Agricultores familiares e pluriatividade: tipologias e políticas maria José Carneiro



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AGRICULTORES FAMILIARES E PLURIATIVIDADE: TIPOLOGIAS E POLÍTICAS

Maria José Carneiro



Introdução: alguns esclarecimentos metodológicos

A idéia de classificar e de construir tipologias que distingam e organizem a sociedade é tão antiga quanto a própria existência das sociedades humanas1. Como primeiro esforço de apreensão e compreensão do que está em Seu entorno, o homem atribui sentido à realidade e ao aparente caos que o cerca estabelecendo uma ordem entre os objetos e as pessoas. Contudo, esse esforço de classificação, necessário à própria vida social, que resulta em sistemas arbitrariamente construídos, não se confunde com a sociedade (Durkheim e Mauss, 1979). No entanto, é recorrente que os construtores destes sistemas o tomem como sendo a própria realidade, e que tais classificações, institucionalizadas, sejam tomadas como a realidade social.


É importante ter em mente que as categorias classificatórias são construções da mente humana e, como tal, é produto da sociedade, mas não têm uma relação causal imediata com a realidade observada nem resulta obrigatoriamente, de uma necessidade utilitária (Lévi-Strauss, 1989). Saindo do social para a interpretação teórica das socieades, as tipologias ou classificações, nos termos de Weber, apesar de não se refiram à realidade empírica, são construídas em conformidade com esta, encontrando nas relações sociais a matéria-prima para essas construções abstratas. É importante enfatizar que, em nenhum caso, esse modelo pode ser reduzido a um conjunto de relações sociais observáveis em uma realidade dada (Lévi-Strauss, 1970). É necessário buscar o significado dos fatos e das relações sociais (de trabalho, por exemplo) na sua posição na totalidade, já que se apresentam de forma sistêmica, de maneira que cada parte não pode ser entendida isoladamente da outra.
Nesse sentido, os princípios que sustentam uma ordem classificatória são, em certa medida, definidos arbitrariamente pela sociedade dentro de um campo de disputa político-cultural de legitimação. Ao ser legitimada, urna dada estruturação pode assumir o lugar da "realidade" e da "verdade" do senso comum, ou de um campo específico de conhecimento. Essas duas características, a arbitrariedade da lógica de ordenação e a noção de sistema, presentes em todo esforço de classificação, são pontos de partidas fundamentais para a discussão e proposta de qualquer modelo de classificação.
A abordagem e interpretação da realidade pressupõe, portanto, a escolha de uma estruturação teórica que irá definir os princípios de articulação entre os componentes do sistema, ou seja, a maneira como abordaremos um tal grupo, uma dada sociedade. Não há uma estruturação mais verdadeira do que outra, tratemos de alternativas que irão orientar nosso olhar de maneira a enfatizar ou, ao contrário, a menosprezar determinados aspectos da realidade. As classificações servem, portanto, a determinadas ideologias, ou seja, a determinados interesses sobre o social, já que a essa forma de perceber a realidade encontram-se, normalmente associadas práticas e propostas de intervenção. Aceitar a relatividade ideológica de uma classificação tipológica não significa, porém, abolir rigor conceptual e metodológico mas estarmos atentos para os limites do conhecimento sobre a realidade. Nesse sentido, a melhor estruturação, ou o melhor modelo, seria aquele que sendo também o mais simples, dê conta da explicação do conjunto dos fatos selecionados pela observação e, principalmente, seja capaz de legitimar-se como a melhor representação possível da realidade.
Normalmente, os motivos que orientam uma ou outra escolha não são revelados, dando margem à uma leitura positivista da abordagem teórica como se a ela correspondesse à realidade em si mesma e fosse portanto "mais verdadeira” do que outra. Em um esforço de pesquisa é preciso termos em mente que a cada tipo de escolha ganhamos e perdemos algum aspecto da capacidade ele compreensão da sociedade. Resta-nos definirmos com clareza e transparência a nossa posição, ou seja, os interesses é os objetivos que irão nortear nossa aproximação da realidade.
No que nos interessa particularmente neste estudo - a incorporação das atividades não agrícolas à dinâmica da agricultura familiar - caberia esclarecer que, da perspectiva relacional e holística, o significado das atividades, não-agrícolas deverá ser buscado na posição que elas ocupam no conjunto da economia familiar, levando-se em conta as estratégias familiares de reprodução social e, sobretudo, o contexto sócio-econômico em que se insere.
Nesse sentido, a noção de pluriatividade não designa um fenômeno específico, assim como o termo pluriativo não define uma nova categoria social no meio rural. Existem diferentes possibilidades de se associar a atividade não agrícola no interior da unidade familiar agrícola, que implica diversidade de significados que este tipo de combinação poderá assumir na reprodução social e, conseqüentemente, na posição de cada unidade familiar na estrutura social na agricultura. A pluriativídade, nesta perspectiva interpretativa, não é um fato positivo, um tipo, e sim uma noção que designa um processo social plural, o que significa reconhecer processos pluriativos incorporadores de atividades não agrícolas como constitutivos da própria dinâmica social da agricultura familiar. Esta percepção da pluriatividade como um processo social nos capacita a perceber a coexistência de processos sociais distintos, e até mesmo contraditórios, definidos pelo campo de possibilidade de realização dos projetos familiares. Por campo de possibilidade entende-se o espaço para formulação e implementação de projetos, no caso, definido pela combinação das condições sócio-econôinicas e fatores peculiares às unidades familiares, tais como: o capital cultural, o capital material, a fase do desenvolvimento do grupo doméstico, composição etária e sexual dos membros da unidade familiar e posição dos indivíduos que desenvolvem a atividade não agrícola na hierarquia familiar.
Nesses termos, a delimitação do objeto de estudo pela noção de pluriatividade, coisificada, ou positiva - ou ainda como um tipo ideal específico - acabaria por desviar o foco de análise para práticas ou atividades que, apreendidas de maneira isolada, não explicariam o fenômeno em curso. Na direção contrária a este tipo de abordagem, sustentamos que a complexidade do processo de transformação recente no mundo rural brasileiro, que se traduz em uma heterogeneidade das formas de organização social e da produção, só pode ser entendida se orientarmos a análise para as relações entre os agentes sociais na dinâmica de reprodução social.
Falar em agricultura familiar pluriativa, requer ainda incorporar a complexidade das relações sociais que definem e redefinem a família. Nesta perspectiva, toma-se necessário redefinir também o universo de observação, privilegiando-se a família, como unidade social, e não apenas como unidade de produção como normalmente tem sido considerada quando o assunto é a agricultura familiar.
O pressuposto aqui é o de que o núcleo farrúliar é o que dá seritido de orientação (e de referência) às relações sociais. Ao mesmo tempo em que cria e reproduz valores socializados e inculcados nos indivíduos, a família também supõe um processo de individuação que pode negar, romper, modificar e, até mesmo recriar, valores num espaço de negociação e de tensões. Nesse sentido, o núcleo familiar não pode ser concebido como uma estrutura rígida e cristalizada - de indivíduos e valores - mas sim como uma estrutura flexível, plástica, que pode incorporar novos valores e criar novas percepções e práticas. Em suma, aceitar esta noção de família e reconhecer a idéia de dinâmica é fundamental para se evitar o risco de estabelecermos classificações rígidas, de base morfológica, que perdem justamente a capacidade de entender a inserção das unidades familiares na economia e na sociedade, captando a sua flexibilidade e vulnerabilidade. No entanto, essa dinâmica não pode ser entendida meramente como um conjunto de condições de ordem econômica, cultural e política que determinariam rigidamente o espaço da agricultura familiar. Do nosso ponto de vista, é necessário levar em conta a dinâmica interna, atribuída pelo próprio caráter familiar da organização social, que possibilita a essa forma social uma certa margem de autonomia na formulação das estratégias reprodutivas e na articulação com as condições externas. É importante enfatizar que a idéia de autonomia não implica a formulação consciente das estratégias a serem implementadas pelo grupo familiar nem a independência em relação às condições internas. Mas, diferentemente do trabalhador assalariado, a unidade familiar de produção, por ser sustentada pela íntima relação entre relações de trabalho e laços de parentesco, apresenta maior margem de negociação interna na elaboração de caminhos alternativos de reprodução social. É nesse contexto que o recurso a práticas pluriativas deve ser entendido.
A unidade familiar, entidade eminentemente plástica e mutante, tem a capacidade de elaborar novas estratégias para se adaptar às condições econômicas e sociais. Esses rearranjos que, não raro, dialogam com a tradição -- rejeitando-a ou revalorizando-a - não se limitam ao plano das relações observáveis empiricamente e, repito, também não são frutos de uma deliberação individual. Novos valores podem ser formulados ou antigos valores serem resgatados (como a revalorização da vida rural e da natureza ou como a noção de liberdade associada ao trabalho por conta própria, por exemplo) na busca de respostas a crises familiares.
Rompendo com a abordagem morfológica, propõe-se construir uma tipologia voltada para a análise dos processos sociais, centrada na identificação da lógica de reprodução social e nas de diferentes estratégias sociais implícitas. Trata-se, portanto, de dimensionar a capacidade específica das unidades familiares em implementar trajetórias sociais ascendentes ou descendentes. A partir de então, formular projetos que sejam adaptados às necessidades e potencialidades de cada unidade em particular.

A família como universo de observação
A decisão de privilegiar a unidade familiar como universo de análise e não a unidade de produção, se justifica pelas seguintes razões:
1. A família desempenha a função de agente integrador das relações sociais que se desenvolvem no interior dos estabelecimentos de agricultura familiar;
2. A qualidade das relações sociais que são integradas e integradoras da família agrícola é muito diversa, mas é nas interrelações entre os domínios do parentesco - hierarquia e significados - e do trabalho que se encontram os principais sistemas de relações que articulam e estruturam os indivíduos na unidade familiar e na de produção. No entanto, é importante ter em mente que a família - locus de produção e de reprodução de valores - integra relações sociais cujos significados não podem ser reduzidos à lógica do parentesco, à racionalidade econômica ou à divisão do trabalho. Entende-se que a unidade familiar não se limita ao grupo de pessoas formado por laços de aliança ou de consangüinidade, mas que deve ser percebida como um valor (próximo a um "sentimento de identidade") que integra seus membros, dando sentido às suas relações, e informa as estratégias coletivas e individuais.
A dificuldade de separar, em termos analíticos, os princípios que orientam as relações de trabalho e os laços de afetividade ou de solidariedade que conformam as unidades familiares já foi assinalada por diversos autores2. A tendência a se reduzir as relações de trabalho aos laços de parentesco é bastante comum nas análises que privilegiam a unidade de produção como foco de observação e de compreensão, o que resulta, normalmente, na busca da funcionalidade econômica dos laços de parentesco, como se um sistema de relações pudesse ser reduzido à lógica do outro. Ao se limitar todos os demais princípios e regras que orientam a prática social à racionalidade econômica, reduz-se também a capacidade de captar as múltiplas racionalidades coexistentes no interior do universo familiar (Neves, 1993). Na intenção de evitar esse reducionismo, cabe ao pesquisador elaborar a distinção analítica entre essas duas esferas do social e buscar, simultaneamente, a lógica que os une no interior do grupo doméstico, sem diluir as diferença entre o que é da produção e o que é da família.
3. A escolha da unidade familiar (e não da unidade de produção familiar) como unidade de análise permite identificar as relações (de força entre os agentes sociais situados diferentemente na esfera do parentt!sco ou da produção. Em um contexto de mudança, será possível, por exemplo, através de uma análise qualitativa, identificar a influência dos valores familiares sobre o comportamento dos indivíduos em suas práticas econômicas fora da família, como é o caso das práticas pluriativas (Cameiro, 1998).
Portanto, eleger a unidade familiar, ou o grupo doméstico, como unidade de observação, revela-se um procedimento fundamental para a compreensão das transformações recentes no campo brasileiro onde o aumento das atividades não-agrícolas, articuladas ou não à agricultura, exige um maior grau de complexidade da análise.
Sendo assim, é importante considerar que a análise das unidades familiares de produção agrícola deve contemplar dois aspectos: de um lado as relações entre os indivíduos e, de outro, os valores que dão sentido a essas relações, já que, como toda relação social, as relações familiares (seja na esfera do parentesco seja na da produção) incluem uma parte ideal, de pensamento ou de representação, que informa as atitudes e comportamentos (Godelier, 1984 e Moreira, 1997). Tais valores conformam uma tradição que é acionada na formulação das estratégias familiares orientando as escolhas coletivas e informando os projetos individuais possíveis.

Agricultura familiar como conceito
A trajetória, ainda curta em termos temporais, do conceito de agricultura familiar, é extensa em termos bibliográficos expressando o intenso debate sobre as características empíricas e o estatuto teórico dessa "nova" categoria de análise3.
Apesar das divergências quanto os princípios definidores, é possivel reconhecer um consenso: por agricultura familiar entende-se, em termos gerais, uma unidade de produção onde trabalho, terra e família estão, intimamente relacionados. A partir desse ponto comum, as discordâncias e nuances levantadas apontam para as limitações dessa noção que acaba por englobar em um único conceito uma grande variedade de agricultores, não sendo possível reconhecer um referencial empírico homogêneo (Moreira, 1998). Trata-se de uma noção ampla que inclui um grau de ambigüidade elevado por integrar em um único rótulo grupos sociais bastantes heterogêneos e princípios definidores divergentes. Nesse sentido, não seria adequado identificar o agricultor familiar a uma classe social, como resultado de um processo de diferenciação social onde o termo agricultor familiar seria atribuído à exploração modema, com base no trabalho familiar, orientada pela lógica empresarial capitalista, em oposição ao camponês;. tido como uma categoria social do passado e não capitalista.
Não se trata aqui de repetir o debate que se estendeu da década 70 até a atualidade sobre o caráter capitalista ou não-capitalista das relações familiares de produção. Porém cabe ressaltar, como diversos autores já enfatizaram, a complexidade do processo de diferenciação promovido pela intensificação da exploração capitalista na agricultura (e mesmo em contextos urbano-industriais), alertando para a diversidade inerente a esse processo, onde, na maioria das vezes, prevalece a coexistência de tendências contraditórias. Cabe reter que a expansão de formas capitalistas de produção na agricultura não conduz, obrigatoriamente, à extinção de unidades de produção familiares (pequenas ou médias) nem à sua transformação em uma única forma de produção. Esta dinâmica inclui uma diversidade de trajetórias que supõe uma adaptação contraditória às novas condições de produção. Este processo de adaptação pode implicar a formulação de novas estratégias para formas de produção já estabelecidas ou simplesmente uma nova combinação dos mecanismos já existentes visando a manutenção seja da exploração agrícola, seja do património familiar ou seja a reprodução do grupo doméstico. Nesse sentido, as análises de processos sociais concretos não devem privilegiar uma outra tendência mas dar conta da diversidade de possibilidades.

Sintetizando, podemos destacar algumas tendências nas análises da agricultura familiar.


1. Como já nos referimos acima, as análises têm normalmente, privilegiado como unidade de observação as unidades de produção, centrando na relação entre o produtor e o mercado e nas suas condições de responder às suas demandas. A classificação é feita levando em conta a capacidade de competitividade da unidade de produção que se traduz em taxas de rentabilidade e de produtividade alcançáveis pela absorção de tecnologia e de saberes tidos como "modernos". Já apontamos em outro lugar as implicações do caráter excludente desta análise que acaba por selecionar como agricultores "viáveis" um número reduzido de produtores que se enquadra nessa perspectiva produtivista, deixando de lado uma grande massa considerada, em termos oficiais, como "atrasada", "marginal" ou "periférica" (Carneiro, 1997 e 98).
2. Predomina nas análises centradas na unidade de produção um viés reducionista onde a lógica das relações sociais em todos os demais domínios do social é reduzida à lógica do econômico, transformando o agricultor no hommo econômicus cujas atitudes seriam movidas exclusivamente pelas necessidades do processo produtivo objetivo e da sobrevivência física. Como decorrência desse tipo de abordagem surge a noção de agricultura de subsistência em oposição à agricultura integrada ao mercado, ou "capitalista". A associação entre subsistência e autoconsumo já foi amplamente criticada mas não é demais lembrar que não existe, hoje no país, agricultor (ou camponês) que não esteja vinculado ao mercado. Mesmo o seu consumo familiar e a sua produção tida como de "subsistência" são parcialmente mercantilizados. A relação com o mercado não pode, portanto, servir de critério classificatório, a não ser em termos relacionais onde a natureza do vínculo com o mercado pode oferecer informações sobre o tipo de estratégia das famílias no que diz respeito à atividade agrícola.
3. Distinguindo-se da orientação acima, destaca-se a abordagem que orienta o foco de análise para as dinâmicas de reprodução social e econômica das unidades familiares a partir da noção de estratégias familiares formuladas para esse fim, levando em conta as relações não especificamente econômica que interferem no funcionamento das unidades produtivas, sobretudo as de parentesco e as de ordem moral. Esse tipo de análise parte da consideração da unidade produtiva e o mercado como domínios descontínuos valorizando a especificidade das relações que aí ocorrem, no entanto com o risco oposto, de reduzir à vontade individual a responsabilidade pela estruturação das relações sociais (Neves, 1993).

Agricultura familíar e política pública: o Pronaf
O debate atual sobre a noção de agricultura familiar foi intensificado devido a um fato político: a,opção do govemo de eleger essa forma de produção agrícola como protagonista do desenvolvimento rural, baseando-se em análises que atribuem à agricultura familiar condições mais favoráveis de competitividade quando comparada à agricultura patronal no que se refere aos rendimentos físicos obtidos e mesmo à capacidade de empregar mão-de-obra (Veiga, 1994 e FAO-INCRA, 1994). Reconhece-se assim a potencialidade competitiva da produção agrícola familiar, e elege-se como público-alvo os agricultores chamados "em transição”4, ou seja aqueles que apresentariam potencialidade de serem transformados em "empresas familiares viáveis", através da incorporação de tecnologia e de uma racionalidade econômica voltada para as demandas do mercado.
A capacidade competitiva da agricultura familiar e sua eficiência em determinados setores já foi demonstrada em vários estudos (Wilkinson, 1997) e confirmada pelos próprios critérios de seleção do público meta do Pronaf (Programa Nacional de Apoio à Agricultura Familiar).
Como enfatizamos acima, em termos conceituais, "agricultura familiar" ou "produção familiar" abrange uma gama variada de agricultores que vai desde a agricultura de subsistência à monocultura tecnificada, orientada exclusivamente para as demandas do mercado. No entanto, com o objetivo de compreender a implementação de políticas públicas - como é o caso da classificação de agricultores familiares em "viáveis", "em transição", e "não-viáveis", fundadora da perspectiva de intervenção do Pronaf - cabe definir o tipo de agricultor familiar que será beneficiado pelas limitadas verbas públicas. Dentro desse contexto, devemos, inicialmente, esclarecer (e redefinir) os objetivos dessa política.
Uma visão naturalizada da agricultura familiar como "atrasada" mas "com potencialidade" tem levado à formulação de propostas políticas que se limitam à modernização tecnológica e ao acesso à informação sobre o mercado e formas "modernas" de produção. Partindo da premissa de uma maior eficiência produtiva dessa forma de produção que não desenvolveu todo a sua potencialidade, orienta-se as propostas políticas ao segmento que apresenta melhores condições (materiais e subjetivas) de superar esse atraso. Esta abordagem que pressupõe a integração dessas unidades à economia limitada apenas ao mercado, tem duas implicações. Primeiro, exclui da participação na economia e na sociedade todo um segmento de pequenos agricultores considerados "sem potencialidade para o progresso". Segundo, associa a competitividade dos demais (os viáveis) à natureza intrínseca da agricultura familiar na medida em que esta forma de produção não incorporaria nem a renda da terra nem os lucros da produção. Portanto, ainda que seja exigido da agricultura familiar uma participação decisiva no desenvolvimento econômico do país, as análises não esclarecem qual seria a capacidade de apropriação do valor produzido pelos próprios produtores. Algumas análises discordantes, têm demonstrado que os baixos custos propiciado pela agricultura familiar moderna não se devem, necessariamente, a uma maior eficiência produtiva ou a uma maior produtividade, da mesma maneira que não se pode atribuir esses baixos custos à "irracionalidade econômica camponesa". Tanto em um caso, quanto em outro, estes baixos custos se devem também à sua situação de proprietário-trabalhador e trabalhador por conta própria: " 'pequenos' na ordem competitiva. Os custos são baixos porque são 'pequenos' em mercados imperfeitos e, como tal, têm um espaço social e econômico de integração restringido" (Moreira, 1997).
Moreira chama a atenção ainda para a necessidade de se precisar a noção de competitividade para os mercados agrícolas. "Pode-se afirmar que os mercados poderiam ser considerados competitivos entre os produtores agrícolas. Mas se considerarmos que do outro lado do mercado estão grandes capitais - na esfera financeira, na esfera dos insumos industriais para o setor agrícola e na esfera da agroindústria, por exemplo-, esses mercados certamente não poderão ser considerados competitivos" (Moreira, 1997).
Ora, essa questão é de fundamental importância para discutirmos a situação da agricultura familiar no desenvolvimento econômico do país, Particularmente, no que se refere ao Pronaf.
Um desvio nos objetivos do Programa é atribuído, em parte, à escolha errada dos municípios a serem beneficiados pelo Pronaf-lnfra-estrutura (Abramovay e Veiga, 1998). A seleção de municípios com maior índice de pobreza rural teria impedido que se atingisse a camada de agricultores mais preparada para desenvolver uma agricultura competitiva, portanto, resultando em um insucesso do política. Na interpretação desses autores, no lugar de selecionar os agricultores com capacidade de oferecer melhores garantias reais ao bancos e contrapartidas, além de capacidade de desenvolver uma produção com base em critérios de eficiência definidos pela competitividade, acabou-se, por imposições de ordem política, selecionando-se os mais pobres, o que teria sido, em parte, a causa do desvio nos objetivos desejados: limitou-se à possibilidade de se estimular a competitividade daqueles agricultores considerados "mais aptos" e não foi possível integrar ao mercado, de maneira "eficiente", os agricultores pobres beneficiados.
Associando progresso técnico ao aumento da capacidade produtiva e à imagem do agricultor viável, essa política assegura um enquadramento técnico-ideológico do agricultor familiar que se toma referência para implementação de metas e, sobretudo, um critério para a avaliação da eficácia das medidas adotadas e do desempenho do próprio agricultor.
Sustentada na imagem do "verdadeiro agricultor" - um profissional que seja capaz de sobreviver e reproduzir-se socialmente sustentado exclusivamente por uma única atividade econômica - essa política de valorização da agricultura familiar acaba por eleger um único tipo de agricultor - identificado à imagem de uma agricultura "modema", especializada -como o modelo do tipo de agricultura a ser estimulada no país. Torna-se evidente uma percepção evolucionista (e dualista) de mudança social que opõe a tradição à modernidade. A "tradição", sempre identificada ao atraso, ao não competitivo, ao "irracional".
Pensar o agricultor como "um profissional como outro qualquer", significa enquadrar o agricultor em um padrão calcado nos mesmos parâmetros do trabalhador urbano. De fato implica negar, ou não levar na devida consideração, os componentes culturais dos estilos de vida dos agricultores familiares que normalmente se associam a práticas econômicas diversificadas (Carneiro, 1997).
Vemos que, ao centrar a atuação do Pronaf no estímulo à conipetitividade, o governo estaria não apenas excluindo um grande contingente de produtores classificados como inviáveis economicamente ou inadequados em termo da infraestrutura disponível, como estaria também correndo o risco de desperdiçar recursos. Os critérios de exclusão são fortemente sustentados nas noções ideológicas de "verdadeiro agricultor" e de "competitividade". Estão, portanto, excluídos todos aqueles que, por motivos variados (natureza sazonal da atividade agrícola, impossibilidade de aproveitar, na produção, a totalidade de obra familiar disponível, oferta de emprego na região em situação mais favorável, que a agricultura, redirecionamento dos projetos familiares ou individuais de forma a incorporar novos rendimentos e ampliar a capacidade de consumo, entre outros) são levados a desempenhar atividades não-agrícolas ou a exercer uma forma de agricultura que não seja orientada pelos padrões de produtividade e de rentabilidade exigidos pelo modelo modernizador assumido pelo Pronaf.
Experiências de outro países, sobretudo da França, que vive hoje o esgotamento de um modelo de modernização agrícola semelhante, nos revelam que muitos estabelecimentos agrícolas foram "competentes" e "eficientes" ao desenvolverem um tipo de produção que não corresponde aos padrões estabelecidos pela política modernizadora, demonstrando um excepcional capacidade de adaptação às novas exigências. Por outro lado, um número expressivo de agricultores modernos enfrentam uma crise decorrente das dificuldades crescentes em manter as exigências do mercado em uma situação de superprodução e, conseqüentemente, de preços decrescentes dos produtos agrícolas. Essa crise se expressa não só em termos econômicos (relação entre custo da produção e preço do produto) mas também em termos sociais causada pela inexistência de um sucessor (os filhos se recusando a seguir o mesmo padrão de vida e de produção dos pais)5
Neste sentido, instituir o "verdadeiro agricultor" como aquele que aufere a renda familiar quase exclusivamente da atividade agrícola6 implica excluir a possibilidade de combinar a agricultura com outras fontes de renda que, em alguns casos, são indispensáveis à continuidade da própria atividade agrícola ou representam uma maneira de aumentar a capacidade de consumo, ou de se manter no campo em condições mínimas de cidadania.
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