Adriana Regina de Jesus Santos



Baixar 22.73 Kb.
Encontro31.07.2016
Tamanho22.73 Kb.


A PRESENÇA DA MULHER LONDRINENSE NO MAGISTÉRIO NOS ÚLTIMOS 50 ANOS DO SÉCULO XX: UM OLHAR SOB O PONTO DE VISTA DO ENSINO FUNDAMENTAL

Adriana Regina de Jesus Santos1
Atualmente a história das mulheres constitui um campo de estudos bastante privilegiado, mas as mulheres enquanto profissionais do ensino, têm sido constantemente relegadas ao esquecimento.

Tal paradoxo revela-se na História e na História da Educação, disciplinas que segundo Nóvoa (1994:10) “permanecem atreladas aos cânones historiográficos inventados no século XIX e que não levam em consideração que a predominância feminina no ensino profissional, desde o século passado, e as diferenças entre os sexos, denominadas relações de gênero na crítica feminista contemporânea, constituem-se importantes focos de análise.

Ao longo da história é possível perceber a discussão e análise de alguns autores como Almeida, Alves, Apple, Bruschini, Amado, Friedman, entre outros, em relação às escolhas e às práticas de mulheres professoras no âmbito educacional. Percebe-se, também, que a escolha profissional dessas mulheres podem estar articulada a estereótipos de feminilidade e a falta de opções, mas também pode expressar decisões autônomas em busca de realização e independência, bem como, que não existe uma feminização única e homogênea, a não ser como norma, prescrição, muito diferente das múltiplas histórias de mulheres brancas, negras, pobres, ricas, católicas, sindicalistas...

Partindo desses pressupostos penso que é imprescindível fazer um mapeamento da produção bibliográfica sobre a história da feminização no magistério, com intuito de analisar como esta feminização é explicada por alguns autores ao longo da história da educação, com objetivo de identificar e apontar algumas tendências que levaram a esta feminização.

É importante enfatizar que a presença da mulher no magistério leva a uma série de indagações que neste trabalho pretende-se que transcendam o sócio-político-econômico, dado que, voluntariamente é minha pretensão levar a efeito uma análise que envolva categorias diferenciadas que transitem também pela subjetividade e privilegiem a dimensão existencial dos protagonistas dessa história mais intimista. Para tal, pretendo me deter em categorias de análise, tais como: cultural, social, gênero e política. Essa escolha parte da pretensão de analisar como a mulher professora é percebida sob os múltiplos olhares de alguns autores, provocando assim, novas reflexões e indagações.

Diante desta problemática é que pretendo investigar a presença da mulher Londrinense no Magistério nos últimos 50 anos do século XX: um olhar sob o ponto de vista do Ensino Fundamental ( 1ª a 4ª série). Tendo como ponto de partida a concepção do existir humano na busca de um sentido para a existência do ser, considerando o tempo histórico em sua abrangência e circularidade. Tal perspectiva torna possível às relações mulher-magistério-cultura-sociedade tendo como foco a interação entre o passado e o presente, podendo assim compreender os avanços e retrocessos dessa formação. Pretendo investigar a presença da mulher Londrinense no Magistério nos últimos 50 anos do século XX, a fim de refletir sobre sua atuação no trabalho docente, contribuindo assim para o enriquecimento da memória escolar da cidade de Londrina. Outro fator preponderante é resgatar através deste estudo o significado e o entendimento que a mulher – professora tem da relação gênero , história e saber. Se faz necessário ressaltar que o saber aqui é entendido pautado na concepção de Michel Foucault, ou seja o autor coloca que o saber é produzido através das relações humanas, no caso, relações entre homens e mulheres. Tal saber não é absoluto ou verdadeiro, mas sempre relativo. Ele é produzido de maneira complexa no interior da episteme e tem uma história autônoma. Seus usos e significados nascem de uma disputa política e são os meios pelos quais as relações de poder de dominação e de subordinação são construídas.

Contudo, o saber não se refere apenas a idéias, mas sim a instituições e estruturas, práticas cotidianas e rituais específicos, já que todos constituem relações sociais. Todavia o saber é um modo de ordenar o mundo e, como tal, não antecede a organização social mas é inseparável dela. Diante destes fatos a própria educação se coloca para o educador como um desafio que tem raízes sociais e econômicas no decorrer da história brasileira, pois “estudar a mulher no campo de trabalho do magistério, “... significa assumir que o sentido e as especificidades do trabalho docente são construídos socialmente e portanto integram o jogo complexo das determinações e resistências a que está submetido o processo de trabalho no capitalismo” (COSTA apud VEIGA NETO, 1995,15).

Esses questionamentos, embora não esgote a totalidade das indagações acerca da profissionalização feminina e da feminização da carreira, podem servir como ponto de partida para realmente construir-se uma História das mulheres na Educação e no Magistério. É importante apontar que o estudo tem raízes no materialismo histórico, pois aborda a historicidade dos fatos levando em consideração o contexto social. LÖWY (2000), contribui com esta discussão afirmando que o materialismo histórico não é somente um instrumento de conhecimento ele é também ao mesmo tempo um instrumento de ação, relação dialética entre sujeito e objeto. Nesta abordagem a história não é considerada apenas como um registro das mudanças da organização social dos sexos mas também, de maneira crucial, como participante da produção do saber, tendo como foco a categoria gênero.

Ao pesquisar a feminização do magistério e suas implicações sociais, fez-se necessário delimitar a região que serviu de campo de estudo que é a cidade de Londrina, pois segundo SILVA (1997), quando o objetivo do historiador é confrontar normas com os comportamentos efetivamente analisáveis através da documentação existente, ele tem necessariamente de cair no regionalismo, se pretende aprofundar o estudo no que se refere às práticas seguidas.

Assim dispomos por um lado, de uma documentação que nos permite reconstruir a generalidade da regra, e por outro, daquela que nos permite apreender de que modo tais normas eram conhecidas, acatadas ou contestadas numa sociedade claramente determinada no espaço e no tempo.

Tendo em vista estes fatores é imprescindível construir e reconstruir a história da feminização no magistério na cidade de Londrina nos últimos 50 anos do século XX para podermos compreender o processo histórico e social desta formação. Para tal a metodologia desta pesquisa baseia-se na fonte oral , pois segundo Thompson (1965) “ a fonte oral ou a história de vida constitui importante fonte de dados, uma vez que, através dela, o pesquisador descobre a concepção que o indivíduo tem de seu papel e de seu status nos vários grupos de que é membro”. Partindo destes pressupostos elegi alguns procedimentos , conforme passo a descrever:

1 - Aprofundamento de estudos relativos ao tema através de bibliografia selecionada; 2 - População alvo: Professoras que atuam ou atuaram no magistério nos último 50 anos do século XX, escolhidas aleatoriamente de acordo com a definição da década. A quantidade de professoras escolhidas neste estudo será definida a medida que as informações começarem atingir um ponto de saturação, ou seja, a repetição de informações sobre a temática que norteia a presente pesquisa. 3 - Elaboração e aplicação de um roteiro de entrevistas com as professoras, e ao mesmo tempo coletando outros dados que eventualmente surgirem. 4 - Coleta de documentos primários e secundários sobre a mulher no magistério: materiais utilizados no ensino, cartilhas, diários, cartas pessoais, textos, literatura, documentos, memorando, materiais econográficos, etc. 5 - Sistematização, análise e discussão dos dados coletados com base na literatura revisada; 6 - Redação final da pesquisa; O tratamento e análise dos dados serão realizados em dois níveis de interpretação do objeto de estudo: o das suas determinações fundamentais e o da análise dos dados surgidos na investigação, passando pelos passos de : a) ordenação dos dados; b) classificação dos mesmos em categorias, analisadas exaustivamente para extrair delas o relevante, e c) a análise final, buscando estabelecer articulações entre os dados obtidos da realidade concreta e os referenciais teóricos da pesquisa. Este posicionamento exige uma estrita vigilância e estranheza da realidade a ser pesquisada, já que eu também faço parte desse universo pesquisado, caracterizando a minha posição simultânea de sujeito e objeto. O estudo encontra-se em andamento, mas já é possível perceber que a vontade da mulher de instruir-se, educar-se e ter uma profissão transparece nas velhas páginas impressas como um manifesto do seu esforço, assim a construção do valor social do trabalho docente não se dá no vazio e sim historicamente.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA, Jane Soares de. Mulher e Educação: a paixão pelo possível. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998. (Prismas).

ALVES, Nilda. Formação de professores: pensar e fazer. São Paulo: Cortez, 1995.

APPLE, Michael. Ensino e trabalho feminino: uma análise comparativa da história e ideologia. Cadernos de pesquisa, São Paulo, n.64, p.14-23, fev. 1988.

ARAÚJO, H. C. de. As professoras primárias na viragem do século: uma contribuição para a história de sua emergência no estado ( 1870/19). Revista 10 Organizações e Trabalho, n.56, dez. 1991.

COSTA, A. de. O.; BRUSCHINI, C. Uma contribuição impar. Os Cadernos de Pesquisa e a consolidação dos estudos de gênero. Caderno de Pesquisa, São Paulo, n. 80, fev. 1995.

COSTA, Jurandir Freire. Ordem médica e norma familiar. 2.ed. Rio de Janeiro: Grall, 1923.

CUNHA, Maria Isabel da. O bom professor e sua prática. Campinas: Papirus, 1994.

DEMARTINI, Zélia B. F. Magistério primário no contexto da 1ª república: relatório de pesquisa. São Paulo: Fundação Carlos Chagas, 1991.

FARIA, Filho. L. M. de. Dos pardieiros aos palácios: forma e cultura escolares em Belo Horizonte ( 1906/1918). 1989. Tese ( Doutorado) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo. São Paulo, 1989

FERROT, M. Práticas da memória feminina. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.9, n.18, p. , ago.-set. 1987.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder / Michel Foucault; organização e tradução de Roberto Machado. – Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

FRIEDMAN, B. A mística feminina. Petrópolis: Vozes, 1971.

FRIGOTTO, Gaudêncio. A produtividade da escola improdutiva. São Paulo: Cortez, 1993.

GOLVEIA, A . J. Professores de amanhã: um estudo da escolha ocupacional. São Paulo: Pioneira, 1970.

LÖWY. M. As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Munchausen: marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento. 7 ed. – São Paulo, Cortez, 2000.

MARTINS, Maria Anita Viviani. O professor como agente político. São Paulo: Loyola, 1987.

NOVAES, Maria Eliana. Professora primária: mestra ou tia. São Paulo. Cortez, 1991.

NÓVOA, A . Para o estudo sócio histórico da gênese e desenvolvimento do trabalho docente. Teoria e Educação, Porto Alegre, n. 4, p.109-139, 1991.

NÓVOA, A. (Org). Profissão professor. Porto: Ed. Porto, 1994.

MATOS, M. I. S. de. Delineando corpos: as representações do feminino e do masculino no discurso médico. São Paulo, 1890-1930. In: INTERNACIONAL STUDIES ASSOCIATION, 19., 1995, Washington, DC.

PATTO, Maria Helena Souza. A produção do fracasso escolar. São Paulo: T. A Queiroz, 1993.

PEDRO, Joana Maria. Mulheres honestas e mulheres faladas: uma questão de gênero. Florianópolis: UFSC, 1994.

SAFFIOTI, H. I. B. A mulher na sociedade de classes: mito e realidade. Petrópolis: Vozes, 1976.

SILVA, Erineusa Maria da. As relações de gênero no magistério: a imagem da feminização. 1997. Dissertação ( Mestrado em Educação ) – Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 1997.

SILVA, Flávio Caetano da. A percepção que a professora primária tem do exercício do magistério. 1996. Dissertação ( Mestrado em Educação ) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1996.

SFORNI. Marta Sueli de Faria. A feminização do corpo docente na democratização do ensino do século XIX. 1996. Dissertação (Mestrado) - Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 1996.



SOUZA, Aparecida Néri. Sou professor, sim senhor! Campinas: Papirus, 1996.


1 Mestranda em Educação – Universidade Estadual de Ponta Grossa – Paraná


Catálogo: acer histedbr -> seminario -> seminario5
seminario5 -> Origens da escola moderna no brasil
seminario5 -> A história das instituiçÕes de ensino confessionais: um estudo do colégio nossa senhora das lágrimas
seminario5 -> O malogro da educaçÃo popular na paraíba (1930-1945)
seminario5 -> O projeto de rui barbosa: o papel da educaçÃo na modernizaçÃo da sociedade
seminario5 -> A economia dos empreendimentos jesuítas para o financiamento das atividades educativas e missionárias entre 1540 e 1770
seminario5 -> Wenceslau Gonçalves Neto
seminario5 -> O currículo de 1855 do colégio de pedro II: Ensino Propedêutico versus Ensino Profissionalizante
seminario5 -> EducaçÃo e cultura brasileira à luz do caso jean des boulez (SÉC. XVI)
seminario5 -> História Cultural e História da Educação: diversidade disciplinar ou simples especialização?
seminario5 -> Imagem, história e educaçÃO: O CINEMA COMO FONTE PARA A PESQUISA histórica em educaçÃO


Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal