Admirável Mundo Novo



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Admirável Mundo Novo

Aldous Huxley

Texto Integral

(não revisado)

Editores Associados – LISBOA

Será admirável o nosso novo mundo? A quem serve esta civilização que se diz moderna e funcional e, ao aparato das técnicas, sacrifica o espírito?... O espírito, considerado realidade menor, o espírito tolerado, quando não reprimido... Qual, o lugar do homem, numa sociedade dominada pela máquina? Qual, o caminho para o Indivíduo que reivindique a liberdade interior e o direito à sua... individualidade, à sua singularidade? Para o Indivíduo que queira caminhar pêlos próprios pés? Aldous Huxley, um dos maiores escritores contemporâneos, descreve, em «Admirável Mundo Novo», com fantasia e ironia implacável, a sociedade futura totalitarista. Simplesmente, o universo que o grande romancista inglês anima pertence, de certo modo, aos nossos dias. Quase já não pode considerar-se uma ameaça: tomou corpo. O que empresta à leitura desta obra uma força trágica invulgar. Mundo novo? Mundo intolerável? Mundo inabitável? Mundo de onde se deve fugir, de qualquer maneira? Ou, mundo a reconstruir- pedra por pedra? Com uma pureza reconquistada? Aldous Huxley deixa-lhe este montinho de problemas que o leitor poderá- se quiser e souber... - resolver...

I

PREFÁCIO DO AUTOR

(1946)

1

O remorso crónico, e com isto todos os moralistas estão de acordo, é um sentimento bastante indesejável. Se considerais ter agido mal, arrependei-vos, corrigi os vossos erros na medida do possível e tentai conduzir-vos melhor na próxima vez. E não vos entregueis, sob nenhum pretexto, à meditação melancólica das vossas faltas. Rebolar no lodo não é, com certeza, a melhor maneira de alguém se lavar.



Também a arte tem a sua moral e grande parte das regras dessa moral são idênticas, ou pelo menos análogas, às regras da ética vulgar. O remorso, por exemplo, é tão indesejável no que diz respeito à nossa má conduta como no que se relaciona com a nossa má arte. O que aí existe de mau deve ser encontrado, reconhecido e, se possível, evitado no futuro. Meditar longamente sobre as fraquezas literárias de há vinte anos, tentar remendar uma obra defeituosa para lhe dar uma perfeição que ela não tinha quando da sua primitiva execução, passar a idade madura a tentar remediar os pecados artísticos cometidos e legados por essa pessoa diferente que cada um é na sua juventude, tudo isto, certamente, é vão e fútil. E eis porque este actual Admirável Mundo Novo é o mesmo que o antigo. Os seus defeitos, como obra de arte, são consideráveis; mas para os corrigir ser-me-ia necessário escrever novamente o livro, e durante essse novo trabalho de redacção, ao qual me entregaria na qualidade de pessoa mais velha e diferente, destruiria provavelmente não apenas alguns defeitos do romance, mas também os méritos que ele poderia ter possuído na origem. Por esta razão, resistindo à tentação de me rebolar no remorso artístico, prefiro considerar que o óptimo é inimigo do bom e depois pensar noutra coisa.

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No entanto, parece-me ser útil citar pelo menos o mais sério defeito do romance, que é o seguinte: apenas é oferecida ao Selvagem uma única alternativa: uma vida demente na Utopia, OU a vida de um primitivo na aldeia dos índios, vida mais humana, sob certos pontos de vista, mas, noutros, apenas menos bizarra e anormal.



Na época em que o livro foi escrito, a ideia segundo a qual o livre-arbítrio foi concedido aos seres humanos para que pudessem escolher entre a demência, por um lado, e a loucura, por outro, era uma noção que eu achava divertida e considerava como podendo perfeitamente ser verdadeira. Todavia, por amor ao efeito dramático, é permitido frequentemente ao Selvagem falar de uma maneira mais racional que a que seria justificada pela sua educação entre os praticantes de uma religião que é metade culto da fecundidade e metade a ferocidade do Penitente. No fim, bem entendido, ele recuará perante a razão: o seu Penitente-ismo natal reafirma a sua autoridade, e ele acaba na tortura demente que a si próprio inflige e no suicídio sem esperança. «E foi assim que eles continuaram morrendo miseravelmente», o que muito tranquilizou o esteta divertido e pirrónico que era o autor da fábula.

Não tenho hoje nenhum desejo de demonstrar que é impossível ser-se são de espírito. Pelo contrário. Se bem que verifique, não menos tristemente que outrora, que a saúde do espírito é um fenómeno muito raro, estou convencido de que pode ser conseguida e gostaria de a ver mais espalhada. Por tê-lo dito em vários livros recentes e, principalmente, por ter elaborado uma antologia daquilo que os sãos de espírito dizem sobre a saúde do mesmo e sobre todos os meios pelos quais ela pode ser atingida, fui acusado por um eminente crítico académico de ser um deplorável sintoma da falência dos intelectuais em tempo de crise. Este julgamento subentende, suponho, que o professor e os seus colegas são alegres sintomas de sucesso. Os benfeitores da humanidade merecem congruentemente a honra e a comemoração. Edifiquemos um panteão para os professores. Seria bom que ele ficasse situado entre as ruínas de uma das estripadas cidades da Europa ou do Japão. E no pórtico de entrada do ossário inscreveria eu, em letras com dois metros de altura, estas simples palavras:

À MEMÓRIA DOS EDUCADORES DO MUNDO

SI MONUMENTUM REQUIRIS CIRCUMSPICE

Mas voltando ao futuro... Se eu tornasse agora a escrever este livro, daria ao selvagem uma terceira possibilidade. Entre as soluções utópica e primitiva do seu dilema haveria a possibilidade de uma existência sã de espírito - possibilidade actualizada, em certa medida, entre uma comunidade de exilados e refugiados que teriam abandonado o Admirável Mundo Novo e viveriam dentro dos limites de uma Reserva. Nessa comunidade, a economia seria descentralizada, à Henry George, a política seria kropotkinesca, cooperativa. A ciência e a técnica seriam utilizadas como se tivessem sido feitas para o homem, e não (como são presentemente e como serão ainda mais no mais admirável dos mundos novos) como se o homem tivesse de ser adaptado e absorvido por elas. A religião seria a procura consciente e inteligente do Fim Ültimo do Homem, o conhecimento unitivo do Tao ou Logos imanente, da Divindade ou Brama transcendente. E a filosofia dominante da vida seria uma espécie de Utilitarismo Superior, no qual o princípio da Felicidade Máxima seria subordinado ao princípio do Fim último, sendo a primeira questão que se punha e à qual seria necessário responder, em cada uma das contingências da vida, a seguinte: «Como contribuirão ou porão obstáculos à realização, por mim ou pelo maior número possível de indivíduos, do Fim último do Homem, este pensamento ou este acto?»

Educado entre primitivos, o Selvagem (nesta nova e hipotética versão do livro) só seria transportado para a Utopia após ter tido ocasião de se informar conscientemente sobre a existência de uma sociedade composta de indivíduos cooperando livremente e consagrando-se à procura da saúde do espírito. Assim modificado, o Admirável Mundo Novo possuiria qualquer coisa de completo, artisticamente e (se é permitido empregar uma tão importante palavra acerca de uma obra de imaginação) filosoficamente, que lhe falta, com toda a evidência, sob a sua actual forma.

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Mas o Admirável Mundo Novo é um livro sobre o futuro e, quaisquer que sejam as suas qualidades artísticas, um livro sobre o futuro não pode interessar-nos, a não ser que as suas profecias tenham a aparência de coisas cuja realização se pode conceber. Do nosso ponto de vista actual, quinze anos mais abaixo no plano inclinado da história moderna, qual é o grau de plausibilidade que ainda possuem os seus vaticínios? Que se passa durante este doloroso intervalo para confirmar ou invalidar as previsões de 1931?



Há um enorme e manifesto defeito de previsão que imediatamente se verifica. O Admirável Mundo Novo não faz a menor alusão à cisão nuclear. De facto, é extremamente curioso que assim seja, pois as possibilidades da energia atómica constituíam já um preponderante assunto de conversa alguns anos antes de o livro ter sido escrito. O meu velho amigo Robert Nichols tinha mesmo escrito a esse respeito uma peça de sucesso, e lembro-me de eu próprio ter dito umas palavras, de passagem, num romance publicado nos últimos anos da década de vinte. Parece-me portanto, como digo, muito curioso que os foguetões e os helicópteros do sétimo século de Nosso Ford (I.) não tenham possuído como força motriz núcleos de desintegração. Este esquecimento pode não ser desculpável, mas, pelo menos, pode ser explicado facilmente. O tema do Admirável Mundo Novo não é o progresso da ciência propriamente dita - é o progreSso da ciência no que diz respeito aos indivíduos humanos. Os triunfos da química, da física e da arte do engenheiro são considerados tacitamente como progredindo com normalidade. Os únicos progressos científicos que são explicitamente descritos são aqueles que interessam à aplicação aos seres humanos das futuras pesquisas em biologia, fisiologia e psicologia. É unicamente devido às ciências da vida que a vida poderá ser modificada radicalmente. As ciências da matéria podem ser aplicadas de tal maneira que destruam a vida ou que tornem a existência inadmissivelmente complexa e inconfortável; mas, -a não ser que sejam utilizadas como instrumentos pelos biólogos e psicólogos, são impotentes para modificar as formas e as expressões naturais da própria vida. A libertação da energia atómica assinala uma grande revolução na história humana, mas não (a não ser que nos façamos saltar em pedaços e punhamos, assim, fim à história) a revolução final e a mais profunda.

A revolução verdadeiramente revolucionária realizar-se-á não no mundo exterior, mas na alma e na carne dos seres humanos. Vivendo, como viveu, numa época revolucionária, o marquês de Sade serviu-se muito naturalmente dessa teoria das revoluções a fim de racionalizar o seu género particular de demência. Robespierre tinha realizado o género mais superficial de revolução: a política. Penetrando um pouco mais profundamente, Babeuf tentara a revolução económica. Sade considerava-se como o apóstolo da revolução verdadeiramente revolucionária, para além da simples revolução política e económica - da revolução dos homens, das mulheres e das crianças individuais, para quem o corpo se iria tornar daí em diante a propriedade sexual comum a todos e para quem o espírito deveria ser purgado de todos os pudores naturais, de todas as inibições laboriosamente adquiridas pela civilização tradicional. Não existe, é claro, nenhum laço necessário ou inevitável entre o sadismo e a revolução verdadeiramente revolucionária. Sade era um louco, e o fim mais ou menos consciente da sua revolução era o caos e a destruição universal. Os indivíduos que governam o Admirável Mundo Novo podem não ser sãos de espírito (no sentido absoluto desta palavra), mas não são loucos, e o seu fim não é a anarquia, mas a estabilidade social. É com o fim de assegurar a estabilidade que eles efectuam, por meios científicos, a revolução última pessoal, verdadeiramente revolucionária.

Mas por enquanto encontramo-nos na primeira fase daquilo que é, talvez, a penúltima revolução. Pode acontecer que a fase seguinte seja a guerra atómica e, nesse caso, não teremos que nos preocupar com profecias acerca do futuro. Mas é possível que consigamos ter suficiente bom senso, se não para acabar completamente com as guerras, pelo menos para nos conduzirmos tão razoavelmente como os nossos antepassados do século XVIII. Os inacreditáveis horrores da Guerra dos Trinta Anos ensinaram alguma coisa aos homens e durante mais de cem anos os políticos e generais da Europa resistiram conscientemente

(I.) Trocadilho com Our Lord (Nosso Senhor). (N. do T.)



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à tentação de usar os seus recursos militares até ao limite da sua capacidade de destruição ou (na maior parte dos conflitos) de continuar a lutar até que o inimigo fosse completamente destruído. Eram agressivos, bem entendido, ávidos de lucro e de glória, mas eram igualmente conservadores, resolvidos a conservar intacto, a todo o preço, o seu mundo, na medida em que o consideravam uma florescente empresa. Durante os últimos trinta anos não têm existido conservadores; apenas tem havido radicais-nacionalistas das esquerdas e radicais-nacionalistas das direitas. O último homem de Estado conservador foi o quinto marquês de Lansdowne. E quando ele escreveu uma carta ao Times sugerindo pôr fim à guerra por um compromisso, como tinha sido feito na maioria das guerras do século XVIII, o redactor-chefe desse jornal, antes conservador, recusou a sua publicação. Os radicais-nacionalistas fizeram o que lhes apeteceu, com as consequências que todos nós conhecemos - o bolchevismo, o fascismo, a inflação, a crise económica, Hitler, a Segunda Guerra Mundial, a ruína da Europa e a quase completa fome universal.

Admitindo, pois, que sejamos capazes de tirar de Hiroxima uma lição equivalente à que os nossos antepassados tiraram de Magdeburgo, podemos encarar um período não certamente de paz, mas de guerra limitada, que seja apenas parcialmente ruinosa. Durante esse período pode-se admitir que a energia nuclear seja aplicada a usos industriais. O resultado - e o facto é bastante evidente- será uma série de mudanças económicas e sociais mais rápidas e mais completas que tudo que até agora foi visto. Todas as formas gerais existentes da vida humana serão quebradas e será necessário improvisar formas novas que se adaptem a esse facto não humano que é a energia atómica. Procusto moderno, o sábio de pesquisas nucleares prepara a cama em que a humanidade se deverá deitar; se a humanidade não se adaptar a ela, tanto pior para a humanidade. Será necessário proceder a algumas ampliações e a algumas amputações - o mesmo género de ampliações e amputações que se verificaram desde que a ciência aplicada se pôs realmente a caminhar com a sua própria cadência. Mas desta vez serão consideravelmente mais rigorosas que no passado. Estas operações, que estão longe de ser feitas sem dor, serão dirigidas por governos totalitários eminentemente centralizados. É uma coisa inevitável, pois o futuro imediato tem grandes probabilidades de se parecer com o passado imediato, e no passado imediato as mudanças tecnológicas rápidas, efectuando-se numa economia de produção em massa e entre uma populaÇão onde a grande maioria dos indivíduos nada possui, têm tido sempre a tendência para criar uma confusão económica e social. A fim de reduzir essa confusão, o poder tem sido centralizado e o controle governamental aumentado. É provável que todos os governos do Mundo venham a ser mais ou menos totalitários, mesmo antes da utilização prática da energia atómica; que eles serão totalitários durante e após essa utilização prática, eis o que parece quase certo. Só um movimento popular em grande escala, tendo em vista a descentralização e o auxílio individual, poderá travar a actual tendência para o estatismo. E não existe presentemente nenhum sinal que permita pensar que tal movimento venha a ter lugar.

Não há nenhuma razão, bem entendido, para que os novos totalitarismos se pareçam com os antigos. O governo por meio de cacetes e de pelotões de execução, de fomes artificiais, de detenções e deportações em massa não é somente desumano (parece que isso não inquieta muitas pessoas, actualmente); é

- pode demonstrar-se - ineficaz. E numa era de técnica avançada a ineficácia é pecado contra o Espírito Santo. Um estado totalitário verdadeiramente «eficiente» será aquele em que o todo-poderoso comíté executivo dos chefes políticos e o seu exérci'to de directores terá o controle de uma população de escravos que será inútil constranger, pois todos eles terão amor à sua servidão. Fazer que eles a amem, tal será a tarefa, atribuída nos estados totalitários de hoje aos ministérios de propaganda, aos redactores-chefes dos jornais e aos mestres-escolas. Mas os seus métodos são ainda grosseiros e não científicos. Os jesuítas gabavam-se, outrora, de poderem, se lhes fosse confiada a instrução da criança, responder pelas opiniões religiosas do homem. Mas aí tratava-se de um caso de desejos tomados por realidades. E o pedagogo moderno é provavelmente menos eficaz, no condicionamento dos reflexos dos seus alunos, do que o foram os reverendos padres que educaram Voltaire. Os maiores triunfos, em matéria de propaganda, foram conseguidos não com fazer qualquer coisa, mas com a abstenção de a fazer. Grande é a

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verdade, mas maior ainda, do ponto de vista prático, é o silêncio a respeito da verdade. Abstendo-se simplesmente de mencionar alguns assuntos, baixando aquilo a que o Sr. Churchil chama uma «cortina de ferro» entre as massas e certos factos que os chefes políticos locais consideram como indesejáveis, os propagandistas totalitários têm influenciado a opinião de uma maneira bastante mais eficaz do que teriam podido fazê-lo Por meio de denúncias eloquentes ou das mais convincentes e lógicas refutações. Mas o silêncio não basta. Para que sejam evitados a perseguição, a liquidação e outros sintomas de atritos sociais, é necessário que o lado positivo da propaganda seja tão eficaz como o negativo. Os mais importantes Manhattan Projects do futuro serão vastos inquéritos instituídos pelo governo sobre aquilo a que os homens políticos e os homens de ciência que nele participarão chamarão o problema da felicidade - noutros termos: o problema que consiste em fazer os indivíduos amar a sua servidão. Sem segurança económica, não tem o amor pela servidão nenhuma possibilidade de se desenvolver; admito, para resumir, que a todo-poderosa comissão executiva e os seus directores conseguirão resolver o problema da segurança permanente. Mas a segurança tem tendência para ser muito rapidamente considerada como caminhando por si própria. A sua realização é simplesmente uma revolução superficial, -exterior. O amor à servidão não pode ser estabelecido senão como resultado de uma revolução profunda, pessoal, nos espíritos e nos corpos humanos. Para efectuar esta revolução necessitaremos, entre outras, das descobertas e invenções seguintes: Primo

- uma técnica muito melhorada da sugestão, por meio do condicionamento na infância e, mais tarde, com a ajuda de drogas, tais como a escopolamina. Secundo - um conhecimento cientifico e perfeito das diferenças humanas que permita aos dirigentes governamentais destinar a todo o indivíduo determinado o seu lugar conveniente na hierarquia social e económica - as cunhas redondas nos buracos quadrados (I.) possuem tendência para ter ideias perigosas acerca do sistema social e para contaminar os outros com o seu descontentamento. Tertio (pois a realidade, por mais utópica que seja, é uma coisa de que todos temos necessidade de nos evadir frequentemente) - um sucedâneo do álcool e de outros narcóticos, qualquer coisa que seja simultaneamente menos nociva e mais dispensadora de prazeres que a genebra ou a heroína. Quarto (isto será um projecto a longo prazo, que exigirá, para chegar a uma conclusão satisfatória, várias gerações de controle totalitário) - um sistema eugénico perfeito, concebido de maneira a estandardizar o produto humano e a facilitar, assim, a tarefa dos dirigentes. No Admirável Mundo Novo esta estandardização dos produtos humanos foi levada a extremos fantásticos, se bem que talvez não impossíveis. Técnica e ideologicamente, estamos ainda muito longe dos bebés em proveta e dos grupos Bokanovsky de semi-imbecis. Mas quando for ultrapassado o ano 600 de N. F., quem sabe o que poderá acontecer? Daqui até lá, as outras características desse mundo mais feliz e mais estável - os equivalentes do soma, da hipnopedia e do sistema científico das castas - não estão provavelmente afastadas mais de três ou quatro gerações. E a promiscuidade sexual do Admirável Mundo Novo também não parece estar muito afastada. Existem já certas cidades americanas onde o número de divórcios é igual ao número de casamentos. Dentro de alguns anos, sem dúvida, passar-se-ão licenças de casamento como se passam licenças de cães, válidas para um período de doze meses, sem nenhum regulamento que proíba a troca do cão ou a posse de mais de um animal de cada vez. À medida que a liberdade económica e política diminui, a liberdade sexual tem tendência para aumentar, como compensação. E o ditador (a não ser que tenha necessidade de carne para canhão e de famílias para colonizar os territórios desabitados ou conquistados) fará bem em encorajar esta liberdade. juntamente com a liberdade de sonhar em pleno dia sob a influência de drogas, do cinema e da rádio, ela contribuirá para reconciliar os seus súbditos com a servidão que lhes estará destinada.

Vendo bem, parece que a Utopia está mais próxima de nós do que se poderia imaginar há apenas quinze anos. Nessa época coloquei-a à distância futura de seiscentos anos. Hoje parece Praticamente possível que esse horror se abata sobre nós dentro de um século. Isto se nos abstivermos, até lá, de nos fazermos

(I.) Expressão metafórica inglesa que designa um indivíduo que está num lugar que lhe não é próprio. (N. do T.)

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explodir em bocadinhos. Na verdade, a menos que nos decidamos a descentralizar e a utilizar a ciência aplicada não com o fim de reduzir os seres humanos a simples instrumentos, mas como meio de produzir uma raça de indivíduos livres, apenas podemos escolher entre duas soluções: ou um certo número de totalitarismos nacionais, militarizados, tendo como base o terror da bomba atómica e como consequência a destruição da civilização (ou, se a guerra for limitada, a perpetuação do militarismo), ou um único totalitarismo internacional, suscitado pelo caos social resultante do rápido progresso técnico em geral e da revolução atómica em particular, desenvolvendo-se, sob a pressão da eficiência e da estabilidade, no sentido da tirania-providência da Utopia. É pagar e escolher.



ALDOUS HUXLEY

CAPÍTULO PRIMEIRO

Um edifício cinzento e atarracado, de apenas trinta e quatro andares, tendo por cima da entrada principal as palavras:

CENTRO DE INCUBAÇÃO E DE CONDICIONAMENTO DE LONDRES-CENTRAL

e, num escudo, a divisa do Estado Mundial:

COMUNIDADE, IDENTIDADE, ESTABILIDADE

A enorme sala do andar térreo estava virada ao norte. Apesar do Verão que reinava no exterior, apesar do calor tropical da própria sala, apenas fracos raios de uma luz crua e fria entravam pelas janelas. As batas dos trabalhadores eram brancas, e as suas mãos, enluvadas em borracha pálida, de aspecto cadavérico. A luz era gelada, morta, espectral, Apenas dos cilindros amarelos dos microscópios ela recebia um pouco de substância rica e viva, que se espalhava ao longo dos tubos como manteiga.

- Isto - disse o Director, abrindo a porta - é a Sala da Fecundação.

No momento em que o Director da Incubação e do Condicionamento entrou na sala, trezentos fecundadores, curvados sobre os seus instrumentos, estavam mergulhados naquele silêncio em que apenas se ousa respirar, naquela cantilena ou assobio inconsciente com que se traduz a mais profunda concentração. Um grupo de estudantes recém-chegados, muito novos, rosados e imberbes, comprimiam-se, possuídos de uma certa apreensão e talvez de alguma humildade, atrás do Director. Cada um deles levava um caderno de notas, no qual, cada vez que o grande homem falava, rabiscavam desesperadamente. Bebiam a sua sabedoria na própria fonte, o que era um raro privilégio. O D. I. C. de Londres-Central empenhava-se sempre em conduzir pessoalmente a visita dos novos alunos aos diversos serviços.

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«Unicamente para lhes dar uma ideia de conjunto», explicava-lhes ele, pois era necessário, evidentemente, que possuissem um simulacro de ideia de conjunto, já que se desejava que fizessem inteligentemente o seu trabalho. Era conveniente, porém, que essa ideia fosse o mais resumida possível se se quisesse que, mais tarde, eles fossem membros disciplinados e felizes da sociedade, dado que os pormenores, como se sabe, conduzem à virtude e à felicidade, e as generalidades são, sob o ponto de vista intelectual, males inevitáveis. Não são os filósofos, mas sim aqueles que se entregam às construções de madeira e às colecções de selos, que constituem a estrutura da sociedade.



- Amanhã - acrescentou, dirigindo-lhes um sorriso cheio de bonomia, mas ligeiramente ameaçador - começarão a trabalhar seriamente e não terão tempo para perder com generalidades. Daqui até lá ...

Daqui até lá era um privilégio. Da própria fonte para o caderno de apontamentos. Os rapazes rabiscavam febrilmente.

Alto, tendendo para a magreza, mas direito, o Director caminhou pela sala. Tinha o queixo alongado e dentes fortes, um pouco proeminentes, que mal conseguia cobrir, quando não falava, com os lábios grossos, de curva acentuada. Velho ou novo? Trinta anos? Cinquenta? Cinquenta e cinco? Era difícil dizer. Isso também não tinha importância alguma; nesse ano de estabilidade, nesse ano de 632 de N. F., não ocorria a ninguém fazer tal pergunta.

- Vou começar pelo princípio - disse o D. I. C. E os estudantes mais zelosos anotaram o facto nos cadernos: «Começar pelo princípio. »

- Isto aqui - apontou - são as incubadoras. - E, abrindo uma porta de protecção térmica, mostrou-lhes os suportes de tubos empilhados uns sobre os outros e cheios de tubos de ensaio numerados. - O fornecimento semanal de óvulos. Mantidos - explicou - à temperatura normal do sangue, enquanto os gâmetas masculinos - abriu outra porta - devem ser conservados a trinta e cinco graus, em vez de trinta e sete. A temperatura total do sangue esteriliza. Carneiros envoltos em termogénio não procriam.

Sempre apoiado ás incubadoras, forneceu-lhes uma curta descrição do moderno processo da fecundação, enquanto os lápis rabiscavam ilegivelmente as páginas, de um lado para o outro. Falou-lhes primeiro, evidentemente, da introdução cirúrgica, - Esta operação é suportada voluntariamente para bem da sociedade, sem esquecer que proporciona uma gratificação equivalente a seis meses de ordenado. - Continuou com uma breve exposição da técnica de conservação do ovário, separado em estado vivo e pleno desenvolvimento; fez considerações sobre a temperatura, a salinidade e a viscosidade óptimas; aludiu ao líquido em que se conservam os óvulos destacados e chegados à maioridade, e, conduzindo os seus alunos às mesas de trabalho, mostrou-lhes como se retirava esse líquido dos tubos de ensaio; como o faziam cair gota a gota sobre as lâminas de vidro para )reparações microscópicas especialmente aquecidas; como os ovulos que ele continha eram examinados sob o ponto de vista dos caracteres anormais, contados e transferidos para um recipiente poroso; como - e conduziu-os então a observar a operação - esse recipiente era imerso num caldo tépido contendo espermatozóides que aí nadavam livremente à «concentração mínima de cem mil por centímetro cúbico», notou ele, e como, ao fim de dez minutos, o recipiente era retirado do líquido e o seu conteúdo novamente examinado; como, se ainda aí restassem óvulos não fecundados, o mergulhavam uma segunda vez e, em caso de necessidade, uma terceira; como os óvulos fecundados voltavam para as incubadoras; aí os Alfas e os Betas eram conservados até à sua definitiva colocação em provetas, enquanto os Gamas, os Deltas e os Epsilões eram retirados apenas ao fim de trinta e seis horas, para serem submetidos ao processo Boka- novsky.

- Ao processo Bokanovsky - repetiu o Director. E os estudantes sublinharam essas palavras nos cadernos.

Um ovo, um embrião, um adulto: o processo normal. Mas um ovo bokanovskyzado tem a propriedade de germinar, de proliferar, de se dividir: de oito a noventa e seis rebentos, e cada rebento tornar-se-á num embrião perfeitamente formado, e cada embrião num adulto normal. Desenvolvem-se assim noventa e seis seres humanos onde antes apenas se desenvolvia um só. O progresso.

- A bokanovskyzação - concluiu o D. I. C. - consiste essencialmente

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numa série de travagens do desenvolvimento. Detemos o crescimento normal e, embora pareça paradoxal, o ovo reage proliferando.



"Reage proliferando." Os lápis atarefaram-se.

O Director estendeu o braço. Num transportador de movimento muito lento, um suporte cheio de tubos de ensaio entrava numa grande caixa metálica e um outro saía. Havia um ligeiro ruído de máquinas. Os tubos levavam oito minutos a atravessar a caixa de uma ponta à outra - explicava-lhes -, ou sejam oito minutos de exposição aos raios X duros, que é, aproximadaMente, o máximo que um ovo pode suportar. Um pequeno número morria; dos outros, os menos influenciados dividiam-se em dois; a maioria proliferava em quatro rebentos, alguns em oito. Eram então todos novamente enviados para as incubadoras, onde os rebentos começavam a desenvolver-se; depois, ao fim de dois dias, eram subitamente submetidos ao frio e à interrupção de crescimento. Os rebentos dividiam-se, por sua vez, em dois, quatro, oito; depois, tendo proliferado, eram submetidos a uma dose de álcool quase mortal e, como consequência, de novo proliferavam, sendo em seguida deixados em paz, rebentos de rebentos de rebentos, pois toda e qualquer suspensão de crescimento era então, geralmente, fatal. Nessa altura o pri mitivo ovo tinha muitas probabilidades de se transformar num número de embriões entre oito e noventa e seis, «o que é, devem concordar, um prodigioso aperfeiçoamento em relação à Natureza. Gémeos idênticos, mas não em pequenos grupos de dois.@I ou três, como nos antigos tempos da reprodução vivípara, quando um ovo se dividia, por vezes acidentalmente, mas sim por dúzias, por vintenas, de uma só vez».

- Por vintenas - repetiu o Director, abrindo largamente os braços, como se fizesse ricas ofertas a uma multidão. - Por vintenas. Mas um estudante foi bastante tolo para perguntar em que consistia a vantagem.

- Meu caro amigo! - O Director voltou-se vivamente para ele. - Então não vê? Não vê@ - Levantou a mão e tomou umaO atitude solene. - O processo Bokanovsky é um dos máximos instrumentos da estabilidade social.

- Homens e mulheres conformes ao tipo normal, em grupos Uniformes. Todo o pessoal de uma pequena fábrica constituído pelos produtos de um único ovo bokanovskizado. Noventa e seis gémeos idênticos fazendo trabalhar noventa e seis máquinas idênticas! - A sua voz era quase vibrante de entusiasmo. - Pela primeira vez na história, sabe-se perfeitamente para onde se caminha. - E citou a divisa planetária: «Comunidade, identidade, Estabilidade.» - Grandiosas palavras. Se pudéssemos bokanovskizar indefinidamente, todo o problema estaria resolvido. Resolvido por Gamas do tipo normal, por Deltas invariáveis, por Epsilões uniformes. Milhões de gémeos idêntiCOS. O princípio da produção em série aplicado, enfim, à biologia. Mas, infelizmente - o Director agitou a cabeça -, não podemos bokanovskizar indefinidamente.

Noventa e seis, tal parecia ser o limite; setenta e dois, uma boa média. Fabricar com o mesmo ovário e os gâmetas do mesmo macho o maior número possível de grupos de gémeos idênticos era o que melhor se podia fazer - um melhor que, infelizmente, nada mais era que um menos mal. E mesmo isso Já era difícil.

- Porque, na Natureza, são necessários trinta anos para que duzentos óvulos atinjam a maturidade. Mas a nossa tarefa é estabilizar a população neste momento, aqui e agora. Produzir gémeos a conta-gotas durante um quarto de século, para que servirá isso?

Evidentemente, isso não serviria para nada. Mas a técnica de Podsnap tinha acelerado imenso o processo da maturação. Podia-se obter pelo menos cento e cinquenta óvulos maduros no espaço de dois anos.

- Fecunde-se e bokanovskize-se, ou Onoutros termos, multiplique-se por setenta e dois, e obter-se-á uma média de quase onze mil irmãos e irmãs em cento e cinquenta grupos de gémeos idênticos, todos da mesma idade, em perto de dois anos. E, em casos excepcionais, podemos obter de um único ovário mais de quinze mil indivíduos adultos.

Fez sinal a um rapaz louro, de rosto rosado, que, por acaso, passava nesse momento: - Senhor Foster. - O rapaz de rosto rosado aproximou-se. - Pode indicar-nos a máxima produção obtida de um só ovário,

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senhor Foster?



- Dezasseis mil e doze, aqui, neste centro - respondeu o Sr. Foster sem nenhuma hesitação, falando muito depressa. Tinha olhos azuis e vivos e um evidente prazer em citar algarismos. - Dezasseis mil e doze em cento e oitenta e nove grupos idênticos. Mas, é claro, tem-se feito muito melhor - continuou com vigor - em alguns centros tropicais. Singapura tem frequentementte produzido mais de dezasseis mil e quinhentos e Mombaça atingiu já os dezassete mil. Mas eles são injustamente privilegiados. É ver como um ovário de negra reage ao líquido pituitário! É espantoso, quando se está habituado a trabalhar com materiais europeus. Ainda assim - acrescentou, rindo (mas o brilho da luta notava-se no seu olhar e o levantamento do queixo era um desafio) , ainda assim, temos intenção de os ultrapassar, se for possível. Trabalho neste momento num maravilhoso ovário de Delta-Menos. Tem apenas dezoito meses certos. Mais de doze mil e setecentas crianças já, quer decantadas, quer em embrião. E ele ainda produz mais. Havemos de conseguir vencê-los!

- Ora aí está o estado de espírito que me agrada! - exclamou o Director, dando uma palmada nas costas do Sr. Foster. - Venha connosco e faça aproveitar a estes garotos dos seus conhecimentos de especialista.

O Sr. Foster sorriu modestamente.

- Com muito prazer. Seguiram-no. Na Sala de Enfrascamento tudo era agitação harmoniosa e actividade ordenada. Placas de peritónio de porca, todas cortadas nas dimensões convenientes, chegavam continuamente, em pequenos monta-cargas, do Armazém de órgãos, no subsolo. Bzzz, em seguida flap! As portas do monta-cargas abriam-se completamente. O preparador de provetas apenas tinha de estender a mão, segurar a placa, introduzi-la, achatar as bordas e, antes que a proveta assim preparada tivesse tempo de se afastar ao longo do transportador sem fim - bzzz, flap! -, uma outra placa de peritónio tinha subido rapidamente das profundezas subterrâneas, pronta a ser introduzida numa outra proveta, que seguía a anterior nessa lenta e interminável procissão sobre o transportador.

Após os preparadores, vinham os matriculadores. Um a um, os ovos eram transferidos dos seus tubos de ensaio para recipientes maiores; com destreza, a guarnição de peritónio era cortada, a mórula era colocada no devido lugar, a solução salina introduzida ... e já a proveta tinha chegado mais longe, à vez dos classificadores. A hereditariedade, a data de fecundação, as indicações relativas ao grupo Bokanovsky, todos os pormenores eram transferidos do tubo de ensaio para a proveta. Não já anónima, mas com nome, identificada, a procissão retomava lentamente a marcha, a marcha através de uma abertura na parede, a marcha para entrar na Sala de Predestinação Social.

- Oitenta e oito metros cúbicos de fichas de cartão - disse o Sr. Foster, com manifesto prazer, ao entrarem.

- Contendo todas as informações úteis - acrescentou o Director.

- Postas em ordem diariamente, todas as manhãs.

- E coordenadas todas as tardes.

À base das quais são feitas os cálculos. Tantos indivíduos desta ou daquela qualidade - disse o Sr. Foster.

- Divididos nestas ou naquelas quantidades.

- A percentagem de decantação óptima em qualquer momento desejado.

- Sendo as perdas imprevistas rapidamente compensadas.

- Rapidamente - repetiu o Sr. Foster. - Se soubessem quantas horas extraordinárias tive de fazer após o último terramoto no Japão! - Riu com bom humor e sacudiu a cabeça.

- Os predestinadores enviam os seus números aos fecundadores.

- Que lhes mandam os embriões que eles desejam.

- E as provetas chegam aqui para serem predestinadas pormenorizadamente.

- Para depois descerem ao Depósito de Embriões.

- Onde vamos agora. E, abrindo uma porta, o Sr. Foster tomou a dianteira para descer uma escada e conduzi-los ao subsolo.

A temperatura era ainda tropical. Desceram numa penumbra que cada vez era maior. Duas portas e um corredor com duas esquinas protegiam a cave contra qualquer possível infiltração da luz diurna.

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- Os embriões parecem-se com uma película fotográfica - disse o Sr. Foster humoristicamente, abrindo a segunda porta. - Apenas suportam a luz vermelha.



Com efeito, a obscuridade, onde reinava um pesado calor, em que os estudantes então seguiram, era visível e encarnada, como, numa tarde de Verão, é a obscuridade apercebida através das pálpebras cerradas. Os lados arredondados das provetas que se alinhavam até ao infinito, fila sobre fila, prateleira sobre prateleira, brilhavam como inúmeros rubis, e entre os rubis moviam-se fantasmas vermelhos e vagos de homens e de mulheres de olhos purpúreos, de faces rutilantes. Um zunido, um rumor de máquinas, imprimiam ao ar uma ligeira vibração.

- Dê-lhes alguns números, senhor Foster - disse o Director, que estava fatigado de falar.

O Sr. Foster nada mais desejava senão isso.

- Duzentos e vinte metros de comprimento, duzentos de largura, dez de altura. - Apontou com a mão para cima. Como 9 galinhas a beber água, os estudantes ergueram os olhos para o tecto distante. - Três andares de porta-provetas: ao nível do solo, primeira galeria, segunda galeria.

A estrutura metálica das galerias sobrepostas, leve como uma teia de aranha, perdia-se em todas as direcções, na obscuridade. Perto deles, três fantasmas vermelhos estavam activamente ocupados em descarregar provetas que retiravam de uma escada móvel, o escalator que partia da Sala de Predestinação Social.

Cada proveta podia ser colocada num de entre quinze porta-garrafas, cada um dos quais, embora não fosse po'ssível notar-se, era um transportador que avançava à velocidade de trinta e três centímetros e um terço por hora. Duzentos e sessenta e sete dias, à razão de oito metros por dia. Um total de dois mil cento e trinta e seis metros. Uma volta à cave ao nível do solo, uma outra à altura da primeira galeria, metade de outra à altura da segunda e, na ducentésima sexagésima sétima manhã, a luz do dia na Sala de Decantação. Daí em diante, a existência independente - assim era denominada.

- Mas nesse intervalo de tempo - disse o Sr. Foster como conclusão - conseguimos fazer-lhes bastantes coisas. Oh! Muitas coisas. - O seu riso era satisfeito e triunfante.

- Aí está o estado de espírito que me agrada - disse de novo o Director. - Vamos dar a volta. Dê-lhes todas as explicações, senhor Foster.

Com eficácia, o Sr. Foster deu-as. Falou-lhes do embrião, que se desenvolve no seu leito de peritónio. Fez-lhes provar o rico pseudo-sangue de que ele se alimenta. Explicou por que razão tinha necessidade de ser estimulado pela placentina e pela tiroxina. Falou-lhes do extracto de corpus luteum. Mostrou-lhes os tubos reguladores por onde, em todos os doze metros entre zero e dois mil e quarenta ele é injectado automaticamente. Falou dessas doses gradualmente crescentes de líquido pituitário administradas durante os últimos noventa e seis metros do seu percurso. Descreveu a circulação materna artificial instalada em cada proveta no metro cento e doze. Mostrou-lhes o reservatório de pseudo-sangue, a bomba centrífuga que mantém o líquido em movimento sobre a placenta e o impele para o pulmão sintético e para o filtro dos resíduos. Disse algumas palavras acerca da perigosa tendência do embrião para a anemia, das doses maciças de extracto de estômago de porco e de fígado de poldro fetal que, em consequência, é necessário fornecer-lhe. Mostrou-lhes os mecanismos simples por meio dos quais, durante os dois últimos metros de cada percurso de oito, todos os embriões são simultaneamente agitados para se familiarizarem com o movimento. Aludiu ao perigo daquilo que se chama «traumatismo de decantação» e enumerou as precauções tomadas a fim de reduzir ao mínimo, por um ajustamento apropriado do embrião na proveta, esse perigoso choque. Falou-lhes das provas de sexo efectuadas próximo do metro duzentos e explicou-lhes o sistema de classificação: um T para os machos, um círculo para as fêmeas, e para os que estavam destinados a ser neutros um ponto de interrogação negro sobre fundo branco.

- Porque, é claro - disse o Sr. Foster - , na imensa maioria dos casos a fecundidade é simplesmente um incómodo. Um ovário fértil em cada mil e duzentos chegaria à vontade para as nossas necessidades. Mas precisamos de ter por onde escolher. E, além disso, é necessário conservar uma enorme margem de segurança. Assim, deixamos que se desenvolvam normalmente cerca de trinta por cento dos embriões femininos. Os outros

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recebem uma dose de hormonas sexuais masculinas em tod os vinte e quatro metros durante o resto do percurso. Resultado - quando são decantados, estão neutros, absolutamente normais sob o ponto de vista da estrutura, salvo - teve de reconhecer - possuírem, é verdade, uma leve tendência para o crescimemto da barba, mas estéreis. Estéreis garantidos. O que nos leva, enfim



- continuou o Sr. Foster -, a abandonar o domínio da simples imitação estéril da Natureza para entrarmos no mundo muito mais interessante da descoberta humana. - Esfregou as mãos.

Porque, é evidente, não nos contentamos unicamente em incubar os embriões: isso qualquer vaca é capaz de fazer. Também os predestinamos e condicionamos. Decantamos os nossos bebés sob a forma de seres vivos socializados, sob a forma de Alfa ou de Epsilões, de futuros varredores ou de futuros ...

Esteve a ponto de dizer «futuros Administradores Mundiais», mas, corrigindo-se a tempo, disse «futuros Directores de Incubação».

O D. I. C. mostrou-se sensível ao cumprimento, que recebeu com um sorriso.

Encontravam-se no metro trezentos e vinte, no porta-garrafas n.º 11. Um jovem mecânico Beta-Menos trabalhava com uma chave de parafusos e uma chave inglesa, na bomba de pseudo-sangue de uma proveta que passava. O zunido do motor eléctrico tornava-se mais grave, em mudanças Ograduais, e enquanto ele apertava os parafusos ... Mais grave, mais grave., uma torção final, uma olhadela ao contador de voltas, e terminou. Avançou dois passos ao longo da fila e começou a mesma operação na bomba seguinte.

- Ele diminui o número de voltas por minuto - explicou o Sr. Foster. - O pseudo-sangue circula mais lentamente e, em consequência, passa para os pulmões com intervalos mais demorados; dá, assim, menos oxigénio ao embrião. Nada melhor que a falta de oxigénio para manter um embrião abaixo normal. - De novo esfregou as mãos.

- Mas para que é preciso manter o embrião abaixo normal? - perguntou um estudante ingénuo.

- Que burro! - disse o director, quebrando um longo silêncio. - Nunca lhe veio à ideia que é necessário ao embrião Epsilão um ambiente de Epsilão, assim como uma hereditariedade de Epsilão?

Era evidente que isso nunca lhe tinha passado pela ideia.

Ficou confuso e contrito.

- Quanto mais baixa é a casta - disse o Sr. Foster -, menos oxigénio se lhe dá. O primeiro órgão atingido é o cérebro. Em seguida o esqueleto. Com setenta por cento do oxigénio normal, obtêm-se anões. Com menos de setenta por cento, monstros sem olhos. Os quais para nada servem - concluiu o Sr. Foster. - No entanto - a sua voz tornou-se confidencial, desejoso de expor o que tinha a dizer -, se se pudesse descobrir uma técnica para reduzir a duração da maturação, que benefício isso seria para a sociedade! Consideremos o cavalo.

Eles consideraram-no.

- Adulto aos seis anos; o elefante aos dez, enquanto aos treze um homem não é ainda adulto sexualmente e não o é fisicamente senão aos vinte. Daqui, naturalmente, esse fruto do desenvolvimento retardado: a inteligência humana. Mas entre os Epsilões - continuou muito justamente o Sr. Foster - não temos necessidade de inteligência humana. Não há necessidade e, portanto, não se obtém. Mas, se bem que entre os Epsilões o espírito esteja maduro aos dez anos, é necessário esperar dezoito para que o corpo esteja apto para o trabalho. Tantos anos de maturidade, supérfluos e sem utilidade! Se fosse possível acelerar o desenvolvimento físico até o tornar tão rápido como, digamos, o de uma vaca, que enorme economia poderia daí resultar para a comunidade!

- Enorme! - murmuraram os rapazes.

O entusiasmo do Sr. Foster era contagioso. As suas explicações tornaram-se mais técnicas: falou da coordenação anormal das endócrinas, que faz que os homens cresçam tão lentamente, e admitiu, para explicar tal facto, uma mutação germinal. Poder-se-ão destruir os efeitos dessa mutação? Poder-se-á fazer retroceder o embrião do Epsilão, por meio de uma técnica apropriada, até ao carácter normal que existe entre os cães e as vacas? Tal era o problema. E estava quase a ser resolvido.

Pilkington, em Mombaça, tinha conseguido produzir indivíduos sexualmente aptos aos quatro anos e de tamanho adulto aos seis e meio. Um triunfo científico, mas, socialmente, sem utilidade. Os homens e mulheres de seis anos e meio eram demasiado

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estúpidos, até mesmo para realizar o trabalho de um Epsilão. E o processo era do género tudo ou nada: ou não se Conseguia modificar nada, ou se modificava tudo completamente. Tentava-se ainda encontrar o meio termo ideal entre adultos de vinte anos e adultos de dez. Infelizmente, até ao presente, sem sucesso algum. O Sr. Foster suspirou, meneando a cabeça.



As suas peregrinações na penumbra avermelhada tinham-nos levado, próximo do metro cento e setenta, ao porta-garrafas n.º 9. A partir desse ponto, o porta-garrafas desaparecia numa abertura e as provetas terminavam o restante trajecto numa espécie de túnel, interrompido aqui e ali por aberturas de dois ou três metros de largura.

- O condicionamento ao calor - explicou o Sr. Foster. Túneis quentes alternavam com túneis frios. O frio estava combinado com outras sensações desagradáveis, sob a forma de raios X duros. Logo que eram decantados, os embriões tinham horror ao frio. Estavam predestinados a emigrar para os Trópicos, a serem mineiros, tecelões de seda de acetato, operários de fundição. Mais tarde, o seu espírito seria formado de maneira a confirmar o julgamento do corpo.

- Nós condicionamo-los de tal maneira que eles suportam bem o calor - disse o Sr. Foster, concluindo. - Os nossos colegas lá de cima ensiná-los-ão a gostar dele.

- E é aí - disse sentenciosamente o Director, à guisa de contribuição ao que estava a ser dito - que está o segredo da felicidade e da virtude: gostar daquilo que se é obrigado a fazer. Tal é o fim de todo o condicionamento: fazer as pessoas apreciar o destino social a que não podem escapar.

Num intervalo entre dois túneis, uma enfermeira sondava delicadamente, por meio de uma seringa longa e fina, o conteúdo gelatinoso de uma proveta que passava. Os estudantes e o seu guia pararam, para a observar silenciosamente alguns momentos.

- Olá, Lenina - disse o Sr. Foster quando finalmente ela retirou a seringa e se ergueu.

A rapariga voltou-se com um sobressalto. Notava-se que era excepcionalmente bonita, se bem que a iluminação lhe desse uma máscara de lúpus e olhos purpúreos.

- Henry!


O seu sorriso, como um clarão vermelho, exibiu uma fila de dentes de coral. - Encantadora, encantadora - murmurou o Director, dando-lhe duas ou três palmadas amigáveis. Em troca recebeu um sorriso deferente.

- Que está a dar-lhes? - perguntou o Sr. Foster, com um tom altamente profissional na voz.

- Oh! A febre tifóide e a doença do sono habituais.

- Os trabalhadores dos Trópicos começam a receber inoculações no metro cento e cinquenta - explicou o Sr. Foster aos estudantes. - Os embriões têm ainda guelras, como os peixes. imunizamos o peixe contra as doenças do futuro homem. - E depois, virando-se para Lenina, disse: - Cinco menos um quarto, no terraço, como habitualmente.

- Encantadora - disse o Director mais uma vez, com uma pequena palmada final. E afastou-se atrás dos outros.

No porta-garrafas n.º 10, várias filas de trabalhadores das indústrias químicas da futura geração eram preparados para suportar o chumbo, a soda cáustica, o alcatrão e o cloro. O primeiro de um grupo de duzentos e cinquenta mecânicos embrionários de aviões-foguetes passava precisamente em frente do registo do metro mil e cem, no porta-garrafas n.º 3. Um mecanismo especial mantinha os recipientes em constante rotação.

- Para aperfeiçoar neles o sentido do balanço - explicou o Sr. Foster. - Efectuar reparações no exterior de um avião-foguete em voo é um trabalho delicado. Diminuímos a circulação quando estão em posição normal, de maneira que fiquem meio esfomeados, e duplicamos o afluxo de pseudo-sangue quando estão de cabeça para baixo. Aprendem assim a associar a posição invertida com o bem-estar. Efectivamente, eles só se sentem verdadeiramente felizes quando estão de cabeça para baixo. E agora - continuou o Sr. Foster - gostaria de lhes mostrar um condicionamento muito interessante para intelectuais Alfa-Mais. Temos um importante grupo deles no porta-garrafas n.º 5. À altura da primeira galeria - gritou para dois rapazes que tinham começado a descer para o andar térreo. - Eles estão perto do metro novecentos - explicou. - Não se pode, de facto, efectuar nenhum condicionamento eficaz antes de os fetos terem

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perdido a cauda. Sigam-me.



O Director consultou o relógio.

- Três horas menos dez - disse. - Receio que não tenhamos tempo para observar os embriões intelectuais. Temos de chegar ao infantário antes de as crianças terem acabado a sesta da tarde.

O Sr. Foster ficou fortemente desiludido.

- Pelo menos uma olhadela à Sala de Decantação - suplicOU.

- Seja. - O Director sorriu indulgentemente. - Apenas olhadela.

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