Aconselhamento psicológico centrado na pessoa



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ROSENBERG, Rachel Lea. Aconselhamento psicológico centrado na pessoa. 1. reimp. São Paulo: E.P.U., 1987. x, 88 p. (Temas básicos de psicologia, v. 21) ISBN 85-12-62370-5.
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Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa
Página II
Temas Básicos de Psicologia

Coordenadora: Clara Regina Rappaport


Dados de Catalogação na Publicação (CIP) Internacional

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)


Aconselhamento psicológico centrado na pessoa / Rachei Lea Rosenberg organizadora. — São Paulo: EPU, 1987. (Temas básicos de psicologia ; v. 21)
1. Aconselhamento 2. Psicoterapia centrada no cliente 3. Relações de ajuda 4. Relações terapeuta-paciente 1. Rosenberg, Rachel Lea. II. Série.
CDD-158.3

158.2


-616.8914
Índices para catálogo sistemático:
1. Aconselhamento : Psicologia aplicada 158.3

2. Psicoterapia centrada na pessoa 616.8914

3. Relação de ajuda Psicologia aplicada 158.2

4. Relação terapeuta e cliente: Psicologia aplicada 158.2


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Rachei Lea Rosenberg

Organizadora


Henriette Tognetti Penha Morato - Ismênia de Camargo

- Maria Luisa Sandoval Schmidt

- Marina Pacheco Jordão - Miguel Mahfoud
Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa
E.P.U – EDITORA PEDAGÓGICA E UNIVERSITÁRIA LTDA.
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Sobre os Autores
Henriette Tognetti Penha Morato, formada em Psicologia pela USP em 1970, atualmente é professora-assistente do IPUSP, nas disciplinas de Aconselhamento Psicológico, onde seu maior interesse tem residido em aprofundar-se nas bases da Abordagem Centrada na Pessoa e na supervisão de alunos-terapeutas, campo de seu doutorado. Atua, também, como psicoterapeuta de adolescentes e adultos.
Ismênia de Camargo é formada em Psicologia pela USP. Sua formação psicanalítica foi realizada no Sedes Sapientiae. Atua na área clínica em atendimento de adolescentes e adultos, tendo interesse especial na formação de psicoterapeutas. Atualmente faz parte da equipe do Serviço de Aconselhamento do IPUSP, como psicóloga e supervisora.
Maria Luisa Sandoval Schmidt, formada em Psicologia pela USP em 1975, atualmente é professora-assistente do IPUSP, nas disciplinas de Aconselhamento Psicológico. Dedica-se com especial interesse à formação de psicoterapeutas. Atua como psicóloga clínica de adultos e em instituições de saúde.
Marina Pacheco Jordão é psicóloga clínica com especialização em Abordagem Centrada na Pessoa e Gestalt Terapia. Professora do curso de especialização de Gestalt Terapia, com ênfase em técnicas corporais, no Instituto Sedes Sapientiae. Psicóloga e Supervisora do Serviço de Aconselhamento Psicológico da USP. Terapeuta de adultos.
Miguel Mahfoud é psicólogo formado pela USP em 1980. Interessa-se pelo trabalho com comunidades, área na qual desenvolve seus estudos pós-graduados. Atua também em consultório particular.
Rachei Lea Rosenberg, psicóloga, mestre e doutora pelo I’-stituto de Psicologia da USP, tem pesquisado e aplicado a Abordagem Centrada na Pessoa, divulgando-a no Brasil, inclusive através de publicações diversas. Autora de A Psicologia do Superdotado e, com Cari Rogers, de A Pessoa como Centro.
Capa: Paulo Hiss

1ª Reimpressão


ISBN 85-12-62370-5
© E.P.U. Editora Pedagógica e Universitária Ltda., São Paulo, 1987. Todos os direitos reservados. A reprodução desta obra, no todo ou em parte, por qualquer meio, sem autorização expressa da Editora, sujeitará o infrator, nos termos da Lei n.° 6.895, de 17-12-1980, à penalidade prevista nos artigos 184 e 186 do Código Penal, a saber: reclusão de um a quatro anos.
E.P.U. — Praça Dom José Gaspar, 106 — 3.° andar — Caixa Postal 7509

01 051 São Paulo — Brasil Tel. (011) 259-9222


Impresso no Brasil Printed in Brazil
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Sumário
Prefácio geral da Coleção VII

Abertura — Maria Luisa Sandoval Schmidt IX

Introdução: Biografia de um Serviço — Rachei Lea Rosenberg 1

Referências bibliográficas 13


1. Aconselhamento psicológico: questões introdutórias — Maria Luisa Sandoval Schmidt 14

1.1. Uma referência histórica 15

1.2. Aconselhamento, orientação e psicoterapia 16

1.3. Aconselhamento e psicoterapias breves e focais 18

1.4. A figura do conselheiro 21
2. Abordagem centrada na pessoa: teoria ou atitude na relação de ajuda? — Henriette Tognetti Penha Morato 24

2.1. Referências bibliográficas 43


3. Reflexões de um terapeuta sobre as atitudes básicas na relação Terapeuta-Cliente — Marina Pacheco Jordão 45

3.1. Empatia 45

3.1.1. Da empatia como mudança de padrão 47
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3.1.2. Da empatia como uma capacidade a ser desenvolvida 48
3.2. Congruência 48

3.2.1. Congruência e verdade 50

3.2.2. Congruência e arte 50
3.3. Da consideração positiva incondicional 51

3.4. Referências bibliográficas 52


4. A formação do conselheiro — Ismênia de Camargo 53
5. A atividade de pesquisa — Rachel Lea Rosenberg 60

5.1. Pesquisa e teoria 60

5.2. Visão atual da pesquisa 66

5.3. Relatos de pesquisa 68

5.4. Levantamentos em arquivo 69

5.5. Referências bibliográficas 73


6. A vivência de um desafio: plantão psicológico — Miguel Mahfoud 75

7. Palavras sobre ética — Rachei Lea Rosenberg 84


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Prefácio geral da Coleção
A Coleção Temas Básicos de Psicologia tem por finalidade apresentar de forma didática e despretensiosa tópicos que são ministrado em várias disciplinas dos cursos superiores de Psicologia ou outro em cujo curriculum constem disciplinas psicológicas.
O objetivo fundamental é oferecer leituras introdutórias que sirvam como roteiro básico para o aluno e que ajudem ao professor na elaboração e desenvolvimento do conteúdo programático.
Neste sentido, selecionamos autores com vasta experiência didática em nosso meio, os quais, em virtude da profundidade de seus conhecimentos e do contato prolongado com alunos, cientes da dificuldade de adaptação da literatura importada para o nosso estudante, se dispuseram a colaborar conosco.
Esperamos, assim, contribuir para a formação de profissionais, psicólogos ou não, sistematizando e transmitindo, de forma simples, o conhecimento acadêmico e prático adquirido por nossos colaboradores ao longo dos anos, e também tornando a leitura um evento produtivo e agradável.
Clara Regina Rappaport

Coordenadora


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Página IX
Abertura
Maria Luisa Sandoval Schmidt
Aconselhar — verbo, ação — condensa múltiplos significados. Desdobra-se e desloca-se em sentidos por vezes contraditórios, antagônicos. Próprio da linguagem é o duplo efeito de clareza e ambigüidade no qual se produz a comunicação humana.

Tratamos aqui de comunicar, com a maior clareza possível, idéias elaboradas a partir de uma maneira singular de praticar a ação de aconselhar. Não temos, contudo, a pretensão de eliminar toda ambigüidade. Nas brechas da ambigüidade, do discurso e da prática, emerge a dúvida e a novidade. Gostaríamos sim de, preliminarmente, resgatar alguns significados da palavra aconselhar: significados próximos daquilo que buscamos em nossa prática.

Aconselhar vem do verbo latino consiliare e nos remete a consilium, que significa com/unidade, com/reunião. Esta significação é importante, pois supõe a ação de duas ou mais pessoas voltadas para a consideração de algo. É a própria noção de um conselho: várias pessoas reunidas para examinar com atenção, olhar com respeito, para deliberar com prudência e justeza.

Quando pensamos no processo de Aconselhamento Psicológico, pensamos exatamente na relação de duas ou mais pessoas voltadas para a consideração atenta, respeitosa e prudente de algo que é vital para uma ou várias delas.

Aconselhar, nesse sentido, não significa fazer ou pensar pelo outro, mas fazer ou pensar com o outro. O discernimento, a clareza, a
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verdade advêm desta possibilidade de compartilhar. Se distinguirmos, no processo de Aconselhamento Psicológico, um papel de conselheiro, este papel está ligado ao discriminar, elaborar e deliberar com o cliente.
Lembramos o dito popular: o travesseiro é o melhor conselheiro. A sabedoria popular destaca que o indivíduo às voltas com alguma questão ou dúvida vital é, ainda e por isso, o melhor conselheiro para si. O bom conselheiro — como o travesseiro — ajuda o indivíduo a discernir um caminho a trilhar, embora não possa trilhá-lo por ele.
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Introdução

Biografia de um Serviço

Rachel Lea Rosenberg

Para Iara Iavelberg, que quis um país livre e uma psicologia justa.


É preciso dizer que um Serviço de Aconselhamento Psicológico é mais que um programa, um local, uma divisão burocrática. Tal como um ser humano, ele tem uma história que imprime em seu semblante, vive experiências que determinam seus caminhos e oculta intrigantes segredos. Decerto qualquer serviço institucional é único, enquanto fruto de conjunturas, personalidades e dinâmicas particulares, mesmo quando segue um modelo. Mas seu desenvolvimento terá sempre algo que poderemos generalizar e algo que reconheceremos algo que venha a fazer parte do legado comum e da obra coletiva. Isto porque somos uma espécie que recria, na consciência e no verbal, o que lembra. Tentarei traçar passos de uma jornada que se confunde com a história da psicologia nacional e, até, do país.
Eis aqui, então, em pinceladas que não se pretendem demasiado precisas — pois que fluem da memória pessoal — uma história do Serviço de Aconselhamento Psicológico que há muito se intitula SAP, parte integrante do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

Brigava-se, valentemente, por um reconhecimento da profissão de psicólogo, ao nível das legislaturas, das agremiações profissionais e da sociedade. No Brasil do início dos anos 60 ainda prevalecia, como imagem da Psicologia, um conjunto de especulações e atividades misteriosas ou literárias, pouco válidas ou profundas, que freqüentemente aparecia como intruso à Filosofia, à Educação, à Medicina, à Família


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ou à Religião, e que por elas, portanto, era antagonizado, com maior ou menor intensidade.
O Aconselhamento era uma disciplina vista pelos acadêmicos como “plebéia” por ser declaradamente profissionalizante. Crescia à semelhança dos que introduziram sua prática entre nós, como o prof. Barros Santos em São Paulo. o padre Benko e a dra. Rutb Scheeffer no Rio de Janeiro, os quais introduziram entre nós a Psicologia Humanista aplicada, e nos apresentaram Cari Rogers entre os seus autores principais. O Aconselhamento Psicológico, posto no currículo acadêmico como apêndice das técnicas de exame psicológico, precisava ainda se afirmar enquanto forma de atuação legítima. Era ele que permitiria atender a problemas de ajustamento psicológico, transições existenciais penosas, comportamentos inadequados, conseqüências de deficiências físicas, mentais ou sociais, contrapondo-se às curas das patologias definidas pela Psicologia Clínica. Esta, muito mais austera, desenvolvia sua identidade de sistema de pensamento e atuação pelo nível de aprofundamento e pela agudeza dos diagnósticos. Ainda hoje paira, entre nós, o vestígio da suspeita de que o Aconselhamento Psicológico seja menos sério que a psicoterapia — comparação sem fundamento que apenas serve para manter um preconceito antigo, talvez mais profissional que teórico.
Desta época, temos registros dos atendimentos feitos ou supervisionados por Oswaldo de Barros Santos em função de suas aulas em Aconselhamento Psicológico. Era ele quem as ministrava nos três cursos de Psicologia existentes então em São Paulo. Enquanto professor e profissional respeitado, promovia também o atendimento de pessoas que o procuravam, através dos alunos que faziam assim sua prática.

Os primeiros atendimentos daqueles alunos de Psicologia já contavam com algumas características básicas que perduram nos paradigmas de hoje: o cliente busca ajuda junto a uma pessoa ou instituição, passa por alguma forma de triagem, é posto em contato com o estagiário ou profissional que o ajudará de modo sistematizado, e é atendido por tempo variável. O cliente não escolhe, nem conhece a pessoa que o atenderá, o método a ser utilizado, o local dos encontros, as metas pretendidas, a duração da entrevista e a do processo com, um todo. A isto associa-se o não-pagamento... Por outro lado, o aluno tampouco conhece seu cliente!

Até,1966, o sólido prédio da Faculdade, na Rua Maria Antônia, abrigava de vez em quando nos bancos dos saguões estas estranhas duplas. Elas conseguiam isolar-se do mundo a sua volta para, ali
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mesmo, viverem suas angústias e acertos de cliente e de conselheiro, na medida em que não havia local próprio assegurado para tais encontros.
Em grande parte por ser a situação tão precária, foi possível estabelecer um acordo na FFCL da USP (entre os seus departamentos de Psicologia e o de cursos para Vestibular do Grêmio), por iniciativa de lara Iavelberg, prematuramente falecida poucos anos depois. Na dupla qualidade, respectivamente, de aluna e professora de Psicologia, foi ela quem, ajudada por dois colegas de classe, propôs, planejou, discutiu e veio a instalar a prestação de Serviços ao Cursinho do Grêmio. Assumi a coordenação e administração pelos 17 alunos de 5° ano do Curso de Psicologia, e éramos supervisionados e incentivados pelos nossos professores de Aconselhamento Psicológico e Orientação Profissional. O que nos faltava em experiência sobrava em entusiasmo, e logo o “Serviço de Psicologia do Grêmio” entrava num ritmo intenso de atividades contínuas e variadas. No Cursinho para Vestibular, participávamos de reuniões de coordenação, fazíamos palestras e orientação nas classes, organizávamos grupos para testes, administrávamos nossos serviços e finanças, ouvíamos os professores, atendíamos aos adolescentes e sentíamos-nos, mais do que alunos cumprindo estágio, membros de uma equipe de trabalho integrado e responsável. Uma das inovações decerto influente neste programa foi a remuneração aos estagiários pelo Cursinho, o que criava uma condição profissional e política de respeito pela capacidade desta equipe. Em breve, foi preciso construir mais salas, comprar mais material, dedicar mais horas a este novo setor de nossas vidas. Ele invadiu nossos fins de semana e noites, deu-nos o senso de identidade sociologia-profissional, incentivou nossos estudos, ajudou a superar diferenças individuais entre nós e levou-nos a acreditar, definitivamente, num novo modelo clínico de psicologia que ultrapassava o consultório para chegar à comunidade.

Ao final do ano letivo, de ambas as partes — da Faculdade e do Cursinho para Vestibular de seu Grêmio — evidenciaram-se o interesse em continuar o acordo, e o novo 5° ano de Psicologia se encarregou do Serviço. Era 1968, ano de profundas e dramáticas conturbações na nossa vida social e pessoal. A classe dos estudantes universitários, historicamente atuante na política, viu-se atingida por muitos lados, e um deles foi a aceleração da mudança dos cursos da USP para a afastada Cidade Universitária. Ali parecia ainda mais difícil do que no centro da cidade trazer eventuais clientes de Aconselhamento Psicológico.


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No fim das tardes de inverno, saíamos das salas de aula para a escuridão desolada das avenidas desertas do Campus, ouvindo em seu silêncio o passo cadenciado de um ou outro cavalo desgarrado que nos acompanhava até o ponto de ônibus distante. O trabalho junto aos alunos do Cursinho para Vestibular adquiria um significado maior, pois contrastava com o clima social instável, de exceção, preocupação e insegurança. E embora o assunto não viesse a ser diretamente levantado em classe, surgiam os nossos primeiros questionamentos sobre a neutralidade do psicólogo, tida como requisito para sua atuação pelos mais divergentes autores da época. Não nos alongaremos aqui sobre o aspecto político da atuação psicoterápica. Contudo, era evidente para nós o cunho social de criarmos então, dentro do nascente Instituto de Psicologia — que deixava, portanto sua subordinação de Departamento —, um Serviço de Aconselhamento Psicológico.

A mudança precipitada para instalações provisórias, emprestadas e estranhas, deve ter influído na nossa decisão de oferecer ali atendimento psicológico a interessados. É admirável que, de fato, tenhamos tido já na época uma clientela que nos descobria, em duas salinhas incrustadas no “Prédio da História”. A exemplo dos atendimentos pouco estruturados do começo e seguindo o modelo desenvolvido no Cursinho, este Serviço despretensioso se animava a atender adultos e adolescentes sem se preocupar em classificá-los, e foi se mantendo essencialmente o mesmo até hoje, com média de 250 inscrições por ano. Na sua concepção, o Serviço precisou integrar-se no recém-formado Instituto de Psicologia (pois até então éramos um Departamento da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras). A tarefa era considerável, visto que o reconhecimento legal da profissão, ainda recente, levava a uma preocupação extrema com o cuidado ético e os procedimentos científicos. A proposta do Serviço de Aconselhamento Psicológico, sabidamente pendente para uma visão centrada no cliente, não trazia as garantias mais usuais, de diagnóstico complexo e tratamento aprofundado. Mas, “acampados” que nos encontrávamos nas imensas e quase vazias terras do Campus, e sustentados pelo nome conceituado do prof. Barros Santos, que encabeçava a proposta, conseguimos fosse aceita no jovem Instituto de Psicologia a idéia do Serviço que, aliás, foi logo seguido pelo de Orientação Profissional. A divulgação de nossa existência foi bem pessoal. Barros Santos e eu, sua assistente que sucedia a professora Terezinha Moreira Leite, encarregamo-nos dela junto a serviços assistenciais e fazíamos a


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triagem, a inscrição e o encaminhamento de todas as pessoas que nos procuravam, acompanhando e supervisionando depois cada atendimento feito pelos alunos. É útil frisar que esta confiança no estagiário era pioneira e cheia de sustos.
Os anos seguintes foram de implantação, crescimento e melhor definição de nosso papel enquanto conselheiros, professores, supervisores e Serviço. Estabelecemos aos poucos uma ordem em nosso trabalho que ameaçava, por sua informalidade, tornar-se caótico. Para nós e para outros com experiência semelhante, a elaboração de um programa delimitando objetivos, procedimentos, horários etc., mostrou-se uma aprendizagem necessária e enriquecedora.

Logo, o Serviço de Psicologia do Departamento de Cursos para Vestibular do Grêmio da FFCL da USP não pôde continuar por intervenção dos militares no próprio Cursinho, fato que pertence à história nacional. Mas deste serviço inicial ficaram algumas das contribuições ao movimento psicológico no Brasil: a constatação de que o psicólogo podia atuar na comunidade, e não apenas num consultório; a afirmação de uma área específica da atuação psicológica, independente tanto da Educação como da Medicina; o questionamento da postura de “autoridade” do profissional ante seu cliente, e da necessidade estrita de certas condições como pagamento, estudo de caso, atendimento prolongado etc., para a validade do trabalho. Todas estas noções eram, na época, inovadoras e controvertidas.

No Curso de Psicologia da USP, lentamente crescia o trabalho de atendimentos à comunidade. Seu núcleo consistia ainda na atenção individualizada a clientes do Serviço. Inicialmente recebidos pelo prof. Oswaldo de Barros Santos ou sua assistente, eram eles depois encaminhados para atendimento por um dos alunos da disciplina Aconselhamento Psicológico, ou a outras instituições tidas como adequadas ao caso, Paralelamente, era preciso divulgar melhor nossa disponibilidade, com suas características e limitações, com cuidado para não provocar uma solicitação que não teríamos capacidade de atender. Por outro lado, nossos alunos e, portanto estagiários, subitamente se multiplicavam, em vista dos novos critérios de procura e de preenchimento de vagas universitárias. Fenômeno amplamente conhecido que veio imprimir novo ritmo a nosso trabalho: contávamos com mais estagiários-colaboradores e, neste sentido, mais recursos a oferecer; em conseqüência, devíamos suprir mais tempo de supervisão, mais espaço e infra-estrutura. As providências tomadas então reafirmavam nossa confiança no aluno e deram forma ao Serviço.
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Para melhor atender à demanda dos clientes, os alunos foram preparados para assumir um “plantão” de atendimento. Nestes horários de plantão, eles recebiam, ouviam, inscreviam ou encaminhavam o cliente, ao mesmo tempo buscando aliviar a sua angústia ou ansiedade imediata e provendo um acolhimento respeitoso e empático. Os supervisores, liberados desta função de primeiro contato, ficavam à disposição do grupo de plantonistas para eventuais dúvidas e, posteriormente, discutiam e supervisionavam tais recepções ao cliente. Considerados de fundamental relevância para o processo de desenvolvimento do cliente, estes contatos iniciais mostraram seu alto valor também como recurso de aprendizagem do estagiário. Os plantões, mantidos na rotina do estágio até hoje, são aqui justamente o tema de um capítulo especial.

Um dos problemas enfrentados então — e longe de estar já resolvido — foi o encaminhamento de clientes que não permaneceriam conosco. Era o caso de pessoas com comprometimentos mentais maiores do que julgávamos poder atender; distúrbios de conduta que ultrapassavam o campo atribuído ao psicólogo; problemas de deficiência crônica; indicação para uma atenção profissional paralela, médica ou outra; necessidade de cuidados ou diagnósticos psicológicos específicos, como psicomotricidade ou orientação vocacional. A nossa maior dificuldade estava na identificação de recursos adequados, acessíveis a nossa clientela, composta sobretudo por uma classe financeiramente desfavorecida. Para suprir indicações e endereços úteis aos clientes, foi preciso que dedicássemos longas horas a engenhosas pesquisas, para as quais mais tarde atraímos também os alunos. Estes partiam em visitas a centros, serviços e consultórios, fazendo levantamentos de dados e recolhendo listas de endereços sobre a assistência médico-psico-sodal-escolar, nos vários níveis de administração e na prática privada. Informavam como cada local visitado desenvolvia seus atendimentos, que condições oferecia e exigia, que recursos humanos possuía etc. Nosso arquivo de informações, de em , transformava-se num grande aliado, confirmando a importância deste tipo de recurso num Serviço como o nosso. Para os alunos, envolver-se nessas atividades de pesquisa propiciava um contato importante com a realidade da vida profissional, além do senso de participação efetiva no Serviço e na comunidade. Complementando as pesquisas, fazíamos também divulgação do nosso Serviço, que assim foi se tornando conhecido como recurso comunitário gratuito para onde adolescentes e adultos poderiam se dirigir.


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No decorrer desses contatos surgiam pedidos, os mais variados, de consultoria, orientação e palestras. Datam desta época numerosos debates entre pais e filhos, reuniões com professores, assessorias a escolas estaduais, palestras em salas de aula e reuniões com pais e mestres. Em alguns lugares, prestávamos assistência psicológica direta a pessoas que não poderiam se dirigir à Cidade Universitária. Para atender a necessidades diversas, inventávamos, descobríamos e adaptávamos recursos e técnicas. Assim, por exemplo, utilizávamos alguns dos primeiros programas de televisão realizados na USP — versando sobre a adolescência — para promover uma ampla série de reuniões de pais, com a finalidade de orientá-los.

O que se quer ressaltar, de fato, é que cada nova aquisição do Serviço de Aconselhamento veio antes como resposta a conjunturas reais e imediatas, que a partir de um esquema conceitual ou administrativo prévio. Na fase inicial que descrevemos, o Serviço assumiu algumas de suas características permanentes sem sabermos que o fazia. À medida que ex-alunos e colegas de outras instituições de ensino nos procuravam para uma orientação, íamos com eles definindo melhor como um Serviço de Aconselhamento Psicológico se inseriria adequadamente no nosso meio. Servimos assim de modelo, ou parâmetro, para outros serviços similares de atendimento ao público. Éramos, sem dúvida, um modelo inacabado e dinâmico, em busca de formas satisfatórias. Em nossa concepção, o campo de Aconselhamento Psicológico era amplo, voltado ao crescimento pessoal, e este poderia ser favorecido de maneiras muito diversas, desde a situação didática convencional até ciclos de debates facilitados em grandes grupos. Nossa fundamentação teórica, centrada na pessoa, era coerente com tal concepção e com a busca permanente de meios eficazes de atuação. É interessante notar a variedade de alternativas que chegamos a encontrar, e que torna cada Serviço de Psicologia - único em sua versatilidade. O tempo nos concede hoje a possibilidade de distinguir quais experiências se mantêm justificadas, quais as que nossa realidade pessoal afastou. Falemos, pois, de funções e atividades incorporadas no SAP nestas duas décadas.

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