Ad Adam vero dixit: ( )Maledicta terra in opere tuo



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O conflito mais antigo do mundo: o rompimento das alianças que o homem firmou com Deus.
Eduardo Fabbro (UnB)
ad Adam vero dixit: (...)Maledicta terra in opere tuo...”
O Antigo Testamento é uma coleção de histórias, dos mais diversos tipos, centradas na vivência do povo judeu, e reunidas bastante tardiamente em um Cânon único, seja pelos cristãos que o herdaram, seja pela tradição judaica. Os escritos vão desde a visão apocalíptica do Livro de Daniel, aos poemas de exaltação dos Salmos, até os escritos políticos, quase helênicos, dos Macabeus. Os livros assim reunidos representariam uma espécie de memória escrita do povo judeu, cujo único traço fixo é sua relação conflituosa com seu Deus. A exegese cristã tira esse texto de seu contexto de produção, e atribui novos significados e, sobretudo, um novo sentido à história. O Antigo Testamento passa a justificar, a preceder o Novo, e a história que antes fora do povo judeu, passa a legitimar o advento do Cristo1. O Antigo Testamento é uma história de confrontos e embates, encontros e desencontros, que distanciam constantemente o homem de Deus. A história narra as alianças de Deus com o homem, as rupturas causadas pelos erros deste, e a separação dele das leis divina e sua miséria sobre a terra, resultado de tal cisão. O Cristianismo vê essa história como o caminho do homem para longe de seu criado, que só viria a ser resgatado pelo advento do Cristo. A mensagem atribuída ao Antigo Testamento é o conflito, o pecado e a necessidade da redenção.

Desta forma, o mapa-mundi de Ebstorf, do inglês Gervásio de Tilbury escolhe, entre as diversas imagens do Antigo Testamento, retratar esse conflito, pois nele vê o presságio do advento do Messias. Gervásio situa no Oriente todo o cenário do Antigo Testamento. O Paraíso, situado na Índia, a Torre de Babel na Babilônia. Gervásio opta por exibir em seu mapa o conflito e a desobediência humana, e como estes afastaram o homem de Deus.

A longa história de conflitos do homem com seu criador acompanha a própria história do homem. No principio, Deus cria o homem e planta o jardim do Éden para que lá habitasse. Deus dispõe o jardim para o homem, para que o cultive e guarde (operaretur et custodiret). E Deus comanda2:

“Deu-lhe este preceito: ‘Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim, mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás’.” (Gn. 2,16-17)3


Deus neste momento legisla, impõe a Lei, a qual Adão deverá seguir para que se mantenha ao lado do senhor. É estabelecida a primeira aliança entre Deus e o homem. A punição àqueles que a desobedecem é terrível, a pena é a morte. Adão obedece, e com ventura aproveita sua vida no Éden. E Deus cria a mulher da costela do homem, para que o acompanhe e auxilie.

No entanto, o mal intervem. A serpente, o ser mais astuto de todos os animais da terra (callidior cunctis animantibus terrae), interpola a mulher, a questiona:

“Mas a serpente era o animal mais astuto que Deus fizera na Terra; Ela disse à mulher: 'É verdade que Deus vos proibiu comer do fruto de toda árvore do jardim?' O qual a respondeu: 'Podemos comer do fruto das árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Vós não comereis dele, nem o tocareis, para que não morrais.' - 'Oh, não!- tornou a serpente- vós não morrereis! Mas Deus bem sabe, que no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.'”4 (Gn.3,1-5)
A serpente apresenta uma explicação diferente daquela de Deus, uma explicação sedutora. A mulher logo se interessou por esta árvore, ou melhor, com a possibilidade de adquirir conhecimento:
“A mulher, vendo que o fruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto, tomou dele, comeu, e o apresentou também ao seu marido, que comeu [igualmente]. Então os seus olhos abriram-se; e, vendo que estavam nus, tomaram folhas de figueira, ligaram-nas e fizeram cinturas para si.”5 (Gn. 3,6-7)

O texto da Vulgata parece ignorar a passagem que seguiria a apreciação do fruto pela mulher, como consta nas LXX: “w¨raiÍo/n e)stin tou= katanoh=sai”, e é traduzido como "desejavel para se alcançar o conhecimento" na versão portuguesa da Biblia. Lutero incluiu o trecho como : "weil er klug (inteligente) macht". A expressão parece traduzir o termo 'tenha sucesso'. O texto latino afasta-se da busca pelo conhecimento e fixa-se no vislumbramento dos sentidos, tão caro a Idade Média. Afasta também de Eva o desejo pelo conhecimento e pela sabedoria. A passagem torna-se quase erótica, abrindo espaço para a interpretação sexual do pecado original.

O mandamento divino é desobedecido e se inicia o conflito, a separação de Deus e do homem. O pecado original é o começo desta separação. Deus pune os infratores de sua Lei:

“Então o Senhor Deus disse à serpente: 'Porque fizeste isso, serás maldita entre todos os animais e feras dos campos; andarás de rastros sobre o teu ventre e comerás o pó todos os dias de tua vida. Porei ódio entre ti e a mulher, entre tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu lhes ferirás o calcanhar.' Disse também a mulher: 'Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás a luz com dores, teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob seu domínio.' E disse em seguida ao homem: 'Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e em pó te hás de tornar.'”6 (Gn. 3, 14-19)


Então, nasce a desavença no mundo. O homem é expulso do paraíso, afasta-se de Deus, e deve obter seu sustento de seu trabalho. A paz e a opulência do Éden é substituída pela carestia e a cizânia. O homem confronta o homem, e o homem confronta, sobretudo, Deus.

Assim, Deus arrepende-se de ter feito o homem, e decide extermina-lo:

“O Senhor viu que a maldade dos homens era grande na terra, e que todos os pensamentos do seu coração estavam continuamente voltados para o mal. O Senhor arrependeu-se de ter criado o homem na terra, e teve o coração ferido de íntima dor. E disse: 'Exterminarei da superfície da terra o homem que criei, e com ele os animais, os répteis e as aves dos céus, porque eu me arrependo de os haver criado.'”7

(Gn.6, 5-7)


A maldade dos homens leva-os novamente a um conflito com Deus. Por sua conduta, seu destino é selado. Mas Noé encontra graça (gratia) aos olhos do Senhor, e este opta por poupa-lo. Este era justo e perfeito no meio dos homens de sua geração (Gn.6,9 : Noe vir iustus atque perfectus fuit in generationibus suis cum Deo ambulavit). Não obstante, Deus o incumbiu de algumas obrigações: a primeira delas seria a construção de uma arca com as medidas dadas pelo Senhor e que entro da mesma, Noé colocasse um casal de cada espécie de animais e também ele e sua família assim que Deus o ordenasse e Noé o obedeceu. Passado o dilúvio, Deus ordenou que Noé e sua família soltassem os animais para que os mesmos se multiplicassem sobre a terra. Deus também ordenou o mesmo a Noé e a sua família, para que a toda a terra fosse repovoada.

A Torre de Babel é o grande símbolo do confronto na Idade Média. Para um mundo em que a confusão de línguas foi uma constante, nenhuma imagem poderia ter sido tão forte. A multiplicação das línguas, povos e costumes se contrapõe ao projeto Católico, universal, da Igreja. A Babel expressa o fracasso da unidade, a impotência do latim como língua unificadora, o caos e a desordem. A Torre é a origem de todo o desentendimento.

É bastante singular a forma com que a passagem sobre a Torre de Babel se insere na narrativa bíblica (Gn. 11, 1-9). O trecho corta a história de forma abrupta, no momento em que se descrevia a posteridade dos filhos de Noé (Gn.10, 32). Terminado o relato, a descendência de Noé volta a ser o assunto (Gn. 11,10). A Torre de Babel é uma das muitas histórias comum que deveriam circular no meio onde o texto da Gênese foi composto.

A história se passa quando os homens decidiram que fariam uma cidade que tivesse uma grande torre para que, dessa forma, eles não se dispersassem pela terra:


"Toda terra tinha uma só língua, e servia-se das mesmas palavras. Alguns homens, partindo para o oriente, encontraram uma planície onde se estabeleceram. (...) Depois disseram: 'Vamos, façamos para nós uma cidade e uma torre cujo cimo atinja os céus. Tornemos assim célebre o nosso nome, para que não sejamos dispersos pela face da terra.'"8

(Gn.11,1-4)


E neste momento os homens desobedecem à Deus novamente, sendo, portanto, o ponto cujo conflito é observado:
"Mas o Senhor desceu para ver a cidade e a torre que construíam os filhos dos homens. 'Eis que são um povo só, disse ele, e falam uma só língua: se começam assim, nada futuramente os impedirá de executarem todos os seus empreendimentos. Vamos: descemos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao outro.' Foi dali que o Senhor os dispersou daquele lugar pela face de toda a terra, e cessaram a construção da cidade. Por isso deram-lhe o nome de Babel, porque ali o Senhor confundiu a linguagem de todos os habitantes da terra, e dali os dispersou sobre a face de toda a terra."9 (Gn. 11,5-9)
Novamente o pecado dos homens os coloca contra Deus, e o conflito com Deus acaba por gerar o conflito entre os homens.

Por seus pecados, sua resistência à Lei, os homens se separam de Deus, e se colocam em conflito com o Criador, e entre si. O pecado original marca o início deste distanciamento, que culmina no dilúvio e na destruição da Torre, na disseminação da desordem entre os homens por Deus. A distância cresce até a quase ruptura, que só será reparada com a vinda do Messias.

Na terceira parte de seu Livre des Merveilles, Gervásio de Tilbury conta uma historieta edificante, um exemplum. Nesta, um abade ordena a seu noviço de regar um graveto há muito tempo seco, plantado em um solo árido. Por dois anos o noviço rega diariamente o graveto, sem resultados. No final do terceiro ano, o graveto floresceu10. Isso mostra, escreve Gervásio, o santo mérito da obediência. O autor pretende com esta história pregar a importância da obediência. Essa pregação também se encontra no mapa-mundi de Ebstorf. Quando o autor representa o Antigo Testamento, ele procura mostrar como o homem se distanciou de Deus, e a miséria que foi sua recompensa. A moral destas passagens é como a desobediência do homem foi a causa de seu desentendimento com Deus. Gervásio expressa com isso o apego a Lei, a obediência, de uma sociedade patriarcal. Se o homem, como o noviço, obedecer seu abade (de Aba, pai) seu trabalho florescerá, mas se o homem voltar a desobedecer, como fez Adão, seu destino é a danação.

O conflito mais antigo do mundo, o conflito que expulsa o homem do Paraíso, é fruto da desobediência do homem frente aos mandamentos do senhor. Desta forma o homem peca, rompe as alianças propostas por Deus, e como conseqüência se perde na desordem e no pecado. Somente o Cristo é capaz de redimir a humanidade, e restaurar a união do homem com Deus, e dos homens entre si. Em seu mapa, Gervásio mostra esta inevitabilidade, esta lição a ser aprendida. E, quando marca em dourado Jerusalém, o autor busca exatamente oferecer uma resposta.



1 Sobre a utilização do Antigo Testamento para a produção dos Evangelhos e da exegese cristã cf. GINZBURG, Carlo. Ecce: Sobre as raízes culturais da imagem de culto cristã. In Olhos de Madeira. São Paulo: Cia das Letras. 2001.(© 1998) pp.104-121.

2 A fim de manter uma fidelidade com as fontes medievais, que Gervásio teria tido acesso, as citações da Bíblia foram retiradas da Vulgata e traduzidas. A versão proposta em português teve como referência o texto da Bíblia Sagrada Ed. Vozes 1982, sendo feitas, obviamente, as alterações a fim de concordar com a versão latina. A versão da Vulgata utilizada foi a versão eletrônica: “Bible Windows 5.1” da Silver Montain Softwares, 1997.

3 " praecepitque ei dicens ex omni ligno paradisi comede; de ligno autem scientiae boni et mali ne comedas in quocumque enim die comederis ex eo morte morieris ."

4 “sed et serpens erat callidior cunctis animantibus terrae quae fecerat Dominus Deus qui dixit ad mulierem cur praecepit vobis Deus ut non comederetis de omni ligno paradis;i cui respondit mulier de fructu lignorum quae sunt in paradiso vescemur; de fructu vero ligni quod est in medio paradisi praecepit nobis Deus ne comederemus et ne tangeremus illud ne forte moriamur; dixit autem serpens ad mulierem nequaquam morte moriemini; scit enim Deus quod in quocumque die comederitis ex eo aperientur oculi vestri et eritis sicut dii scientes bonum et malum

5 vidit igitur mulier quod bonum esset lignum ad vescendum et pulchrum oculis aspectuque delectabile et tulit de fructu illius et comedit deditque viro suo qui comedit et aperti sunt oculi amborum cumque cognovissent esse se nudos consuerunt folia ficus et fecerunt sibi perizomata"

6 " et ait Dominus Deus ad serpentem quia fecisti hoc maledictus es inter omnia animantia et bestias terrae super pectus tuum gradieris et terram comedes cunctis diebus vitae tuae; inimicitias ponam inter te et mulierem et semen tuum et semen illius ipsa conteret caput tuum et tu insidiaberis calcaneo eius; mulieri quoque dixit multiplicabo aerumnas tuas et conceptus tuos in dolore paries filios et sub viri potestate eris et ipse dominabitur tui; ad Adam vero dixit quia audisti vocem uxoris tuae et comedisti de ligno ex quo praeceperam tibi ne comederes maledicta terra in opere tuo in laboribus comedes eam cunctis diebus vitae tuae; spinas et tribulos germinabit tibi et comedes herbas terrae; in sudore vultus tui vesceris pane donec revertaris in terram de qua sumptus es quia pulvis es et in pulverem reverteris "

7 “videns autem Deus quod multa malitia hominum esset in terra et cuncta cogitatio cordis intenta esset ad malum omni tempore; paenituit eum quod hominem fecisset in terra et tactus dolore cordis intrinsecus; delebo inquit hominem quem creavi a facie terrae ab homine usque ad animantia a reptili usque ad volucres caeli paenitet enim me fecisse eos"

8 erat autem terra labii unius et sermonum eorundem; cumque proficiscerentur de oriente invenerunt campum in terra Sennaar et habitaverunt in eo; dixitque alter ad proximum suum venite faciamus lateres et coquamus eos igni habueruntque lateres pro saxis et bitumen pro cemento; et dixerunt venite faciamus nobis civitatem et turrem cuius culmen pertingat ad caelum et celebremus nomen nostrum antequam dividamur in universas terras

9 “descendit autem Dominus ut videret civitatem et turrem quam aedificabant filii Adam; et dixit ecce unus est populus et unum labium omnibus coeperuntque hoc facere nec desistent a cogitationibus suis donec eas opere conpleant; venite igitur descendamus et confundamus ibi linguam eorum ut non audiat unusquisque vocem proximi sui; atque ita divisit eos Dominus ex illo loco in universas terras et cessaverunt aedificare civitatem; et idcirco vocatum est nomen eius Babel quia ibi confusum est labium universae terrae et inde dispersit eos Dominus super faciem cunctarum regionum .”

10 Gervais de Tilbury. Le Livre des Merveilles. Traduzido e comentado por Annie Duchesne. Paris: Les Belles Lettres. 1992 Capítulo 35, pp.52-56.


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