AdministraçÃo das empresas virtuais



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ADMINISTRAÇÃO DAS EMPRESAS VIRTUAIS


Prof. Edgard Lopes Passeri *

Esperemos que Bush também entenda que a força dos EUA e seu impacto no mundo não vêm do sistema militar que ele planeja expandir. Vêm desse sistema notável de leis e instituições – um sistema que, dizem, foi planejado por gênios, de forma a poder ser comandado por idiotas”.

Thomas L Friedman (Colunista do New York Times. Jornal “O Globo”, edição de 16/12/2000, Seção O Mundo, p.41)

Alguém afirmou que as empresas deixarão de ser categorizadas como empresas virtuais e não virtuais, porque, na próxima década, a empresa que não for virtual não conseguirá subsistir. Joelmir Beting1, na sua coluna sobre economia, no jornal “O Globo” faz a mesma afirmação com outras palavras: Não haverá vida off-line sem um pé da empresa ou do negócio no mercado on-line.

É assim que hoje há muitos escritos sobre o E-commerce, o E-business, o E-mailing, o E-service e demais denominações similares que caracterizam o empreeendimento virtual pautado pelo acelerado desenvolvimento tecnológico da microeletrônica. Essas mudanças de nomenclatura não seriam meras variações semânticas com impacto apenas nos sistemas de informação, mola mestra de toda empresa virtual. Elas traduziriam reais mutações dos conceitos e dos sistemas administrativos e operacionais que, tradicionalmente, organizam e dão sustentação aos sistemas de gestão.

O que seria uma empresa virtual? Ela é tão nova e revolucionária que conceituá-la é tão difícil quanto se expressar com clareza o que é movimento e mutação. William H Davidow e Michael S. Malone, no seu livro A Corporação Virtual2, ensaiam configurá-la externamente como o ambiente no qual acontece a interface entre produtor, consumidor, fornecedor e concorrente permeável a mudanças contínuas e descrevem sua conformação interna como uma organização na qual cargos, hierarquia, responsabilidades, autoridade e até mesmo o conceito de funcionário muda à medida que clientes e fornecedores passam a atuar diretamente na empresa, a influenciar suas decisões e projetos, ali permanecendo mais tempo que os contratados. Por essa razão, é melhor falar da corporação virtual em termos de padrões de informação e relacionamento. Em complemento, eles citam Earl Hall3 que visualiza a empresa virtual sob o ponto de vista operacional e mercadológico: Os complexos mercados de produtos do século 21 irão exigir a capacidade para se entregar, rápida e globalmente, uma grande variedade de produtos sob medida.

Joelmir Beting4, ao analisar as formas de sobrevivência empresarial na chamada “Nova Economia”, primeiro cede ao cacoete de colunista quando escreve: O novo jogo [da Nova Economia]5 ainda não tem formato nem conteúdo. A primeira regra seria esta: não há regras. A segunda regra: ninguém sabe ainda como se faz a coisa certa, para, a seguir, adotar uma posição mais epistemológica, citando Stan Davis e Christopher Meyer6: ...tais mudanças processam-se ao largo ou acima dos três fundamentos do Universo: o do tempo (velocidade), o do espaço (conectividade) e o da massa (intangibilidade).

Seriam esses, também, os princípios de Administração a serem aplicados na gestão da empresa virtual da “Nova Economia”. De alguma forma, a tradicional sigla POCCC (Planejamento, Organização, Controle, Comando, Coordenação) ou, mesmo, a atual PODC (Planejamento, Organização, Direção e Controle) tornaram-se obsoletas, ou pelo menos inadequadas, ao dinamismo das mudanças provocadas pela incorporação da tecnologia da informação. Planejamento, Organização, Direção e Controle sustentaram estruturas jurássicas de grandes monopólios e de empresas estatais. Organizações, a um só tempo tão bem estruturadas quanto mastodônticas, se singularizaram pela lerdeza do processo decisório e vêm sendo suplantadas por microorganizações ágeis, disseminadas e conectadas com a modernidade.

Colocado o fundamento da velocidade que identifica a Administração na “Nova Economia”, o planejamento dá lugar à percepção otimizada pela intuição. Não se trata, necessariamente, de uma habilidade inata, assimilada com o leite materno, mas de educação sedimentada na conectividade. É preciso, como diz a gíria, estar ligado no mundo circunstante, na cultura globalizada e tecnológica, nos avanços científicos, nas tendências e na evolução dos movimentos sociais, de suas demandas e da consciência coletiva. Brota daí a sintonia fina da percepção da realidade política, econômica e social que sustenta os empreendimentos. A condição básica para se conformar este novo talento administrativo é a imersão. Concebida como intenso contato, compreensão, assimilação, experimentação e vivência do mundo contemporâneo. Ela desenvolve e afina a acuidade do perceber, do intuir como se posicionar, atuar, sobreviver e desenvolver-se nesse cenário mutante.

A arquitetura seqüencial e lógica de um planejamento ainda persiste e vigora. Todavia, tanto a seqüência quanto a sua lógica não podem mais ser concebidas em discussões intermináveis e contenciosas ou mesmo em exaustivas análises e reflexões. Urge construí-las na velocidade e a partir de uma percepção aguçada e sagaz. Isso sugere que a educação do novo administrador, além de ser continuada (não mais sazonal), depende menos de fórmulas matemáticas e de métodos quantitativos do que do condicionamento psicológico do formando para a percepção.

Se verdadeira for essa visão da Nova Administração da empresa virtual, os cursos de administração de nível superior teriam de, não desconhecer mas, no mínimo, ir além das formulações e dos paradigmas clássicos herdados de um passado, como tal, apenas como tal, bem-sucedido. As técnicas de leitura dinâmica tanto de livros quanto da realidade estão na ordem do dia na empresa contemporânea.

No âmbito da organização, a velocidade que caracteriza a “Nova Economia”, já não comporta estruturas hierárquicas com divisões de responsabilidade e de autoridade distribuídas por uma gama de cargos que tornam a decisão lenta e politicamente complexa. O comando e a coordenação, ou a direção, na empresa virtual têm de ganhar agilidade, presteza. A decisão tem de acompanhar o aqui e agora, embora não possa, com isso, perder o senso de oportunidade, de prioridade e de globalidade. A oportunidade não dá pré-aviso. Ela surge e exige que se esteja preparado. Contudo, a oportunidade raramente é única, isolada, daí a necessidade de se terem idéias e princípios claros sobre o que se quer fazer, ter e ser, para, rapidamente, se determinarem prioridades. Tanto a oportunidade quanto a prioridade, ao influenciarem uma tomada de decisão, não podem incorrer em imediatismos que, na seqüência, venham a se transformar em novo problema. A decisão tem de agregar à oportunidade e às prioridades o senso de globalidade, isto é, ser a mais abrangente, permanente e eficaz possível.

Tais peculiaridades do fundamento velocidade não permitem centralização da decisão em uma só pessoa ou órgão, em face do volume de informações que circulam em diversas direções, com diferentes conteúdos. Torna-se humanamente impossível captá-lo, assimilá-lo interpretá-lo, analisá-lo e criticá-lo, enfim, com a presteza requerida saber o que fazer, aonde chegar.

Assim sendo, impõe-se, na Nova Administração da empresa virtual, uma gestão participativa alimentada pelo empowerment, segundo o qual todos os atores de uma empresa detêm o mesmo grau de conhecimento de seus objetivos, políticas e filosofia de ação e dos recursos disponíveis; intercambiam interativamente suas percepções e se afinam num consenso, se não unânime, pelo menos compartilhado. Como a informação está acessível a todos, todos estão preparados para entendê-la e sintonizados no que se pretende alcançar, qualquer um pode decidir, determinando, assim, a agilidade e a propriedade da ação a ser empreendida sem perda da oportunidade, da prioridade e da globalidade que a devem caracterizar. Hoje os computadores coletam e fornecem informações que antes eram fornecidas por hierarquias gerenciais. No processo, o treinamento tem substituído a supervisão. Espera-se que o funcionário moderno use as informações coletadas por redes de computadores e saiba o que fazer, sem que ninguém tenha que lhe dizer7. De acordo com esse novo paradigma gerencial, as decisões não precisam aguardar a formalidade da intervenção da autoridade, o que se poderá materializar posteriormente quando for requerida para fins legais e oficiais.

A partir daí, poder-se-ia concluir que os programas atuais de formação dos administradores e seus métodos didático-pedagógicos deveriam estar fortemente orientados para o desenvolvimento de equipes e do trabalho em time, enfatizando processos de intercomunicação e interação.

No entanto, não é só na cadeia de percepção e de decisão que a velocidade requerida da Administração na “Nova Economia” impacta. Seus efeitos são sentidos também na fase de execução e de controle. A velocidade tecnológica, o crescimento da competitividade, a globalização dos hábitos culturais e de consumo não dão espaço para execuções demasiadamente complexas e demoradas. As respostas devem ser rápidas, precisas, fáceis de serem implementadas e acompanhar a velocidade de processamento das máquinas, equipamentos e instrumentos eletrônicos, preservando a adequação a seu público alvo e aos objetivos organizacionais predefinidos. Não se trata de exigir do ser humano ou de imprimir a sua atividade o ritmo acelerado e inconsciente das máquinas por ele mesmo concebidas. O resultado disso seria a reificação, uma nova forma de submissão e escravização do ser humano. O que essa nova forma de execução sugere é exatamente o oposto disso: a dignificação desse mesmo ser humano pelo desenvolvimento de sua acuidade perceptiva e de seu raciocínio lógico.

Cai, assim, um dos mitos mais comum relativamente à empresa virtual: o de que ela é um grupo de profissionais talentosos e altamente criativos, mas, ao mesmo tempo, paranóicos, obcecados, workaholics, egoístas, pouco comunicativos, altamente competitivos entre si, passionalmente entregues a orgias tecnológicas em que interagem com a máquina de maneira obsessiva , disputam com ela, tentam dominá-la e torná-la submissa numa luta insana contra o tempo e contra a concorrência. Esse estilo meramente operacional retrata apenas um dos estágios mais primitivos e individualistas da empresa virtual. Em fase mais avançada, a empresa virtual se distingue das demais exatamente pela democratização das relações de trabalho, pela socialização das informações, pela participação na tomada de decisão, pelo compartilhamento do conhecimento e do talento, pela divisão equânime dos ganhos financeiros, mercadológicos e tecnológicos, pelo desenvolvimento de uma consciência clara de que o pensamento e o esforço coletivos proporcionarão velocidade de resposta com um elevado índice de acerto.

Mutação similar deverá ocorrer com o tradicional sistema de controle. Na administração da empresa virtual da “Nova Economia”, ele se vê suplantado por um processo continuado de aferição do que é executado. Sistemas de controle e de auditagem deixam de ser estanques e post facto para assumirem a modernidade do controle e auditoria de processos: um método de permanente verificação, de correção em cima do fato (in facto), de cuidados para a não reincidência em erros, falhas e desvios8.

Hoje, nas empresas da “Nova Economia”, o controle concomitante com o ritmo da execução vem sendo alavancado pela dinâmica dos programas de certificação de qualidade. Se inicialmente introduzidos nas empresas brasileiras com objetivos escusos de patrulhamento ideológico9, agora se constituem profícua metodologia, consolidada pelos princípios do benchmar-king, isto é, de aperfeiçoamento e otimização da ação produtiva e de seus resultados. Chegar com velocidade a esse grau de competência pelo distanciamento de tudo e de todos seria mais que utopia, um delírio. Para atingir-se essa agilidade e padrão de controle, é indispensável o espírito e a vivência de equipes integradas, harmônicas, permutantes, cooperativas e dinâmicas.

No processo pedagógico de formação do novo administrador, seria fundamental adotarem-se métodos de avaliação continuada e de avaliação integrada que viessem a familiarizar os futuros profissionais com técnicas de aferição e avaliação individual e coletiva a um só tempo pacíficas, porque consensuais, rápidas e eficazes.

O segundo fundamento da Nova Administração, a conectividade, realça os aspectos de quase onipresença e quase onisciência que contrapõem o administrador da empresa virtual àquele da empresa tradicional. Essa conectividade, esse estar ligado, é exatamente o fulcro do sucesso da empresa virtual. A tecnologia da informação enseja e ao mesmo tempo exige essa habilidade de se estar em vários lugares e de se acessarem várias informações concomitantemente.

Conectividade, no entanto, não significa concordância com tudo o que se vê, ouve ou sente pela via virtual. Ao contrário, requer apurado discernimento para que, em se tomando ciência de tudo o que ocorre e que afeta um ramo de atividade, não haja prematuro ou imaturo envolvimento com a realidade na forma empírica como é apresentada em determinado momento, por determinado canal e determinada fonte. A verdadeira conectividade exige que, atrelada à capacidade perceptiva e interativa, deva estar a condição de análise (que vê através, perscruta, decompõe a realidade, identifica elementos nela intervenientes, qualifica a natureza e o alcance da intervenção de cada um deles) e de crítica (que confronta, verifica, certifica-se, conclui pelo certo ou errado, correto ou incorreto, verdadeiro ou falso). Serão elas que viabilizarão uma imersão criteriosa, clarividente em tudo o que se configura como vida e movimento no âmbito do mundo contemporâneo, sintonizada com idéias transformadoras e criativas da atualidade, com a consciência de novos valores e culturas surgidos com a evolução do conhecimento e do pensamento sobre a própria natureza humana, Daí resultará uma administração esclarecida, apropriada, adequada, inovadora e eficaz.

A empresa virtual, preocupada com a velocidade e a conectividade, não pode, por incompetência, comportar-se como cata-vento entrando em processo de mudança de objetivos, propósitos e estratégia ao sabor de qualquer bafejo de modernidade, nem assumindo como válida a primeira insinuação ou informe originários não se sabe bem de onde. A força da empresa virtual e sua condição de afirmação no mercado são diretamente proporcionais ao discernimento de seus administradores para selecionar fontes de informação primária e secundária, sintetizá-las criticamente, sem abandono do sadio hábito de controle continuado, a fim de evitar interferências indesejáveis da pirataria, da irresponsabilidade, da leviandade e da incompetência que grassam nos ambientes virtuais. A tecnologia da informação é a atividade-meio. A atividade-fim é a sociedade do conhecimento10. Portanto, conectividade é estar alerta, saber das coisas, mas não necessariamente compactuar com elas, reproduzi-las, assumi-las sem critérios definidos Pelo contrário, requer como base valores e princípios preestabelecidos, devidamente comunicados e corretamente assimilados, aos quais a comunidade laborativa espontaneamente empresta sua adesão incondicional.

Implícita à conectividade está a superação do modelo cultural passado de filiação a determinada escola de pensamento, o que, ao final, se constituía em facção contendora com as correntes teóricas que se lhe opunham, impedindo a ampliação do espectro de conhecimento e análise, estimulando processos discricionários. Conectividade passa pela capacidade de identificação e assimilação do verossímil onde quer que se encontre, independentemente de sua origem. De antemão, essa abertura cognitiva elimina preconceitos, discriminações, fixações e dogmatismos indevidos e presunçosos. Em contrapartida, aguça o discernimento no aprofundar a questão proposta ou a solução sugerida, verificando até que ponto há pertinência e adequação àquele momento, àquele ambiente, àquela comunidade, àquela economia, àquele mercado, àquele produto, àquela clientela, enfim, àquela conjuntura.

A conectividade, aqui apontada como fundamento da Nova Administração, inclui uma condição de credibilidade: ética. Entendida como a conexão da ação individual com o conhecimento e deste com o real, a ética se manifesta na garantia de autenticidade, de veracidade e de originalidade do que é veiculado para a coletividade. A probabilidade de sobrevivência do virtual, e a possibilidade de se permanecer conectado ou ser conectado num contexto aético é cada vez menor à medida que a sociedade toma consciência de seus direitos, de seu valor como coletividade a ser respeitada por indivíduos e por instituições.

A evidência da essencialidade da conectividade no mundo contemporâneo é atestada pela polêmica e, às vezes tão mal-entendida globalização. No plano diplomático das nações, afirma Joelmir Beting11, há um movimento generalizado de conectividade pela formação de blocos econômicos que buscam estabelecer políticas macroeconômicas convergentes. No plano patrimonial das empresas, acontecem fusões e incorporações. Essa concentração no âmbito tanto das nações como das organizações suplanta os tradicionais sistemas de auto-suficiência nacionalista e monopolista falidos e falimentares, patenteia a necessidade da união, do congraçamento, da inter-relação, do consenso, da parceria, das alianças estratégicas para garantir a sobrevivência de todos e de cada um. Esses acordos, forjados na conectividade, obrigam o estabelecimento de um dos grandes diferenciais da empresa virtual: a compatibilidade. Aquilo que por alguns pode ser visto como camisa-de-força, na verdade, é uma condição do sucesso, uma estratégia vitoriosa. Mais uma vez se exalta a utilidade máxima da percepção. Compatível é tudo que percebe e ressalta a identidade em detrimento da diferença. Perceber pontos de conjunção e sabê-los harmonizar entre si é o cerne do talento do novo administrador.

Nessa óptica, até mesmo a concorrência muda de conceito. Ela deixa de ser encarada como adversária para ser entendida como possível parceria agregativa de valores inestimáveis, garantidores de crescimento e de êxito para investimentos e empreendimentos de ambas as partes.

Todos esses conceitos devem ser corretamente construídos e trabalhados nos bancos escolares. Um repasse das etapas do desenvolvimento humano, político, econômico, social, cultural, organizacional, empresarial e tecnológico pode e deve ser feito desde que não seja limitador de uma visão pessoal, inédita e criativa da realidade e não crie ataduras, impasses e obstáculos ao outro desenvolvimento: o da construção de uma análise crítica pessoal, formadora de valores, princípios e opinião própria. Não é, portanto, só o indivíduo que tem de estar conectado com o coletivo, mas também o coletivo deve estar conectado com o talento dos indivíduos que o compõem. Só assim haverá a verdadeira simbiose que redundará em enriquecimento da comunidade pelo indivíduo e do indivíduo pela comunidade. Para tanto, é necessário que o indivíduo seja educado, de um lado, para construir e reconhecer a própria identidade e valor; de outro, que saiba que, mediante sua inserção ativa na comunidade, atingirá esse propósito. A comunidade lhe servirá de espelho, permitindo-lhe aferir seu grau de desenvolvimento, dando-lhe respostas sobre o quanto evoluiu. É imprescindível que os aprendizes de administrador adquiram esse hábito e o levem consigo no exercício de sua atividade profissional dentro da empresa virtual.

No ensino superior de administração, pois, a ênfase na formação do novo administrador deverá ser dada à definição de estratégias competitivas que não se concentrem tanto em derrotar o inimigo concorrente, porém em reforçar a análise de ameaças e oportunidades, estas mais do que aquelas, pela arquitetura de alianças com concorrentes que resultem na soma de recursos e resultados.

Alguém poderia argüir: isso leva ao monopólio, o que estaria certo, se ocorresse em sociedade tradicional, e errado, em sociedade conectada. Tal sociedade conhece bem seus direitos, exige participação nas soluções para ela desenhadas, repele qualquer forma de autoritarismo, adere aos processos sociais que contribuem para a preservação de sua cidadania, de sua dignidade, de sua qualidade de vida, de seu direito à vida. Para quem não acredita nisso, fica a evidência dos movimentos sem-terra, sem-teto, sem-emprego, dos movimentos de solidariedade pela vida, pela educação, pela ecologia. Desta forma, se é verdade que só sobreviverá a empresa que estiver on-line, também o é que a longevidade no mercado dependerá da conectividade da empresa com a sociedade na qual se insere e da qual vive.

Mas, dos três fundamentos da Administração na “Nova Economia”, o terceiro, a intangibilidade, é o que confirma a Administração como sendo ciência humana e social. O intangível, implícito na essência da empresa virtual, tem como pilares a informação e o conhecimento. Na verdade, os dois sempre coexistiram. A novidade está em que o conhecimento voltou a ser propriedade do indivíduo e não mais da empresa; a informação deslocou-se de quem produz e vende para quem compra12. Encontramo-nos na sociedade do conhecimento, turbinada pela economia da informação13. Essa prevalência do talento sobre a tecnologia mudou, pode-se dizer radicalmente, o enfoque da Administração, mormente aquela das empresas virtuais. Os elementos quantitativos e operacionais estão sendo processados pelas máquinas de modo completo e preciso, até a exaustão do material que as compõe, numa atividade tão material quanto elas mesmas, seguindo rotinas quase perfeitas definidas pelo talento.

Lidar com a intangibilidade da informação e do conhecimento introduz outra peculiaridade na empresa virtual e em sua administração: a imponderabilidade do tempo e do espaço. O tempo é substituído pela velocidade referenciada pela conjunção de espaço e tempo. Qualquer passado pode ser tornado presente pela via virtual, tal como, recentemente, aconteceu com a reconstituição dos traços fisionômicos de faraó mumificado há milhares de anos. Por outro lado, o presente se torna tão efêmero que não seria mais conceituado como o aqui e agora; seria o futuro antecipado pela percepção de tendências. Assim, a Nova Administração tem de estar capacitada para perceber hoje o processo dinâmico e continuado que leva ao mundo do porvir. O que está no vídeo já é passado; não garante o sucesso do amanhã. Fábio de Oliveira, um dos fundadores do site de busca Cadê, diretor da Cadepar, que, junto com o Bank of America, administra o Fundo Liberal de Tecnologia, traduz essa visão: Não se faz mais como antes da crise. Hoje escolhemos apenas projetos com potencial liderança no futuro14. 15. Nesse contexto, os sistemas de planejamento, organização e controle tradicionais não mais suportam ou, pelo menos, se tornam ineficazes diante da mobilidade provocada pelas constantes mutações de cenário determinadas pela tecnologia virtual, por seus avanços, sua versatilidade e suas propriedades intangíveis. Apenas o mundo das percepções consegue acompanhar tal ritmo que torna o tempo uma variável imponderável na administração. O mesmo ocorre com o espaço. A intangibilidade do virtual permite a quase onipresença pela cobertura cósmica, sem limites de distâncias e localidades, que pode ser feita em segundos.

A intangibilidade como fundamento da Administração na “Nova Economia” insere, ainda, novo perfil econômico a ser estudado e aprofundado. É o consumo da informação e do conhecimento em que a compra é substituída pelo acesso. Isto é, ganha-se dinheiro na empresa virtual não necessariamente pela venda de determinado produto ou serviço mas pela sua disponibilidade de acesso dada a um maior número de consumidores. Poder-se-ia dizer que ela não movimenta dinheiro, porém gera oportunidade de negócios; ganha-se dinheiro, não vendendo ou comprando, mas se atraindo patrocinadores desejosos de visibilidade para serviços e produtos que oferecem. Seu número e suas verbas serão tanto maiores quanto maior for a amplitude de acesso de visitantes internautas aos sites que os veiculam, maior a rede dos que aderem aos provedores que mantêm esses sites. É a “Nova Economia” do acesso e da visibilidade. Pessoas que buscam informações, lazer, comunicação, ao atualizarem-se com os acontecimentos, na maioria das vezes, não desembolsam dinheiro, mas alimentam e dinamizam a “Nova Economia” do conhecimento que multiplica a capacidade de criar e se torna celeiro de talentos.

Essa economia da informação e do conhecimento impede que o talento seja reduzido a mero executor de procedimentos rotineiros; que haja o embotamento, a castração da capacidade de criar, modificar, inovar, inventar; que o ser humano seja reduzido à condição de um recurso – algo intermediário, descartável, material, passivo, estático, regulado por normas e procedimentos rotineiros. Por ser individual, inteligente e, assim, capaz de apreender a realidade e sintetizá-la em inovações; por deter o livre arbítrio, que lhe permite a determinação consciente de seus objetivos, o ser humano em geral, e o profissional em particular, é a origem e o destino além de agente da passagem da condição de origem (requisitante) para a de destino (usufrutuário). Se preexistem recursos, ele os aproveita; se não os houver ele os cria. Muito longe do conceito de recurso, o novo administrador tem consciência de que ele e sua equipe transcendem a matéria, o espaço, o tempo; são agentes e, portanto, ativos; são artífices da oferta para atendimento das próprias demandas; possuem moto-próprio tanto na concepção como na realização de soluções alternativas; não estão submissos a normas e procedimentos, mas os elaboram, modificam, aperfeiçoam, adequando-os às necessidades, aos ambientes, às culturas, aos hábitos, usos e costumes e às condições conjunturais vigentes. Esse é o maior patrimônio da empresa virtual.

A empresa virtual, exatamente por lidar com o intangível, com o imponderável, não esgota o ser humano na sua capacidade física, pelo cansaço na execução de movimentos corporais ou por lesões geradas pelo esforço repetitivo (ler). Se mal for administrada, provoca o estresse da capacidade intelectual, da condição imaterial e transcendente de pensar, recriar, inventar, simplificar, aperfeiçoar-se e de aprimorar.

Na empresa tradicional, tudo o que assim é produzido torna-se, mediante assinatura de cláusula de exclusividade inserida no contrato de trabalho, patrimônio da empresa que o financia e patrocina. Cabe ao talento apenas o recebimento do salário mensal. Normalmente, nas condições acima, esse talento ainda sofre discriminações de várias ordens, em razão da idade, da formação, da raça e do sexo. Na empresa virtual, tais comportamentos organizacionais são percebidos como deletérios do desenvolvimento empresarial e tecnológico.

A empresa virtual, por sua natureza intangível, desmontou, igualmente, o mito da apropriação de tecnologia sem o talento. Houve um tempo, no pós-guerra, em que a espionagem bélica desempregada passou a atuar nos setores industriais, criando a fátua concepção de que quem detivesse a tecnologia dominaria o mundo. Rapidamente, no entanto, percebeu-se que tecnologia sem o talento que a criou de nada vale. Seria como tiro pela culatra. Aí está a desativação da usina elétrica nuclear de Tchernóbyl para atestá-lo. A Alemanha também decidiu desativar suas usinas nucleares geradoras de energia elétrica por ter a honestidade de reconhecer que detém a tecnologia sem possuir talentos para lidar com ela. Chegou-se à conclusão de que se havia plantado, em solo alemão e no seio de sua população, perigosa bomba de retardo. Por isso, reinaugurou-se o ponto de partida e se iniciou, dentro do conceito de conectividade, o recrutamento de talentos de qualquer credo, nação, sexo, cultura, raça para, segundo o princípio de intangibilidade, se retomarem os projetos de tecnologia nuclear de ponta com a supervisão, sob o total domínio da imponderabilidade de talentos. Há outras nações que, sem escrúpulo, continuam a apostar na tecnologia pirateada e sem monitoramento pelo talento.

Esse fundamento da empresa virtual da “Nova Economia” também define a área de maior investimento das organizações: a pesquisa, valorização do capital humano. As empresas velozes da era cibernética patrocinam e financiam programas de pesquisa científica e social em universidades conceituadas ou até mesmo investem na criação de seus próprios centros de pesquisa e desenvolvimento (P&D), em parques tecnológicos ou em universidades próprias. Esse novo interesse, segundo Anne-Marie Maculan16, deve-se à percepção do esgotamento do modelo fordista de crescimento econômico baseado em grandes empresas, intensivas em capital, com importantes economias de escala e situação oligopolista no mercado. A empresa virtual, pelas estreitas relações que estabelece com empresários e pesquisadores das universidades, além de ser o canal de veiculação de informação e conhecimento torna-se também sua promotora e geradora pela capacidade de integrá-los a uma estratégia de negócios, identificar seus nichos, abrir espaços no mercado e criar condições de retorno do que neles foi investido. Isso se chama capacitação tecnológica. É saber usar o conhecimento disponível e aplicá-lo na aceleração e aperfeiçoamento do processo decisório, no incremento da produtividade e da qualidade dos bens e serviços ofertados17.

Por isso o economista Paul Romer18 sinaliza que os investimentos em formação de capital humano acabam de ultrapassar os investimentos em formação de capital físico, mesmo sem ainda se ter uma noção clara da sua taxa de retorno. Essa opinião é convalidada por Alan Greenspan19 quando afirma: dois terços da atual “revolução da produtividade” derivam dos ganhos de capital humano e não do capital físico. Ao que Joelmir Beting20 acrescenta: A própria explosão educacional plugada na sociedade do conhecimento, resulta no advento da escola digital, a bordo da democratização dos acessos à informação. Nas empresas, a educação funciona on-line e não é gratuita.



Fica, assim, evidente o papel fundamental do ensino superior na formação desse novo administrador da empresa virtual característica da Nova Economia. Urge que esse ensino se conecte com a diversidade do mundo contemporâneo, valorize a celeridade e a amplitude da natureza intangível do talento e o faça frutificar pelo enriquecimento do ambiente e da sociedade na qual atua.

Administrar uma empresa virtual é, pois, substituir a lentidão de planejamento e de organização pela velocidade e elasticidade da capacidade perceptiva; é eliminar a autoritária concentração da coordenação e do controle com a implementação de uma abrangente e democrática gestão participativa; é abandonar o controle post facto e entender os processos como um continuum analítico-crítico que assegura o zero erro ou sua correção no ato; é trocar o individualismo dos postos de trabalho por equipes com espírito de time capaz de compatibilizar pessoas, atividades, interesses e objetivos; é conectar-se com a realidade e a diversidade de atores e idéias definidores do destino do mundo contemporâneo; é saber lidar com o intangível, distingui-lo da alucinação, da quimera, da ilusão e aproveitar sua universalidade para superar barreiras, transpor obstáculos, eliminar dificuldades, concretizar sonhos, transcender o tempo e o espaço.





* Chefe do Departamento de Ciências Administrativas da Faculdade Moraes Júnior

1 Joelmir Beting. Jornal “O Globo”, ed. 26/07/2000, Seção Economia, p.28.

2 William H. Davidow & Michael S. Malone. A Corporação Virtual – Tradução de Nivaldo Montigelli Júnior. São Paulo: Pioneira, 1993.

3 Eral Hall, apud Davidow & Malone. Idem.

4 Joelmir Beting. Idem.

5 Inserção do autor

6 Stan Davis & Christopher Meyer. Blur, a velocidade da mudança na economia integrada. Rio de Janeiro: Ed. Campus, 1999.


7 Davidow & Malone. Idem

8 Quão longe disso estão as empresas automobilísticas que têm feito freqüentes recalls (convocação de consumidores) para séries de veículos produzidos com graves defeitos que põem em risco as vidas humanas que neles trafegam.

9 “Nesse sentido, os CCQs foram introduzidos em muitas empresas a partir da preocupação gerencial em desviar o ímpeto participativo dos trabalhadores para formas alternativas de organização que contassem com maior controle gerencial”. Marcia de Paula Leite. Reestruturação produtiva, novas tecnologias e novas formas de gestão da mão-de-obra. In: Oliveira et alii.orgs. O mundo do trabalho: crise e mudança no final do século. São Paulo: Scritta/Mtb.Cesit., 1994.

10 Alvin Tofler, consultor americano. Apud Joelmir Beting. Jornal “O Globo”. Ed. 17/12/2000. Seção Economia. p. 40.

11 Joelmir Beting. Idem

12 Joelmir Beting. Idem.

13 Joelmir Beting. Jornal “O Globo”. Ed. 27/07/2000. Seção Economia, p. 32.

14 Jornal “O Globo”. Internet: após o susto, um 2001 de promessas. Ed. 17/12/2000. Seção Economia, p. 35.

15 Jornal “O Globo”. Internet: após o susto, um 2001 de promessas. Ed. 17/12/2000. Seção Economia, p. 35.

16Anne-Marie Maculan, professora do COPPE-UFRJ. Estratégia tecnológica de microempresas localizadas numa incubadora, Em Anais do XIX Simpósio de Gestão da Inovação Tecnológica. 1997.

17Jacques Marcovitch. A questão da competitividade no Brasil à luz do contexto internacional. In: Política industrial – o Brasil e o novo paradigma. São Paulo:Ed. Marco Zero, 1996.

18 Paul Romer apud Joelmir Beting. Jornal “O Globo”. Ed. 27/07/2000. Seção Economia, p.32.

19 Alan Greenspan apud Joelmir Beting. Idem.

20 Joelmir Beting. Idem.


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