar seus estudos de nível superior em ambientes inclusivos de ensino e aprendizagem, propusemo-nos a:


  1. Avaliar o Atendimento Educacional Especializado no âmbito desta IES para atender às necessidades de seus alunos com deficiência;

  2. Produzir conhecimentos cujo alcance e inovação contribuam para a quebra de barreiras sociais e escolares à inclusão no nível superior de educação;

  3. Ampliar, atualizar, aprimorar e estender interna e externamente serviços e recursos existentes no Laboratório de Acessibilidade da Biblioteca Central da Unicamp para que se torne um ambiente acadêmico difusor de práticas inclusivas;

  4. Criar e disseminar o uso de novas ferramentas de apoio à aprendizagem e ao ensino, que sirvam de complemento à educação superior de alunos com deficiência;

  5. Propiciar maior autonomia ao aluno com deficiência na comunicação e busca de informações, facilitando o desenvolvimento de sua aprendizagem e a melhoria das condições de ensino na Unicamp e fora dela.

Sabemos, contudo, que o alcance dessas proposições dependerá de uma releitura das questões relacionadas ao acesso ao conhecimento na Universidade. O sucesso das nossas iniciativas está vinculado a uma mudança paulatina de atitudes da comunidade acadêmica,diante do paradigma inclusivo


Estamos, portanto, envidando esforços no sentido de rever conceitos, desequilibrar velhas posturas conservadoras, instaurar a dúvida no que parece tão certo, quebrar preconceitos seculares. Não se trata de uma tarefa fácil, porém possível e instigante, mobilizadora de nossa capacidade criativa. Sentimo-nos cada vez mais provocados pelos seus desafios, à medida que o projeto avança.

Num ambiente educacional pautado no mérito e na fragmentação das áreas do conhecimento, a idéia de uma aprendizagem transversal, de redes de conhecimento, de emancipação intelectual, que constituem pilares de um ensino inclusivo, impõe um esforço de redobrado de trabalho e um desejo de mudança potencializado pela certeza de que estamos no caminho certo. Assim temos procedido e alcançado os nossos alvos.


Acreditamos que todos os alunos, a partir de uma visão inclusiva de acesso ao conhecimento são capazes, dentro do quadro de suas capacidades e interesses de transitar entre áreas disciplinares e de produzir saber, criando veredas próprias de formação e refutando toda e qualquer forma de exclusão, decorrente de um modelo estandardizado de aprendiz.
Mas a Universidade resiste ainda a estas idéias e é preciso que elas sejam postas, para gerar a necessidade de debatê-las. E nada mais incitante para esse fim do que a presença de alunos que outrora não tinham possibilidade de estar incluídos nas turmas regulares da Unicamp e de outras IES brasileiras. Esses novos alunos com ou sem deficiência representam uma força propulsora das mudanças necessárias para que a Universidade consiga se manter, dentro de padrões compatíveis com um mundo que se renova e se transforma continuamente, para atender ao que o presente e ao futuro demandam da educação formal, no seu nível mais elevado.
Constituir uma cultura de acesso ao conhecimento é fruto de um entrelaçamento das culturas que permeiam o campus e que nem sempre conseguem se manifestar, porque o peso do instituído, do dominante, de um saber predominante, que nega/ignora as diferenças.

A emergência de um novo paradigma, que põe em relevo este nosso tempo tão paradoxal, em que a possibilidade técnica de se viver em uma sociedade melhor, mais justa e solidária é impedida por razões políticas, sócioculturais, impõe um novo cenário acadêmico. De fato o período em que vivemos, como nos pontua Santos em sua obra Um discurso sobre as ciências (1987), assiste , há algum tempo um período de transição entre o paradigma dominante – o da ciência moderna- e um paradigma emergente, que ele chamou de paradigma de um conhecimento prudente para uma vida decente.

O autor incide sua reflexão sobre a questão epistemológica contemporânea e é referência, para se problematizar a qualidade das relações provocadas por uma configuração social inclusiva. Ele sustenta que embora o conhecimento produzido por um sujeito cognoscente emancipado tenha sido ”completamente marginalizado pela ciência moderna, [mas] não desapareceu como alternativa virtual”. Acreditamos e apostamos nessa possibilidade, que representa um espaço para que se constituam novas relações teóricas e sociais, dentro e fora da Universidade. A inclusão tensiona ao máximo essa possibilidade, pois exige que o emergir desse novo paradigma não se limite ao científico (o paradigma do conhecimento prudente), mas que proponha também um novo paradigma social (o paradigma de uma vida decente).
Na concepção de Santos (op.cit.) essa transição ressalta a hegemonia do conhecimento – emancipação sobre o conhecimento – regulação, que ainda rege as relações ensino-aprendizagem nas nossas escolas, em todos os seus níveis. Na perspectiva do conhecimento-regulação, conhecemos, quando ordenamos, categorizamos, hierarquizamos; na perspectiva do conhecimento – emancipação, criamos solidariedade. Nas próprias palavras de Santos: “a solidariedade como forma de conhecimento é o reconhecimento do outro como igual, sempre que a diferença lhe acarrete inferioridade e como diferente, sempre que a igualdade lhe ponha em risco a identidade”.

Como furar essas barreiras que impedem que o fluxo do conhecimento-emancipação senão pelo questionamento da validade da forma de conhecimento hoje dominante? Mas, como maximizar o potencial transformador dessa idéia a não ser pelos mesmos canais que a produziram, ou seja, pela consideração de um projeto solidário, participativo, que surge da compreensão do direito de todos à educação e da melhoria da qualidade das relações sociais na Universidade e das escolas em geral.


Nossa luta em favor da criação de ambientes inclusivos nesta Universidade e em todas as nossas escolas chama a atenção para a responsabilidade intelectual e as repercussões sociais das transformações decorrentes dos princípios inclusivos na educação, que decorrem de uma visão de ciência humanizada e humanizadora, que a Universidade precisa admitir.
Um dos grandes desafios da própria Ciência da Computação no cenário de Brasil que queremos está em estabelecer sistemas computacionais e métodos que sustentem a formação de uma cultura digital em nossa sociedade. Estamos falando na extensão de sistemas computacionais ao cidadão comum, em sua diversidade, respeitando suas diferenças. O design para todos, as interfaces flexíveis e ajustáveis são apenas alguns desafios que a própria área de Interação Humano-Computador (IHC) nos coloca. Se esse já é um desafio em escala global, ganha novas proporções no cenário de uma população com a diversidade e os problemas da nossa (analfabetismo funcional, por exemplo). Além disso, vivemos um momento de convergência de mídias (Internet, TV, telefone celular) cujo gargalo será, sem dúvida, possibilitar o acesso. Este só se tornará possível com o trabalho sobre os desafios das interfaces, em particular a interface desses sistemas com o cidadão.
Em outras palavras, o Grande Desafio da Computação nesse cenário de Brasil está nas interfaces tecnologia-sociedade; interfaces sistema computacional-usuário final. São elas que representam o sistema e é através delas que a interação pode ou não ocorrer. Do ponto de vista de design, isso significa ampliar o foco da interface propriamente dita (materializada num produto) para a interação (processo tornado possível via esse produto). O design de Ambientes Virtuais Inclusivos oferece desafios e Oportunidades para Acesso Participativo e Universal do Cidadão ao Conhecimento.


4. O Design de Ambientes Virtuais Inclusivos

As (pre)visões de futuro ocorridas no passado em relação à tecnologia, especialmente alguns grandes erros, a exemplo do famoso “Não existe nenhuma razão que justifique uma pessoa ter um computador em casa”, arriscado por Ken Olson, fundador da Digital Equipment Corporation, a maior competidora da IBM em 1977, mostram a complexidade de se pensar desafios e impactos da tecnologia na sociedade, especialmente consideradas as mídias digitais. No contexto Brasileiro vivemos enormes diferenças sócio-econômicas, culturais, regionais e de acesso à tecnologia e ao conhecimento. Ao mesmo tempo, setores do governo e universidades procuram soluções tecnológicas de alcance social que busquem tratar tais diferenças e resgatar valores de cidadania. A tecnologia deve ser entendida como instrumento de transformação profunda da sociedade. Não se trata de colocar mais serviços disponíveis na Internet, mas fazer com que sua presença na Internet beneficie o conjunto dos cidadãos, promovendo o processo de disseminação da Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e contribuindo para o desenvolvimento sócio-econômico e cultural do país. Portanto, o cidadão comum e suas organizações são os parceiros mais importantes para a definição não somente do conteúdo, mas também das formas de interação a serem implementadas por meio de sistemas computacionais e suas interfaces. No contexto de nosso Projeto, o envolvimento da comunidade da UNICAMP em suas ações tem sido fundamental na co-construção do ambiente inclusivo que queremos. Esse envolvimento tem bases em teorias e métodos do Design Participativo (Schuler e Namioka, ?) e da Semiótica Organizacional (Liu, 2000).


Entendemos por Design todo o processo de criação de um produto (conceito, projeto, engenharia, métodos e artefatos etc), no nosso caso um sistema computacional interativo. Designers são todos os envolvidos nesse processo (equipes multidisciplinares de desenvolvimento e criação, partes interessadas e deve incluir usuários). Tal processo deve ser conduzido de maneira a possibilitar a esse grupo diverso de pessoas interagir e compartilhar conhecimento e decisões de design para lidar com a complexidade do Design para todos. Chamamos a esse processo de Design Inclusivo. A diversidade de usuários, interesses, situações de uso, capacidades, são apenas sugestivos dos desafios que se apresentam ao design de ambientes virtuais inclusivos.
Métodos de design em IHC e as boas práticas em usabilidade historicamente têm considerado o usuário como elemento central no processo de criação de sistemas computacionais para uso das pessoas. Em geral as interfaces de sistemas interativos têm sido desenvolvidas para um “usuário típico”, construído de dados demográficos e pesquisa de mercado ou do modelo mental de designers para o usuário da aplicação. Analogamente, tecnologia de informação e comunicação tem sido desenvolvida para se criar aplicações com foco específico em aspectos de acessibilidade que dêem conta de grupos de usuários com deficiências, principalmente a visual.
No contexto do Design para todos ou Design Universal, subjacente a este Projeto, entendemos a acessibilidade como um requisito contemporâneo à qualidade no uso de sistemas interativos, em geral. Um sistema que não oferece a mínima condição de acesso e interação para um determinado usuário em uma situação específica de uso, independentemente de sua maior ou menor capacidade, tem a sua usabilidade comprometida a priori.

4. Principais Ações no Período e Discussão

4.1 Primeira Oficina Participativa do Projeto PROESP/CAPES 2003
Acesso, Permanência e Prosseguimento da Escolaridade de Nível Superior de Pessoas com Deficiência: Ambientes Inclusivos”, Biblioteca Central da Unicamp.

A tendência de uma configuração inclusiva dos ambientes sociais e escolares motivou a equipe do Projeto a elaborar ações para a identificação das estratégias formais e informais utilizadas pela Unicamp para prover acesso, permanência e prosseguimento dos estudos de alunos com deficiência, no ensino por ela oferecido, em nossos campi. Esta Oficina é uma das ações realizadas para esse fim.


Precisaríamos avaliar o atendimento educacional especializado existente em nossa IES e produzir conhecimentos que contribuíssem para a quebra de barreiras sociais e escolares à inclusão no nível superior de educação. Também havia a necessidade de ampliar, atualizar, aprimorar e estender interna e externamente serviços e recursos existentes no LAB, para que este se tornasse um ambiente acadêmico difusor de práticas inclusivas. Além disso, esta ação pretendia criar e disseminar o uso de novas ferramentas de apoio à aprendizagem e ao ensino, que servissem de complemento à educação superior de alunos com deficiência.
Com os resultados desta ação estávamos provocando a Unicamp para que se tornasse uma referência em políticas inclusivas para o ensino superior de pessoas com deficiência. Reunimos representantes da comunidade universitária, nos dias 20 e 23 de agosto de 2004, para identificar os problemas que enfrentávamos e os recursos com os quais poderíamos contar para fazer da Unicamp uma Universidade para todos e aberta às diferenças.
A Oficina foi organizada com base no Future Workshop [Jungk e Mullert 1987], uma das práticas do Design Participativo e utilizou artefatos da Semiótica Organizacional [Liu 2000] para clarificação e representação das partes envolvidas no problema e sua solução. A agenda da Oficina constou de:

Prática Participativa – Baseada no Future Workshop
Trata-se de um Workshop em três fases, endereçado a uma crítica da situação presente, a uma situação fantasia de uma situação futura melhorada e de como mover-se da situação crítica para a situação fantasia.
Material: Pôsteres colocados na parede com artefatos da SO: Quadro de Partes Interessadas e Quadro de Avaliação Questões/Problemas e Soluções/Idéias para cada sub-grupo, post its, gravação em áudio e vídeo.
Processo:

Fase da Crítica: Os participantes, distribuídos em pequenos grupos, se envolvem em um brainstorming estruturado que identifica as partes envolvidas no problema e focaliza nos problemas referentes ao acesso, permanência e prosseguimento de estudos de alunos com deficiência matriculados na Unicamp. As Questões/Problemas levantados são registrados em post its e colados nos pôsteres dispostos na parede ou outro meio equivalente. Cada grupo desenvolve uma crítica concisa das questões referentes à situação em estudo. Técnicas específicas de facilitação são úteis nesta fase e incluem distribuir o tempo para cada comentário dos participantes, entre outras.


Fase da Fantasia: Participantes visualizam a situação futura que é melhor que a presente. Soluções e Idéias são registrados em post its e colados no Quadro de Avaliação. Técnicas específicas que podem ser úteis nesta fase incluem a inversão das colocações negativas em positivas, desenhos com a visão do futuro, votação para selecionar os atributos de futuro mais desejáveis e, como na fase da crítica, metáforas e limites para cada comentário.
Fase de Proposição: Cada grupo apresenta um relato de sua visão de futuro. A oficina conduz uma discussão plenária para avaliar a situação atual e que mudanças precisam ser feitas.
Participantes: Usuários finais pessoas com deficiências e profissionais da Universidade direta ou indiretamente envolvidos no trabalho. Número de facilitadores proporcional ao número de subgrupos.
Resultados: Elicitação da situação corrente para o acesso, permanência e prosseguimento nos estudos universitários de alunos com deficiência na Unicamp. Propostas de ações específicas para serem complementados por pessoas específicas.
A Figura 1, a seguir apresenta tomadas da Oficina, durante diferentes fases, dinâmica dos grupos e artefatos utilizados.


Figura 1 Ilustração do ambiente e artefatos da Primeira Oficina Participativa

A Oficina contou com a participação de 81 pessoas, entre docentes, coordenadores de cursos de graduação e pós-graduação, secretarias de cursos, estudantes de graduação e pós-graduação, bibliotecários, e outros funcionários da administração superior (advogados, engenheiros, assistente social, fisioterapeuta) representando 6 Institutos (de um total de 10), 8 Faculdades (de um total de10), todos os 3 Colégios Técnicos e Ensino Tecnológico, todos os 6 Centros e Núcleos, 12 órgãos da Administração Superior (de 18 convidados) .


A partir dos primeiros resultados observados da Oficina participativa, novas ações foram encadeadas envolvendo a criação do Logo do Projeto e, uma das mais significativas, a criação do Portal www.todosnos.unicamp.br como canal de comunicação do grupo e das comunidades interna e externa interessadas no Projeto.

4.2 Portal Todos Nós
O Portal do Projeto foi desenhado dentro dos pressupostos teórico-metodológicos propostos pelo próprio Projeto, como um ambiente virtual inclusivo. A Figura 2 ilustra o logotipo e Portal Web do Projeto.

Figura 2 http://www.todosnos.unicamp.br
Entre os objetivos do Portal destacam-se: divulgar o projeto, suas ações e produção para a comunidade interna e externa à Unicamp; atuar como canal de comunicação acessível entre a comunidade e a equipe do projeto; fomentar a troca de idéias e experiências sobre a inclusão no ensino superior; disponibilizar informação sobre questões relacionadas ao tema do projeto (textos, legislação, outros sites e projetos, notícias).
O Portal Todos Nós foi desenvolvido utilizando a tecnologia Plone e métodos especialmente desenhados para processos inclusivos de design [Melo e Baranauskas, 2006]. A Figura 3 ilustra momentos do grupo utilizando a técnica IPE (Inclusive Participatory Evaluation) criada para possibilitar a participação de pessoas com deficiências entre os avaliadores e sujeitos envolvidos no seu design.

Figura 3 Avaliação Participativa Inclusiva do Portal Todos Nós

O Portal Todos Nós constitui-se uma organização em permanente mudança, um espaço por meio do qual novas ações do Projeto tomam forma. Entre elas várias ações têm sido realizadas para envolver os calouros na idéia de ambientes inclusivos no campus; ambientes entendidos de forma ampla, considerando aspectos físicos e arquitetônicos, atitudinais e virtuais.


4.3 Calouros 2005 e 2006: Mudanças nos Espaços e nas Atitudes
Entre os objetivos desta ação estava introduzir o calouro em visão inclusiva de universidade, levando-o a identificar barreiras atitudinais e arquitetônicas à inclusão escolar, ou seja, ao acesso ao conhecimento e ao espaço físico da Unicamp.
Uma cartilha, ilustrada na Figura 4, foi entregue aos calouros no ano de 2005, apresentando sugestões sobre como se comportar diante de uma pessoa com deficiência. Uma versão digital foi disponibilizada no portal do projeto.



Figura 4 Cartilha entregue aos calouros

Outras iniciativas envolvendo os calouros 2005:


-Fotografou? Não dançou...

Fotografar o quê, na unidade em que estudam, constitui barreira arquitetônica.



-Conhecer, compreender e transformar...

Observar as atitudes com relação às diferenças entre as pessoas por meio de entrevistas, em sua unidade, a um colega, um professor e um funcionário.


Trotum: Um Trote que Interessa a Todos Nós

O Objetivo desta ação era fomentar discussões sobre questões relacionadas ao convívio com as diferenças dentro e fora do campus durante as calouradas de 2006.




Figura 5 Convite ao fórum sobre o tema do Projeto

Os calouros receberam a chamada à participação no fórum Trotum e em Oficinas Temáticas sobre as Diferenças, por meio de um marcador de livros distribuído junto com material entregue aos ingressantes (Figura 5). Um espaço no Portal para discussão sobre questões relacionadas às diferenças foi dedicado ao Trotum (Figura 6).



Figura 6 Fórum de Discussão aberto no Portal aos calouros

4.4 Workshop Todos Nós – Unicamp Acessível

Com o objetivo de retornar à comunidade da Unicamp os resultados da Primeira Oficina Participativa do Projeto e buscar a aproximação de outros docentes e trabalhos relacionados a acessibilidade em geral, em 14 de dezembro de 2005, no Saguão e auditório da Biblioteca Central da Unicamp, reuniram-se representantes da Comunidade Universitária, Reitoria da Unicamp, Secretaria de Educação Especial (SEESP). Os resultados da Primeira Oficina Participativa foram analisados e sintetizados em um livro (Mantoan e Baranauskas, 2005), produzido em 3000 cópias entregues à comunidade interna da UNICAMP e disponibilizados nas Bibliotecas do campus. Figura 7 ilustra momentos do Workshop e lançamento do livro. Uma versão digital foi disponibilizada no portal do projeto.




Figura 7 Lançamento do Livro e Momentos do Workshop
O livro reflete, em sua concepção e forma, o paradigma de conteúdo pensado para o acesso de todos independentemente de serem ou não pessoas com deficiência. Ele é apresentado em uma caixa-luva em Braille bem como em formato acessível aos demais; contraste de cores e tamanho favorecem o acesso a pessoas com pouca visão.
Visibilidade da idéia no âmbito da Unicamp foi buscada com a sua distribuição a todos os docentes, como parte comemorativa dos 40 anos da UNICAMP.
[Maria Teresa, vc pode falar do Prodecad e do jornal da Unicamp?]

4.5 Outras Ações Relacionadas
Site do Laboratório de Acessibilidade

Com o objetivo de divulgar o Laboratório de Acessibilidade da Biblioteca Central Cesar Lattes, da Unicamp, foi desenvolvido o espaço virtual do próprio LAB (Figura 8).




Figura 8 Site do LAB da Biblioteca César Lattes http://www.todosnos.unicamp.br/lab
O Projeto tem promovido o fortalecimento de condições de atendimento educacional especializado no LAB com a aquisição de equipamento, material de consumo, contratação de bolsistas e projetos de iniciação científica.
Inspeção de Acessibilidade do portal da Diretoria Acadêmica e Re-design (em andamento)

Com o objetivo de melhorar a qualidade no uso do site da Diretoria Acadêmica da Unicamp, principalmente no que se refere a aspectos de acessibilidade, está em desenvolvimento ação envolvendo análise e re-design, numa perspectiva inclusiva.



4.6 Pesquisa Acadêmica em desenvolvimento

Vários trabalhos de Doutorado e Mestrado e Inciação Científica estão em andamento no âmbito do Projeto e suas ações:


Doutorado:
Amanda Meincke Melo (CNPq, IC/Unicamp
Fabiana Fator Gouvea Bonilhas (IA/Unicamp): Musicografia Braile
Flávia Bonilha Alvarenga (FEM/Unicamp)
Janaína S. de Amorim Carrico (CAPES, FE/Unicamp/PROESP)
Samer Eberlin (FEEC/Unicamp)
Susie de A. Campos Alcoba (CAPES, FE/Unicamp/PROESP
Mestrado:
Sílvia C. de Matos Soares (CAPES, IC/Unicamp/PROESP
Sofia Perez Ferres (FEM/Unicamp)
Maria Isabel Sampaio Dias Baptista ( CAPES, FE/Unicamp/PROESP
Lilia Maria Souza Barreto
Iniciação Científica:
Luís Paulo Maruí
Paloma Fernandes

Manual para Bibliotecas

5. Conclusão

o projeto não perdeu sua característica mas se ampliou a partir do envolvimento da comunidade e nosso conhecimento de como ela percebia esse entendimento...

balanço do nosso Projeto até o momento e próximos desafios:

nossa percepção de como as coisas estão se constituindo


norteados pelos objetivos iniciais, mas com nova visão de construção de respostas possíveis às necessidades e condições locais, sem centralizar no LAB

O LAB como elemento aglutinador das propostas de ambiente inclusivo num plano mais geral; por ex. ações já iniciadas na DAC [espaço físico e virtual]

Os calouros: tentativas iniciadas de abordagem; novas propostas devem ser pensadas para aproximação efetiva [a constituição dessa nova cultura depende disso]
Referências
Jungk, R. e Mullert, N. (1987). Future Workshops: How to create a desirable future. London: Institute of Social Invention.
Liu, K., 2000. Semiotics in information systems engineering, Cambridge University Press.
Mantoan, M.T.E.; Baranauskas, M.C.C. (org.) TODOS NÓS - Unicamp acessível: resultados da primeira oficina participativa do projeto "Acesso, permanência e prosseguimento da escolaridade em nível superior de pessoas com deficiência: ambientes inclusivos" - PROESP/CAPES. Universidade Estadual de Campinas, 2005. 48 p.
Melo, A. e Barnauskas, M.C.C. (2006) An Inclusive Approach to Cooperative Evaluation of Web User Interfaces, Proceedings ICEIS 2006, Creta.
Müller, M. (1997). Participatory Practices in the Software Lifecycle. Em Handbook of Human-Computer Interaction, 2nd completely revised edition M. Helander, T.K. Landauer, P. Prabhu (eds), Elsevier Science B.V.

Prêmios



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