Aconselhamento psicológico centrado na pessoa



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Em seu artigo “Em retrospecto — quarenta e seis anos”, depois de todo um apanhado do que tem sido sua vivência e caminho pessoal e profissional, Rogers coloca:
“E pratico jardinagem. Nas manhãs em que não tenho tempo para examinar as minhas flores, regar as mudas que plantei, arrancar ervas daninhas, matar alguns insetos predatórios e colocar fertilizante adequado em algumas plantas que estão crescendo, sinto-me logrado. Meu jardim me coloca diante da mesma questão intrigante que tentei responder durante toda a minha vida profissional: Quais as condições favoráveis ao crescimento? Mas, em meu jardim; embora as frustrações sejam imediatas, os resultados, sejam eles positivos ou negativos, tornam-se visíveis mais rapidamente. E quando, através de cuidados pacientes, inteligentes e sensíveis,
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ofereço as condições que resultam na produção de um botão raro e glorioso, sinto o mesmo tipo de satisfação que obtenho quando facilito o crescimento de uma pessoa ou grupo de pessoas” (Rogers, 1977, p. 45).
Creio que nestá passagem tão expressiva ele consegue transmitir todo o prazer, a disponibilidade e a gratificação, que sente tão enraizados em si mesmo, do que para ele significa um contato humano que contribui para o desenvolvimento das pessoas envolvidas.
Dessa forma, falar da relação de ajuda pressupõe falar-se da Abordagem Centrada na Pessoa, da qual está indissociada. Falar da facilitação nessa relação pressupõe falar-se das condições básicas que favorecem esse processo. E, finalmente, falar desse clima e de “cuidados pacientes, inteligentes e. sensíveis” pressupõe falar-se da visão de homem e dos pressupostos filosóficos que fundamentam essa abordagem para que o intercâmbio prática-teoria-filosofia aconteça num ciclo permanente de crescimento.
“Não conheço melhor maneira de combinar a aprendizagem vivencial profunda com as aprendizagens teóricas e cognitivas abstratas, além dos três passos que mencionei: viver totalmente a experiência, reouvi-la de forma vivencial-cognitiva e estudá-la mais uma vez, tendo em vista todas as pistas intelectuais” (op. cit., p. 40).

O homem realmente é aquilo que ele faz de si mesmo, ao longo de sua história; ele reflete o significado das coisas para si através do que fala dos caminhos que percorre. Assim, no artigd acima citado, Rogers coloca textualmente sua posição filosófica para com a ciência psicológica.


Falando de sua comentada polêmica com Skinner, Rogers afirma que a diferença básica entre eles reside numa opção filosófica e que, a seu ver, a abordagem humanística em Psicologia é a única possível, embora admita que outros possam discordar e escolher outros caminhos. Para Rogers, sua experiência e prática clínica têm-lhe demonstrado o quanto o homem é seu próprio arquiteto, dando realidade e significância a sua liberdade de escolha e autocompreensão. Assim, Rogers modifica sobremaneira a visão clássica mecanicista de causa e efeito, tanto no plano individual como no próprio plano acadêmico-científico. m uma postura humanística, o psicólogo, tanto quanto o cientista, seriam vistos como pessoas que fazem escolhas subjetivas para seus enfoques profissionais de técnicas ou temas.
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“O cômodo pretexto da ‘objetividade’ necessariamente iria por água abaixo, o que o exporia (ao cientista) como um ser vulnerável, imperfeito e subjetivo, totalmente envolvido, intelectual e emocionalmente, objetiva e subjetivamente, em todas as suas atividades. Compreendemos perfeitamente que esta possibilidade seja muito ameaçadora” (op. cii., p. 37).
Admitindo, assim, sua visão humanística da Psicologia, Rogers nos possibilita uma rápida excursão sobre os pressupostos filosóficos dessa abordagem. Creio que tal “passeio” nos facilitaria a compreensão dos fundamentos das proposições básicas da Abordagem Centrada na Pessoa e sua teoria de Personalidade, bem como do seu desenvolvimento posterior.
Indubitavelmente, a ciência e a tecnologia trouxeram grandes realizações para a umanidade: melhor padrão de vida, aperfeiçoamento das condições de saúde, da mobilidade e das comunicações. Contudo, a ciência tem sido mal-entendida por homens que aceitaram suas dádivas sem elaborar as implicações humanas de suas descobertas. A ciência tem falhado em fornecer ao homem uma garantia de seu próprio valor e um significado para sua existência. Na verdade, a tecnologia avançada contribuiu para a desumanização do homem, ameaçando-o com o aniquilamento e a destruição. Buscando objetividade, a ciência distanciou-se de sua origem como criação humana, estabelecendo regras próprias como um conhecimento intrínseco e autônomo. Baseando-se no método determinista das ciências naturais, a Psicologia, no começo do século XX, começou a estudar o homem objetivamente, rejeitando todos os tipos de investigação subjetiva, para destacar e privilegiar a observação e o controle do comportamento manifesto, O movimento foi assim chamado de behaviorista ou comportamental. Desde então, os psicólogos vêm estudando partes do homem “que respondem a um estímulo físico em um ambiente artificial de laboratório” (Cantril, 1967, p. 13). A pessoa era fragmentada, reduzida a partes ou segmentos do seu comportamento sem a preocupação pelo indivíduo como um todo em seu ambiente natural. Tal colocação pode parecer exagerada e sectária, mas, na essência, é a expressão verdadeira da concepção de homem que por muito tempo embasou a ciência psicológica.
Enquanto a ciência assim progredia, a Filosofia, por outro lado, sendo um estudo desenvolvido para especular sobre os objetivos, ideais e problemas do homem, busca uma síntese de uma visão integradora do universo, natureza humana e sociedade, tanto quanto a
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arte, a literatura e a religião. Repensa as atividades do homem e tem uma função humanizadora em momentos de crise. Dessa forma, se o homem estava sendo destituído do seu significado amplo como ser humano, sendo examinado e inferido apenas por suas partes, começou a esboçar-se um movimento dentro da filosofia contemporânea para que se restituísse ao homem um significado e uma existência livres. Para Lamont (1965), esse movimento, chamado humanista, buscou suas raízes no humanismo clássico da Renascença, com a tarefa de reorganizar e sintetizar uma nova visão de homem. Nesse sentido, colocavam-sç as seguintes proposições:
a) fé na capacidade e potencialidade do homem de resolver seus próprios problemas, baseado na razão e no método científico;
b) crença na liberdad genuína de uma escolha criativa e na ação do homem, conduzindo seu próprio destino no aqui e agora, apesar de ser condicionado pelo passado;
c) crença no homem como uma forma evolucionária da natureza com uma unidade inseparável e integrada;
d) crença no questionamento de pressupostos básicos de acordo com o método científico e aberto para testes experimentais.
As ciências humanas, interessadas diretamente no homem, sentindo necessidade de uma visão que respalde seus procedimentos, dada a crise do homem atual, começam a amparar-se no enfoque humanista como base de sua investigação científica. Entre os psicólogos, surge essa mesma reação, decorrente da insatisfação com a orientação behaviorista prevalecente. Esse movimento foi chamado de Psicologia Humanista ou “Terceira Força” (opondo-se ao Behaviorismo e à Psicanálise), e iniciou-se nos Estados Unidos e na Europa entre 1950 e 1960.
Segundo Maslow, de quem a denominação “Terceira Força” decorre,
“a Psicologia Humanista é, no seu sentido mais verdadeiro, uma visão geral e abrangente da vida, uma visão mundana de uma filosofia de vida que não é simplesmente intelectual mas é também um sistema de ética, de valores, de política, de economia, de educação e de religião; uma filosofia de ciência.. .“ (Maslow, 1972, p. 60).
Considerando-se essa definição de Maslow, poderíamos dizer que a Psicologia Humanista, ao invés de uma teoria específica, é mais uma atitude dirigida a um melhor entendimento do homem. E não poderia ser diferente, já que encerra uma convergência de um número de linhas e escolas de pensamento, as mais variadas, e decorre do esforço individual de muitos psicólogos.
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Essa nova abordagem em Psicologia busca o significado da existência humana e as condições onde ocorram a auto-atualização do potencial do homem e seu funcionamento total como pessoa em busca de uma realização criativa. O homem, nessa abordagem, é visto em sua totalidade, integrado e interagindo com outros homens e seu meio, “... como um sujeito em meio ao seu próprio viver, agindo sobre o mundo, mudando a si mesmo e a tudo que lhe diz respeito” (Bugental, 1967, p. 8).
A imagem humanista do homem implica, também, uma liberdade de escolha e responsabilidade de decisões, totalmente consciente de sua singularidade e peculiaridade no processo de seu próprio crescimento, preocupado cum os outros com quem se relaciona e interessado em tudo que diz respeito às atividades humanas: educação, política, economia, arte, ética, filosofia, psicologia, ciência, sociologia, religião etc. (Morato, 1974).
Em sua busca de um referencial teórico que legitime suas aplicações práticas também como uma ciência empírica, e de uma visão integradora do homem, a Psicologia Humanista retoma seu vínculo com a Filosofia, abandonada e rejeitada pela orientação behaviorista objetiva. Assim é que o enfoque humanista em Psicologia começou a criar corpo com a imigração de filósofos e psicólogos europeus para os EUA, por volta de 1940. Novas correntes filosóficas, mais voltadas para uma idéia globalizadora de homem, começaram a influenciar os psicólogos norte-americanos insatisfeitos com o determinismo cientificista. Gradualmente, os enfoques fenomenológico e existencial em Filosofia influenciaram a Psicologia e acabaram por caracterizar o movimento humanístico. Exporemos agora brevemente algumas idéias dessas duas correntes.
Embora a fenomenologia (estudo do fenômeno) sempre tivesse sido uma preocupação dos filósofos interessados em explicar a relação entre as realidades objetiva e subjetiva, sua sistematização aparece com Edmund Husseri. Não se trata de uma doutrina, mas sim de um movimento que abrange muitos sistemas, todos com o mesmo elemento comum: o método fenomenológico. Para Husserl, a fenomenologia é a ciência do fenômeno (objetos) como ele é experienciado na consciência. O único modo de explorar o fenômeno é através do método fenomenológico. Tal método consiste em examinar os objetos da consciência (e não o ato da consciência), ou seja, tudo que é
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percebido, imaginado ou sentido. Seu objetivo principal é apreender a essência das coisas como surgem na consciência (Misiak e Sexton, 1973).
A etapa mais importante do método fenomenológico, e na qual os psicólogos centrados na pessoa apóiam toda a sua atividade, é a descrição fenomenológica, que compreende três fases:
— intuir fenomenológico (concentração ou disposição interna atenta para o fenômeno);
— analisar (encontrar os vários elementos do fenômeno e suas relações); e
— descrever (consideração dos fenômenos intuídos e analisados para serem compreendidos por outros).
Outra etapa também importante do método fenomenológico é a redução eidética (eidos significa essência) que consiste na apreensão da essência das coisas, do significado mais geral, através da investi gação de séries de instâncias particulares do fenômeno.
Para Husseri, o pré-requisito básico para a prática do método fenomenológico é que o “investigador” liberte-se de quaisquer preconceitos ou suposições, explorando a consciência sem crenças ou teo9 rias, suspendendo seus julgamentos ou colocando-os “entre colchetes”, praticando a abstenção de seus modos habituais de pensar. Porque, para ele, somente assim seria realmente possível observar-se o fenômeno sem ser obscurecido ou distorcido pelas idiossincrasias pessoais do observador. Assim poder-se-ia atingir a redução transcendental do fenômeno puro. Este último aspecto do método fenomenológico não foi suficientemente explicado por Husseri e criou muitos desvios entre seus seguidores.
O conceito fundamental que subjaz à fenomenologia é a noção de intencionalidade. A consciência é intencional, quer dizer, sempre tende para alguma coisa ou tem uma relação com o objeto. A consciência é sempre consciência de algo, isto é, ela tem um relacionamento intencional com o objeto e todos os seus atos estão naturalmente relacionados a algo, tornando assim possível o conhecimento das coisas, ou seja, através dos objetos acessíveis à consciência.
A partir de Husseri muitos foram os adeptos da fenomenologia, tanto na Filosofia quanto em Psicologia, utilizando-se do método fenomenológico, valorizando a importância do conhecimento subjetivo, para a compreensão dos problemas humanos (e até para a compreensão da natureza). Desenvolveram-se, entre os psicólogos, estudos sobre a consciência imediata e as experiências humanas, cujo
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interesse residia em buscar o significado da experiência ou da situação para o sujeito.
Embora a primeira manifestação do pensamento existencial surgisse em meados do século XIX com S5ren Kierkegaard, como movimento filosófico apareceu na Europa depois da Segunda Guerra Mundial. O limite entre o existencialismo e a fenomenologia é muito estreito, pois inter-relacionam-se em muitos aspectos. A principal diferença entre eles está no objeto de investigação. Enquanto para a fenomenologia o interesse era o fenômeno, no existencialismo o tema central é a própria existência. Mas ambos concordam quanto à validade do método fenomenológico (Morato, 1974).
Entre os existencialistas há também muitas diferenças, não constituindo, assim, um sistema único definido, mas sim uma preocupação comum: a existência e seu significado para o homem. O homem é sua existência, pois a existência precede a essência. Nesse sentido, a condição de ser é a base de uma ontologia que pode direcionar-se para a investigação científica. A descoberta da existência ocorre dentro de si mesmo (self) e esta é a condição para o conhecimento e a experiência. Para os existencialistas há duas formas de ser: o ser do self e o ser do mundo externo. O “ser-no-mundo” existe porque deve haver algo no qual a consciência possa agir (intencionalidade). Assim, o ser-no-mundo significa estar em “relação com”, o que éuma noção fenomenológica, O homem é livre para ser, mas também se torna responsável por seu ser. Não existe possibilidade de um controle pleno da existência, do que se é, e, nesse sentido, a existência não é estática; encontra-se em constante mutação para novas possibilidades, para a auto-realização, em direção à totalidade do ser, buscando sua identidade (que significa “ser igual a si mesmo” ou autêntico).
A prioridade da existência humana e a descoberta do ser no self leva ao conceito de ser como uma unidade, um todo inseparável. Não pode ser isolado do corpo no qual existe e sente. Admitindo o caráter unitário de corpo e mente, os existencialistas incorporaram a noção de temporalidade do ser, preocupando-se com o passado e o futuro em relação ao presente.
Se o self não existe isoladamente, mas está no mundo com outros, então o conhecimento e a compreensão do mundo e das pessoas são decorrências do conhecimento e da compreensão de si mesmo. Desta forma, os existencialistas preocupam-se com a intersubjetividade e as comunicações.
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Mas a conscientização, experienciação do self, a possibilidade de escolha responsável, determinam um estado de “angústia existencial”, já que o homem está consciente de seus comprometimentos para consigo mesmo e com a humanidade. Suas escolhas são responsabilizadas perante si mesmo e perante todos os homens. Ë a expressão de sua condição humana, seu peso. Assim, o homem, no existencialismo, é visto como um ser engajado com todo um processo pessoal e ação social. E esta visão de ser humano e seu significado marcaram o desenvolvimento da Psicologia Humanista e suas áreas de aplicação (Morato, 1974).
Retomando agora a definição de Maslow, anteriormente citada, torna-se claro que a abordagem humanística é muito mais uma filosofia de vida, uma atitude compreensiva do ser humano e de seu processo e desdobramentos. Psicologia Humanista é uma concepção peculiar de natureza humana, compreendendo-a através do método fenomenológico.
“A única realidade que me é possível conhecer é a do mundo e universo como eu o percebo e vivencio neste momento. A única realidade que é possível você conhecer é a do mundo e universo como você o percebe e vivencia neste momento. E a única certeza é a de que estas realidades percebidas são diferentes uma da outra. Os ‘mundos reais’ são tantos quanto as pessoas!” (Rogers e Rosenberg, 1977, p. 189).1
“Confio nas pessoas — em sua capacidade de explorar e compreender a si mesmas e a seus problemas e em sua capacidade de solucionar estes problemas — em qualquer relação próxima, duradoura, onde eu possa prover um clima de calor e compreensão autênticos” (idem, p. 203).
Creio que com essas frases consigo retomar o caminho para a Abordagem• Centrada na Pessoa, depois do desvio filosófico empreendido. Penso que elas refletem a forma como eu gostaria de enfocar aqui essa abordagem, ou seja, como suas premissas e conceitos se inter-relacionam com uma concepção de homem e filosofia de vida, numa harmoniosa configuração cambiante.
Ao admitir como única possibilidade de realidade a consciência da experiência vivida, Rogers expressa seu comprometimento com o pensamento fenomenológico e sua atitude despojada, porém intencional, de entrar em contato com o outro, com sua realidade diferente. Em todos os seus trabalhos, ele ressalta a importância da consideração
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1 grifos são do próprio Rogers.
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do outro como uma pessoa e a relação de ajuda como a possibilidade dessa pessoa crescer. Em cada contato individual, grupal, familiar, educacional, institucional, existe a disponibilidade do conselheiro de conhecer ao outro, de apreensão de como é a realidade para o outro, do seu mundo fenomenológico, como forma de possibilidade de mudança e crescimento. Se o conselheiro não for capaz de vivenciar a relação de ajuda dentro do contínuo fenomenológico que marca a existência do outro — seu mundo experiencial — não poderá proporcionar a esse outro as condições favoráveis de crescimento.
Creio poder inferir que Rogers assume uma atitude investigadora e científica a partir da utilização do método fenomenológico. Ou seja, a necessidade de um despojamento e suspensão de julgamento para entrar em contato com o outro, captando-o, reconhecendo-o e comunicando-se.
Da mesma forma, na segunda frase citada, Rogers demonstra toda a sua crença na capacidade da pessoa em autodirigir-se desde que lhe seja propiciado um clima receptivo, de calor humano .e compreensão. Ou seja, admitindo suas concepções sobre a significância da existência humana e sua busca para escolhas responsáveis num clima favorável, Rogers põe em prática princípios existencialistas, reenfatizando o método fenomenológico. É justamente na prática, no favorecimento dessa atmosfera facilitadora que a Abordagem Centrada na Pessoa conseguiu seus maiores adeptos e também seus mais numerosos opositores.
Rogers não propõe técnicas especiais para que se estabeleça uma relação de ajuda. Para ele, o contato do profissional de ajuda deve consistir num conjunto de concepções e atitudes relativas ao ser humano e não na aplicação de conhecimentos ou habilidades; o conselheiro deve conduzir-se como pessoa e não como especialista. Seu modo de relacionar-se é determinante no processo de crescimento.
Em minha vivência como professora, o comentário mais freqüente que ouço é: “Como Rogers se repete. A. uma primeira leitura parece muito interessante, mas depois ele parece dizer sempre as mesmas coisas!” (sic). Realmente, penso que, ao entrar em contato com um autor, fazemos a leitura como se estivéssemos diante de uma obra pronta, acabada. Acredito que isso até possa ser verdade em relação a autores mortos. Mas Rogers é um autor vivo, que sempre frisa o caráter mutável de suas idéias, através de questionamentos e reformulações que se colocam. E, apesar de verdadeira a atualização e ampliação de sua visão sobre a Abordagem Centrada na Pessoa, também
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é verdadeiro que os conceitos básicos são os mesmos. O que ocorre são novas interpretações dos mesmos princípios, devido a novas perspectivas levantadas por dados vivenciais da prática e da pesquisa tanto de Rogers quanto de outros adeptos da Abordagem. São essas “diferentes leituras” sobre os mesmos conceitos que dão o caráter atualizador-atualizante à Abordagem Centrada na Pessoa.2
Acredito que também para nos familiarizarmos com os conceitos e idéias de um autor, devemos voltar-nos para o seu ponto de vista e dispor-nos a “leituras diferentes”, apesar da impressão de repetição. Enfim, procurar fazer uma leitura a partir de uma “atitude” fenomenológica, como o próprio Rogers se propõe.
Coloquei, acima, que apesar de serem novas as interpretações, os conceitos básicos se mantêm. E são esses conceitos que procuraremos abordar, ressaltando a nossa “leitura”.
“... o homem tem uma tendência inata para desenvolver todas as suas capacidades destinadas a manter ou melhorar seu organismo — a pessoa total, mente e corpo. Esse é o único postulado básico da terapia centrada no cliente” (Rogers e Wood, 1978, p. 193).
Nessa frase, Rogers expressa a sua crença no homem cimo um organismo vivo, global, com capacidade de crescimento e desenvolvimento de suas potencialidades próprias. Tal processo é inato e admitido como tendência — tendência atualizadora —, ou seja, direcionado para o crescimento. Tal característica é observada em todos os seres vivos e também no Universo, como um todo, onde parece haver um princípio direcional para uma organização harmoniosa. Acredito que para Rogers essa tendência atualizadora seja o próprio sentido de vida, de existência e de caráter evolutivo.
Este conceito é, na realidade, um princípio simples: a vida é um processo naturalmente ativo. Os organismos vivos e os elementos da natureza estão em constante mudança, através de suas interações com o meio. Essa interação é condição para o crescimento; é através dela que o potencial para realizar esse processo vital se evidencia.
Este potencial não é o mesmo para todos os organismos. Ele é único e próprio a cada organismo; assim também, as necessidades para sua realização vão diferir e podem não ser satisfeitas em sua troca com o meib. Quando isso ocorre, surgem bloqueios que impe
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2 Ver na Bibliografia indicação de livros voltados para essas “re-leituras”.
Fim da nota de rodapé
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dem, em maior ou menor grau, o processo de crescimento. O ser humano, sendo mais complexo, apresenta necessidades ainda mais específicas para o seu desenvolvimento. Seu processo vital natural pode sofrer distorções se as condições para sua satisfação não forem favoráveis.
Sob condições percebidas como desfavoráveis, o organismo, sentindo-se enormemente ameaçado, pode reverter seu processo de crescimento — de construtivo para destrutivo. Mas Rogers admite que mesmo sob as situações mais adversas a reação do organismo é de defesa, de sobrevivência frente à ameaça e, como tal, a tendência atualizadora se faz presente para que o organismo supere sua destruição. A destrutividade é, assim, vista por Rogers, como expressão da tendência atualizadora em defesa do organismo. Seus trabalhos com esquizofrênicos parecem refletir o lado saudável da doença, já que esta pode ser encarada como um estado de alienação defensiva do organismo para fugir às ameaças percebidas contra a sua existência.
Podemos imaginar quanta polêmica e controvérsias gera uma visão de processo de crescimento e conceito de saúde mental como esta, por ser tão diferente de visões mais tradicionais. Talvez seja este princípio, tendência atualizadora, o mais controvertido em todo o contexto da Abordagem Centrada na Pessoa, porque parece relacionar-se com as indagações mais profundas acerca da natureza humana, boa ou má. De qualquer forma, vale dizer que o postulado, compreendido dentro de uma visão humanística e decorrente do emprego do método fenomenológico na prática clínica de Rogers, é coerente e irrefutável: o organismo existe, é, nem bom nem mau, em constante crescer. Creio que, se encarado como uma atitude existencial de compreensão da natureza humana, o postulado da tendência atualizadora não mais sobrecarregue a Abordagem Centrada na Pessoa com uma conotação otimista, bondosa e evangélica.



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