Aconselhamento psicológico centrado na pessoa



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5 Id., ibid., p. 69.
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Desta forma, o conselheiro — dentro de uma perspectiva que deriva da Abordagem Centrada na Pessoa — constitui-se como um profissional que recebe uma certa gama de demandas e que possui recursos e flexibilidade para propor alternativas de ajuda, incluindo informação, orientação, encaminhamento e psicoterapia. Destas alternativas fazem parte aquelas, que incorporam outras pessoas — família, grupo social — desde que elas estejam envolvidas com o indivíduo que solicita ajuda e se disponham a um engajamento no processo.
Com estas colocações podemos concluir que tanto a orientação quanto a psicoterapia, desde o ponto de vista aqui adotado, inserem-se como recursos do campo do Aconselhamento Psicológico, na medida em que são consideradas como possíveis formas de ajuda, adequadas a determinadas demandas da clientela que recorre ao conselheiro.
1.3. Aconselhamento e psicoterapias breves e focais
É comum a identificação do Aconselhamento Psicológico com formas de psicoterapia breves e focais. Modelos destas psicoterapias foram desenvolvidos mais recentemente como decorrência de dois fatores básicos, entre outros. São eles: a) a crítica aos modelos de psicoterapia de tempo indeterminado que, muitas vezes, mostram-se inadequados para o atendimento de uma clientela que não se dispõe a tratamentos prolongados e b) relacionada ao primeiro fator, a necessidade de criar modelos alternativos à psicoterapia de tempo indeterminado, no âmbito das instituições.

Às psicoterapias breves corresponde uma maneira específica de delimitar e lidar com o tempo do atendimento psicológico. Esta maneira de lidar com o tempo implica, muitas vezes, na adoção de estratégias que exigem do terapeuta um papel mais ativo, diretivo, se quisermos. Ou seja, implica em atribuir ao psicoterapeuta a condução do processo, a partir de uma avaliação psicodinâmica e tendo em vista atingir determinados objetivos prefixados.

A delimitação de um certo número de sessões ou de um determinado prazo para o atendimento pode ser uma necessidade ou opção do Aconselhamento Psicológico centrado na pessoa, especialmente quando praticado em instituições. Nestes casos, no entanto, a atitude do conselheiro não muda: a direção e a configuração do processo continuam pertencendo ao cliente.
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O conselheiro não adota estratégias que impliquem um papel mais diretivo. A delimitação do tempo é feita com o cliente e supomos que é um dado com o qual ele lidará, explorando temas, conflitos e sentimentos conforme sua possibilidade e vontade. Se o cliente sabe quanto tempo terá, confiamos que saberá como melhor aproveitá-lo. Esta afirmação só tem peso se considerarmos o pressuposto básico desta abordagem: o de que o cliente é capaz de autodeterminação e regulação.

Acredita-se, ainda, que um número pequeno de encontros com conselheiro, ou mesmo um único, tem uma função terapêutica pode ser suficiente para que o cliente se organize internamente prossiga sem ajuda. Condição para isso, voltamos a destacar, é presença facilitadora e a atitude empática do conselheiro.

Às psicoterapias focais corresponde a idéia de que o processo psicoterapêutico pode desenvolver-se em torno de um problema, tema ou área da personalidade. Desta avaliação do processo psicoterapêutico deriva o conceito de foco.

Para melhor caracterizar este conceito, gostaríamos de comentar as formulações de Fiorini 6 que, desde uma perspectiva psicanalítica, o tematiza.

Este autor considera que a psicoterapia focal deve ter como eixo três fatores: a) a ativação das funções egóicas do cliente; b) o estabelecimento de uma relação de trabalho personificada entre psicoterapeuta e cliente e c) a elaboração de um foco. Ele diz:

“Que estes fatores atuam instalando uma estrutura de tensões ativadoras recíprocas: é necessário um ego ativado para focalizar a tarefa, do contrário este se difunde sem limites; por sua vez, o trabalho em um foco reforça o ego ao proporcionar-lhe uma área onde concentrar suas funções; paralelamente, a relação de trabalho solicita a cooperação das capacidades egóicas e lhes oferece como guia o modelo da ativação egóica do terapeuta, e como sustento, as satisfações simbólicas que vai operando o vínculo personificado” (p. 86-87).


Ainda de acordo com Fiorini, o foco quase sempre recai sobre o motivo da consulta, e é a partir dele que se pode estabelecer o conflito central: objeto do trabalho psicoterapêutico. A planificação de estratégias não é, contudo, rigidamente fixada e evolui em função do momento do processo, dos objetivos e do tempo e técnicas disponíveis (p. 96-97).
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6 Fiorini, H. J. Teorias e Técnicas de Psicoterapia. Francisco Alves. Rio de

Janeiro, 1976.
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O autor destaca algumas características do psicoterapeuta que trabalha nesta perspectiva: contato empático manifesto, calor humano, espontaneidade, iniciativa, atitude docente. Motivar o cliente para a tarefa, aclarar objetivos, reforçar todo progresso na tarefa, incluir-se como pessoa real na relação, entre outras, são funções atribuídas ao psicoterapeuta no trabalho focal.

Algumas das atitudes citadas correspondem àquelas esperadas do conselheiro centrado na pessoa: empatia, espontaneidade, inclusão como pessoa na relação. Outras, no entanto, refletem o conceito de foco e o papel que o psicoterapeuta deve assumir para direcionar e orientar o processo de acordo com este conceito.

Sobre a iniciativa do psicoterapeuta, afirma Fiorini:
“O terapeuta desempenha um papel ativo, estimulante da tarefa e das capacidades do paciente propícias à tarefa. Com esta função, interroga, orienta a busca, solicita detalhes, constrói modelos, propõe ao paciente que os ponha à prova, efetua balanços, traça perspectivas, vai muito além da interpretação de um material” (p. 107).
Com esta breve apresentação sobre a psicoterapia focal temos elementos para articular aquilo que a diferencia do Aconselhamento Psicológico centrado na pessoa.

A psicoterapia focal, tal como a breve, exige um papel mais diretivo por parte do psicoterapeuta. Especialmente na forma apresentada por Fiorini, o psicoterapeuta parte de uma avaliação psicodinâmica do cliente e centraliza sua ação em torno de um núcleo conflitivo considerado básico.

Do ponto de vista da abordagem centrada, o “foco” é dado pelo cliente. No entanto, Gendilin, um autor identificado com a abordagem centrada na pessoa, nos dá uma contribuição notável quando associa o conceito de mudança psicoterapêutica ao de focalização:
“... um processo em que se toma contato com um tipo especial de percepção interna no corpo. Chamo a esta percepção um significado sentido”. 7.
A posição defendida por Rogers é a de que o conselheiro não atue em função de uma “focalização”. Isto implica que o cliente não só levante os temas e conflitos emergentes, como tenha a liberdade para explorá-los ou abandoná-los no decorrer do processo. Mesmo que se disponha de pouco tempo, este procedimento se mantém.
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7 Gendlin, E. T. Focusing. New York, Bantom Book, 1981, p. 10.
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Ainda, à guisa de conclusão, é importante salientar que o Aconselhamento Psicológico centrado na pessoa enfatiza sobretudo as atitudes do conselheiro (e não sua ação) como condições necessárias e suficientes para que o processo de auto-exploração e crescimento ocorra no cliente. Esta condição de suficiência das atitudes (empatia, congruência e aceitação) 8. do psicoterapeuta permite distinguir o Aconselhamento Psicológico centrado na pessoa das terapias focais, que consideram estas atitudes necessárias, mas não suficientes. Daí o porquê de recorrerem a estratégias mais ativas e diretivas.
1.4. A figura do conselheiro
Algumas características do psicólogo-conselheiro foram esboçadas nos itens precedentes. Estas, e outras, serão retomadas e aprofundadas no decorrer do livro.

Gostaríamos, agora, de dedicar alguma atenção à imagem que a palavra/função conselheiro suscita, bem como de esclarecer alguns aspectos desta imagem que nos parecem relevantes.

Para o senso comum, conselheiro é qualquer pessoa que dá conselhos: um amigo, um padre, uma professora.

Qual a razão, então, de se denominar conselheiro a um profissional especializado? Quando nos referimos ao psicólogo-conselheiro, estamos nos referindo a um profissional especializado em dar conselhos— supostamente conselhos de “melhor qualidade” porque ancorados em sua formação e autoridade de especialista?

De fato, o Aconselhamento Psicológico, enquanto prática sistemática de psicólogos, esteve ligado, em sua origem, à formulação de indicações, sugestões, orientação e mesmo conselhos baseados em avaliações psicométricas. Em parte, portanto, a imagem que se possa ter do conselheiro como profissional que, ancorado num saber sobre o outro, aconselha num sentido mais ativo e diretivo, justifica-se.

No entanto, é importante destacar outros fatores da constituição da figura do conselheiro, para que possamos apreender a configuração mais complexa de sua imagem e funções.


Nas universidades norte-americanas, para tomar um exemplo, é tradicional a existência de serviços de atendimento e orientação de alunos, oferecendo-lhes assistência tanto psicológica quanto pedagógica. Nestas instituições de ensino, o encarregado desta tarefa foi e é denominado conselheiro, sendo que sua formação não é necessariamente a de psicólogo.
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8 Este tema das atitudes do psicólogo-conselheiro será discutido mais detalhadamente no capítulo 3 deste livro.
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Um pedagogo, um assistente social, entre outros, atuam como conselheiros.

Rolio May, no livro A Arte do Aconselhamento, 9. afirmava:


“O aconselhamento é mais uma técnica ou arte do que uma profissão e deve ser empregado como parte de uma responsabilidade mais coerente com profissões cujo objeto principal são pessoas. Isto é, no trabalho de médicos, professores, diretores, encarregados de disciplina, pastores, religiosos e assistentes sociais” (p. 14).
Benjamim, no livro A Entrevista de Ajuda ‘° — referência constante quando se fala em Aconselhamento — dirige-se a uma série de profissionais que trabalham com pessoas e exemplifica suas exposições com situações que extrapolam o âmbito da clínica psicológica.

A palavra/função-conselheiro está, portanto, vinculada tradicionalmente tanto ao psicólogo quanto a outros profissionais. Podemos falar de um reconhecimento da função-conselheiro que transcende à especificidade de um único tipo de profissional. Contudo, esta afirmação só é válida para países como Estados Unidos, Canadá ou Inglaterra, onde o conselheiro funciona como uma espécie de profissional de primeira linha. Ou seja, no âmbito das instituições onde trabalham, diferentes profissionais estão preparados para acolher demandas de ajuda psicológica e atendê-las ou encaminhá-las, conforme o caso.

No Brasil, a figura do conselheiro com estas características é quase inexistente. Muito dos preconceitos e confusões em torno da palavra/função-conselheiro, entre nós, advém do fato deste profissional nos ser praticamente, e na prática, desconhecido. Notamos que o Aconselhamento Psicológico chega até nós confundido, de certa forma, com a psicoterapia. O conselheiro apresenta-se como psicólogo clínico

Não observamos a existência de funções definidas e reconhecidas institucionalmente como sendo as do conselheiro, e podendo ser exercidas por diferentes tipos de profissionais.


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9. May, R. A Arte do Aconselhamento. Rio de Janeiro, Vozes, 1976. Copyright renovado em 1967.

10. Benjamim, A. A Entrevista de Ajuda. São Paulo, Martins Fontes, 978. Ed.

original, 1969.


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A própria legislação brasileira define o Aconselhamento Psicológico como função específica dos psicólogos.

Uma questão interessante (e polêmica) diz respeito à conveniência de formarmos conselheiros “leigos” para atuarem junto ao sistema de atendimento à saúde mental, cuja precariedade é evidente na sociedade brasileira. Porém, detalhar e discutir esta questão fugiria de nosso objetivo que se atém, nesse momento, à explicitação de uma concepção, para nós significativa, do psicólogo-conselheiro, levando-se em conta a atual legislação que, como dissemos, atribui ao psicólogo as tarefas de Aconselhamento.

Neste livro, adotamos a designação psicólogo-conselheiro para nos referirmos ao profissional identificado com os temas aqui tratados. Esta escolha corresponde a um desejo nosso de que se construa em torno desta designação um conjunto de idéias que torne mais clara delineada uma função do psicólogo com características específicas que justifiquem uma distinção com relação à imagem que normalmente temos do psicólogo clínico. Esta distinção não está assentada no fato do psicólogo-conselheiro ser um especialista em dar conselhos.

Para nós, a distinção está fundamentada no tipo de disponibilidade e flexibilidade que permite ao psicólogo-conselheiro uma visão mais abrangente das possibilidades de propiciar ajuda psicológica.

Nesta perspectiva, o Aconselhamento Psicológico se nos apresenta como modelo clínico (mais amplo que o psicoterápico), aplicável em diferentes situações institucionais. A prática de Aconselhamento Psicológico, assim concebida, sugere uma modificação da visão do psicólogo clínico, reorientando seus recursos pessoais, teóricos e técnicos no sentido de criar espaços de maior continência para as diferentes demandas de ajuda psicológica.
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1 Lei Federal n.° 4.119 que regulamenta a profissão de psicólogo.


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Abordagem centrada na pessoa: teoria ou atitude na relação de ajuda?
Henrielte Tognetti Penha Morato
Para começar a escrever este capítulo, percebi que precisava rever meu processo de crescimento. Estou num ponto do meu desenvolvimento pessoal e profissional que me tem proporcionado muitas reflexões, várias experiências de encontros e desencontros com teorias e práticas. Afinal, venho acumulando por anos vivências e conhecimentos como professora e profissional de Psicologia, transmitindo, recebendo e trocando as mais variadas experiências. Senti, revendo essa etapa do meu processo, ou seja, a minha experiência acumulada, um desejo claro de poder e querer escrever sobre o que tenho pensado. Tal desejo é uma condição necessária, mas não suficiente, O desejo deve vir acompanhado de um objeto, ou objetivo. Então, para mim, é importante que o que está sendo ou será lido deverá ser feito por outra pessoa. Não me basta escrever para mim mesma, é essencial que alguém leia meus escritos, e, mais ainda, que tal processo de leitura tenha ou faça sentido para esse alguém “leitor”.
Com isso, penso estar atuando uma das características fundamentais da minha profissão de professora e conselheira psicológica: querer e procurar ajudar, contribuir com minha experiência para alunos e outros colegas que nunca encontrei. Estou, a meu ver, mantendo uma relação de ajuda, embora sem ter o outro diretamente à minha frente.
Experimentar a sensação de estar envolvida em um processo de ajuda tem sido uma vivência constante. Creio ser tão fundamental
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em nossa atividade profissional que me deterei um pouco para refletir sobre esse processo.
O processo de ajuda é tão básico e inerente aos seres humanos quanto os processos biológicos. Assim como o organismo biológico não é um sistema fechado em si mesmo, do ponto de vista psicológico o mesmo acontece. Apesar de estar equipado com potencialidades de respirar e digerir, por exemplo, o organismo interrelaciona-se com o ambiente buscando nele o ar e os alimentos para que sua potencialidade de sobrevivência se atualize.
Da mesma forma, do ponto de vista psicológico, o indivíduo tem potencialidades para se desenvolver como um indivíduo pleno, mas interrelaciona-se com o meio para que este o supra com elementos indispensáveis a esse crescimento. É através das inter-relações pessoais que o desenvolvimento psicológico se atualiza.
É a essa necessidade inerente de troca com o ambiente, tanto biológica (do organismo) e, mais ainda, psicológica (do indivíduo) que chamei de processo de ajuda. Essa necessidade é intrínseca no ser humano e como tal é um processo, uma potencialidade; mas sua viabilização, sua atualização se evidencia no momento do contato com outra pessoa, quer dizer, na relação de ajuda.
Mas por que esse termo “ajuda”? Por que não simplesmente referir-se a inter-relações pessoais? E evidente que existem trocas entre os seres humanos, entre as pessoas. Mas seriam todas as relações interpessoais, relações de ajuda?
Ao pensar em relação, imediatamente ocorre a imagem de um entrelaçamento, uma ligação, entre dois elementos. Da mesma forma, ao falar em relação de ajuda pressupõe-se um elemento que necessita de algo e vai buscá-lo em outro que está disposto a oferecer o que o primeiro precisa. Até mesmo a natureza oferece exemplos de relação de ajuda: a troca de elétrons na matéria. No entanto, ajudar não significa necessariamente dar ao outro exatamente o que ele precisa. Este é o conceito popular de ajuda. No sentido amplo, que pretendo enfocar aqui, ajuda significa favorecer ao outro as condições necessárias para seu desenvolvimento.
Quando uma criança cai, por exemplo, a reação que ela esboça é de choro, olhando em volta para que alguém a socorra. O que ela deseja é levantar-se, mas espera pelo amparo. Ao chegar perto e oferecer à criança a mão como apoio, em geral usamos uma expressão “Upa!”. Pergunto-me se não seria exatamente essa a idéia de ajuda: oferecer-nos à disposição, mas contando com o esforço do outro para
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que ele nos ajude a ajudá-lo; oferecer-nos como um meio, para que através dessa relação mantida conosco o indivíduo encontre modos de viabilizar seu processo de ajuda.
Acredito ser indispensável frisar que o sentido de processo de ajuda (o que ocorre dentro do indivíduo como uma condição inerente) de relação de ajuda (o que ocorre na inter-relação com o outro) aos quais me refiro, diz respeito a compreender “ajuda” como desenvolvimento, crescimento. E nessa medida creio que agora mais facilmente se evidencie que nem todas as relações interpessoais mantidas pelo indivíduo são consideradas relações de ajuda. Nem todas ajudam a crescer.
No campo específico da Psicologia, e mais precisamente do Aconselhamento Psicológico, muito se tem discutido, pesquisado e refletido sobre qual seria a função básica do conselheiro e sobre seu campo de atuação. No capítulo anterior, foi discutida a ambigüidade na delimitação da área e do próprio termo “Aconselhamento Psicológico”. Se considerarmos agora a relação de ajuda como ponto de partida no contato do profissional com seu cliente, talvez possamos repensar um pouco sobre qual o papel do conselheiro nessa relação.
Citei anteriormente que, para mim, “ajuda” seria sinônimo de crescimento, desenvolvimento, e que a relação de ajuda seria aquela que oferece as condições necessárias para que esse desenvolvimento ocorra. No mundo atual tão turbulento, o conselheiro é procurado para fornecer ajuda a pessoas que estão passando por mudanças em suas vidas, que estão vivendo intensos momentos de transição, com muita dor e angústia por sentirem destruído seu equilíbrio e terem dificuldade em recuperar-se. Dependendo de como ocorrem essas mudanças, se voluntárias ou involuntárias, considerando também o modo como a pessoa interpreta essas transições, se com criatividade, com naturalidade, recorrendo a suas experiências anteriores, ou como desastres, catástrofes inimagináveis; enfim, dependendo de fatores externos e internos, tais crises são inegavelmente expressões pessoais de vivência e, como tal, imprevisíveis.
Nessa medida, a função do conselheiro não pode ser compreendida de modo restrito. Poderíamos mesmo dizer que sua função seria tão ampla quanto o número de pessoas que o procura. Não há padrões determinados para a função do conselheiro numa relação de ajuda. Creio que, desse ponto de vista, seria mais adequado falar-se de facilitador, in lato sensu, em lugar de conselheiro. Facilitador porque, considerando-se essa relação de ajuda como um processo de crescimento
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seu papel seria o de facilitar as condições para que essas crises fossem compreendidas dentro do processo de desenvolvimento de vida da pessoa.
John Wood, em seu artigo “Vivendo com transições de vida” (1975), falando sobre suas tentativas de compreender essa função facilitadora do conselheiro, diz
“... não é minha intenção dar um jeito de transformar as sempre-mutantes pessoas em uma teoria não mutante; prefiro ter uma perspectiva a partir da qual possa ver as transições de vida. A compreensão pode tornar o processo menos doloroso e ajudar a que a renovação aconteça através da sugestão, da maneira de (pela qual) facilitar o processo” (p. 5).
Percebo nas palavras de Wood a definição clara do que é para mim o caráter profissional do caminho que escolhi. Não vejo o psicólogo-conselheiro procurando enquadrar em categorias as pessoas que o procuram para uma ajuda, mas sim dirigido para atitudes profissionais que ajudam (facilitam) o processo de crescimento dessas pessoas. Sua função básica é a de facilitador do processo de desenvolvimento humano, através da relação de ajuda que estabelece com seu cliente. Coloca-se disponível para oferecer as condições favoráveis para que o equilíbrio se reinstale. Wood diz que
“ajudas bem-sucedidas parecem envolver e ajudar a pessoa em transição a experienciar e dar sentido ao que experiência, enquanto se acreditar na pessoa como capaz de crescer e assumir suas novas situações de vida” (1975, p. 8).
Mas se por um lado a função básica, o enfoque central, do profissional de ajuda é o de ser um facilitador do processo de crescimento, sua atividade, por outro lado, varia enormemente. O campo de atuação do profissional de ajuda pode ser tão variado quanto a quantidade das atividades humanas, expressão da capacidade de desenvolvimento do homem. Nesse sentido, poderíamos dizer que o Aconselhamento Psicológico é uma das atividades do profissional de ajuda, onde o contato inicial estabelecido com o psicólogo-conselheiro, para - que o campo de ajuda se defina, é um momento vital do processo.
O que pretendo dizer é que, embora a função facilitadora do profissional de ajuda (suas atitudes ante o cliente) seja a mesma em qualquer atividade que esteja desempenhando num dado momento, dependendo desse mesmo momento, sua atividade varia, exigindo dele certOs conhecimentos, informações e técnicas que facilitem sua relação de ajuda com o cliente. As atitudes facilitadoras podem ser básicas, mas
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o conselheiro necessita de uma bagagem específica que amplie sua experiência e distinga a ajuda profissional de uma leiga. Isso porque, durante a entrevista de ajuda o conselheiro vai propiciar ao cliente as condições para que se defina o campo de ajuda desejado, e necessita recorrer a conhecimentos e informações para que as definições ocorram. Nesse sentido, vejo a função do conselheiro como mais ampla que a do terapeuta. Às vezes, configura-se que uma informação bem colocada na entrevista de ajuda pode facilitar a percepção de um caminho para o cliente e este dá-se por satisfeito naquele momento específico e para aquele caminho específico; não quer expandir-se mais. Nem sempre é terapia que o cliente vem buscar como ajuda. Nós, conselheiros, ajudamos, facilitamos, mas nem sempre podemos determinar se os objetivos foram ou não alcançados. É muito gratificante oferecer ajuda, mas levando em conta que a direção dessa ajuda não nos pertence. Ocorre-me, nesse instante, uma colocação de Laplanche sobre o que significa um relacionamento maduro: “Relacionar-se é dar o que não se tem para que o outro receba o que já tem”, o que penso ser o mesmo que “ajuda-me a ajudar-te”.
Como já disse anteriormente, vivenciar o processo de crescimento dentro de uma relação de ajuda tem sido uma constante em minhas vivências pessoais e profissionais. E não é por acaso que estou agora escrevendo minhas reflexões sobre essas relações em Aconselhamento Psicológico. Tais vivências originam-se do meu contato com a Abordagem Centrada na Pessoa, com as idéias de Carl Rogers, de quem o próprio Aconselhamento Psicológico (como pretendemos aqui enfocar) e o conceito de ajuda derivam sua formulação atual. Sem dúvida, seria impossível desvincular tanto a definição quanto a prática da relação de ajuda e sua facilitação das proposições rogerianas: de sua visão de homem, relações interpessoais, cosmos.



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