Adelsa Mª Alvarez Lima da Cunha Carlos Roberto Silveira o amor e o tempo reflexões sobre a linha do tempo amorosa e o conceito de clusters de papéIS



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Adelsa Mª Alvarez Lima da Cunha

Carlos Roberto Silveira

O AMOR E O TEMPO REFLEXÕES SOBRE A LINHA DO TEMPO AMOROSA E O CONCEITO DE CLUSTERS DE PAPÉIS

Palavras-chave: Relação Amorosa, Tempo, mitos, Papel, Clusters de papéis.

O que seria de ti, se eu não existisse?

O que seria de Mim, se tu não existisses?




    Jacob Levi Moreno, Palavras do Pai.

    O amor, quando se revela,

    Não sabe se revelar.

    Sabe bem olhar p’ra ela,

    Não lhe sabe falar.

    Quem quer dizer o que sente

    Não sabe o que há de dizer.

    Fala: parece que mente...

    Cala: parece esquecer...

    Fernando Pessoa



Nossa proposta é refletir o quanto o tempo influi, determina e transforma as relações amorosas.

Embora tal questão possa ser refletida a partir das diversas formas de amor, nós optamos por focar não no amor ao homem, ao próximo, que estaria mais para compaixão, pois não é exclusivo. Não no amor fraterno, ou filial, pois não é de livre escolha - não escolhemos a família que nascemos, mas escolhemos de certa forma quem amamos. Não no amor da amizade, que não envolve o desejo erótico. Mas sim por este espaço imantado pelo encontro entre duas pessoas que se querem enquanto corpo e alma. Não é um corpo qualquer o que seria erotismo, mas um corpo específico, um corpo com alma, uma determinada pessoa. Nosso trabalho, portanto, está centrado no amor erótico. (Nosso trabalho está, portanto, centrado no amor erótico e baseia-se nas três divisões mais clássicas que a filosofia faz do amor, ou seja, o amor erótico, o amor philia e o amor ágape).

Partindo da genealogia de Eros, temos que Eros é filho de Pênia, a penúria, e de Poros, o expediente, logo ele é busca, é falta, é desejo. Não um desejo qualquer. Só há amor erótico se o desejo, em si mesmo indeterminado, se polarizar sobre um determinado objeto enquanto faz falta particularmente. Em essência não há diferença se o chamamos de paixão ou amor. Na verdade essa distinção é feita, em geral, pela intensidade com que este sentimento toma forma em nós. Quanto mais intenso - aquele que nos tira do chão, nos faz perder a cabeça - tende-se a chamar de paixão. Quanto menos intenso - aquele mais terno, seguro, reconfortante - tende-se a chamar de amor.

Entretanto os dois são amor erótico. Seria mais correto chamarmos este trabalho de O amor apaixonado e o tempo ou A paixão amorosa e o tempo. Contudo, nossa decisão em manter a palavra “amor” advém da convicção que temos de que vivemos sob a égide do amor romântico, idealizado, esquecendo-nos às vezes que um desejo depois de saciado, deixa de existir.


O ideal do amor romântico é oriundo do discurso de Aristófanes no banquete de Platão. Platão, neste discurso, fala que em uma era antiga os seres eram duplos, completos. “Cada homem constituía um todo de forma esférica, com as costas e os flancos arredondados; tinham quatro mãos, o mesmo número de pernas, dois rostos idênticos num pescoço perfeitamente redondo, mas uma cabeça única para o conjunto destes dois rostos opostos um ao outro; tinham quatro orelhas, dois órgãos de geração e todo o resto em conformidade. Estes seres eram de três gêneros: os machos que tinham dois sexos de homem; as fêmeas que tinham dois sexos de mulher e os andrógenos que tinham ambos os sexos. Tais seres tinham uma força e bravura excepcionais e em sua arrogância queriam escalar o céu para igualar-se aos deuses. Zeus, como punição, partiu-os ao meio, dividiu-os em dois e a partir daí, cada um é obrigado a buscar sua metade”. Como diz Aristófanes: “Somente o amor recompõe a antiga natureza ao se esforçar por fundir dois seres num só e curar a natureza humana”. Daí a crença de que existe a alma gêmea, minha cara-metade, e que posso encontrá-la seja ela homo ou hetero, dependendo do que eu era anteriormente.
Os amantes vivem no paraíso, por isso buscamos tanto o amor e o desejamos tanto. Apesar de todos os males advindos dele buscamos amar e ser amados, pois como diria o poeta, “o amor é o mais próximo nesta terra da beatitude dos bem-aventurados”. Porém este paraíso não está fora do tempo, ele está e se dá no tempo e, portanto, não escapa dos desastres e das desventuras deste. O corpo envelhece, as pessoas mudam – somos tempo. Não podemos fugir dele. O amor se quer eterno, mas como tudo que é humano está condenado ao tempo. Esta é uma das angústias do ser humano já que, conforme caminhamos na linha do tempo de um relacionamento, mais nos aproximamos da inevitável tomada de consciência de certos aspectos do ser amado, que conflitam com nossa idealização e já que toda e qualquer relação, com toda e qualquer pessoa, não vai nos satisfazer plenamente posto que as pessoas não foram criadas para nós e não são feitas à nossa imagem e semelhança. Elas têm seus próprios desejos, conflitos, ambições. Elas não são só um ser para mim, mas também um ser para si e em si! E assim nos defrontamos com o dilema de ter de optar entre manter a busca incessante por esse alguém idealizado ou transformar, abrir mão, deste alguém ideal e aceitar que o ser amado não é tudo o que sonhei, mas que pode ser alguém merecedor do meu amor e capaz de me amar. Amar apesar de! Para conseguirmos fazer este tipo de opção, precisamos abandonar a busca do outro perfeito, fazer concessões à realidade. Não é um conflito sem baixas. E ninguém sai ileso. Ao final, todos saem marcados e a cicatriz deixada por tais vivências amorosas pode ser vista por toda parte: na literatura, na música, no teatro, etc. Afinal, o amor aspira ao céu, mas está costurado a terra!
Pode-se dizer que tal visão é muito desanimadora porque inexoravelmente há morte nesta constatação, por isso é trágica. Há morte da idealização ou da busca pelo impossível. A completude impossível, a garantia impossível... A morte do tudo por todo o sempre numa só pessoa. A completude no outro e do outro em mim, a que busca uma unicidade impossível quando confrontada com o real. Não estamos falando que, ao querer buscar a completude e a unicidade com o outro nos referimos a pessoas comprometidas, com relações doentias... Estamos falando de todos

(facunha@uol.com.br ou carobertosilveira@uol.com.br) nós porque todos os que já se enamoraram, se apaixonaram, conhecem esta sensação. Ela é vivida em toda a relação amorosa, mas é fugaz. É aquela sensação de gozo, de bem-estar, de encantamento, que é tão cantada em prosa e verso; que transforma filmes, como o Crepúsculo, em campeão de bilheteria ainda que no século XXI. E é essa sensação que nos conduz a um grande erro: querer eternizar algo que é passageiro! Passageiro porque quer nos lançar para fora do mundo, mas estamos costurados a ele!


Não existe Sra. Tristão, tampouco Sra. Romeu! As grandes histórias amorosas do ocidente são trágicas, se dão pela impossibilidade: Romeu e Julieta, Tristão e Izolda, Casablanca...

Diante de tal reflexão, o que podemos concluir? Que nós todos somos tolos buscando algo impossível? Que o amor é uma ilusão? Ou, como dizia o ditado antigo, “O amor é uma flor roxa que nasce no coração dos trouxas!?” Não, nosso pensar nos direciona para a constatação de que se assumirmos e aceitarmos tais aspectos do vínculo amoroso nos ajudará a aceitar que não podemos focar nossa vida numa busca do amor ideal romântico, uma vez que este advém de uma idealização. (1) E não podemos negar a afirmação de que o amor se dá no tempo. E o tempo é inimigo da idealização, exatamente porque os fatos vão confrontando essa idealização e a figura do real se impõe, mesmo que seja por meio de uma vaga sensação de desconforto.


Já em 1990, Fraenkel apresentou uma teoria do tempo no relacionamento conjugal (Work and Thecnology and the Family, Fraenkel & Wilson, 1998) em que afirma que os problemas com o tempo começam e se mantém durante todo o período de vigência de um relacionamento, sendo nos dias de hoje um dos principais fatores a serem considerados por terapeutas de família. E afirma existir algumas premissas básicas para isto, sendo que a primeira premissa chave para relacionamentos é “a de que a maneira como os casais evoluem, organizam e vivenciam o tempo na sua vida, pode afetar profundamente sua satisfação geral com o relacionamento.” Portanto, o que pretendemos afirmar neste trabalho é que o amor se dá no tempo e para ele sobreviver os amantes tem que aceitar sua transformação abrindo mão do outro idealizado pelo outro real.
Identificamos que diante deste conflito existem três grandes possibilidades: a primeira delas é aceitar a transformação do vínculo amoroso e ir reconstruindo o vínculo; ir apaixonando-se e desapaixonando-se pela figura amada ao longo do tempo de tal forma que, diante do ciclo vital da relação, outras formas de amor se fortifiquem, construindo relações de muito companheirismo, carinho, cumplicidade, etc. Uma segunda possibilidade é, diante da frustração que a perda da idealização traz terminar o vínculo e buscar num novo amor o idealizado. Assim, podemos viver uma vida inteira de procura, acreditando ter achado, se frustrando e recomeçando, sem nunca chegar ao porto desejado. E a terceira é a negação da realidade e da passagem do tempo, fazendo com que o amor um dia imaginado perfeito, embora hoje inexistente, continue sendo vivido no relicário da lembrança, como o amor definitivo. A pessoa se mantém presa num tempo que está no passado, num amor outrora vivido, não transformado nem atualizado e que se perpetua como uma eterna cobrança do momento que se foi!
Tomados pelas questões acima referidas e questionando onde, na teoria do Psicodrama, conseguiríamos obter alguma luz, acabamos nos centrando na questão dos clusters de papéis, tema já muito presente em nossas vidas. Apesar de ser obvio, não podemos deixar de ressaltar que, certamente, existirão muitas outras possibilidades de se explicar ou entender mais profundamente a questão da relação amorosa na teoria Psicodramática. Certamente poderíamos pensar tal questão através dos conceitos de tele e transferência, de complementaridade de papéis, dentre outros, mas, para nós, diante de nossa realidade profissional e mesmo existencial, a teoria dos clusters de papéis – ponto que nos uniu há anos atrás em nosso primeiro trabalho vivencial - acabou sendo um caminho natural. Até porque acreditamos que ela é muito útil na compreensão de tais questões e (fadcunha@uol.com.br ou crobertosilveira@uol.com.br), sobretudo, porque foi pensada para o homem comum, independente de psicopatologia. Tais conceitos foram formulados buscando entender o sofrimento humano independente de poder enquadrá-lo em uma determinada categoria psicopatológica, ou não. Muito parecido com o amor, sentimento que abarca a todos, inevitavelmente um dia nos fez sofrer ainda que não tenha sido doentio!
Moreno nos diz que a espontaneidade pode ser transferida de um papel não atuado para um papel atuado no presente através do efeito chamado de “clusters” de papéis. No livro Psicodrama, lemos que: “Os papéis não funcionam isolado, ao contrário, eles tendem a formar clusters (ramos). Há uma transferência (espontaneidade) desde papéis não atuados (unenacted roles) aos que são atuados no presente. Esta influência chama-se efeito cluster.”(2) Ou seja, os papéis se agrupam segundo algum critério e conseguem transferir espontaneidade de um papel a outro. Bustos, ao desenvolver melhor o conceito proposto por Moreno (3), brinda-nos com a teoria de que os papéis se agrupam segundo uma determinada dinâmica, dinâmica esta ligada ao processo evolutivo da espécie humana. De tal forma que os papéis se agrupam em três grandes clusters de papéis, cada um deles com sua dinâmica própria, a saber: Cluster 1, também chamado materno, cuja dinâmica essencial é a dependência; cluster 2 ou paterno, cuja dinâmica essencial é a conquista da autonomia e cluster 3 ou fraterno, cuja dinâmica essencial é competir, rivalizar e compartilhar.

Consideramos necessário explorar um pouco mais estes conceitos, explicitando melhor alguns aspectos que serão necessários para a compreensão de nossa proposta. Quando Bustos faz uma correlação com a ordem evolutiva- ainda que seja inevitável a comparação com as idéias de Melaine Kein - ele considerou a teoria Moreniana de papéis e o desenvolvimento físico e psicológico do bebê. Assim, no início da vida, o bebê é um ser completamente dependente, não tem idéia de quem ele é, ele e o mundo são uma coisa só. O cluster 1 é chamado de materno, exatamente porque neste momento de nossa existência o papel complementar é usualmente desempenhado pela figura materna. Ressaltamos que o materno aqui diz respeito à função materna, à função do cuidado essencial a uma criança. Cuidado este que pode ser desempenhado por outra pessoa, inclusive pelo pai. Nesta fase da vida, o registro das vivências, das emoções, é todo mnêmico e sensorial, uma vez que o bebê ainda não tem a capacidade cognitiva de entender o que lhe acontece. Por isso, as experiências dessa fase serão marcadas de forma tão contundente porque se instala no próprio corpo. Isso quer dizer que nosso primeiro movimento relacional ocorre numa relação onde somos completamente dependentes. E é aí que aprendemos os primeiros tons de como lidaremos, ao longo da vida, com esse sentimento. Se formos bem cuidados, atendidos em nossas necessidades, de forma amorosa, certamente desenvolveremos uma forma muita saudável de saber depender, de poder contar com o outro, de aceitar a nossa vulnerabilidade, etc. Se não formos tão bem atendidos, aprenderemos como lidar com essa dinâmica podendo, por exemplo, negar toda e qualquer dependência, desenvolver uma auto-suficiência reativa, etc. Seguindo o processo evolutivo, o bebê cresce e, em determinado momento, ele têm a consciência da presença do pai. A consciência de que existe uma relação diferenciada entre ele e a mãe e ele e o pai e que existe uma relação entre a mãe e o pai, que é absolutamente diferente da relação que ela, criança, tem com eles. A introdução da figura paterna traz também a inclusão do limite, da ordem, é a figura que corta a relação tão estreita entre a mãe e o filho, apontando que o mundo é mais amplo e que a mãe não tem só este papel na vida, é também mulher, esposa, profissional, etc. Por isso chamamos o cluster 2 de paterno, porque tem a ver com a dinâmica da ampliação das relações, da necessidade de sair da relação protegida e ir em busca do que tem fora. Tem a ver com a conquista da autonomia, de ir à busca do que se quer. E ele é assim denominado também considerando a função paterna, independente de quem é a pessoa que desempenha esta função na vida de uma criança.


Na sequência natural, chega o momento em que a criança toma consciência da existência de seres

(fadcunha@uol.com.br ou crobertosilveira@uol.com.br) iguais a ela. Se até então ela só tinha vivido relações assimétricas, ela começará a perceber que existem seres que reagem de forma diferente. Se ela der um tapa no irmão ou coleguinha da escola certamente levará outro tapa, talvez uma mordida, mas definitivamente, não receberá o que até então era o esperado: uma repreensão do tipo: “Não! Isso neném não pode fazer. Mamãe fica triste”, ou algo similar. A entrada no universo em que existem os irmãos leva a criança a ter de enfrentar que, daqui para frente, ela terá que dividir o mundo com seres iguais. Neste momento, se vivencia a primeira relação simétrica e se aprende, definitivamente, que não somos o centro do mundo, porque existem vários iguais tentando tanto quanto cada um de nós, conseguir ocupar o espaço. A dinâmica que aqui se instala e que caracteriza o terceiro cluster de papéis é, exatamente, a dinâmica de como lidar com os seres iguais. Dinâmica esta que se desdobra em três possibilidades: competir, rivalizar e compartilhar. Da mesma forma que nos clusters 1 e 2, o que nomina o cluster – fraterno – diz respeito à função que os irmãos representam na vida psíquica de uma criança e não ao irmão em si. Ainda que alguém seja filho único este papel, inevitavelmente, será vivenciado seja com os primos, colegas de escola, do parquinho, etc.


Obviamente, poderíamos discorrer laudas e laudas sobre o tema, porém considerando que nosso objetivo é outro, fica a sugestão de que os interessados possam ler mais sobre o assunto que, a nosso ver, tem muito a contribuir com os psicoterapeutas psicodramatistas. Mas, neste ensaio, o que mais nos interessa é deixar claro que todos os papéis que desempenhamos na vida, dependendo de como os aprendemos, do contra-papel atuante em determinada situação, acaba sendo desempenhado, atuado, com as características de um destes clusters, o que significa dizer que será desempenhado com as nuances desta dinâmica. É importante destacar que cada uma destas dinâmicas tem desdobramentos específicos, isto é, quando falamos do cluster 1 e sua dinâmica de dependência, estamos falando de todos os matizes ligados a este sentimento, por exemplo, depender, aceitar depender ou não, aceitar sua vulnerabilidade ou não, confiar no outro ou não, etc.. De igual forma, quando falamos do cluster 2 e de sua dinâmica de conquista de autonomia, estamos falando também de saber nomear o que se quer ou não, ir em busca ou não, acreditar em si ou não, poder afirmar seu pensamento e ações ou não, etc.. E, no cluster 3, saber tanto competir quanto compartilhar de acordo com a situação, evitando a rivalidade, mas podendo assumi-la quando ela ocorrer; saber aceitar dividir o mundo com seres iguais, que tem os mesmos direitos que nós, etc.. Talvez fique mais claro se exemplificarmos que em todos os papéis da vida em que a dinâmica da dependência, por exemplo, for a mais pregnante, inevitavelmente eu desempenharei tal papel carregando toda a espontaneidade (e a transferência, por conseguinte) dos papéis não atuados no momento, mas que compõe este cluster de papéis. Ou seja, cada um de nós acaba tendo um modo específico de lidar com as dinâmicas específicas, e em todos os papéis que desempenhamos na vida em que aquela dinâmica estiver presente, tenderemos a desempenhar aquele papel com as marcas que temos ligadas a esta dinâmica. Cabe aqui incluir a questão da antecipação de conduta. Como toda relação se dá entre, ao menos, duas pessoas e considerando que em todas as relações está incluído um clima emocional, temos que conforme vamos vivendo tais relações vão associando determinada relação a determinado clima emocional. E desta forma aprendemos uma determinada reação emocional diante de determinado estímulo. Isso cria o que chamamos antecipação de conduta, ou seja, quando “farejo” um comportamento, imediatamente, eu antecipo a conduta que devo ter diante dele – recorrendo a vivências anteriores.
Usualmente, as dinâmicas essenciais são os vetores que geram estas antecipações de conduta. E hoje, através dos estudos da neurociência – de forma especial nos estudos feitos por Westen&Gabbard (4) em 2002 – podemos ter a certeza de que existe um caminho neuronal já percorrido e que é acionado diante de vivências similares. O estudo mostra que o cérebro processa e registra novas experiências em caminhos cerebrais já conhecidos. Em outras palavras, novas experiências são fixadas sobre outras mais antigas. O que equivale dizer que depois de viver

(fadcunha@uol.com.br ou crobertosilveira@uol.com.br) determinada situação eu aprendo como lidar com ela e assim, em outras situações posteriores, quando a dinâmica for semelhante eu, automaticamente, antecipo as condutas adequadas e, portanto me preparo para uma ação. Vivemos experiências que deixam marcas – e todas elas deixam! – e inevitavelmente iremos aprendendo a lidar com tais experiências de tal forma que diante de alguns “sinais” já antecipamos o que o outro irá dizer, como ele irá se comportar e, a partir disso, já antecipamos como deveremos reagir.


Voltando à questão da relação amorosa e como ela se dá no tempo, podemos inicialmente afirmar que o papel de amante é por definição, um papel simétrico onde as dinâmicas essenciais do cluster 3 deveriam ser as mais presentes. Entretanto na prática, o que vemos é muito diferente daquilo que seria, a princípio, lógico. Qualquer psicoterapeuta em seu dia a dia no consultório se depara com pessoas sofrendo em razão da relação amorosa e vivenciando tal relação de forma muito distante dessa idéia de uma relação entre iguais, os dois com os mesmos direitos e deveres, etc.. Cremos que cabe aqui explicitar porque consideramos como papel, o exercício da relação amorosa, isto é, a forma como lidamos com tal relação. Inicialmente consideramos importante salientar que é preciso distinguir o amor como sentimento básico, primário, universal, do que chamamos papel amoroso, que é a forma específica e particular como cada um de nós vivencia e funciona diante das relações amorosas, especialmente as do amor erótico. Para nós, se o papel pode ser definido como: “O papel é a forma de funcionamento que o indivíduo assume no momento específico em que reage a uma situação específica, na qual outras pessoas ou objetos estão envolvidos” (5), bem como que “ O papel pode ser definido como uma unidade de experiência sintética em que se fundiram elementos privados, sociais e culturais”(6), não temos como não concordar que o exercício da relação amorosa implica, necessariamente, numa forma própria e específica de se relacionar com o complementar amoroso e portanto, consideramos que é devido utilizarmos a terminologia de papel de amantes ou papel amoroso.
Acreditamos que em nossa sociedade, como decorrência dos traços culturais, o papel amoroso acabou ficando estritamente ligado a uma dinâmica de cluster 1, re-atualizando talvez, a fantasia onipotente que um dia vivemos em relação à nossa mãe: a ilusão de que encontraremos alguém que nos amará sempre e tanto que, como diria o poeta Vinícius de Moraes, “mesmo em face do maior encanto, dela se encantará ainda mais meu pensamento”! Ainda é muito presente em nossa realidade cultural a idéia de que encontraremos nossa cara-metade e a partir daí teremos paz. Mesmo que tenhamos uma vida já razoavelmente longa e um histórico de paixões e amores compatível com a nossa idade cronológica, ainda acreditamos que a busca da completude é possível. Seguindo esta linha de raciocínio fica fácil entender porque a paixão é tão cantada em verso e prosa e também tão buscada em nossas vidas. Porque ela, como qualquer sentimento intenso e sem muitas amarras na realidade, nos confirma a possibilidade de vivermos o amor tão esperado, o encontro definitivo, a relação com aquele ser sonhado. Não importa se é idealizado, o que importa é que me faça sentir que sou tudo na vida dele, que ela me amará por todo o sempre. Pena que os dias passem e, inevitavelmente o outro – que é um ser igual – acabe dizendo que tem necessidades, desejos, tem a vida dele. Pronto! O sonho se rompe mais uma vez e usualmente partimos para uma nova busca. Todo o ideal romântico confirma essa ilusão. Existe um só verdadeiro amor e você precisa encontrá-lo. Mesmo que hoje a realidade social nos mostre que os casamentos não são eternos e até que, muitas vezes, num segundo ou terceiro casamento você pode, verdadeiramente, ser mais feliz, ainda sobrevive – e com muita força – a fantasia do amor definitivo. E todos nós sabemos como inúmeras pessoas passam a vida nessa busca inútil. E este amor, porque idealizado, é sempre jovem, vibrante, lindo! Talvez ai esteja uma das principais causas da dificuldade de aceitarmos que a paixão também ocorre na idade madura. É como se fosse impossível você imaginar que o seu amor, aquela sua cara-metade, tenha rugas, celulite, tome

Viagra, seja careca, barrigudo... Não tem príncipe assim, não é? Nem princesa de seios caídos!



(fadcunha@uol.com.br ou crobertosilveira@uol.com.br). Portanto, o que postulamos é que enquanto estivermos focados na idealização amorosa, seremos seres infelizes, já que o ideal não existe. O que existe são pessoas reais, que tem defeitos, mas tem qualidades e que podem, sim, compartilhar a vida conosco, tornando o caminhar muito mais agradável. E que a paixão pode existir, ainda que na velhice, com matizes talvez um tanto quanto diferenciadas, mas que não a torna menos paixão.
Seguindo a linha de pensamento anunciada nas primeiras idéias deste trabalho, pensamos que o que é preciso é aprendermos a desenvolver nosso papel de amantes de tal forma que o possamos desempenhar como papel que percorra os três clusters de papéis. E aqueles que são psicoterapeutas devem poder ajudar aos seus clientes a desenvolverem este papel nesta direção, pois só assim será possível conseguir construir uma relação amorosa duradoura e saudável. Qualquer um que viveu ou conviveu com uma relação amorosa de anos, sabe que tal relação conseguiu construir coisas específicas, usualmente ligadas a projetos comuns, afetos genuínos e uma sexualidade plena e tranquila. Uma relação duradoura não precisa, necessariamente, ser uma acomodação. Pode, sim, ser uma relação onde haja respeito e admiração, individualidades que se entrecruzam, projetos individuais e comuns. Mas para se conseguir construir uma relação duradoura é preciso que o nosso papel de amantes, saia do cluster 1 - o que na verdade queremos dizer é que diante da possibilidade de uma relação amorosa não antecipemos a conduta de que iremos encontrar a pessoa perfeita, antecipação esta que determina nosso comportamento mostrando-nos como imaginamos que devemos ser e não como somos verdadeiramente, e vendo no outro o que queremos que ele seja e não quem ele é -, consiga passar pelo cluster 2 – momento no qual a aceitação do outro com suas peculiaridades se dá, em que se sabe nomear o que se busca e como consegui-lo, no qual se admite que o outro tem o direito de ter a sua própria autonomia independente do tamanho do amor que sinto por mim –, até poder chegar no cluster 3 onde, a antecipação de nossa conduta será a de conhecer a pessoa vendo-a como ela é, aceitando seus limites, defeitos, valorizando suas qualidades, de tal forma que possa cumprir a meta Moreniana do “E eu te olharei com os teus olhos e tu me olharás com meus olhos” e, ainda assim, sermos capazes de nos encantarmos um com o outro. Quando pudermos ter o nosso papel de amantes estruturado desta forma, onde a antecipação da conduta diante da pessoa amada seja a de uma dinâmica de compartilhar, certamente poderemos compreender com muito mais naturalidade como se dá a relação do amor no tempo. Somos seres mutantes, aprendemos e, por conseguinte, mudamos todo dia, por isso não podemos continuar acreditando que o amor - intenso e verdadeiro – que me uniu a alguém 20 anos atrás, necessariamente continue o mesmo. Ele pode ter deixado de existir, mas sem que isso signifique que ele não foi amor. O amor pode acontecer e depois de algum tempo morrer. Mas ele não deixará de ter existido porque morreu!
De igual modo podemos compreender que a partir da maturidade, quando as pessoas, a princípio, têm suas questões pessoais um pouco mais resolvidas e já se livraram de algumas dúvidas próprias do início da vida adulta, inevitavelmente tenham alterado seus valores e assim possam também lidar com a pessoa amada de uma nova maneira, admitindo-a menos linda, porém mais interessante, culta, companheira, ou qualquer outro critério que seja significativo para a sua vida. Até porque não podemos desconsiderar as relações amorosas que se estruturam já na maturidade dos amantes que, usualmente, ocorre sem a pressão de ter de construir uma família, ter filhos, etc.. Bem como a de que a sexualidade tenha de ser a coisa mais importante para manter um casal junto. Como psicodramatistas que somos, acreditamos que é o olhar do outro que nos constitui. É exatamente por isso que não podemos acreditar que o olhar confirmador de alguém que nos escolhe, que nos admira, nos deseja e nos ama, não é importante para todo ser humano independente da idade que ele tenha. Obviamente bem sabemos que quanto mais caminhamos na linha do tempo de nossa vida mais aprendemos, e em nossa sabedoria talvez consigamos sair do amor erótico e atingir o amor Ágape. Mas durante o percurso reconhecemos que o amor erótico é muito importante porque nos

(fadcunha@uol.com.br ou crobertosilveira@uol.com.br) confirma como seres merecedores de sermos amados. E é exatamente por isso que consideramos que precisamos pensar a relação amorosa no cenário teórico do Psicodrama. E que pensar tal relação através dos clusters de papéis nos possibilita uma compreensão que nos abre possibilidades reais de trabalhar com nossos clientes, tentando ajudá-los a perceber que o amor não é imutável e de que nossas necessidades de afeto variam conforme se avança na linha do tempo da vida e que, portanto, é preciso aceitar as transformações que o mesmo vai sofrendo no decorrer de sua existência. Esta nossa contribuição, ainda que incompleta, é o nosso primeiro passo!


Adelsa Mª Alvarez Lima da Cunha (fadcunha@uol.com.br) e

Carlos Roberto Silveira (Crobertosilveira@uol.com.br)


(1) É importante explicitarmos que quando falamos de idealização estamos nos referindo ao sentido usual e amplo da palavra, e que, segundo o Dicionário da Língua Portuguesa de Sergio Ximenes, Ediouro, significa: projeção, programação, imaginação, fantasia. “Dar caráter ideal a pessoa, causa, etc. Ex.: O poeta idealiza sua musa.”


(2) Moreno J.L. Psicodrama, Editora Cultrix, 2ª edição, São Paulo, 1978.

(5) idem, pag. 230



(6) Idem, pag.238
(3) Bustos, Dalmiro M. Perigo... Amor à vista! Drama e Psicodrama de Casais, 2 edição, Aleph Editora, São Paulo, 1990.
(4) Westen, Drew & Gabbard, Glen O., Developments in Cognitive Neuroscience:II Implications for Theories of Transferecnce. Journal of American Psychoanalytic Association. Vol.50, 2002, pg. 99 a 134.






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