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DINAMISMO DO AGRONEGÓCIO BRASILEIRO

ELISIO CONTINI


Pesquisador - EMBRAPA

A história econômica brasileira, com suas implicações sociais, políticas e culturais, tem fortes raízes junto ao agronegócio. Foi a exploração de uma madeira, o pau brasil, que deu nome definitivo ao nosso País. O processo de colonização e crescimento está ligado a vários ciclos agroindustriais, como a cana-de-açúcar, com grande desenvolvimento no Nordeste; a borracha dá pujança à região amazônica, transformando Manaus num metrópole mundial, no início do século; mais recentemente, o café torna-se a mais importante fonte de poupança interna e o principal financiador do processo de industrialização.

O progresso do Sul do Brasil também está ligado ao agronegócio. A pecuária domina os pampas; a exploração da madeira nas serras e a agricultura se desenvolve com a participação das várias etnias que compõem o mosaico populacional da região: portugueses, migrantes italianos, alemães, poloneses e outros. Da poupança da agricultura, instalam-se agroindústrias, como a do vinho e dos móveis, da carne bovina, de suínos e aves. De um campo trabalhador e próspero surgem vilas e cidades que concentram serviços mais especializados e irradiam sua influência.

Mas o caminho do sucesso do agronegócio brasileiro e sulista não foi trilhado sem percalços. Gerações passadas, mesmo com grande espírito empreendedor e aventureiro, não dispunham de facilidades de infra-estrutura, como estradas e armazéns; a industrialização dos produtos era realizada em máquinas precárias, como os moinhos coloniais de pedra, os engenhos de cana tocados a força animal; as dificuldades de transporte de produtos agrícolas in natura ou processados dos centros produtores aos centros consumidores. A maioria venceu e como prova aí estão a agricultura moderna, as eficientes agroindústrias e as pujantes cidades do interior, principalmente do Centro-Sul e Centro-Oeste. Alguns sossobraram no próprio campo, outros migraram para as cidades; outros aguardam condições mais favoráveis para mudar de atividade.

A partir dos anos 70, o agronegócio brasileiro entra numa acelerada fase de modernização, com diversificação da produção, aumento da produção e da eficiência, notadamente da terra e da mão-de-obra. O aumento da eficiência da mão-de-obra está relacionada com a mecanização e a disponibilização de energia elétrica. Novas variedades de culturas e pastagens, aliadas a fertilizantes químicos, defensivos e práticas culturais mais eficientes permitem que se produza mais, em uma mesma área. O exemplo mais recente dessa transformação é o soja, que seguido do milho, torna-se o grande desbravador de novas fronteiras agrícolas, principalmente no Centro-Oeste. De uma produção de 1,5 milhões de toneladas, no início da década de 70, atinge a mais de 30 milhões de t., nos últimos dois anos, um crescimento de 20 vezes em menos de 30 anos. À transformação nas culturas de soja e milho, segue-se a espetacular evolução de suínos e aves.

O agronegócio brasileiro compreende atividades econômicas ligadas, basicamente, a: (i) insumos para a agricultura, como fertilizantes, defensivos, corretivos; (ii) a produção agrícola, compreendendo lavouras, pecuária, florestas e extrativismo; (iii) a agroindustrialização dos produtos primários; (iv) transporte e comercialização de produtos primários e processados.

Como serviços auxiliares ao agronegócio incluem-se os financeiros, de pesquisa e assistência técnica. A Figura 1 retrata, esquematicamente, para as lavouras os diversos componentes deste sistema.

O conceito de agronegócio implica na idéia de cadeia produtiva, com seus elos entrelaçados e sua interdependência. A agricultura moderna, mesmo a familiar, extrapolou os limites físicos da propriedade. Depende cada vez mais de insumos adquiridos fora da fazenda e sua decisão de o que, quanto e de que como produzir, está fortemente relacionada ao mercado consumidor. Há diferentes agentes no processo produtivo, inclusive o agricultor, em uma permanente negociação de quantidades e preços. Os sistemas integrados de suínos e aves que há décadas prosperam no Sul do País são uma forma de negociação entre fornecedores de insumos, agricultores e processamento de produtos.

De que deriva a importância do atual agronegócio? Em primeiríssimo lugar, do seu desempenho depende a segurança no abastecimento, principalmente de alimentos, in natura e processados. A Europa, mais de meio século depois, não esquece a tragédia da fome, durante e logo após a Segunda Grande Guerra Mundial. Até hoje subsidia pesadamente seus produtores, da ordem de US$ 250 bilhões, uma agricultura ineficiente do ponto de vista econômico. Crises de abastecimento interno de produtos básicos no Brasil, embora não frequentes, têm trazido dificuldades de alimentação, principalmente para as camadas mais pobres. Consequentemente, garantia de suprimento adequado de alimentos é uma questão básica de equidade e justiça social.

O agronegócio é também importante na geração de renda e riqueza do País. Se é verdade que a participação da agricultura na economia tem diminuído ao longo da história recente do Brasil situando-se, nos últimos anos, ao redor de 10% do PIB, o agronegócio na sua concepção mais ampla mantém uma elevada participação, estimada entre 35 e 40%, o que significa uma valor ao redor de US$ 300 bilhões, para uma PIB total de US$ 800 bilhões (1997/98).

No aspecto social, a agricultura é o setor econômico que ainda mais ocupa mão-de-obra, ao redor de 17 milhões de pessoas, que somados a 10 milhões dos demais componentes do agronegócio, representa 27 milhões de pessoas, no total. É o setor que ocupa mais mão-de-obra em relação ao valor de produção: para cada R$ 1 milhão, o número de ocupados, em 1995, era de 182 para a agropecuária, 25 para a extração mineral, 38 para a construção civil. Mesmo reconhecendo-se os benefícios da transformação de uma sociedade agrária para uma industrial-urbana, não se pode esquecer que esta tem capacidade limitada de absorver mão-de-obra. Principalmente em regiões menos desenvolvidas, os setores da agricultura, da agroindustrialização e de áreas correlatatas serão importantes para o crescimento da renda e do emprego.

No contexto da recente crise cambial, o agronegócio tem sido um fator que minimizou os desequilíbrios das contas externas do Brasil. A agricultura, além de ser a âncora do Plano Real contra a inflação, contribuiu decisivamente para as exportações com saldo comercial setorial positivo da ordem de US$ 11,7 bilhões de dólares em 1997 e de 10,6 bilhões em 1998. Os setores não agrícolas foram altamente deficitários. (Ver Gráfico 1)

Gráfico 1: Saldo Setorial da Balança Comercial Brasileira.

A importância do agronegócio reside também em sua capacidade de impulsionar outros setores. Quando a produção agrícola movimenta os setores que estão antes da fazenda, como máquinas, adubos, defensivos, chamamos a isto de efeitos para trás; quando a agricultura impulsiona os setores produtivos que se situam depois da porteira da fazenda, como a agroindústria, o transporte e a comercialização das safras, estes são efeitos para a frente.

A agricultura e a agroindústria tem fortes impactos para trás e principalmente para frente. A tabela 1 indica que para cada mil unidades de produção de seu setor, são exigidas x unidades de produção dos demais setores produtivos. Cada R$ 1.000 reais produzidos pela agropecuária resultam R$ 5.636 que são gerados em atividades que estão depois da fazenda (agroindústria, transporte, comercialização) e de mais R$ 623 sobre atividades antes da fazenda (máquinas, fertilizantes). Os setores agroindustriais apresentam mais impacto sobre atividade para trás, como a própria agricultura. Para efeitos comparativos, depois da agropecuária, o setor que tem mais impacto para frente é o refino de petróleo com R$ 3.719.

Quais são as perspectivas do agronegócio brasileiro para o futuro? As perspectivas são promissoras. O Brasil detém terras abundantes, planas e baratas, como são os cerrados com uma reserva de 80 milhões de hectares, dispõe de produtores rurais experimentes e capazes de transformar essas potencialidades em produtos comercializáveis e detém um estoque de conhecimentos e tecnologias agropecuárias, transformadoras de recursos em produtos.

Porém, restam alguns condicionantes para que a potencialidade do agronegócio se concretize. Primeiro, depende de uma política macroeconômica saudável. Taxas de juros elevadas, inflação alta ou moeda sobrevalorizada, como aconteceu no período 1994-98, prejudicam tremendamente o agronegócio. A sobrevalorização cambial transferiu uma fábula de recursos dos setores exportadores (agricultura e agroindústria) para os importadores (inclusive os turistas), podendo ser apontada como a grande causa do não crescimento das safras de grãos, nos últimos anos. O dólar relativamente fraco em relação ao real favoreceu a importação de algodão e trigo e deprimiu sua produção interna. Finalmente, em janeiro deste ano houve uma correção cambial, o que permite prever novo impulso no setor.

Outro entrave para o pleno desenvolvimento do agronegócio é a falta de infra-estrutura adequada. Transporte terrestre por longas distâncias em estradas mal conservadas elevam os custos e deprimem os preços dos produtos, a nível de produtor. Os projetos em curso do Programa Brasil em Ação, como os Corredores Multimodais, pretendem corrigir estas distorções, principalmente no Centro-Oeste, onde o problema é mais grave.

Em terceiro lugar, o processo de desenvolvimento do agronegócio só se realiza dentro de um arcabouço legal apropriado. Os contratos entre os diferentes agentes econômicos têm que ser respeitados, a começar com o direito da propriedade privada.

Outro obstáculo sério ao desenvolvimento pleno do agronegócio está relacionado ao sistema tributário. Com uma economia aberta ao exterior, isto é com possibilidade de exportar e importar qualquer produto do agronegócio, a carga tributária deve ser compatível com a dos nosso competidores. Como nosso concorrentes, inclusive no Mercosul, tem impostos baixos, fica difícil ao produtor brasileiro competir nos mercados externos; vezes há que perde o próprio mercado interno porque os produtos importados chegam mais baratos. Não há como o produtor rural e a agroindústria serem competitivos com governos vorazes em criar novos impostos, aumentar os atuais e com mecanismos complexos de arrecadação, o que aumenta os custos de produção. Reforma tributária é urgente, com diminuição da carga e simplificação dos procedimentos na tributação.

Concluindo, ressaltam-se 4 pontos básicos sobre o agronegócio: (i) está nas raízes do nosso processo de desenvolvimento; (ii) contribui decisivamente para a renda, emprego, exportações, desenvolvimento do interior e equidade regional; (iii) tem grande potencialidade para sua expansão, por dispormos de terra, mão-de-obra e tecnologia; e, (iv) para que esta potencialidade se concretize, são necessários políticas macroeconômicas saudáveis, melhoria da infra-estrutura física (estradas, portos) e reforma tributária, com diminuição da carga tributária sobre a produção e simplificação dos procedimentos.

Esta é a trajetória para o desenvolvimento pleno do agronegócio brasileiro.




COMO CITAR ESTE ARTIGO

CONTINI, E. Dinamismo do agronegócio brasileiro. Agronline.com.br. Disponível em: . Acesso em: 15 de setembro de 2002.



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