Ainda se lembram do Gigante de Manjacaze?



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Ainda se lembram do Gigante de Manjacaze?

 

Era o Gabriel Estevão Mondlane, media 2,45 metros de altura; infelizmente já morreu em 1990, com apenas 45 anos de idade.



 

Resolvi fazer uma pesquisa na Internet e encontrei várias referências, das quais destaco as seguintes:

 

1 - Vida do Gigante de Manjacaze em livro

O poeta e ficcionista português, Manuel da Silva Ramos, lançou em Maputo o livro "Viagem com um Branco no Bolso", um romance sobre a vida do "Gigante de Manjacaze", Grabiel Estevão Mondlane.

A obra apresenta um outro personagem, o anão português, Toninho de Arcozelo, que contracenava com o gigante nos círculos, feiras e praças públicas. No romance, com 574 páginas, o autor faz uma análise crítica à grande exploração a que o "Gigante de Manjacaze", com cerca de 2,5 metros, foi submetido no período colonial por empresários e promotores de espectáculo da época.

O nome do anão Toninho de Arcozelo, o então homem mais curto do mundo, com 75 cm de altura, associa-se a Gabriel Mondlane pelo facto de ambos aparecerem juntos muitas vezes, no mesmo palco, como forma de evidenciar a diferença entre ambos. O autor do livro nasceu a 13 de Setembro de 1947 na Covilhã, esteve exilado durante 17 anos na França, regressou a Portugal em 1997 e é tido como um escritor polémico e pessimista. (Notícias, 26/01/01)



 

2 - Gabriel Monjane, o Gigante de Manjacaze (Moçambique), foi notícia em Banguecoque em Agosto de 19892 -Gabriel Monjane, o

Os jornais e a televisão falaram dele.

A sua imagem junto da esposa Maria saiu nas páginas de todos os jornais, editados, na capital tailandesa.

Motivo da visita: A inauguração da abertura primeiro supermercado "Makro".

Gabriel estava designado como o homem mais alto no mundo no "Livro de Recordes Guinness".

Conhecíamos a história do Gabriel de quando começou a crescer, desmesuradamente, depois de ter dado uma queda, na sua aldeia, em Manjacaze, no sul de Moçambique.

Perante tal fenómeno de crescimento o Gabriel, embora o não apoquentem dores, foi internado num hospital de Lourenço Marques (Maputo) para ser observado pelos médicos.

De um jovem com altura normal, cresceu, cresceu e foi até à craveira de 2,42.

Os médicos (segundo os jornais de Moçambique) nunca explicaram o motivo da razão do Gabriel crescer descomunalmente e o rapaz foi enviado de volta às orígens.

O Gabriel, passava os dias sentado à sombra de um cajueiro, ao redor de sua casa, a sua altura desmedida não lhe dá a oportunidade para se juntar à sua família e trabalhar na "machamba" (pequena propriedade agrícola em Moçambique).

Passa a ser um Gabriel amargurado, a maldizer o crescimento e um pesadelo para a família alimentá-lo, que comia por quatro pessoas de média estatura.


Devido à publicidade dada ao caso de sua altura houve alguém se interessou em fazer dinheiro com o tamanho do Gabriel.

Começa, então o drama de um homem alto pelos anos de 1965!

Eu vivia na cidade da Beira na altura e conhecia, pelos jornais, a história do crescimento do Gabriel.

Dois homens, expeditos, residentes na capital de Manica e Sofala andavam por alí a ganhar a vida ao sabor das marés.

Todo os peixes que as ondas traziam à costa lhes servia

Um de nome pomposo o Dr. Razak, homem para todas ocasiões.

Pintor à espátula, advinho com consultório montado e viria a dar aso a confusões e divórcios, entre maridos e mulheres na Beira.

Entretanto foi-lhe apontado o "dedo" pelos jornalistas de tentar o aliciamento sexual, durante as consultas, às senhoras que o visitavam para que advinhasse qual era a "dama" que lhes estava a roubar o marido.

Outro de nome Prof. Belito, artista circense, ilusionista que andava por ali a montar a barraca nos arredores da Beira a mostrar, um truque, a cabeça de um preto em cima de uma mesa, que falava e comia bananas.

Lá ía governando a vida, muito mal e com os dez tostões do custo dos bilhetes de entrada.

Os dois deslocaram-se a Manjacaze e trazem o Gabriel para a Beira, encomendaram uma "fatiota" por encomenda; uns sapatos para uns pés de 50 centimetros.

Adquirem uma aparelhagem sonora de 100 watts cujo som, berrado, chegava a 10 quilómetros de distância.

O Gabriel é enfiado numa barraca feita de pano de toldo, em locais da Beira e arredores, há bichas de pessoas para verem de perto o Gabriel.

O negócio foi correndo para o Razak e o Belito.

Percorreu numa caixa de camião, aspirando o pó da picada, para outras terras de Moçambique.

Os moçambicanos e os "muzungos" (nome que os nativos davam aos portugueses de pele branca), depois de conhecer o Gabriel ao vivo não o pretendem ver mais.

O negócio começou a não ser rentável para os empresários Razak e o Belito.

Eles eram homens de imaginação e não se deram por vencidos.

Mandar o Gabriel de volta a Manjacaze, com a "fatiota", os sapatos e cotão no bolso em vez de umas notas em dinheiro, não era nada relevante para os seus protectores.

Se o Razak o Belito o pensaram melhor o fizeram!

Porque não ir mostrar o Gabriel de Manjacaze aos angolanos?

Claro que sim e a ideia era genial!

Fazer ver aos angolanos: Embora vocês tenham "pacaças" no mato, que Moçambique não tem, nós temos o homem mais alto do mundo e a dança do rabo de cadeira a "Marrabenta" !

Ajustam com a TAP, na Beira, o preço e o espaço da cadeira para transportar o Gabriel no "Super Constelation" para Luanda.

O Gigante de Manjacaze, aterra na capital angolana, metido num espaço apropriado para a sua medida.

Os jornais dão o "lamiré" e começa, como em Moçambique a ser exibido numa barraca.

O negócio foi correndo ao Razak, ao Belito e aos seus agentes.

Bem depois de ser visto e revisto e a figura do gigante deixar de ter interesse foi abandonada em Angola.

Passou por lá misérias, os jornais de Moçambique deram conta do estado de vida degradado do Gabriel em Angola e regressa a Moçambique à estaca zero.

Porém, o Gabriel, aquele rapaz humilde já habituado aos ambientes do público, de ser admirado pelas crianças dentro de uma "barraca", começou a sentir-se (apesar de grande) "pequeno" em Manjacaze.

Nova fase de vida principia para o Gabriel, mas agora, com alguma dignidade.

Um empresário, circense, contrata-o e leva-o para Portugal.

Corre Portugal de lés-a-lés, acomodado numa caravana (o próprio Gabriel me informou), onde dentro havia qualidade de vida e na hora que lhe estava destinada a exibir-se perante o público.

O "Gigante de Manjacaze" não foi explorado e amealhava uns "dinheiros".

Entre os caminhos "circenses" do Gabriel, uma mulher de 1,54 ( cuja  altura dava-lhe pela cintura) de nome Maria, apaixonou-se por um homem de tamanha altura e 150 quilos de peso.

Maria começou acompanhar o marido, gigante, por todo Portugal e teve um filho.

Um rapaz "mulato" que teria uns 10 ou 11 anos de quando estiveram em Banguecoque e me mostraram a foto do rapaz.

Maria está ao lado de Gabriel, adquiriram uma cave nos arredores de Lisboa e fazem uma vida de um casal normal.

A altura do Gabriel Monjane chegou ao livro "dos recordes Guiness" e está lançado no mundo como o homem mais alto do globo.

Das picadas de Moçambique e de Angola, da tenda de lona o "Gigante de Manjacaze", começa a ser solicitado para publicidade e ser apresentado ao mundo.

Foi por este motivo que a empresa multinacional "Makro" convidou o Gabriel, o inglês Cris Greener, de 2,28 e outros homens, tailandeses (como anões junto do Gabriel e o Cris Green), para estarem, presentes, na abertura da primeira grande superfície na "Cidade dos Anjos".

Milhares de pessoas correram ao parque "Happy Land" para admirarem o "Gigante de Manjacaze", que embora nascido em Moçambique, dizia que era português!

Serviu de interprete entre o Gabriel e os jornalistas, a Esperança Rodrigues (ela e eu somos os portugueses mais antigos residentes na Tailândia), que traduzia as palavras do Gabriel em português para a língua tailandesa.

O Gabriel, meu amigo, partiu de Banguecoque, como um herói.

Passado uns poucos anos, uma delegação, moçambicana, que acompanhou o Primeiro Ministro Mário da Graça Machungo, em visita oficial à Tailândia, depois de lhes falar na história do Gabriel em Banguecoque, de volta recebi a triste notícia: " O Gabriel ao entrar na cave onde residia, escorregou, caiu e morreu".

Fiquei triste por eu tinha lidado de perto com o Gabriel em Banguecoque e tínhamos ficado amigos.

 

O GABRIEL EM BANGUECOQUE

 

No dia 1 de Agosto de 1989 era um dia igual a muitos outros anteriores.

Saí de casa para a Embaixada de Portugal, às seis da manhã, comprei o jornal e fui lê-lo para uma esplanada, junto ao rio Chao Praiá, onde todas as manhãs se sentavam à minha mesa uns "amigos e amigas", cáusticos: o Zebreu, judeu com uma lapidaria de pedras preciosa; o Miko, canadiano e fotógrafo para uma agência de publicidade, a Porno estudante universitária de economia e a Plá, secretária do gerente da Sony (Thailand).

Não se discutia futebol, nem política mas "coisas" alegres e antes de começarmos um novo dia de trabalho.

Na primeira página do "Bangkok Post" estava inserida a foto do Gabriel Monjane e hospedado no "Montien Hotel", a uns dois quilómetros onde me quedava.

Não fazia a mínima ideia aonde o Gabriel parava se em Moçambique ou noutro país.

Ora eu conhecia a história, infeliz, do começo da sua carreira e da tragédia que tinha sido envolvido.

Tinham passado (mais ou menos) 11 anos que lhe tinha perdido o rasto de sua vida.

Às dez da manhã dei uma "saltada" ao "Hotel Montien" e oferecer-lhe os meus préstimos em Banguecoque.

Da recepção do hotel telefonei para o quarto (cinco estrelas) e fui atendido pela D. Maria, sua esposa.

Fomos breves na apresentação e subi no elevador.

Naquela manhã eu era para o Gabriel o seu anjo da guarda e comer um pequeno-almoço decente e não as torradas, com manteiga, marmelada e o sumo de laranja.

O Gabriel desejava um bom prato de sopa de arroz com uns pedaços de carne e nunca as comidas "hoteleiras" que lhe tinham levado ao quarto.

A D. Maria e o Gabriel não falavam, palavra que fosse, da língua inglesa e quando pediam, aos criados, sopa de arroz em português, sorriam-se e voltavam-lhe as costas.

Os pequenos-almoços do Gabriel desde logo ficaram resolvidos e não tardou um criado entrar no quarto puxando um "carrinho" com uma terrina de sopa, bem cheirosa, para um pequeno almoço decente e digno para um homem de 2,42 (dois metros e 42 centímetros).

Todos os dias, ao fim da tarde, durante a permanência do "Gigante de Manjacaze" em Banguecoque estava junto a ele. Sentava-se num banco especial, no "lobby" do hotel, junto ao cartaz que anunciava os eventos de sábado e domingo.

O "lobby" do hotel passou a ser um centro de romaria.

Os jornais, em língua inglesa e tailandesa, tinham dado cariz à presença do Gabriel em Banguecoque e todos querem apreciar a sua altura e tirar foto com ele.

No princípio de uma noite teve duas visitas, especiais, de duas princesas reais: Soamsawali e filha Bajrakitiyabha que lhe foram fazer uma visita, particular, ao "Montien Hotel" cumprimentaram-no e tiraram fotos juntos.

Ofereci uma "boleia", no meu Volvo 244, já um carro bem "coçado", ao Gabriel para lhe mostrar Banguecoque à noite, as luzes de neon e todo aquele movimento nocturno.

O carro era espaçoso e estudei a melhor forma de o transportar.

Retirei-lhe o assento da frente, o Gabriel sentou-se no banco de trás, dobrou os joelhos e apreciou Banguecoque e não só atravessei a grande ponte, Rei Rama IX, e olhou a cidade lá do alto.

Ao Gabriel, meu amigo, desejamos que esteja no céu, porque um homem simples e bom, igual a ele não tem lugar no purgatório, nem no inferno.

O Inferno já o tinha experimentado na vida terrena.

"Kanimambo" Gabriel Monjane

 

Vide foto colorida, anexa, do Gabriel com a mulher do autor deste artigo e a sua filha.



 

José Martins - 17 de Maio de 2007

 

Retirado, com a devida vénia, do "Blogspot" AQUI TAILÂNDIA 

 

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3 - O Saudoso Tempo do Fascismo

Publicado por Miguel Cardina  7-02-2007

Se por outra razão não fosse, O Saudoso Tempo do Fascismo, de Hélder Costa, valeria pela capa: uma foto do gigante de Manjacaze , Gabriel Mondlane e o anão de Arcozelo – respectivamente, o homem mais alto e o mais baixo do mundo, segundo certas edições do Guiness Book of Records – no velório de Salazar. Lado a lado, em pose tensa e respeitosa, estes filhos que a nação passeou como aberrações, vêm dar o último adeus ao ditador. Por detrás da luz central – a vela acesa de um círio – descobrem-se, perfiladas, as forças (ainda) vivas: um chapéu da polícia militar, um lenço da Mocidade Portuguesa, os botões reluzentes de uma farda composta.

O livro é, obviamente, mais do que o seu delicioso embrulho. Escrito naquele tom descontraído de quem domina a velha arte de contar histórias, O Saudoso Tempo do Fascismo é uma colectânea de relatos situados na fronteira entre o memorialístico, o pedagógico e o humorístico. Recortes do tempo que falam dos bailes e do «arame farpado», da emancipação das mulheres, das críticas à praxe coimbrã, das arrogâncias do poder e do seu escarnecimento, das experiências teatrais, da contestação à guerra colonial, das peripécias que rodearam um inevitável «salto» para Paris. Histórias contadas com uma deliciosa dose de humor.



Recebido de Luiz Pinto


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