Actas dos ateliers do Vº Congresso Português de Sociologia



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Actas dos ateliers do Vº Congresso Português de Sociologia

Sociedades Contemporâneas: Reflexividade e Acção

Atelier: Desporto e Lazer




Contributo para uma renovação da escola. A importância das actividades físicas e outras práticas de lazer associadas à cultura popular para a construção de uma escola de cultura.
Maria Felix1 e Ana Pereira2


Introdução

Em 1987, Eurico Lemos Pires afirmava, numa apresentação comentada da então recém-aprovada Lei de Bases do Sistema Educativo, que a tradução dos objectivos do Ensino Básico na prática educativa poderia gerar “uma verdadeira revolução educativa no nosso país” (Pires, 1987, p.49). De entre esses objectivos, destacamos, pela sua importância e actualidade, aqueles que promovem a aquisição de atitudes autónomas e civicamente responsáveis, o desenvolvimento da consciência nacional, numa perspectiva do humanismo universalista, e o seu aprofundamento pelo desenvolvimento da língua, da história e da cultura portuguesas. Estes objectivos estão intimamente ligados à temática deste trabalho. Alguns anos de prática pedagógica no nosso Sistema Educativo resultaram na convicção de que, de certa forma, os objectivos atrás citados não encontram uma perfeita tradução na prática educativa, de que aquela “revolução” ainda está por materializar na sua plenitude. Empreendemos, então, a tarefa de tentar verificar se esta convicção tem ou não fundamento.


Tradição, cultura popular e escola
Uma das características da sociedade em que vivemos é o proliferar de movimentos que tentam recuperar o papel da Tradição na construção do futuro. Depois de ter sido rejeitada pelo racionalismo moderno, o que resultou, nas palavras de Teixeira Fernandes, numa perda de transcendência e, consecutivamente, numa perda de referências (Fernandes, 1999), a Tradição emerge agora reabilitada, num retomar das ideias de identidade cultural e de conservação de património. Ao mesmo tempo que o planeta se vai transformando na tão falada “aldeia global”, a busca das identidades locais e regionais é retomada, a importância do saber narrativo é recuperada, a diferença e a especificidade são revalorizadas no sentido da construção de memórias colectivas. A globalização traz a “glocalização”. A Tradição volta a ser entendida como imprescindível para o autoconhecimento; nas palavras de Giddens, ela é reinventada à medida que cada nova geração assume a herança cultural das gerações que a precederam (Giddens, 1995, p.30). Com o enfraquecimento do papel da família na transmissão dessa herança cultural, decorrente do desenvolvimento da vida económica, a Escola torna-se um meio vital para a sua transmissão e conservação. A Cultura Popular e as suas diversas manifestações, ao constituírem-se como a herança cultural característica de uma dada comunidade, deverão ser abordadas na Escola, como afirma Luís Dias da Costa, “em nome do direito à diferença, da igualdade de oportunidades e da própria eficácia pedagógica” (Costa, 1997, p.71). Sendo a crise da identidade um dado forte da denominada pós-modernidade que vivemos, crise essa agravada, no caso do nosso país, pelo processo de integração europeia, torna-se imperativo fazer reviver a identidade nacional, o que, inevitavelmente, passa pelo reafirmar das identidades locais. A Escola necessita por isso da Cultura Popular para formar ou consolidar a consciência identitária local, regional e nacional, sempre na perspectiva da tendência europeia para o humanismo universalista.
Antropo-diversidade, sustentabilidade e escola
Um outro valor que surge com cada vez mais relevância na nossa sociedade, é o da ecologia. Como aponta Lipovetsky, as políticas pós-modernas seguem uma linha ecológica (Lipovetsky, 1989, p.26), que se reflecte não só na natureza, com o apelo à protecção da biodiversidade, mas também na cultura, com a crescente consciência da necessidade de proteger a antropo-diversidade. É o “ecologismo cultural” de que nos fala Alain Touraine (Touraine, 1994). Surge neste contexto um novo termo, o da sustentabilidade, sendo então sustentável a sociedade que preserva para as sociedades futuras os recursos de que estas necessitarão (Boff, 2000), sejam eles recursos naturais, património ou memórias colectivas. Neste sentido, cabe também à Escola promover a aquisição de atitudes civicamente responsáveis, formando indivíduos capazes de intervir no seu meio natural e cultural de uma forma sustentável. Uma das formas de o conseguir é através das vivências e do conhecimento da Cultura Popular.
Lazer, cultura popular e escola
Atitudes civicamente responsáveis implicam, também, o desenvolvimento de atitudes autónomas. Um dos aspectos da vida onde a autonomia assume uma relevante importância é, na nossa sociedade, o do lazer. Factores como a diminuição da jornada laboral, a entrada cada vez mais tardia no mercado de trabalho, o aumento dos dias de férias pagos, a diminuição da idade da reforma, o aumento da esperança média de vida e o aumento do nível e qualidade de vida, aliados à crescente importância axiológica do lazer, entendido hoje em dia como uma área específica da experiência humana com benefícios que se estendem às áreas da liberdade de escolha, da criatividade, da satisfação pessoal, da fruição, do prazer e da felicidade (A.A.V.V., 1995, p.3), eles próprios valores cada vez mais cotados na escala axiológica da sociedade contemporânea em que vivemos, todos estes factores, dizíamos, contribuem para que o lazer seja por nós entendido, seguindo o pensamento de Arnold Toynbee sobre o desenvolvimento das civilizações (Toynbee, 1984), como um dos grandes desafios da nossa civilização. A réplica a este desafio reside também na Escola, na educação para o lazer, na formação dos indivíduos para a autonomia na utilização do seu tempo de lazer. Também aqui a Cultura Popular, sob a forma das suas manifestações que consistem em actividades de ocupação de tempos livres, pode desempenhar um importante papel, ao dar resposta simultaneamente às questões da construção da identidade, da preservação da cultura e da ocupação do tempo livre.
Actividade física, lazer e escola
Sendo as Ciências do Desporto a nossa área de trabalho, não poderíamos, dentro desta problemática, deixar de abordar as questões da actividade física que a ela estão inerentes. A reabilitação da Tradição trazida pela pós-modernidade trouxe também as práticas físicas de cariz cultural, como são a dança popular e os jogos tradicionais, de volta ao espectro das actividades de lazer. Estas actividades, além de, como actividades físicas recreativas que são, intervirem nos domínios biológico, psicológico e social, favorecem também a construção da identidade cultural, pois possuem um profundo significado ontológico, constituindo uma resposta capaz para a questão da busca de sentido para a existência humana, pelo que deveriam estar presentes na Escola, no nível curricular e/ou extracurricular.
Turismo, cultura popular e escola
A partir destas reflexões, tornou-se imperativo conferir se estas questões encontram ou não resposta na realidade do nosso Sistema Educativo. Confrontados com a necessidade de reduzir a abrangência do nosso estudo, optámos por circunscrevê-lo à região do Alto Minho, por ser uma das mais ricas zonas do país no que diz respeito à Cultura Popular, mais especificamente no que refere às suas manifestações com cariz de actividade física. Ao escolher esta região, deparámo-nos com uma outra realidade que seria impossível deixar de lado: o turismo. Sendo, para Carlos Fortuna, uma prática específica de lazer (Fortuna, 1995), o turismo também sofreu transformações com a pós-modernidade. Do chamado “turismo pós-moderno”, ou post-tourism, decorreu uma nova forma de turismo, o turismo cultural, que assenta a sua atractividade no património cultural. Na região do Alto Minho, esta nova forma de turismo é uma componente importante da economia local, constituindo-se cada vez mais como foco de desenvolvimento regional. Por esta razão, pensámos que a Cultura Popular deveria estar presente na Escola, nesta região, numa dupla perspectiva: na da criação de atitudes autónomas e civicamente responsáveis, e na da formação dos recursos humanos qualificados para intervir no turismo cultural, tornando-o um produto de qualidade.
O estudo
Todas estas reflexões conduziram-nos então aos objectivos do nosso trabalho:

- Afirmar o turismo cultural como uma prática de lazer em franco desenvolvimento, em alternativa às formas ditas tradicionais de turismo, e com um papel cada vez mais importante no desenvolvimento regional do Alto Minho;

- Afirmar o enorme potencial das práticas físicas associadas à Cultura Popular para o desenvolvimento de práticas culturais de lazer, nomeadamente do turismo cultural;

- Afirmar a necessidade de renovação da Escola, decorrente da sua responsabilidade no processo de formação de indivíduos conscientes da sua Cultura local e nacional, e com sensibilidade para o desenvolvimento de formas sustentáveis de intervenção no seu meio.

Para a consecução destes objectivos propusemo-nos, então, analisar um conjunto de documentos que podemos classificar em três grupos. Um primeiro grupo, relativo aos documentos normativos do 3º Ciclo do Ensino Básico, em vigor no momento deste Estudo, um segundo grupo de documentos relativo à operacionalização dos documentos normativos (Projectos Educativos das Escolas do Alto Minho), e um terceiro grupo, relativo às opiniões dos intervenientes em organizações de Cultura Popular e Turismo (Região de Turismo do Alto Minho, Federação de Folclore Português, Grupos Etnográficos da região do Alto Minho).

Procedemos, então, a uma Análise de Conteúdo do tipo confirmatório (Bardin, 1977, Vala, 1986) do nosso corpus. Para isso, foi definido a priori um sistema categorial. As categorias estabelecidas foram as seguintes: Actividades Extracurriculares; Cultura/Cultura Popular; Dança/Dança Popular; Etnografia; Folclore; Identidade; Lazer/ Educação para o Lazer; Jogos Tradicionais ou Populares; Património/Património Cultural; Rituais; Tradição; Turismo/Turismo Cultural.


Conclusões
A nossa primeira conclusão refere-se à afirmação do valor das práticas físicas associadas à Cultura Popular. Estas práticas, nomeadamente a Dança Popular e os Jogos Tradicionais, valorizadas enquanto actividades potenciadoras da construção da identidade, quase não existem nos documentos normativos do Ensino Básico e na sua operacionalização na região do Alto Minho. No entanto, as Escolas desta região assumem como objectivo a construção e preservação dessa mesma identidade. Ao mesmo tempo, essas actividades constituem um enorme potencial a explorar pelas entidades responsáveis pelo Turismo, que as consideram de extremo valor, especialmente em regiões onde a riqueza patrimonial nessas áreas é inesgotável, como é o caso da região do Alto Minho. No entanto, nesta mesma região observamos que a Escola ainda pouco ou nada faz para transmitir essas formas de Cultura Popular.

A nossa segunda conclusão refere-se ao potencial do Turismo Cultural enquanto prática de lazer decorrente das mudanças axiológicas da pós-modernidade, nomeadamente no Alto Minho, onde esta actividade encontra matéria-prima para o seu desenvolvimento. Parte desta matéria-prima são, como já vimos, as actividades físicas associadas à Cultura Popular. Tanto no enquadramento teórico como nos organismos ligados a esta actividade encontramos o entendimento de que o futuro da região do Alto Minho passa pelo desenvolvimento de formas sustentáveis de Turismo Cultural. Apenas a Escola parece estar alheia a esta realidade.

A terceira e, quiçá, mais importante conclusão a que chegámos é a da necessidade de renovação da Escola que decorre da sua responsabilidade na transmissão de Cultura Popular e na educação em valores de sustentabilidade e responsabilidade nas acções sobre o meio. A Escola que temos inscreve-se numa lógica moderna, encontrando-se por isso desactualizada nesta época contemporânea. Cada vez mais longe da negação moderna da Tradição, a sociedade tem cada vez mais necessidade de se rever nas suas raízes, de regressar às suas origens, para encontrar referências que lhe permitam sobreviver. Se nas intenções da educação se vislumbram já algumas preocupações importantes para esta temática, como a da educação para o lazer e a da construção da identidade, na sua operacionalização essas preocupações esfumam-se, diluem-se, fazendo com que na realidade a Escola fique à margem, tentando reproduzir-se num modelo que já não serve a sua população.

Em 1982, Miguel Torga escrevia no seu Diário, a propósito do retorno à tradição que observava na sociedade portuguesa: “Dir-se-ia que, incerta de si, a pátria se procura nas raízes. Ou que, pelo menos aparentemente, procura protegê-las como se protegesse a própria vida. O que significaria que ao nível do subconsciente o nosso instinto de conservação continua acordado. Simplesmente, trata-se de mais um renascimento ilusório, dos vários que têm ocorrido sem consequências de maior” (Torga, 1987, pp.11-12).

Para que este renascimento cultural não seja ilusório, cabe à Escola um papel fundamental. Repensar a educação é, pois, um imperativo. Para que tenhamos finalmente uma escola que, ao fortalecer a identidade cultural, ao dinamizar os recursos locais e ao alargar a qualificação da sua componente humana, se transforme num efectivo factor de desenvolvimento. Para termos uma ESCOLA DE CULTURA.

Bibliografia
A.A.V.V. (1995). Leisure Education Towards The 21st Century, Utah, USA, Department of Recreation Management and Youth Leadership;

BARDIN, L. (1977). Análise de Conteúdo, Lisboa, Edições 70;

BOFF, L. (2000). Saber Cuidar. Ética do Humano – Compaixão pela Terra, Petrópolis, Vozes;

COSTA, L. (1997). Culturas e Escola – A Sociologia da Educação na Formação de Professores, Lisboa, Livros Horizonte;

FERNANDES, A. (1999). Para uma Sociologia da Cultura, Porto, Campo das Letras;

FORTUNA, C. (1995): "Turismo, Autenticidade e Cultura Urbana", in Revista Crítica das Ciências Sociais, (Nº43), Coimbra, 11:45;

GIDDENS, A. (1995). As consequências da modernidade, Oeiras, Celta Editora;

LIPOVETSKY, G. (1989). A Era do Vazio – Ensaio sobre o individualismo contemporâneo, Colecção Antropos, Lisboa, Relógio d’Água;

PIRES, E. (1987). Lei de Bases do Sistema Educativo. Apresentação e Comentários, Porto, Asa;

TORGA, M. (1987). Diário (Vol. XIV), Coimbra, Ed. Autor;

TOURAINE, A. (1994). Crítica da Modernidade, Lisboa, Instituto Piaget;

TOYNBEE, A. (1984). “A Desintegração de Civilizações”, in Teorias da História, Org. Gardiner, P., Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 244:256;



VALA, J. (1986). 'A análise de conteúdo', In J. Madureira Pinto (Eds), Metodologia das Ciências Sociais. Porto, Edições Afrontamento: 101-128.

1 Departamento de Educação Física e Desporto, Instituto Superior da Maia

2 Gabinete de Sociologia do Desporto, Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física – U.P.




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