AÇÃo de graças após a comunhãO



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AÇÃO DE GRAÇAS APÓS A COMUNHÃO

Em síntese: Um artigo publicado pela Sra. Renée de Tryon Montalembert no jornal L’Osservatore Romano é indício de uma preocupação da Santa Sé relativa ao desuso da ação de graças particular após a Comunhão Eucarística. As razões deste declínio são diversas, notando-se, entre outras, uma exagerada valorização da piedade comunitária e do encontro com os irmãos, em detrimento da estima do encontro pessoal e silencioso com o próprio Cristo. A idéia de ceia fraterna estaria erroneamente prevalecendo sobre o conceito de comunhão com o Cristo pessoal, Cabeça do Corpo Místico.


Em vista disto, o artigo propõe um esforço pastoral intenso para restaurar nos fiéis o sentido autêntico da Comunhão Eucarística e incentivá-los à oração pessoal e silenciosa após a recepção do sacramento; é a oração particular que permite a assimilação frutuosa do dom de Deus, que por vezes pode permanecer estéril por falta de atenção mais detida do comungante. Os avisos paroquiais e outras práticas que atualmente estejam em uso após a Comunhão Eucarística, não deverão impedir os fiéis de permanecer em recolhimento por espaço de tempo conveniente após a recepção do Sacramento.


Verifica-se a progressiva perda do costume de fazer ação de graças após a Comunhão Eucarística ou após a S. Missa. A Tradição católica incutiu esta praxe, altamente benéfica para a vida espiritual, pois favorece a oração pessoal e a união com o Senhor Jesus.


A fim de obviar a este problema, foi publicado no jornal L’Osservatore Romano de 11/12/1990 (edição semanal francesa) um artigo da Sra. Renée de Tryon Montalembert¹ intitulado: “A propos de l’action de grâces après la Communion (A propósito da ação de graças após a Comunhão)”. Trata-se de uma reflexão séria e ponderável, que passamos a reproduzir em tradução brasileira, pois tem pleno significado para o povo de Deus em nosso país.




I . O TEXTO


1. Os Princípios

Falar de ação de graças após a Comunhão Eucarística pode parecer pleonasmo, pois toda a celebração eucarística – na sua íntegra – constitui a ação de graças por excelência. Nela se recapitularam e culminam as múltiplas modalidades de ação de graças ininterrupta que deve ser – também na sua íntegra – a vida de cada cristão (cf. eucharistein = dar graças; cf. Cl 3, 17; 1Ts 5, 18).


Mas trata-se aqui, de modo particular, dos instantes privilegiados que se seguem, para o sacerdote e para os fiéis, à comunhão sacramental com o Corpo de Cristo.


A Constituição Dogmática Lumen Gentium, fazendo-se eco da tradição constante da Igreja desde as suas origens (cf. 1Cor 10,17), lembra-nos que, participando realmente do Corpo do Senhor na fração do pão eucarístico, somos elevados à comunhão com Ele e entre nós (n.º 7).


Assim, de um lado, a Comunhão Eucarística realiza a união de cada comungante com o Corpo e o Sangue de Cristo. Trata-se aí de verdadeira união de sua pessoa com a pessoa mesma de Jesus Cristo, corporalmente presente no comungante: presença real que resulta da transubstanciação efetuada pelas palavras consecratórias que o padre pronuncia in persona Christi no momento da consagração (signum et sacramentum).¹


Mas, de outro lado, a Comunhão Eucarística realiza a união de cada comungante com o Cristo total, Cabeça e Corpo, portanto não apenas com o seu Corpo físico, mas também com o Corpo Místico ou, em outras palavras, com a Igreja considerada em sua totalidade e em cada um dos seus membros (cf. res tantum).

Eis por que a Comunhão Eucarística, que se situa no coração mesmo da Liturgia, constitui, de um lado, um ato eminentemente pessoal do cristão batizado, e, de outro lado, visto que as ações litúrgicas não são ações particulares, mas celebrações da Igreja, que é sacramento da unidade (cânon 837), a Comunhão Eucarística, na qual se consuma o santo Sacrifício da Missa, constitui, por excelência e para cada comungante, um ato eclesial.

Nesta perspectiva, é para agradecer a Deus um tão grande benefício que o Missal Romano de Paulo VI (Institutio Generalis Missalis Romani) prevê explicitamente que a recepção da Santa Comunhão seja seguida de um tempo de oração pessoal – e principalmente de um tempo conveniente de silêncio sagrado – com a possibilidade de exprimir por cantos, salmos ou cânticos, a alegria e a gratidão daqueles que, alimentados pela carne e o sangue de Cristo, se tornem a realidade do seu Corpo que é a Igreja. Assim se entende a ação de graças eclesial; é altamente desejável que ela seja prolongada após a celebração mediante meditação durante um tempo conveniente.¹




2. Os Abusos

Ora verifica-se muito freqüentemente:


1) A omissão de todo momento de silêncio após a Comunhão. Esta omissão é tanto mais impressionante quanto tende a se instaurar o costume de um tempo de silêncio após a proclamação da Palavra de Deus e a homilia. Resulta daí um contraste estridente entre a duração concedida à Liturgia da Palavra harmoniosamente celebrada e o tempo estranhamente reduzido que se dedica à liturgia eucarística propriamente dita. É freqüente decorrerem três minutos apenas (contados de relógio na mão) entre a Comunhão do último dos fiéis e o momento em que o sacerdote deixa o altar.


2) A proclamação, logo após a Comunhão, de avisos paroquiais, com a intervenção de leigos para assuntos de ordem prática (coral, apresentação de movimentos, coletas, etc.).


3) O abandono quase total da prolongação, após a Missa, da ação de graças.




3. Causas desses abusos

1) A diminuição do sentido do sagrado na acepção mais nobre desta palavra e, mais precisamente, o enfraquecimento da fé efetiva na presença real.¹


2) O esfriamento do amor em nossos corações (Cardeal Journet e “o choque da presença eucarística”).


3) Uma interpretação inexata da necessidade de participação ativa dos fiéis (actuosa participatio). É incutida, com razão, pelo Concílio do Vaticano II, mas não poderia ser autêntica sem uma conveniente interiorização do Mistério.


4) Uma insuficiente valorização da dimensão pessoal do encontro com Cristo, ao passo que se valoriza, de modo superficial, o encontro do comungante com seus irmãos, encontro considerado mais como simples convivência do que em sua realidade de mistério eclesial. Temos aqui uma situação análoga à que ocorre nas celebrações penitenciais com absolvição coletiva indevida.


5) A atenuação do senso do pecado e, conseqüentemente, do sentido da confissão. João Paulo II enfatizou o liame existente entre o Sacramento da Penitência e o da Eucaristia. E a censura que o Apóstolo Paulo dirigia aos cristãos de Corinto (1Cor 11,28-30) não diria de certo modo também à nossa geração?¹

6) Certa incoerência espiritual. Não é possível tomar consciência de nossa Comunhão com o Cristo total e, por conseguinte, com toda a Igreja (o que é a finalidade, a res tantum, do sacramento) sem tomar consciência da nossa união pessoal com o Cristo como pessoa (res et sacramentum). Ora, para que haja tal tomada de consciência, não se pode fazer economia de tempo. Não é necessário à esponja um lapso de tempo para que a água a penetre? De modo análogo, não é necessário ao comungante um intervalo mínimo de silêncio e de paz para que ele se deixe penetrar pela presença do Cristo vivo?

7) Certa influência das concepções protestantes da “Santa Ceia”.

 

8) Registremos também problemas de ordem prática (necessidade de transmitir aos fiéis os avisos e as informações pessoais) e de índole pastoral. O sacerdote, após a Missa do Domingo, faz questão, sempre mais freqüentemente, de saudar os paroquianos, enquanto este se dão a uma conversa amiga entre si. Às vezes mesmo alguns restauram a tradição antiga dos ágapes.²




4. Nossos anseios

1) Sejam clara e firmemente recordadas as recomendações do nosso Missal Romano e da Instrução Inaestimabile Donum concernentes à ação de graças litúrgica após a Santa Comunhão. Seja respeitado o segmento de tempo previsto para essa ação de graças.


2) Procurem-se soluções para os casos de ordem prática e pastoral (avisos e informações pastorais), assim como para o encontro amigável do sacerdote com os paroquianos após a Missa dominical.


3) Seja revalorizada a ação de graças pessoal após a Missa, na base dos seguintes dados:


a) a insistência do magistério da Igreja. Pio XII, insistiu sobre a importância dessa atitude, lembrando que


- sem dúvida, os atos da liturgia, especialmente os da Liturgia eucarística, têm valor objetivo. Por conseguinte, são eficazes por graça de Deus, e não por habilidade nossa, para unir a piedade dos fiéis a Cristo Cabeça, e assim efetuar de certo modo uma ação de toda a comunidade;


- por conseguinte, afastam-se da reta senda da verdade os que, apegando-se às palavras mais do que ao espírito da letra, afirmam e ensinam que, uma vez terminado o sacrifício da Missa, não há que o prolongar por uma ação de graças alegando que o sacrifício do altar é por si mesmo uma ação de graças e que a ação de graças particular é questão de devoção pessoal e privada, concernente ao indivíduo e não ao bem da comunidade. Não eqüivale isto a esquecer a exigência fundamental dos sacramentos, cuja índole mesma pede que o cristão, ao recebê-los, tire daí copiosos frutos de santidade? O Concílio do Vaticano II, em sua Constituição sobre a S. Liturgia, nos lembra outrossim a importância insubstituível da oração pessoal, pois “a vida espiritual não se limita à participação da Liturgia apenas” (n.º 12).


b) O testemunho dos Santos: especialmente o de Santa Catarina de Sena e Santa Teresa de Ávila corrobora esta doutrina.


c) Não poderíamos ainda perguntar se o abandono da ação de graças particular não é, em parte, responsável pela rarefação das vocações sacerdotais e religiosas? E tenhamos cuidado para não esquecer os testemunhos convergentes que vieram do recente Sínodo sobre a formação dos sacerdotes e que unanimemente reconhecem a urgência, para os Seminaristas, de ser seriamente formados no sentido de uma vida espiritual autenticamente pessoal e vigorosa.


4) Que se envidem todos os esforços para suscitar nos fiéis uma fé esclarecida e reta a respeito da presença eucarística, e o senso de respeito e adoração que são devidos a esta. Para o conseguir, parece necessário


a) explicar aos fiéis o significado exato dos diversos modos de presença de Cristo, tais como são enumerados na Constituição sobre a Sagrada Liturgia n.º 12, lembrando-lhes que é sob as espécies eucarísticas que se realiza essa presença por excelência e enfatizando em que consiste a especificidade da presença real;


b) levar em conta especial princípio teológico segundo o qual os sacramentos são puros dons gratuitos de Deus e por isto não podem ser tomados (exceto no caso do sacerdote que celebra a Missa), mas devem sempre ser recebidos. Na França generalizou-se o costume de que os fiéis tomem o cálice do Preciosíssimo Sangue, colocado sobre o altar elo sacerdote no caso da Comunhão sob as duas espécies.¹



II. COMENTÁRIO

O texto termina bruscamente e parece incompleto no jornal L’Osservatore Romano donde foi extraído. Como quer que seja, é portador de significativos traços de teologia e piedade, que vão, a seguir, realçados:


1) A oração comunitária ou a oração oficial da Igreja, que culmina na celebração da Eucaristia, é excelente e deve nortear toda a piedade dos fiéis. Todavia ela pode permanecer estéril, se não se lhe dá uma complementação (e preparação) na oração individual. Há de ser assimilada pelos fiéis no silêncio e no recolhimento, em íntimo colóquio com Deus.


2) Por conseguinte, a própria Eucaristia só dará todos os frutos se os comungantes se dedicarem à ação de graças pessoal. Esta pode ocorrer tanto dentro da Missa (logo após a Comunhão, antes que o celebrante diga a oração final) como logo após a Missa. No primeiro caso, a ação de graças costuma ser breve. Daí a conveniência de que todos os fiéis permaneçam em oração silenciosa e profunda após o término da Missa.


3) Os avisos paroquiais, que não raro são dados antes do fim da Missa, hão de ser sumários de modo a não dispersar indevidamente a atenção da assembléia. Quanto ao costume de que o celebrante se despeça dos fiéis à porta da igreja , não deve impedir que os comungantes façam sua ação de graças antes de deixar a igreja; a oração, no caso, deve ter a prioridade sobre qualquer cerimônia de convivência humana e fraterna.


4) A duração da ação de graças protraía-se outrora por quinze minutos, conforme as recomendações dos mestres de espiritualidade. Atualmente os documentos oficiais da Igreja não explicitam duração, mas falam de “conveniente espaço de tempo”, como diz a Instrução Inaestimabile Donum n.º 17 atrás citada. Esse espaço de tempo será mais longo ou menos longo conforme a devoção do cristão. A este compete criar o hábito da ação de graças particular após a Comunhão eucarística ou após a S. Missa.


Não há dúvida, o artigo da Renée Montalembert é muito oportuno. O fato de ser publicado pelo jornal oficioso L’Osservatore Romano confere-lhe certa autoridade e bem manifesta a preocupação da Santa Sé, cujo alcance os fiéis católicos saberão compreender para responder-lhe dignamente.


__________________________


¹ O jornal não apresenta os dados pessoais da autora. (Nota do tradutor).

¹ Em todo sacramento distinguem-se:

-          o sinal exterior, visível: água, óleo, pão, vinho, gestos, palavras ... É dito em latim sacramentum tantum (sacramento apenas);

-          - o efeito imediato, que encaminha para o efeito último; no caso da Eucaristia, é a recepção do Corpo de Cristo realmente presente sob forma sacramental. Este efeito é chamado em latim sacramentun et res (sacramento e essência do sacramento). O artigo de jornal que traduzimos, talvez por erro tipográfico, refere signum et sacramentum.

-          - o efeito último, que, no caso da Eucaristia, é a graça santificante, que beneficia espiritualmente o comungante e reforça a sua inserção no Corpo de Cristo que é a Igreja. Tal efeito é chamado res sacramenti, o âmago ou o essencial da atuação da sacramento. (Nota do Tradutor).

-          ¹ Reza a Instrução do Missal Romano n.º 56, j:

-          “Terminada a distribuição da Comunhão, se for oportuno, o sacerdote e os fiéis oram por algum tempo em silêncio, podendo a assembléia entoar um hino ou outro canto de louvor”.

-          Algo de semelhante se encontra na Instrução Inaestimabile Donum n.º 17 (17/04/80) publicada pela Congregação para os Sacramentos e o Culto Divino com a aprovação de João Paulo II:

-          “Recomenda-se aos fiéis que não descuidem, depois da Comunhão, uma justa e indispensável ação de graças, quer na própria celebração – com uns momentos de silêncio e com um hino ou um salmo ou ainda outro cântico de louvor -, quer. Terminada a celebração, permanecendo possivelmente em oração durante um conveniente espaço de tempo”.

-          1 Fé efetiva é aquela que efetua, distinguindo-se da fé afetiva, que pode ficar apenas no íntimo do coração inerte. (Nota do tradutor).

-          ¹ Eis as palavras de São Paulo mencionadas:
“Que cada um examine a si mesmo antes de comer desse pão e beber desse cálice, pois aquele que come e bebe sem discernir o Corpo, como e bebe a própria condenação. Eis por que há entre vós tantos débeis e enfermos e muitos morreram”. (Nota do tradutor)
² Àgape era a refeição fraterna de caridade (ágape, em grego) que os antigos cristãos realizavam após a celebração da Eucaristia, a fim de beneficiar os irmãos mais pobres. (Nota do tradutor).

-          ¹ A autora quer dizer que os dons não são tirados ou usurpados, mas recebidos, como compete a tudo o que é gratuito. Assim também a Eucaristia, sendo um dom de Deus, não deve ser retirada de cima do altar pelos fiéis, mas deve ser recebida das mãos do ministro devidamente investido para tanto.

-          Ver Instrução Inaestimabile Donum n.º 9:

-          “A Comunhão eucarística é um dom do Senhor, que é dado aos fiéis por intermédio do ministro deputado para isso. Não é admitido que os fiéis tomem eles próprios o pão consagrado e o cálice sagrado, e muito menos é admitido que os fiéis os passem uns aos outros”. (Nota do tradutor).


Artigo extraído do site: www.sagradaliturgia.com


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