Ainda o amor, ainda, ainda, ainda isso não para



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Encontro01.08.2016
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AINDA O AMOR, AINDA, AINDA, AINDA

ISSO NÃO PARA

Denise Maurano*


Que diabo será isso, que insiste e faz-se causa de tantas histórias, tantas produções desde que o mundo é mundo, pelo ao menos tal como o conhecemos. Desde a paixão desenfreada de Fedra por Hipólito, seu enteado, como nos revela o trágico Eurípedes, o amor e a paixão sexual adentram a cena literária impondo sua força irresistível.

O pobre do Platão, marco fundamental da apologia à razão, viu-se às voltas com o esse tema quando no Banquete, séculos e séculos atrás, ofertou-nos diversos elogios ao amor tecidos pelos pensadores de então. Confrontou-se aí com a impossibilidade de sua apreensão pelos domínios da razão e para abordá-lo teve que ceder ao mito e ao discurso de uma mulher, aquele que Sócrates contou ter escutado de Diotima. Sócrates confessa que tudo que ele sabe do amor, aprendeu com ela. Relativiza a fronteira entre a ciência e a ignorância e localiza a verdade da qual o amor é partícipe, nesta região. Não se precisa viver muito, para sacarmos com Platão que não é com o saber da racionalidade que se aborda o amor. Para isso é preciso tentar fisgar a palavra como que extraída do real, do real que o mito tenta apreender ou do qual a mulher é testemunho, enquanto referida à região das sombras, do enigma, do que não permite aculturação.

O amor revela-se portanto, não como algo da ordem de um Absoluto, um Deus, ou Ciência, mas dado que participa da verdade, vem situar-se como um intermediário entre o mortal e o imortal, não é pois um deus, mas sim um demõnio, o que incita, tenta, faz-se causa de tantas causas.

É exatamente nesta perspectiva que Sérgio Nazar David nos presenteia com a publicação de Ainda o amor, coletânea que reúne oito pérolas sobre o tema, cultivadas por pesquisadores sensíveis que perceberam que a academia não precisa temer o demônio, pode sim acolher seu veneno e extrair sua seiva, faze-lo falar. Assim, nas águas do amor, buscando extrair sua verdade, esses pesquisadores encarnados valem-se da nau literária que navega ora guiada pelos ventos da psicanálise, ora pelos da história, produzindo em nós todos os efeitos dessa bela viagem que insiste, não para, pelo ao menos na vida.

O cenário da Idade Média, com todas as suas produções é privilegiado em vários dos textos, a começar pelo de Beatriz Azevedo que nos recordando de maneira cortante a história de Abelardo e Heloísa, mostra de que maneira a irrupção apaixonada do amor pode ofender aos incapazes dessa ousadia de transportar-se de si ao Outro e produzir vinganças incalculáveis, como a imposta pelo tio de Heloísa que inflingiu aos amantes o sacrifício do corpo, que chegou as raias da castração física de Abelardo. Estamos aí no campo das paixões do ser: amor, ódio e ignorância, tal como propôs Lacan. E no que se tenta apreender algo disso, é ao saber que estamos devotados, outra paixão, esta focalizada, por Freud. Eis que em meio a tudo isso a invenção da experiência da psicanálise tomando o amor como causa o faz operar na busca de saber do insondável.

Já que trata-se do insondável, a arte deve vir em socorro como testemunho do inconsciente, tal como propõe Marco Antônio Coutinho Jorge. Vemos com ele que os obstáculos ao amor não se impõem apenas por tios vingativos, mas aliados a inimigos íntimos. Marco Antônio explora em Hamlet, personagem da tragédia de Shakespeare, os problemas da relação entre o sujeito e seu desejo, dado que o desejo por seu caráter de finalização, de realização, encontra na morte um lugar preeminente. Não é à toa que embora desejosos, recuamos frente a tudo que acena com a possibilidade de sua realização. E aí cada um tem seu modo particular de resistir. A histérica, ressentida, sofrendo de lembranças, presa ao passado, atualiza a seu modo o desejo sempre insatisfeito, ao passo que o obsessivo, tenta adiar seu encontro com a morte, cultuando a dúvida e postergando indefinidamente a realização de seu desejo, que aí coloca-se como impossível, localizado num futuro que nunca deve chegar.

No meio disso lá vamos nós entre a Cruz e a caldeirinha, não podendo escapar do fato de que “de vez em quando, dou de cara como o amor, a morte, o gozo e a diferença sexual. Estas experiências me fazem tropeçar com o real. Saber o que fazer ou negar, porque disto nada se quer saber, são as opções éticas do falante.” Isso é o que nos diz Nadiá Paulo Ferreira se perguntando sobre o que se fala quando se fala de amor, ressaltando suas implicações com o desejo e o gozo e assinalando modalidades de amor. Dentre estas o amor como dom ativo, expressão valorizada por Lacan, traz a novidade de sua inscrição não como relação dual onde há o esforço de se fazer de dois envolvidos, apenas Um. Nesta modalidade de amor o que se ama está para além do objeto amado propriamente envolvido, ama-se o que ele não tem. Ama-se a própria falta que é motor nesse endereçamento ao mais além. Diria que ama-se aí o próprio amor, já que é o reconhecimento da falta o que lhe é motriz. Que coisa curiosa não é mesmo?

Sérgio David Nazar entra pela discussão sobre o amor à verdade e nisso confronta a atitude daquele que busca encontrá-la na Natureza, tal como o fez Rousseau, e de certa forma Ferenczi, com o posicionamento daquele que tenta abordá-la pela via do Desejo, tal como propõe Freud com a psicanálise. Em último termo é o desamparo humano e os impasses da felicidade o que apresenta-se em jogo de maneira inelutável, donde decorre o Mal estar na civilização, tão bem- dito por Freud.

Ao longo da história, muitos são os caminhos propostos como vias de solução desses impasses. Isso é o que nos mostra Cláudia Campello Montillo que investigando o tema do pecado e da salvação em O livro de Esopo, percebe que nele as fábulas valem-se da fórmula: expor a culpa para propor o caminho da absolvição. Nessa perspectiva ela observa que dentre os raros personagens humanos que fazem aí sua presença os três que aparecem como protagonistas são mulheres, mulheres que nesta fábulas não aparecem relacionadas ao amor, mas ao desejo e a perdição. Apresenta-se aí um discurso misógeno, que centra fogo na condenação da luxúria e que faz com que a culpa, grande temor do homem medieval, recaia unicamente sobre a figura feminina, fonte de sedução para o pior.

Se tudo é tão complicado nesse campo ainda bem que os achados da cultura podem contorná-lo e por vezes até nos presentear com o aparecimento de um poeta-rei, promotor do desenvolvimento de uma política cultural, tal como foi o caso de D. Diniz, como nos conta Lênia Márcia Mongelli. Em suas cantigas de amor o elogio da mulher é nuclear. O serviço amoroso à Dama apresenta todas as implicações e dificuldades para o amante, às voltas em abordá-la, e desvela o panorama da psicologia masculina como um universo cheio de inseguranças e incertezas quanto ao destino de amante frustrado. A dimensão paradoxal do amor faz aí sua incidência da maneira mais contundente. Ele afigura-se como fonte de todo bem e de todo mal com a mesma intensidade.

Podemos nos perguntar se nesta caminhada somos peregrinos ou romeiros? Ou seja, caminhamos fora de nossas pátrias, desterrados, ou sabemos para onde estamos indo, conhecemos nossa Roma, ou melhor, nosso rumo? Com Maria do Amparo Maleval vemos que mesmo quando conhecemos nossos rumos nada se faz assim tão firme e transparente. Mesmo nas romarias a presença dos cânticos profanos revela um sincretismo religioso onde nas determinações da Igreja estão agregados certos cultos de poderosas divindade femininas atestado pelo fato de maio o mês de Maria ter sido nos primórdios, o mês de ruidosas festas pagãs, dedicadas a Vênus e Baco. Aqui mesclam-se a mística e a sensualidade e através do amor relativizam-se as fronteiras entre o sagrado e o profano.

Tais fronteiras entretanto reerguem-se drasticamente quando se trata de identificar na escrita masculina a imagem das mulheres tidas como santas, trabalho ao qual se dedicou Mônica Rector. Cabe às santas, necessariamente, transcenderem o sexo e o próprio corpo através do jejum e da auto-flagelação, e quando então tornam-se intangíveis só aí conseguem o respeito dos homens. Diferentemente da mulher comum que na Idade Média e Renascimento era esteriotipada como a personificação da tentação, a mulher-santa é apresentada como alheia a isto. Ao menos tal como era ela descrita, nas inúmeras biografias que lhes fizeram os homens destas épocas, tentando torná-las exemplos.



Nesse ponto cabe a nós pensarmos a que serve tal divisão maniqueísta entre o profano e o sagrado que certamente extrapola os muros das diferentes épocas. Cabe-nos ainda não recuarmos diante da complexidade que a introdução do amor opera frente a toda tentativa de redução do ser ao pensar. Nesta empreitada encontra-se o mérito desse iniciativa da EdUERJ com a publicação de Ainda o amor.

* Psicanalista, Doutora em Filosofia pela Universidade de Paris XII e pela PUC/RJ, Profa. da Universidade Federal de Juiz de Fora, Membro do Corpo Freudiano do Rio de Janeiro e autora dos livros Nau do desejo,RJ, ed. Relume Dumará, 1995 e La face cachée de l’amour, FR, Presses Universitaires de Septentrion, 2000.


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