Aconselhamento psicológico centrado na pessoa



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significativo. Para tanto, consultam-se os relatórios do arquivo, referentes a uma amostra representativa dos 4 mil casos registrados, e faz-se uma análise cuidadosa de cada registro. Elabora-se uma categorização a partir do levantamento e empregam-se juízes-pesquisadôres para novas leituras e confirmação das classificações. As análises focalizarão relações intra e interanuais, para posterior comparação das alterações no tempo e na conjuntura histórica (entendida em seu sentido amplo, isto é, social, político e econômico).
5.5. Referências bibliográficas
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6 - A vivencia de um desafio: plantão psicológico
Miguel Mahfoud
A expressão “plantão” está associada a certo tipo de serviço, exercido por profissionais que se mantêm à disposição de quaisquer pessoas que deles necessitem, em períodos de tempo previamente determinados e ininterruptos.
Do ponto de vista da instituição, o atendimento de plantão pede uma sistematicidade do serviço oferecido. Do profissional, esse sistema pede uma disponibilidade para se defrontar com o não-planejado e com a possibilidade (nem um pouco remota) de que o encontro com o cliente seja único. E, ainda, da perspectiva do cliente significa um ponto de referência, para algum momento de necessidade.
Pelo conjunto destas três características, “plantão psicológico” parece um desafio. E é!
Com os poucos recursos de saúde mental atualmente disponíveis à população brasileira, somados à pouca informação a respeito da especificidade e diversidade de cada área profissional envolvida, a tendência tem sido a de que os serviços oferecidos se fixem em algumas prioridades definidas pelos casos mais graves. Uma conseqüência é a especialização em demandas bastante restritas.
Como atender à demanda de Paula, que estando apaixonada po1r um rapaz é pressionada pelo marido a resolver-se com quem fica, num prazo de 15 dias, sob pena de ser expulsa de casa, e não se sente em condições de resolver isso? Ou de Sérgio que, preocupado com sua esposa por ela estar ouvindo vozes e acordar à noite imaginando que ele tenha morrido, pede atendimento para ela? Que tipo
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de atendimento seria adequado a Minam, que, tornando-se viúva aos 30 anos, defronta-se com fortes mudanças em suas relações pessoais com seu filho de três anos, com sua família e a do marido, e com amigos, e pede ajuda no sentido de localizar-se melhor? Ou ainda a Caetano, que quer saber como convencer seu irmão alcoólatra de que ele e seus filhos precisam de ajuda psicológica?

Se a “resposta-padrão” do psicólogo é psicoterapia — como tem sido sua especialização no consultório e outras instituições de saúde mental — parece não haver como responder à demanda que lhe é feita naquele preciso momento e por aquela pessoa específica.


Assim, quem vive uma ansiedade ante alguma dificuldade circunstancial ou ante a necessidade de se localizar quanto às possibilidades de recursos de saúde mental, noralmente permanece à margem, sem um espaço adequado onde ser ácolhido e ajudado a lidar melhor com seus recursos e limites.
O enfoque assumido pelo profissional em Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa é uma contribuição ao enfrentamento dessa problemática, na medida em que se coloca disponível a acolher a experiência do cliente em determinada situação, ao invés de enfocar o seu problema. Na prática, essa atitude significa disponibilidade para atender uma gama bastante ampla de demandas, já que o foco se define pelo próprio referencial do cliente e não pela especialização do profissional (como seria, por exemplo, para um psiquiatra ou psicanalista ortodoxos, entre outros).
Esta característica de enfocar a experiência do cliente por seu próprio referencial está ligada a uma outra, que se refere à possibilidade de responder à pessoa que coloca sua demanda, já no momento presente, no aqui e agora da situação do encontro.
O conjunto destas características possibilita, então, realizar um plantão psicológico, onde o trabalho do conselheiro-psicólogo é no sentido de facilitar ao cliente uma visão mais clara de si mesmo e de sua perspectiva ante a problemática que vive e gera um pedido de ajuda. Nisso, a forma de enfrentar a problemática se definirá no próprio processo de plantão e com participação efetiva de ambos, cliente e conselheiro.
Em relação aos exemplos de demandas anteriormente levantados, o plantão psicológico possibilita atender a Sérgio, ele próprio ali presente e preocupado com sua esposa, além de esclarecer os recursos disponíveis para o tratamento dela. O mesmo acontece nos casos de Paula ante seu marido, ou Caetano ante seu irmão alcoólatra e sua
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família. E possibilita a Minam se localizar ante sua problemática de viúva, clareando ainda mais seu pedido de aconselhamento psicológico ou terapia, tornando aquele encontro muito mais significativo do que uma inscrição como coleta de dados sobre a cliente ou sobre sua problemática (como é a forma clássica de triagem ou inscrição para atendimento psicoterápico).
Trata-se, então, de enfrentar a problemática que é apresentada, via a própria pessoa que está presente.
Tomemos aqueles exemplos um a um:
1. Paula procura o plantão psicológico bastante tensa, preocupada, cabeça baixa. Diz que é a primeira vez que procura ajuda psicológica e que nunca conversou com ninguém sobre seu problema atual. Conta que se sente encurralada: estando casada há dois anos, apaixonou-se por outro rapaz com quem trabalha, e depois de declarar-se a ele e confirmar que seus sentimentos eram correspondidos, contou ao marido o que estava acontecendo. Este lhe deu um prazo de 15 dias para que se decidisse, sob pena de ser expulsa de casa e perder o filho de um ano. Paula não se sentia em condições de resolver nada, mas a situação era limite (via a possibilidade de ocorrer agressão física).
O conselheiro pocura ouvir com atenção, estar junto a ela naquele momento marcado por emoções fortes (amor, medo, raiva. . .) ante sentimentos de fracasso e abandono e ante interesses incertos. Isso facilita a Paula expor-se, ouvir-se, sentir-se. Sintonizadas, as perguntas do conselheiro ajudam-na a olhar a situação e a si mesma.
Durante a sessão dá-se conta da raiva que tem do marido (inicialmente falava de indiferença) e do quanto tem sentido falta de sua atenção.
A sessão dura uma hora e marca-se um retorno ao plantão part três dias depois.
No retorno conta que naqueles dias pôde explicitar sua raiva pelo marido de forma direta: houve discussões difíceis e mesmo nesse clima ela pôde perceber que ele gostava muito dela e não queria que ela se afastasse. Isso mudou a percepção que vinha tendo do marido e possibilitou que conversassem de forma mais clara, como nunca antes, dizendo um ao outro o que estavam sentindo, o que esperavam um do outro, o que fazia falta... Diz que combinaram uma forma diferente de organizar o tempo para que cuidassem mais do espaço deles como casal, ao intuírem a possibilidade de um relacionamento mais vivo.
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Na sessão, considera o relacionamento com o marido mais globalmente, desde o tempo de namoro, e examina sua própria história constituída também por esse relacionamento. Relativiza seus sentimentos pelo “outro”, dá-se conta da idealização que tem feito da pessoa do outro, de quem na verdade é distante. Enfim, vê a possibilidade de verificar no próprio relacionamento com o marido a viabilidade de continuarem juntos ou de ligar-se a outra pessoa.
Agradece o atendimento e despede-se.
O desfecho do problema talvez nunca cheguemos a conhecer. Estivemos com Paula, que agora caminha.
2. Sérgio procura o Serviço de Aconselhamento Psicológico buscando atendimento para sua esposa. Conta com detalhes os comportamentos dela que o preocupam, como, por exemplo: não dar mais conta de atividades rotineiras, como cozinhar, estar completamente desatenta às necessidades dos filhos, dormir muito, ouvir vozes e acordar assustada durante a noite imaginando que ele esteja morto.
O conselheiro, atënto também à ansiedade de Sérgio, comenta que percebe estar sendo difícil para ele ficar nessa situação, assumindo tarefas que seriam dela, preocupando-se com os filhos que passam o dia com ela e assustando-se ao ser apalpado no meio da noite quando ela quer verificar se está vivo ou morto. Sérgio passa a falar mais de si mesmo, na sua situação com a esposa, e a comentar suas dificuldades no trabalho onde se sente “abusado”, ampliando a percepção de seu momento atual.
No final o conselheiro lhe oferece a possibilidade de encontros regulares como aquele, caso estivesse interessado em um processo de aconselhamento para si mesmo que está vivendo um período difícil. “Eu não, moço! Quem precisa de tratamento é minha mulher!” — responde prontamente.
Ele pôde aproveitar aquele momento de plantão também para si mesmo, ocupando um espaço que lhe foi possibilitado durante a sessão. Agora ele não vê a necessidade de um espaço mais sistemático neste sentido. Sabe, porém, que há essa possibilidade.
O conselheiro lhe ofereceu indicações de serviços psiquiátricos em que sua esposa poderia ser atendida, e Sérgio disse que voltaria a procurar o plantão caso houvesse problemas para o encaminhamento de sua esposa.
Aquele momento não se desenrolou alheio à pessoa dele. E o conselheiro esteve com Sérgio, no horizonte dele, independentemente do tipo de continuidade que pudesse haver.
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3. Caetano vai ao Serviço de Aconselhamento pedindo ajuda para convencer seu irmão alcoólatra de que ele precisa de tratamento psicológico. Já aposentado por motivos de saúde, não tem se cuidado, está sempre muito deprimido, e seus filhos de cinco e sete anos vêm apresentando comportamentos agressivos e destrutivos.
Comenta que fica muito preocupado com a situação, que se agrava cada vez mais, e ao mesmo tempo não pode fazer nada. Conta que já falou com a esposa de seu irmão, mas ela não o ouve. Sugere, então, que o conselheiro, como especialista nesses assuntos, escreva uma carta dizendo que realmente eles prècisam de tratamento psicológico.
O conselheiro aponta os sentimentos de frustração e impotência ante a situação e ante o seu desejo de intervir. Caetano, então, fala de como seria importante fazer alguma coisa, pois não confia na educação que sua cunhada dá aos filhos porque ela trabalha em um bar.
Perguntado como é o relacionamento entre ele e sua cunhada, fala de desconfiança da integridade moral e chega a concluir que tem se relacionado com ela em tom de acusação, e isso mantém um distanciamento e a não-aceitação de suas opiniões. Assim, Caetano reconhece seus próprios limites em poder ajudar, já que ele próprio não acredita muito nas condições pessoais de sua cunhada para que ela pudesse dar conta do recado. Comenta nunca ter pensado nisto.
O conselheiro explica que embora não possa lhe fornecer a carta sugerida, compreende que essa idéia tenha surgido como possibilidade de intervenção ante o distanciamento e as dificuldades de confiança e comunicação entre eles.
Um tanto surpreso, Caetano diz que talvez procure conversar com sua cunhada, mas já não sente a mesma urgência e o mesmo ímpeto que o levou a procurar o plantão.
Pergunta sobre os recursos de saúde mental aos quais poderia recorrer. O conselheiro lhe dá as informações e Caetano indaga se poderia voltar para conversar, caso sinta necessidade. A resposta é afirmativa, e ele segue sua história.
4. Minam procura o Serviço de Aconselhamento pedindo atendimento psicológico porque tem estado intranqüila e confusa desde que seu marido faleceu, há 6 meses, em acidente automobilístico. Diz-se muito só e abandonada, e que suas relações de amizade e parentesco têm se deteriorado. Comenta que todos a vêem de modo diferente agora — viúva jovem (30 anos) —, tendo surgido preocupações e interesses novos em relação a ela.
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O conselheiro percebe que Minam está falando de uma experiência muito forte para ela; pôde ter alguma noção do que ela está sentindo, e para compreendê-la melhor faz perguntas sobre alguns aspectos aos quais já havia se referido vagamente.
Minam então fala mais sobre sua solidão, sobre o sentimento de abandono e apesar de saber racionalmente que seu marido não a abandonou, esse sentimento a confunde. Comenta em seguida que o convívio com a família (a dela e a do marido) não tem sido algo que a ajude porque ambas têm a preocupação de que ela “imponha respeito”, tome cuidado com as amizades, não se aproxime de outros homens para respeitar a memória de seu marido, o que a faz sentir-se envolvida por uma atmosfera de controle. Por outro lado, vê-se como jovem, não quer fechar novas possibilidades para si e para seu filho de três anos, na vida que têm pela frente. Por outro lado, tem sido cortejada por homens que há pouco eram apenas seus amigos e vive essa mudança repentina com dificuldades. Não estando mais segura dessas amizades, nem pode avaliar com clareza as intenções das pessoas que se oferecem para apoiá-la. Comenta que o resultado tem sido o recuo, e percebe claramente que isso só tem agravado ainda mais seu mal-estar.
Fica um pouco em silêncio, chora discretamente. . . Em seguida fala que é bom poder falar com liberdade sobre tudo isto.
O conselheiro comenta que pôde perceber que estava sendo importante para ela fazer tais comentários, e que procurar atendimento estava sendo a tentativa de abrir uma nova porta, alternativa à postura de recuo que vem tomando.
Pela própria relação que se estabeleceu ali, naquele momento, e pela forma como ela olha a si e a sua situação, o conselheiro pôde avaliar que os sentimentos de abandono, deterioração e a percepção de ser o centro dos interesses não estão ligados a um comprometimento psicopatológico a nível psiquiátrico; ela está atenta a sentimentos e movimentos distintos dentro de si mesma. Assim, diz a Minam da possibilidade de ser atendida em processo de aconselhamento psicológico no próprio Serviço de Aconselhamento. Ela demonstra interesse, e o conselheiro explica-lhe as condições de atendimento naquela instituição; então preenchem uma ficha com os dados da cliente (nome, endereço, telefone, horário disponível para ser atendida etc.), efetivando assim a inscrição.
Sendo que há uma fila de espera e tendo-se estimado o início do atendimento para pouco mais de um mês, o conselheiro informa
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que durante o período de espera ela poderá procurar sinta uma necessidade mais premente de conversar. O anúncio da possibilidade é recebido com alívio por Minam.
Despedem-se, ficando a instituição responsável quando o atendimento puder se iniciar.
Enfrentar a problemática apresentada a partir da experiência da pessoa ali presente permite acolher a demanda já naquele momento, no momento de sua expressão: e isso é apenas uma primeira característica importante de um atendimento em sistema de plantão psicológico. A conseqüência é que além de se poder estar disponível a uma gama muito grande de demandas, as formas de continuidade são também muito diversificadas. Assim, nos exemplos dados, o conselheiro pôde atender ao pedido de informação e à ansiedade de Sérgio ante sua esposa psicótica; ao pedido de Caetano que se propunha a ajudar seu irmão alcoólatra; pôde atender ao pedido de clarificação de Paula que se sentia encurralada nas dificuldades com o marido; e ao pedido de aconselhamento psicológico de Minam que se viu numa nova condição social a partir da viuvez. E ao acolher a demanda já no momento presente, o referencial do próprio cliente conduz o processo de atendimento para uma direção ou para outra: Sérgio mantém o foco da problemática sobre sua esposa, mesmo clarificando sua própria experiência na situação-problema; Caetano voltou o foco mais para si mesmo, para suas possibilidades e limites de intervenção; Paula, voltando o foco para si e seus sentimentos, pôde se colocar de forma mais clara com o marido e não viu mais a necessidade do acompanhamento; Minam, ao examinar sua experiência, confirma o desejo de um processo de atendimento psicológico.
Que seja o referencial do próprio cliente a definir a direção do processo não significa ausência ou passividade do conselheiro, a contrário, é a sua presença clara e atenta que permite ao cliente uma clarificação maior de seu referencial. Ao mesmo tempo que o conselheiro sabe que está facilitando um processo infinitamente mais amplo do que lhe é possível apreender só naquele momento, sabe estar facilitando também o processo de crescimento da pessoa, do qual aquele breve encontro participa (de forma significativa, espera-se!) — assim como aquele encontro permitiu a Paula desenrolar um novo processo com seu marido, que segue em frente independentemente do acompanhamento do conselheiro.
Uma outra contribuição que cabe ao psicólogo-conselheiro no momento do plantão é estar atento à forma de relação que se estabelece
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e à forma como o cliente percebe sua problemática, para bem ajudá-lo também nas diversas possibilidades de continuidade e/ou encaminhamento. Por exemplo, se Minam colocasse como globalidade a sua percepção de deterioração das relações e de sua identidade, ou com rigidez a sua percepção de que todos passaram a controlá-la ou seduzi-la, a proposta de atendimento em Aconselhamento Psicológico poderia ser acompanhada de um encaminhamento para um exame e/ou acompanhamento psiquiátrico. O sistema de plantão psicológico contém um caráter de triagem não-clássica, sendo que esta não é o centro do encontro, não o delimita nem o conduz, mas nem por isso está ausente para o conselheiro quando avalia as possibilidades de continuidade dentro da perspectiva do cliente.
A flexibilidade do conselheiro quanto à direção da continuidade do processo é também o que lhe permite continuar disponível à pessoa que lhe procurou, mantendo o plantão como referência, como mais um dentre os recursos de saúde mental possíveis de serem utilizados. Dessa forma, Sérgio pode procurar novamente o plantão para novas informações ou para um atendimento pessoal, e Caetano pode pedir um atendimento no prosseguimento de seu processo. Esta disponibilidade do conselheiro pode se manter mesmo que já se tenha definido a forma de encaminhamento, como no caso de Minam, que seguirá um processo de Aconselhamento Psicológico. A experiência de plantão como momento significativo da pessoa ante sua problemática tende a se tornar referência-existencial: portas abertas que podem significar facilitação para um novo pedido de ajuda ou facilitação para suportar a espera do início de um outro processo.
Para que possa se tornar referência estável é importante que a instituição assegure a presença de conselheiros disponíveis em certos horários e lugares fixos, além de manter informações e contatos com outros recursos de saúde e educação.
E claro que os exemplos de demandas até aqui apresentados foram escolhidos em função de expiicitar o potencial, a amplitude e a viabilidade do sistema de plantão psicológico com a contribuição da Abordagem Centrada na Pessoa. Demandas muito mais simples são também comuns, e mesmo nestes casos o plantão pode ser de grande contribuição. Por exemplo:
Lúcia é estudante de arquitetura, trabalha já na sua área, gosta do que faz, mora com a família. Procura o Serviço de Aconselhamento Psicológico e pede atendimento dizendo que não ocorreu nada de anormal nos últimos tempos, mas está querendo se conhecer
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melhor, e quer ter um tempo e um espaço específicos para se dedicar a isso. O conselheiro se interessa por saber o que tem feito, como tem se sentido em sua vida quotidiana, e Lúcia fala de algumas dificuldades de relacionamento com os pais por alguns choques de valores, de como gostaria de ser mais independente desses atritos, mais firme, e de como seu namorado tem sido importante para ela neste sentido. Assim, fica melhor delimitado, para a própria Lúcia também, o seu campo de interesse para iniciar um processo de atendimento psicológico. Preenchem a ficha de inscrição e o conselheiro lhe explica as condições de atendimento naquela instituição. A sessão dtsrou meia hora.
O plantão permite um sistema de inscrição, por si, terapêutico — já no momento de pedido de atendimento. Isto porque propicia ao cliente configurar com mais clareza seu pedido de ajuda — ainda que isso não mude sua perspectiva. Trata-se de facilitação à clarificação de sua demanda; o que equivale a dizer, clarificação de seu eu que está em um certo movimento de busca. Essa forma de inscrição em um Serviço de Aconselhamento Psicológico não dispensa uma certa organização burocrática, mas não se pauta por ela.
Se tal sistema de plantão psicológico descortina um horizonte amplo para atendimentos psicológicos, não se pode dizer, porém, que suas possibilidades sejam ilimitadas. Sua viabilidade se insere nos próprios limites da relação de ajuda. Por isso uma pessoa que vai buscar o “conselho” para a resolução de seu problema — sem disponibilidade interna de um contato maior consigo mesma — pode ficar decepcionada e o conselheiro, por sua vez, pode ficar sem poder contribuir, mesmo que queira. Ou uma pessoa que em surto psicótico é levada por amigos, mas não consegue manter contato a ponto de se efetivar um encontro com o conselheiro, pode sair como entrou. Também uma relação de ajuda permanece circunscrita a limites institucionais e pessoais do conselheiro e do próprio cliente.



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