Agricultura orgânica como contribuiçÃo para um meio ambiente sustentavel



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AGRICULTURA ORGÂNICA COMO CONTRIBUIÇÃO PARA UM MEIO AMBIENTE SUSTENTAVEL

JOSÉ ANDRÉ VILLAS BÔAS MELLO

Doutorando - COPPE - UFRJ

e-mail: joseavbm@coc.ufrj.br


RESUMO

O uso inadequado e cada vez mais intensivo de insumos industrializados (agrotóxicos e fertilizantes) nos meios de produção agrícola tem proporcionado vários fatos negativos, tanto com relação à saúde dos profissionais do ambiente agrícola quanto com a degradação dos solos, da fauna e da flora. Diante deste quadro, a agricultura orgânica passa a ganhar força, pois se caracteriza como um setor que utiliza modelos alternativos de produção, com a minimização da intervenção industrial sobre sua estrutura de produção.

Este artigo pretende destacar o cenário brasileiro de evolução do cultivo alternativo de alimentos orgânicos, bem como analisar a situação do setor no estado do Rio de Janeiro, destacando algumas perspectivas mercadológicas.
PALAVRAS CHAVES

Gestão Ambiental, Agricultura Orgânica, Alimentos


MEIO AMBIENTE E MEIOS DE PRODUÇÃO

Ao longo dos anos 80, surgiram movimentos ecológicos que intensificaram os questionamentos a respeito dos impactos da produção agrícola moderna sobre a natureza. Estes foram os pilares de sustentação para a criação na década de 1990, de novos conceitos de melhoraria na consciência do consumidor e do produtor, que ao consumirem e produzirem produtos naturais, buscam ganhos relevantes quanto a qualidade e lucratividade.

Esta modificação na forma de interpretação da relação entre os elementos da natureza e o modelo produção/consumo, implica em uma reconstrução metodológica, têm possibilitado um novo entendimento sobre o conceito de esgotamento nutricional do solo, pois cria condições favoráveis para a recuperação produtiva de regiões, que foram esgotadas pelo padrão de modernidade caracterizado pela “Revolução Verde”.

A progressiva adaptação deste modelo em regiões de natureza devastada, têm possibilitado o fortalecimento de sistemas de produção familiar, que foram historicamente prejudicadas pelos avanços de dependência técnica, proporcionada pelo novo modelo estabelecido na segunda metade do século XX.

O estabelecimento de novos padrões de produção criou um processo de busca por tecnologias e processos que sejam apropriados ao atendimento dos segmentos de demanda por alimentos mais saudáveis. Na verdade, esses produtos nunca deixaram de existir, o que aconteceu é que eles deixaram de estar posicionados comercialmente, e consequentemente tiveram uma significativa redução de suas áreas de cultivo. O contexto destas mudanças têm auxiliado à qualquer produtor interessado, no acesso de oportunidades em nichos de mercado, com maior valor agregado e que sejam pouco, ou ainda não explorados.

A inexistência de barreiras no acesso e a instabilidade da produção moderna quanto aos preços e aos círculos viciosos na utilização de agroquímicos, incentiva a migração de pequenas unidades de produção para os segmentos de agricultura alternativa. As características básicas deste segmento de produção, onde ocorre a diversificação de culturas e o acesso à mercados mais interessantes, viabiliza economicamente e socialmente as pequenas séries de produção especializadas das unidades familiares.

A produção alternativa pode proporcionar aos pequenos produtores, tanto a sustentabilidade da unidade, devido aos métodos de manejo mais naturais, quanto a oportunidade comercial, em função dos mercados ainda em expansão e com baixas barreiras tarifárias. As perspectivas comerciais aliadas às iniciativas políticas têm incentivado a formação de modelos que proporcionam a elevação da capacidade produtiva, a criação de empregos e a melhora na renda, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida e a ampliação do exercício da cidadania por parte dos agricultores familiares.

“Trata-se, sim, de um novo ambiente produtivo, concebido a partir de uma reação ao modelo degradante até então em vigor. Esse novo ambiente caracteriza-se pela convivência com todo o arsenal tecnológico desenvolvido ao longo do tempo e com um mercado consumidor mais numeroso, disperso, ávido por praticidade e agilidade e que eleva o conjunto de exigências em relação ao processo produtivo” (VILELA, 1999, p.47)

A percepção do consumidor tende a distanciar seu sentimento de agregação do valor no momento primário da produção, devido principalmente, a necessidade de agilizar o seu fornecimento, seu processamento e o seu consumo com o menor dispêndio de tempo e trabalho possível. Há assim um deslocamento entre oferta e demanda de produtos agrícolas, através do alongamento da cadeia de produção e distribuição. Entre ambos, há um grande número de agentes comerciais e de empresas de serviço, compartilhando a tarefa de transformar e transportar a produção aos mercados de consumo específico.

Sabe-se que cabe aos agricultores buscar posição competitiva para atingir seus objetivos de mercado, adequando os sistemas produtivos e de distribuição convencionais para ofertar seus produtos. A simples tendência de reversão aos métodos naturais de produção, não significa o sucesso comercial. Caso não haja um pré-contrato com algum grande fornecedor/distribuidor, é necessário desenvolver centros de comercialização, que consigam captar e diferenciar um mercado em grupos distintos de compradores com diferentes necessidades e respostas, retirando a heterogeneidade do mercado e subdividindo-o em menores parcelas com características semelhantes.

CONTEXTO MUNDIAL DA AGRICULTURA ORGÂNICA

A agricultura orgânica tornou-se presente na pauta de produção de vários países, apresentando ao longo dos últimos anos elevadas taxas de crescimento. Isto fez com que não só Japão, América do Norte e Europa, ampliassem seus segmentos de produção e consumo, mas também que vários outros países da Oceania e da América Latina evoluíssem nesta direção em busca de oportunidades de mercado. (Willer & Yussefi, 2001)

De acordo com Willer & Yussefi (2001) há aproximadamente 24 bilhões de hectares no mundo manejados organicamente, onde a área de maior representação é a da Oceania, com quase 50% de toda a área orgânica do mundo. Outras grandes áreas de representação orgânica são a América Latina e a Europa, que juntas, compõem outros 43% de área orgânica sobre o total.

CONTEXTO BRASILEIRO DA AGRICULTURA ORGÂNICA

No decorrer da década de 1970, a agricultura tradicional brasileira incorporou maciçamente técnicas modernas de produção, com a introdução de máquinas agrícolas, insumos e sementes. Este movimento ocorreu de forma uniforme, muito em função de terem sido adotados no Brasil as técnicas e insumos da Revolução Verde. Isto fez com que fosse criada uma verdadeira reorientação de processos produtivos, fazendo com que tivessem início desequilíbrios ecológicos e sociais.

Estas profundas alterações na base produtiva brasileira esclarece parte da evolução e do direcionamento observados na agricultura brasileira. Observa-se no gráfico 8, um aumento de mais de 500% no uso de NPK em um período de 10 anos, a agricultura pulou do consumo de 630 mil toneladas de NPK do período de 1969 / 1970 para o consumo de 3.535 mil toneladas de NPK do período de 1979 / 1980.

Em meio à consolidação do novo conceito de agricultura, observou-se na década de 1970, iniciativas isoladas que chocavam-se ao modelo produtivista agrícola adotado a partir da Revolução Verde. Um movimento, que tinha como premissa fundamental a produção de alimentos orgânicos foi movido por iniciativas individuais, e somente em fins dos anos 90, que o governo federal interviu favoravelmente ao sistema de produção orgânico. Até então, sempre tentou desenvolver mecanismos de proteção ao sistema de produção agrícola nacional, sem dar a devida atenção ao orgânico, que em linhas gerais, desenvolveu-se sem as técnicas disseminadas a partir da Revolução Verde.

O movimento surgiu desvinculado do setor público, quando a agricultura orgânica era vista, tanto como um idealismo de naturalistas que cultivavam a própria horta por se recusarem a comer hortaliças e legumes produzidos com adubo químico e agrotóxicos, quanto sendo considerada um retrocesso, uma volta ao passado. Porém, a evolução dos mercados demonstrou um modelo viável de produção, baseado em novas tecnologias, que atendem aos princípios de produtividade, rentabilidade, qualidade e difusão do conhecimento.

ASSIS (1993) afirma que o desenvolvimento da agricultura orgânica no cenário nacional ocorreu, baseado na experimentação, tentativa e erro dos produtores não rurais (indivíduos de áreas urbanas), que buscavam novas técnicas produção de alimentos que garantissem um novo estilo de vida, tanto em relação à saúde humana, quanto em relação à qualidade e saúde do meio-ambiente utilizado nos sistemas de produção agrícola. Estava assim, configurado um cenário que tinha de um lado um movimento em evolução e com cada vez mais adesões, tanto do setor de produção, quanto das principais camadas de consumo.

Os principais incentivadores desta mudança de cenário foram as associações de produção, as cooperativas de consumo, e algumas organizações não governamentais, que configuraram-se a partir da década de 1980, nos verdadeiros orgãos de fomento da agricultura orgânica no país. Estas organizações serviram de apoio para os poucos agricultores que se propunham a arriscar uma adesão em um sistema de produção um tanto desconhecido, e de difícil controle biológico e com poucas oportunidades de negócio.

Em fins da década de 1990, a formalização da intensão de apoio, com a instrução normativa nº07, auxiliou na transformação e expansão da agricultura orgânica, que deixa de ser tratada exclusivamente com foco comercial marginal, para se tornar aos poucos em uma tendência de apelo comercial, atendendo uma demanda de mercado que não tinha acesso da escolha por tais produtos, deixando assim, de estar sendo comercializados somente via cestas, entregas à domicílio e lojas de produtos naturais, para também ser comercializado nos supermercados.

Ao longo do processo, o setor enfrentou momentos de dificuldade, tendo em muitos casos que associar-se para a aquisição de insumos, para o beneficiamento, e até mesmo para a comercialização dos produtos. Estabeleceu-se padrões, tais como o de que o produto orgânico deveria ser menor e em muitos casos mais feio. Isto era disseminado, principalmente por não haver tecnologia apropriada à adequação de padrões globais de consumo. Como o mercado era restrito às pessoas que realmente se interessavam pelos produtos orgânicos, chegando em muitos casos a se deslocar alguns quilômetros para realizar suas aquisições em feiras específicas, acreditava-se que tudo que fosse produzido em tais padrões seriam consumidos pelo mercado. Não havia então, a intenção de se atender aos padrões de aparência estabelecidos pela demanda de mercado. No caso da agricultura orgânica, tudo era aproveitado. Se não fosse na comercialização, poderia ser utilizado, por exemplo, na compostagem e/ou na alimentação dos animais. (ASSIS, 2001)

A utilização dos supermercados como canais de distribuição de produtos orgânicos, demandou uma melhor organização por parte dos agricultores e associações de produtores, porque é exigido uma maior padronização, e além de tudo devem ser abastecidos de todo o mix de produtos consumidos pelo mercado. Assim, a exigência dos supermercados quanto à promessas de entrega e qualidade dos produtos ganha destaque e exige a especialização dos agricultores que queiram manter-se com este canal de distribuição. (ASSIS, 2001)

Segundo Neves et al (2001), a produção orgânica se desenvolveu, tendo como “mercado alvo”, os consumidores do mercado interno. Pode-se citar como principais momentos que alavancaram a produção orgânica no país:

 A criação em 1972 em São Paulo da estação Demétria;

 A criação em 1978 e 1979, de cooperativas de consumidores, tais como a Coolméia e da Associação Harmonia Ambiental COONATURA, respectivamente no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro.

 A realização do 1º e do 2º Encontros Brasileiros de Agricultura Alternativa (EBAA) realizados em 1981 e 1984 nas cidades de Curitiba-PR e Petrópolis-RJ.

 A criação de organizações que alavancaram o movimento no Brasil: a associação Mokiti Okada, em 1979; a AAO, em 1989; o IBD, em 1984; a ABIO, em 1985.

O desenvolvimento da agricultura orgânica no país tem evoluído de forma considerável, isto pode ser notado na tabela 7, que demonstra que em 1977, década de início do movimento orgânico no Brasil, havia apenas 700 agricultores que adotavam tais métodos de cultivo, inexpressivo quando observa-se que em 2000 esse número pulou para somente 4.500 agricultores, porém expressivo ao considerar que em 2001, já havia 12.590 agricultores. Observa-se assim, que no período entre 1977 e 2000, o crescimento foi de mais de 500%, e entre 2000 e 2001, o crescimento foi de 180%, crescimento motivado principalmente pelas novas configurações de mercado que estão se desenhando tanto a nível de mercado nacional, quanto em termos de mercado internacional. Em relação aos hectares utilizados nesta cultura, observa-se um crescimento aproximado de 300%, observando-se um salto dos 60.000, contabilizados em 1999, para os 203.180 hectares, contabilizados em 2001. Segundo tabulação de dados disponibilizados pelas principais entidades de certificação no Brasil, destaca-se culturas de predomínio por região, da seguinte forma:

• Região Norte: Palma de Dendê, Urucum, Palmito e Guaraná.

• Região Nordeste: Frutas tropicais, guaraná em pó e laticínios.

• Região Centro-Oeste: Pecuária e Grãos

• Região Sudeste: Frutas, mel, hortaliças, café, açucar e suco de laranja

• Região Sul: Arroz, trigo, milho, soja e erva-mate.

SURGIMENTO E EVOLUÇÃO DA AGRICULTURA ORGÂNICA NO RIO DE JANEIRO

No dia 12 de janeiro de 1979, o JB publicava em sua seção de cartas um manifesto que saiu com o título de “Comida sem veneno”, e que dizia assim: “Esta carta é uma semente. A proposta é criar uma espécie de cooperativa que distribua, para quem se interesse, hortaliças (para começar), produzidas sem inseticidas nem outras químicas por quem tenha fazenda, sítio ou mesmo terreno grande em casa e queira aumentar ou diversificar sua renda, divertir-se e aprender plantando conforme a Natureza e contribuir para melhorar a alimentação dos sacrificados cariocas.”

Esta mobilização uniu indivíduos, que foram convidados a participar de um movimento que tentaria solucionar o problema da contaminação dos alimentos. Em resposta à esta publicação aconteceu um encontro de 400 pessoas, todas desconhecidas entre si, porém com um único e comum ideal. O primeiro passo deste movimento foi dado ao ocorrer a fusão dos participantes à mobilização com a ONG “Harmonia Ambiental”, formando assim, a COONATURA. Em 1981, a Coonatura deu primeiro e pioneiro passo em direção à produção de alimentos ecológicos, alugando o sítio Semente no Brejal, região de Posse, distrito de Petrópolis, estado do Rio de Janeiro.

Surge assim no início da década de 80, um grupo de produtores localizados na vizinhança próxima dos municípios de Nova Friburgo e Teresópolis, e que foi responsável pela introdução dos conceitos de agricultura orgânica no Estado. “Esse grupo formado principalmente por indivíduos do meio urbano, possuía nível superior, não tinha a agricultura como principal fonte de renda, e era caracterizado pela preocupação com a qualidade do produto que o mercado consumidor estaria adquirindo e com os impactos da contaminação durante o cultivo” ABIO(2002)

As iniciativas deste grupo, serviram de base para a criação do que pode ser caracterizado como a primeira associação de produtores orgânicos no país. Assim, em 1985, foi criada a ABIO - Associação de Produtores Biológicos do Estado do Rio de Janeiro, fundada com o objetivo de difundir a agricultura orgânica e a agroecologia, apoiando, através da cooperação e do associativismo, os agricultores orgânicos, nas suas atividades de produção e comercialização, certificando os alimentos orgânicos produzidos por seus associados, e fornecendo-lhes o Selo de Certificação ABIO.

O credenciamento dos produtores é feito através de entrevistas, questionários, termo de responsabilidade e rotineiras visitas de inspeção, de acordo com normas e critérios definidos em seu manual técnico de produção. Quando a ABIO iniciou suas atividades de certificação, as visitas ocorriam a cada 6 meses, atualmente suas normas exigem visitas anuais. Para o agricultor ser certificado pela ABIO, é exigido que ele se torne um associado produtor, arcando assim, com alguns custos padrões. ABIO (2002)

Há custos, porém “o preço do produto convencional oscila muito, o orgânico não. A distribuidora tende a não flutuar seu preço. O agricultor costuma receber em média por um molhe de verde R$0,42, e R$0,48 por um molhe de alface” (ABIO, 2002). Assim, torna-se uma vantagem estar comercializando em um segmento de mercado onde o preço do produto vendido possui pouca ou até mesmo nenhuma oscilação.

Os agricultores que optarem pela agricultura orgânica, além de obter vantagens quanto a não oscilação de preços, posiciona-se em um segmento de mercado que se propõe a pagar a mais pelo seu alimento.

Em 1999, os produtos orgânicos nos supermercados do Rio de Janeiro registravam uma diferença de preços muito grande (de 5% a 168% a mais), quando comparados aos seus similares convencionais. E nas feiras, esse diferencial chega a ser de 30%, em média. (LISBOA, 2000)

Dados os benefícios, é importante ter ciência que para se integrar neste grupo não basta apenas deixar de usar agrotóxicos e adubos químicos, mas existem no caso da ABIO alguns princípios gerais para a prática da agricultura orgânica:

1-tratar o solo como um organismo vivo, protegendo-o da erosão e fornecendo-lhe matéria orgânica;

2-nutrir as lavouras através desse solo vivo, suplementando-o com materiais naturais, de acordo com as necessidades das plantas;

3-tornar as plantas resistentes à pragas e doenças e, só em último caso, lançar mão de extratos e caldas, defensivos elaborados com elementos naturais de baixa ou nenhuma toxidade;

4-utilizar água de boa qualidade na irrigação das lavouras e na higienização dos produtos;

5-respeitar a natureza dos animais, proporcionando bem-estar às criações através de alimentação e tratamento adequados.

A ABIO difunde a prática de uma agricultura capaz de reverter, em termos globais, a tendência à destruição dos recursos naturais promovida pela agricultura convencional - grande utilizadora de energia e insumos não renováveis. “O que se busca é a autonomia do pequeno produtor, aquele que é o grande responsável pela produção de alimentos e que vem sendo eliminado por um modelo tecnológico que impõe o uso de insumos de alto custo, a produtividade a qualquer preço e o lucro imediato como único parâmetro de eficiência”. (ABIO, 2001)

Selig apud Fonseca (2000) define que a estratégia para manter a qualidade está estruturada sobre dois pilares, um central, composto por uma comissão técnica, apoiada por profissionais experientes, e outra local, composta por gerentes de núcleo, que passam a representar a região no conselho diretor. Esta estrutura de núcleos, foi criada para dar significado de opinião aos produtores por região. Sua formação se dá com a existência de pelo menos 5 agricultores em uma mesma região, o que possibilitou uma maior aproximação da diretoria da ABIO com seus associados, já que todo núcleo indica um representante para o conselho diretor. Esta estrutura descentralizada, atua através de núcleos de produtores como: o de Nova Friburgo, o de Teresópolis, o de Brejal, o de Petrópolis, e o de Seropédica, e outros.

Atualmente, existem 2.485 hectares sendo cultivados com produtos orgânicos entre todos os núcleos certificados pela ABIO. Para a composição dos 3.100 hectares informados pela ABIO, como área total certificada no Rio de Janeiro, existem outros 615 hectares, que se direcionam à uma estratégia de pousio de culturas.

Entre as principais culturas orgânicas cultivadas no Rio de Janeiro no final de 2001, destacam-se os hortigranjeiros, o caqui, o café, os citros e a banana. Há de se notar que a produção agrícola do Rio de Janeiro também possui outras culturas extremamente atrativas para a produção orgânica, pode-se citar os casos do tomate e do maracujá alimentos muito consumidos no Brasil, com o nosso estado contribuindo com mais de 5% da produção total nacional. Um número curioso, é que a agricultura permanente do Rio de Janeiro, mesmo tendo algumas culturas de grande relevância no cenário nacional, possui baixa participação quanto se trata de alimentos orgânicos, oportunidades ainda não exploradas, mas que poderiam ser tratadas como estratégia de criação de valor para diversos agricultores.

PRINCIPAIS CULTURAS PERMANENTES CULTIVADAS NO RJ

Cultura % Produção Brasil em 2000 % Produção Brasil em 2002

Caqui

7,70%

13,05%

Maracujá

5,10%

8,67%

Tomate

6,40%

3,66%

Tangerina

4,00%

3,66%

Urucum (semente)

4,00%

3,41%

Goiaba

2,10%

3,27%

Limão

3,60%

2,93%

Batata - doce

3,70%

2,75%

Banana

3,00%

2,75%

Côco-da-baía

2,60%

2,65%

Pêra

1,30%

1,27%

Fonte: Adaptado de SIDRA 2002 / Produção Agrícola Municipal 2000 / IBGE.

Conforme relato de ASSIS (1993), “...no ano de 1991 haviam 60 produtores associados na ABIO...esse número se reduziu para 38 em agosto de 1991, e no ano de 1992 somente 17 associados continuavam ativos, eles localizavam-se espalhados por 11 municípios no estado do Rio de Janeiro.” Já Fonseca (2000, p.156) registrou em 1997 apenas 12 agricultores produtores associados na ABIO, número que elevou-se para 74 agricultores associados em 1999.

Em 1998, formou-se a Rede Agroecologia Rio, projeto que surgiu a partir de uma chamada da FAPERJ/FINEP para financiamentos de redes cooperativas de pesquisa, e que tinha como principal característica a necessidade de participação das instituições que atuassem na linha de frente com os agricultores.

A Rede foi criada com um tema principal, a geração e a difusão de conhecimento em práticas de agricultura agroecológica, possibilitando a potencialização de recursos ao unificar a organização da agricultura. Os objetivos gerais desta, são: o fortalecimento da agricultura fluminense, em particular da agricultura familiar, permitindo-lhe maior sustentabilidade, melhoria no nível de renda dos agricultores; e ampliando a oferta de alimentos orgânicos no Estado do Rio de Janeiro. Assim, a rede Agroecologia Rio formou-se com o tema de estudo “geração e difusão de conhecimento”, com a participação de sete instituições, cada uma com uma tarefa no projeto, conforme a seguir:

• ABIO: ONG e certificadora de produtos orgânicos no estado.

• AGRINATURA: empresa comercializadora de alimentos orgânicos.

• AS-PTA: ONG especializada na criação de informações e projetos sobre Agroecologia.

• EMATER – RIO: empresa de extensão rural.

• EMBRAPA/CNPAB: empresa federal de pesquisa, cujo centro de pesquisa em agroecologia situa-se no estado.

• PESAGRO – RJ: empresa estatal de pesquisa e extensão no estado.

• UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro): universidade que oferece curso pós-graduação em Agroecologia.

O projeto previa também a capacitação de técnicos em agricultura orgânica, a formação de um centro de referência na geração e divulgação de informações e tecnologias em agroecologia. Uma das grandes contribuições surgiu com o apoio técnico dos profissionais da EMATER, que passaram a reconhecer o método de produção orgânica, como opção tecnológica. Com a evolução do projeto da Rede Agroecologia Rio e do movimento orgânico no Rio de Janeiro, outros agricultores se engajaram no modelo de produção orgânica, fazendo com que este número de associados passa-se a contar com 206 sócios produtores ao final de 2001.

Um fato a ser observado é que para ser efetivamente um produtor orgânico, muitos desafios e barreiras mercadológicas, tal fato cria flutuações quanto ao ser certificado, conforme apontado por informações da ABIO (2004), há 183 associados, tendo a olericultura como principal cultura sendo certificada e produzida no estado.

Fonseca (2000) constatou em um levantamento feito no ano 2000, que 46% dos agricultores orgânicos associados na ABIO, estão cultivando nesta metodologia por pelo menos 3 anos. E que do total de 91 agricultores afiliados cultivando este tipo de cultura, existem 13 que já cultivam há mais de 10 anos.

Nota-se assim uma real tendência pela entrada de novos agricultores neste tipo de cultivo, motivados, segundo Fonseca (2000) pelo fator mercado. Fator não destacado no estudo de ASSIS (1993), no qual a principal motivação era cívica. A princípio os fatores sociais foram os mais relevantes para o primeiro momento de evolução da agricultura orgânica no Estado, mas as vantagens econômicas apresentadas ao longo dos anos passaram a ser um dos grandes fatores motivadores por uma maior atratividade para novos produtores entrantes.

Segundo definição da presidente da ABIO, Monica Bicudo (2002), “...na agricultura orgânica não existe fórmula, mas sim observação”. Neste cenário, a inovação faz parte de um conjunto de instruções adotadas no dia-a-dia da produção, cujo objetivo é a reprodução social dos agentes no novo ambiente rural.

Assim, é fundamental o envolvimento de agricultores, trabalhadores rurais, técnicos das áreas agrícolas, saúde, indústrias, consumidores, institutos de pesquisa e canais de comercialização. Quando todos perceberem a real importância de consumir alimentos orgânicos na construção de um meio-ambiente mais saudável é que haverá cooperação no sentido de promover mudanças nos padrões de consumo e conseqüentemente de produção, com a demanda puxando o ritmo de ofertas.

CONCLUSÃO

A evolução da agricultura predominante teve como um de seus principais elementos determinantes, a crescente utilização de insumos industrializados, tais como tratores, máquinas, implementos agrícolas, fertilizantes, pesticidas, inseticidas, entre outros fatores não naturais que foram incorporados à atividade agrícola.

Em termos de ganhos de produção, os resultados foram consideráveis, mas outros efeitos deste processo também se fizeram sentir. Dentre estes, o desgaste dos recursos naturais, que foram utilizados de forma predatória, a poluição ambiental, o aumento na incidência de doenças nos produtores rurais que fazem uso dos agroquímicos e o risco de doenças para os consumidores dos alimentos provenientes deste processo.

Várias foram as correntes que criticaram os impactos deste modelo sobre a sociedade, porém, tudo que foi defendido na época não se projetou no mercado. Somente a partir da década de 80 é que tais críticas começaram a ganhar destaque, principalmente, em função do movimento ambientalista, que divulga os impactos ambientais negativos de usos indiscriminados de agrotóxicos e outros elementos que agridem a natureza, tornando esta uma questão de responsabilidade social.

É justamente este enfoque que deve ser projetado como elemento de fortalecimento para a mudança cultural necessária para a configuração de um novo padrão de consumo que influenciará diretamente sobre a consolidação do modelo de produção orgânica.

BIBLIOGRAFIA

ABIO. Vários Documentos, manuais de certificação, institucional informativo. 2001.

ASSIS, Renato Linhares de. “Diagnóstico da agricultura orgânica no Estado do Rio de Janeiro e propostas para a sua difusão”. Tese de M.Sc., UFRRJ, Rio de Janeiro, 1993.

FONSECA, M.F.A.C. “A construção social do mercado de alimentos orgânicos: Estratégias dos diferentes atores da rede de produção e comercialização de frutas, legumes e verduras (FLV) in natura no estado do Rio de Janeiro”. Tese de M.Sc., UFRRJ, Rio de Janeiro, 2000.



LISBOA, M. “A união faz a força”. Rumos, Rio de Janeiro, 2000.

VILELA, S.T.U. “Globalização e emergência de múltiplas ruralidades: reprodução social e agricultores via produtos para nichos de mercado”. Tese de D.Sc., UEC, São Paulo, 1999.


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