Aconselhamento psicológico centrado na pessoa



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Um primeiro degrau significativo fora galgado ainda na conturbada década de 60, e preocupávamos-nos em conhecer melhor a população que recebíamos, assim como nossos estagiários e os efeitos de nosso trabalho. Este interesse dos docentes em seus supervisionandos, de um lado, e dos profissionais em relação a seus clientes, de outro, é uma característica constante do SAP. Segue um modelo saudável de
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Segue um modelo saudável de questionamento e revisão necessário a todo profissional, absolutamente vital no serviço institucionalizado. Além das reuniões regulares de equipe e dos serviços administrativos de registro e arquivo, várias pesquisas por nós empreendidas refletem este traço de busca.

O início dos anos 70 encontrou-nos com uma rotina estabelecida e uma demanda considerável. Apesar dos levantamentos de recursos e de tentativas de intercâmbio, faltava-nos o concurso imediato de mais profissionais. Assim, foi com felicidade e alívio que pudemos gradualmente contar com mais docentes e profissionais: uma psiquiatra; psicólogos, assistente social, uma escrituraria; salas de atendimento e de espera, e material de escritório. Como se deve esperar numa instituição como a nossa, esses recursos nunca são estáveis nem totais a qualquer momento. Voltaremos a esta questão mais adiante.

Tínhamos uma dupla necessidade de prover atendimento e de evitar o alongamento de filas de espera, pois acreditamos ser importante responder ao indivíduo no momento próximo de sua busca, que é possivelmente o de sua maior disponibilidade para encarar mudanças difíceis e benéficas. Com pouca prática, e com ajuda notável dos próprios clientes, experimentamos, pois, atender grupos ao invés de nos limitarmos a indivíduos. Estes atendimentos em grupo, inicialmente a cargo da psicóloga e supervisora Cecília Hirchzon e meu, foram mais tarde repetidos por outros profissionais da equipe do SAP, assim como por psicólogos voluntários e por alunos de cursos de Especialização que ministrávamos. O trabalho de grupo seguia sempre uma linha centrada na pessoa, tinha duração variável, preestabelecida ou não, e não excluía a possibilidade de um atendimento individual anterior ou posterior ao grupo. Embora os resultados destes atendimentos grupais fossem muito satisfatórios, optamos por realizá-los tão-somente em função do excesso de clientes e da disponibilidade dos profissionais do SAP, na medida em que nossas atividades de atendimento pessoal, na formação de alunos, se limitavam ao Aconselhamento Psicológico individual.

Nesta mesma época (1970 a 1975), fizemos o que hoje aparece como um precursor das vivências de encontro de grandes grupos. A partir de resultados de pesquisa com nossos grupos de Aconselhamento Psicológico e adotando uma invenção dos profissionais do Centro Uno de Saúde em Buenos Aires, criamos os “grupos de espera”, para os clientes que aguardavam ser chamados para atendimento efetivo. Propunham-se horários, durante a semana, em que estes


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clientes poderiam livremente comparecer a reuniões abertas, nas quais sempre encontrariam profissionais e estagiários disponíveis (não necessariamente os mesmos em diferentes reuniões).
Esperava-se, assim, dar ao cliente uma possibilidade de contato terapêutico com os outros participantes do grupo, propiciar alívio da ansiedade da espera e prover um vínculo com o Serviço. Para nós, isto é, a equipe de trabalho do SAP e os alunos de um Curso de Aperfeiçoamento, os grupos de espera ofereciam rico material de estudo e prática, um meio eficiente de triagem e de avaliação do grau de urgência ou comprometimento de cada participante e uma extensão dos possíveis serviços à comunidade. A experiência dos grupos de espera foi abandonada porque os clientes, quando convidados, tendiam a posturas extremas, desencorajadoras para nós, de suspeitar do experimento e recusá-lo, ou de aceitá-lo transformando-o numa terapia de grupo. Hoje estamos mais bem informados sobre os fenômenos dos grandes grupos e seu potencial psicoterápico e psicoterapêutico. Tanto os desenvolvimentos na Abordagem Centrada na Pessoa, como inovações provindas de outras linhas teóricas que propõem sessões abertas de terapia, grupos de sensibilização, maratonas, workshops etc., nos ajudariam a melhor promover e reconhecer efeitos benéficos que nos apareciam então como indesejáveis. Naquele momento, explorávamos caminhos ainda muito pouco conhecidos em nosso meio. Mencionar grupos no campo da Psicologia sugeria apenas o pioneiro trabalho longo, estruturado e sistemático, de psicanalistas ou de psicodramatista, que seguiam, portanto, diretrizes bem diferentes das nossas.

Fizemos ainda outra tentativa de aplicar a situação de grupo a uma meta de convívio e crescimento, sem as propostas e características mais pesadas da instância psicoterápica estrita. Alunos de último ano do Curso de Psicologia, estagiando no SAP, dirigiram-se a seus colegas de primeiros anos, propondo-se a coordenar grupos que teriam por finalidade facilitar as relações interpessoais, a adaptação ao Curso, o intercâmbio entre níveis diversos do Curso etc. Desejava-se, além de atingir tais pontos, poder detectar e ajudar estudantes que precisassem de atenção mais específica e, também, colaborar para um clima interpessoal mais favorável no Instituto de Psicologia.


Aparentemente devido à conjuntura política daquele tempo, que fomentava suspeitas mútuas dos motivos de qualquer ato, a experiência teve de ser logo abandonada, pois tanto as autoridades escolares como os jovens colegas temiam propósitos ocultos de subversão ou denúncia.
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Embora chocados a princípio com reações tão adversas e, para nós, injustas (sobretudo as dos estudantes), não desistimos de refletir sobre a condição do aluno de um Curso de Psicologia, que consideramos bastante ansiógena e potencialmente deflagradora de patologias. Cecilia Hirchzon, então psicóloga no SAP, propôs um esquema de atendimento psicológico para os alunos. É interessante notar que este plano, embora aprovado pela Congregação do Instituto, não recebeu os subsídios solicitados para sua efetivação e durante a década seguinte foi retomado várias vezes, por iniciativa de docentes variados, sem resultados.
Nossas várias propostas iniciais de trabalhos em grupo também encontraram uma vertente rica quando, a partir de 1977, passamos a promover, em caráter experimental, vivências de curta duração a grupos diversos, integrando-nos no movimento dos chamados “grupos de comunidade”. Desde 1982 realiza-se anualmente o “Encontro IPUSP para Aprendizagem de Comunidade” durante três ou quatro dias, sendo para ele convidados os alunos, professores, técnicos e funcionários do Instituto, embora ainda relativamente poucos deles de fato tenham participado, e tenhamos por isto sempre admitido também outros interessados na experiência. Estes Encontros, facilitados por especialistas, têm-se constituído em momentos riquíssimos de descoberta e crescimento para os participantes e em profunda aprendizagem sobre o indivíduo no grupo e a direção grupal autodeterminada.

Aprendemos e crescemos com tudo que fazemos, e não somente com nossos êxitos ou fracassos. Se mencionamos com tal valor essas experiências, bem-sucedidas ou não, é porque fazem parte do caminho percorrido e, ainda, ilustram o fato da multiplicidade de variáveis atuantes em cada situação institucional. Podemos dizer que nestes anos o SAP tem-se mantido fielmente dirigido para certas metas e se valido de uma metodologia coerente com sua abordagem. Em retrospectiva, podemos delinear quatro projetos contínuos: 1) atendimento gratuito à população; 2) formação do profissional em Psicologia; 3) consultoria e assessoria a instituições da cpmunidade; e 4) pesquisa de métodos que favoreçam o crescimento pessoal e social.


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1 Estes grupos, geralmente grandes, são um desenvolvimento, na Abordagem Centrada na Pessoa, dis “grupos de encontro” (Rogers, 1970), e costumam durar de um a dez dias com caráter residencial e objetivo, psicossocial, de viver como comunidades autodirigidas o período de convívio (Rosenberg, 1977; Rogers, 1983; Rogers e outros, 1983).
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Não fizemos ensaios desconectados entre si. A saúde mental da comunidade e a formação profissional de nossos alunos constituem alvo fundamental de nossa dedicação, que se manifesta através da supervisão centrada neles, alunos, e da nossa disponibilidade para ouvi-los e permitir que busquem suas próprias direções. É tarefa agradável apontar que os alunos o reconhecem e que, quase todos os anos, incluem membros da equipe do SAP entre os docentes e profissionais homenageados na cerimônia de sua formatura. Certamente, a abordagem que privilegiamos como comum à equipe do SAP nos permite coerentemente inserir num contínuo o atendimento aos clientes, a relação com os estagiários, o sistema de supervisão, o método pedagógico dos cursos e nosso trabalho enquanto equipe. A política de relações humanas, com base na visão do ser humano, será a mesma nestas várias situações.

O SAP tem-se equilibrado entre receber seus clientes para então ouvi-los e atendê-los, e dirigir-se até eles, para ouvi-los e atendê-los.


Temos aqui alternativas distintas de posicionamento social e técnico, em que no primeiro caso figuramos como “consultório” e, no segundo, como “agente de mudança social”; dois papéis cabíveis ao psicólogo, e analogamente, a um serviço institucional. Somos consultório ou clínica enquanto atendemos clientes, damos assessoria, supervisionamos alunos. Somos agentes de mudança social quando colaboramos em planejamentos institucionais, quando oferecemos nossa presença no cotidiano da comunidade, quando colhemos e divulgamos dados obtidos em nosso campo de atuação.

Parece-nos importante que um Serviço de Aconselhamento Psicológico, especialmente em nosso país, tenha interesses em alcançar o âmbito social, embora deva ser apontado que os resultados desses esforços mais extensivos raramente são claros, O SAP, na sua história, através de sua equipe ou de alguns de seus membros, participou da elaboração de um Plano de Saúde para a Universidade de São Paulo; integrou o Grupo Multiprofissionl que preparava o trabalho do Instituto da Criança, do Hospital das Clínicas de São Paulo; assessorou informalmente, orientadores educacionais e administradores de escolas públicas, em casos de problemas de conduta e uso de drogas entre adolescentes; empreendeu várias pesquisas junto aos clientes, aos alunos e à comunidade, das quais algumas foram divulgadas em congressos ou publicações; e, sobretudo, ofereceu atendimento direto a pessoas que o buscavam.


Nesta última categoria, podem-se incluir séries individuais de entrevistas, realizadas nas instalações ou em outros ambientes (igrejas, hospitais etc.), sessões psicoterapias com casais (efetuadas pelos profissionais do SAP
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ou por estagiários psicólogos), assim como experiências de grupos, inicialmente de caráter mais clínico e gradativamente de natureza mais educativa, voltada ao crescimento pessoal e social.

Até aqui, referimo-nos às atividades do SAP tentando descrevê-las em seu contexto dinâmico em que interagem os projetos, os recursos e a realidade que os cerca. Implicitamente, desejamos também reconhecer as limitações de várias espécies a que estamos constantemente sujeitos. O viver institucional impõe-nos suas prioridades cambiantes, as influências de suas chefias, sua subjugação à flutuação política e econômica. Mas também há de contar a composição do grupo de trabalho do SAP e suas inter-relações. De uma a sete pessoas, no cargo de docentes ou de profissionais, têm diversamente integrado esta equipe, com graus variáveis de interação no trabalho, de harmonia pessoal e uniformidade teórica e profissional. A nossa filosofia comum, centrada na pessoa, tem se inserido na bagagem teórica psicanalítica ou gestálticas, na experiência sócio-comunitária, no grupo operativo, na abordagem corporal, na visão transpessoal e em outras vertentes de especialização onde alguns de nós encontram elementos complementares satisfatórios.

Nossa ação é partilhada e convergente, e é pelos projetos de trabalho em comum que melhor transformamos nossas diferenças individuais em enriquecimento mútuo e grupal. Os cursos, as super-visões, as pesquisas, as atividades comunitárias, as propostas — temo-los feito antes a partir de nossas preferências e aptidões pessoais, que ditadas por categoria profissional, hierárquica ou teórico-partidária.

Este livro é um de nossos projetos e nele nos encontramos de uma nova maneira. O estilo de cada um de nós está presente, modificado pela consciência da tarefa grupal. Descobrimos, ao compô-lo, que nos apaixonava trazer a público o que fazemos e somos, enquanto um Serviço de Aconselhamento Psicológico situado hoje no Brasil educativo. Portanto, este não é um texto sobre “o que é”, ou sobre “como fazer” aconselhamento, é menos, e mais, do que isto. É a tentativa de expor o que pensamos e sentimos ao nos depararmos com convívios tão nobres quanto o fazem a vivência dos clientes e a dos alunos em seu processo de crescimento. Por outro lado, trazemos aqui o resultado de um processo de grupo centrado em cada um de nós: este livro consta de capítulos escritos simultaneamente e


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sob influência das tocas entre nós, lidos pedaço por pedaço por seus autores, em sessões intensas de reflexão e discussão. A partir dele, muitas das nossas próprias divergências e dúvidas puderam emergir e, em parte, ser aqui reproduzida. Na medida em que podemos apreciar e respeitar tais diferenças, trazemo-las sem tentativa de disfarce ou medo da discórdia. E para que não seja nossa individualidade confundida com desconexão entre nós, esclarece-se que cada um dos autores se propôs a limitar suas colocações ao prisma escolhido e ao tema previsto, o que não impedirá que certos conceitos básicos ou coincidências se repitam através dos escritos. Cada um vestiu o estilo que quis, mas os estilos se definiram aos poucos, de modo complementar. No capítulo 1, as questões básicas sobre este campo de trabalho são consideradas de maneira clara e informativa por Maria Luisa Sandoval Schmidt, ao mesmo tempo em que dando margem a discussões mais aprofundadas sobre o tema. No capítulo seguinte, Henriette T. Penha Morato cumpre a difícil tarefa de apresentar de modo sumário e pessoal os aspectos fundamentais da Abordagem Centrada na Pessoa, segundo a obra de seu proponente, Carl R. Rogers. No capítulo 3, a terapeuta Marina Pacheco Jordão explora o seu próprio mundo interior e consegue nos descrever sua vivência das atitudes facilitadoras básicas. O capítulo 4 é da autoria de Ismênia de Camargo e oferece uma contribuição ao tema da formação do psicólogo-conselheiro, do ponto de vista de quem vive o processo de muito perto. A seguir, o capítulo 5 nos fala da existência de pesquisas e de sua inestimável importância para o trabalho clínico e de orientação. Miguel Mahfoud é quem escreve o capítulõ 6, sobre a atividade de plantão, uma espécie de diário de bordo em que é apresentado num corte vivo o encontro entre o cliente e o conselheiro. O capítulo 7 apresenta algumas palavras finais sobre a ética.

Esperamos que o leitor nos siga através de nossa diversidade e se sinta próximo a nós em nossa caminhada comum, encorajado a seguir a sua.


Referências bibliográficas
Rogers, C. R. Grupos de Encontro. São Paulo. Martins Fontes, 1970.

Rogers, C. R. Um Jeito de Ser. São Paulo. EPU, 1983.

Rogers, Wood, Milier e Fonseca. Em Busca de Vida. São Paulo, Summus, 1983.

Rosenberg, R. L. Uma comunidade centrada na pessoa. In: Rogers e Rosenberg. A Pessoa como Centro. São Paulo. EPU e EDUSP, 1977.


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Capítulo 1
Aconselhamento psicológico: questões introdutórias - Maria Luisa Sandoval Schmidt
“Aconselhar é menos responder a uma pergunta que fazer uma sugestão sobre a continuação de uma história que está sendo narrada.” Walter Benjamin
O campo teórico-prático do Aconselhamento Psicológico expandiu-se e inclui, hoje, um sem-número de concepções e abordagens. Estudantes de Psicologia, e mesmo profissionais, sentem-se muitas vezes em dificuldade quando solicitados a definir o que seja Aconselhamento Psicológico.

Tratamento psicológico, orientação, psicoterapia breve e/ou focal, prática psicopedagógica?

Prática estrita de psicólogos ou extensiva a outros profissionais?

A função do psicólogo-conselheiro consiste em dar conselhos?

Estas perguntas, entre outras, são constantemente formuladas. Suas respostas, contudo, nem sempre são simples e únicas. Podem-se adotar diferentes perspectivas para definir a função e os procedimentos do Aconselhamento Psicológico.

Podemos pensar, então, que a melhor maneira de compreender aquilo que constitui o campo teórico-prático do Aconselhamento Psicológico seja traçar um quadro geral, comparativo, das diferentes abordagens a ele identificadas. Algumas obras editadas no Brasil realizam este esforço, até certo ponto, classificatório. Remetemos o leitor a algumas delas, 1 para trilharmos um outro caminho.


Nota de rodapé
1 Santos, O. B. Aconselhamento Psicológico e Psicoterapia: auto-afirmação — um determinante básico. São Paulo, Pioneira, 1982. Na primeira parte deste livro, Oswaldo de Barros Santos distingue e analisa aspectos relacionados ao Diagnóstico, Orientação, Aconselhamento e Psicoterapia. Faz a apresentação dos fundamentos e técnicas de alguns métodos, agrupados em função de estarem centrados no contexto sócio-cultural, no contexto pessoal ou no problema. Dedica, ainda, um item às idéias de Rogers e suas conseqüências para o campo do Aconselhamento e da Psicoterapia. Na segunda parte tematiza de maneira original o conceito de auto-afirmação no interior das práticas de ajuda psicológica.
Scheeffer, R. Teorias de Aconselhamento. São Paulo, Atlas, 1976. Neste livro a autora faz a apresentação sistemática das correntes mais significativas em Aconselhamento Psicológico.
Stefflre, B. e Grant, W. H. Teorias de Aconselhamento. São Paulo, Mcgraw-HilI, 1976. Este livro congrega uma série de artigos de autores ligados a diferentes tendências em Aconselhamento Psicológico.
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Neste capítulo, pretendemos responder às questões inicialmente lançadas, a partir de dois elementos inter-relacionados: nossa prática concreta no Serviço de Aconselhamento Psicológico do IPUSP e o referencial teórico da Abordagem Centrada na Pessoa desenvolvido, sobretudo, por Carl Rogers.

De início, alguns aspectos da história da Abordagem Centrada na Pessoa — história que se mistura, em grande parte, ao percurso do pensamento de Rogers e seus colaboradores mais próximos — precisam ser resgatados, no sentido de: a) delinear uma determinada concepção de Aconselhamento Psicológico e b) destacar as contribuições desta abordagem para uma série de transformações que esta prática viveu.


1.1. Uma referência histórica
Duas questões norteiam o breve exame histórico que faremos. São elas: No que consistia o Aconselhamento Psicológico em seus primórdios? Qual a dimensão “revolucionária”, transformadora, introduzida pelas idéias de Rogers, num campo já instituído e praticado enquanto Aconselhamento Psicológico?

Até meados do século XX, a prática de Aconselhamento Psicológico esteve bastante determinada pelo instrumental que merecera a atenção de grande parte dos pesquisadores: os testes psicológicos. Por esta razão, as práticas de atendimento psicológico enfatizavam o psicodiagnóstico. Orientação, indicações ou mesmo conselhos, consistiam na contrapartida de minuciosos exames que se faziam do indivíduo (ou de seu “problema”), a partir dos testes. 2


Nota de rodapé

2. Este mesmo procedimento esteve presente na introdução da Psicologia Clínica, em São Paulo. Em entrevista que nos foi concedida em 1984, madre Cristina Maria relata que a Clínica do Instituto Sedes Sapientiae, em 1940 quando foi fundada, realizava um atendimento em que predominavam a aplicação de testes em crianças e a orientação de seus pais baseada no resultado desses testes.


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É possível afirmar que, neste sentido, os psicólogos contavam com um “poderoso” arsenal de instrumentos de medida e avaliação de aspectos intelectuais, cognitivos e emocionais da personalidade, porém careciam de instrumentos efetivos para tratamento psicológico. Sabiam do que se tratava, mas não sabiam como tratar.

Rogers começou sua vida profissional atendendo crianças e adolescentes numa clínica em Rochester, Nova Iorque. 3. Sua prática era a dominante: fazer diagnóstico e entrevistas de aconselhamento. Rogers faz uma referência a este período que nos parece significativa. Ele diz:


“Realizei estudos diagnósticos de crianças e adolescentes e elaborei recomendações para tratamento; em 1928, desenvolvi um inventário para avaliação do mundo interior da criança, que — Deus me perdoe — continua a ser vendido aos milhares”.4

E, contudo, do interior desta prática predominantemente diagnóstica, centrada no problema (da criança, do adolescente, do adulto) que Rogers começa a desenvolver suas idéias inovadoras. Questionando-a, ele vai aos poucos invertendo os focos: do problema para a pessoa do cliente; do instrumental de avaliação para a relação cliente-conselheiro; do resultado para o processo.


1.2. Aconselhamento, orientação e psicoterapia
As idéias fundamentais de Rogers e seus efeitos para a constituição da Abordagem Centrada na Pessoa serão apresentadas mais detalhadamente no capítulo 2.

Gostaríamos, no entanto, de destacar alguns elementos que permitem mostrar a maneira como esta abordagem entende as relações entre orientação, aconselhamento e psicoterapia.

Dissemos que Rogers passa a enfatizar estudar e refletir sobre a pessoa do cliente, a relação conselheiro-cliente e o processo terapêutico.
Nota de rodapé
3 Santos, O. B., já citado.
4 Rogers, C. R. e Rosenberg, R. L. Á Pessoa como Centro. São Paulo, EPU e EDUSP, 1977, p. 29.
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Partindo da constatação de que uma escuta empática por parte do conselheiro tinha, por si, um efeito facilitador 5. do processo de auto-exploração e mudança do cliente, Rogers começa a desenvolver a proposta de um tipo de intervenção psicológica fundamentada, por um lado, no aperfeiçoamento das atitudes do conselheiro que ensejam esta função facilitadora e, por outro, no pressuposto de que o cliente é capaz de viver e elaborar suas experiências de forma integradora, quando se engaja numa relação com um conselheiro que não o julga, nem avalia. Estes componentes e seus desdobramentos configuram o campo da relação de ajuda que, num certo sentido, anula a importância normalmente atribuída às distinções entre orientação, aconselhamento e psicoterapia. Estas distinções — que em outras abordagens são relevantes e centrais, na medida em que delas depende a delimitação de um certo tipo de enquadre para o trabalho psicológico e a definição de estratégias — tornam-se secundárias do ponto de vista da Abordagem Centrada na Pessoa.
O conselheiro na Abordagem Centrada na Pessoa estaria preparado para acolher demandas diversas e aborto para realizar com o cliente, e a partir dele, uma explicitação da demanda que envolve, também, a definição de como atendê-la.

Do ponto de vista de uma entrevista de ajuda, o principal é receber o cliente e facilitar para que ele se posicione diante de seu sofrimento psíquico. Neste contexto, o fato de um atendimento se constituir como orientação ou psicoterapia vai depender da maneira como o cliente configura, para si e diante do conselheiro, o seu pedido de ajuda. Não se parte do pressuposto de que a única resposta possível para este pedido seja a indicação de psicoterapia.

Por outro lado, não se supõe que o conselheiro seja um eclético, no sentido de atuar em diferentes abordagens, conforme o “gosto do freguês”. A função do conselheiro coloca-se no modo de acolhimento que permite explorar, com o cliente, não apenas a chamada “queixa”, mas também a forma mais adequada de lidar com ela. Da decisão sobre este segundo aspecto, o cliente não está excluído. A partir dos primeiros contatos entre cliente e conselheiro, o processo pode levar tanto à formulação de um contrato de psicoterapia, quanto a uma orientação ou ao encaminhamento para outro profissional ou instituição.




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