Ainda tens um longo caminho a percorrer



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AINDA TENS UM LONGO CAMINHO A PERCORRER” (1 Rs 19, 7).

Alguns apontamentos para o debate das equipes paroquiais, coordenações de pastorais, cristãos de movimentos sociais, organismos e delegados/as como forma de contribuição

à 9ª Assembleia Diocesana de Pastoral.

1. Em busca da fonte

Com o lema: “Ainda tens um longo caminho a percorrer” (1 Rs 19, 7), a 9ª Assembleia Diocesana de Pastoral, está aberta para ouvir o que as comunidades eclesiais de base, as coordenações de pastoral, as lideranças cristãs dos movimentos sociais e os organismos propõem revisar, atualizar e acrescer como novos indicativos para fortalecer nossa caminhada de Igreja da libertação nos próximos anos (2014 – 2017).

Este é um tempo de graça para nós cristãos, quando o Espírito Santo aquece nossas mentes e corações e nos leva a beber da fonte, ou seja, da Bíblia e da trajetória histórica de libertação do povo de Deus, bem como de seus profetas e profetisas, mártires, lutadores e lutadoras que, a exemplo de Jesus de Nazaré, doaram suas vidas na causa de Deus. É tempo de resgatar a experiência das primeiras comunidades cristãs: “Eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, no partir do pão e nas orações... Todos os que abraçaram a fé eram unidos e colocavam em comum todas as coisas... e repartiam o dinheiro conforme a necessidade de cada um” (At 2,42-45).

É importante que as pastorais e suas coordenações, lideranças cristãs de movimentos sociais e os organismos possam organizar momentos de encontros, de debates, e tirar propostas de ações para contribuir com nossa Igreja Diocesana.

Também é salutar nos perguntarmos nesses momentos de debates: o que Deus pede de nós, hoje? Para onde caminha a Igreja? Há alguns sinais de revitalização na relação da Igreja com os movimentos sociais e na vida em comunidade? Quais os pontos de confluência de missão da Igreja e dos movimentos sociais? De que maneira a Igreja deve se articular com os movimentos sociais para contribuir na formação de uma consciência revolucionária e transformadora da sociedade a partir do evangelho? Cabe à Igreja uma nova postura diante da conjuntura em que vivemos hoje? Como é possível incorporar em nossas vivências, práticas e experiências, o espírito missionário e militante de Jesus de Nazaré? Quem nos vê, visualiza o vede como eles se amam!?

2. Beber da fonte

Em qual fonte vamos beber? Vivemos a nível global um florescer da espiritualidade, uma busca desenfreada pelo sagrado, mas os católicos vivem uma crise espiritual sem precedentes. É gritante a necessidade de uma nova espiritualidade. Esta espiritualidade deve resgatar duas coisas, principalmente: primeiro a humanidade de Jesus. Temos que nos distanciar do Jesus mistério, para encontrar o homem Jesus de Nazaré. Aparecida indicou o caminho: “promover um encontro pessoal com Jesus”. Se encontrarmos Jesus (pessoa) vamos chegar ao segundo ponto importante da espiritualidade: o amor incondicional a Deus, mas que se revela ao Outro. A espiritualidade cristã não faz sentido se ela não se lança em abertura ao Outro. O amor de Jesus ao Pai se expressa e revela ao Outro, não na lei e no rito. Com isso vamos encontrar o âmago, o centro da espiritualidade cristã que é a dimensão ética. Não basta dizer Deus, Jesus eu te amo, adorar e louvar, teremos que ser diferentes. É nisso que devemos insistir, fazer, construir pessoas diferentes, éticas, justas humanas. A opção aos pobres será uma condição e não uma imposição teológica. Hoje as pessoas se desgastam rezando, nem por isso são mais justas. Rezam, mas exploram. A espiritualidade trentina abortou o sentido ético da nossa espiritualidade. Teremos dificuldades nisso porque não entendemos o sentido maravilhoso da nossa espiritualidade. O cristianismo é uma religião maravilhosa, basta entendermos ela com profundidade.

Teremos que repensar toda a nossa ação humana, reconstruir nossa relação com a natureza, recuperar a pertença a ela. Isso terá reflexos profundos na espiritualidade. Toda a nossa espiritualidade até agora estava voltada para a salvação da alma, do homem como individuo. Com a crise ecológica a espiritualidade terá que voltar-se para a salvação do planeta, ou seja, da criação. Não é mais o ser humano que está ameaçado é a própria criação de Deus. Teremos que sair do homem – antropocêntrico para a totalidade. Precisamos beber da fonte primeira, da água do poço do encontro com Jesus na vida do outro, da mãe terra e de suas criaturas que tocam as nossas vidas e nos faz criaturas novas, participantes da mesma missão de Jesus, imbuindo-se do seu espírito e tendo o mesmo elã, a mesma mística. Que contribuições a assembleia poderá trazer na dimensão da espiritualidade e da mística para nossa caminhada de Igreja?

3. Recuperar o primeiro amor

Na busca do primeiro amor precisamos nos dar conta dos tesouros que perdemos pelo caminho. Os bons momentos da caminhada de nossa Igreja Diocesana não são saudades do passado, mas memória perigosa como farol que aponta novos caminhos. São valores do Reino que precisam ser resgatados de forma coletiva e nos alegrar.



Com humildade reconhecemos que, em muitos aspectos, podíamos ter vivido e realizado nossas práticas cristãs e pastorais com mais amor, respeito à diversidade e metodologia mais participativa. Mas, é claro que nos alegramos com muitas coisas bonitas que aconteceram e que estão acontecendo também hoje em nossa Diocese.

Também reconhecemos que o Evangelho de Jesus Cristo nos pede mais: “Se vocês tiverem fé, farão coisas que eu fiz e muito mais” (Mt 21, 21). Aí está o desafio de “avançar para águas mais profundas” (cf. Lc 5,4). É nas profundezas da realidade e da vida que se encontram as dores humanas, os clamores do universo e de toda a criação que geme em dores de parto (Rm 8,22).

Diante dos desafios que a humanidade apresenta, nos perguntamos: “Qual o mundo que iremos deixar para as próximas gerações? Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. O desafio do tempo presente é o de resgatar as utopias esquecidas, reescrever o nosso sonho comum” (Leonardo Boff, Fórum Social Mundial 2010). De uma forma mais concreta, precisamos encontrar respostas cristãs aos problemas dos índios, dos negros, mulheres, jovens, dos sem terra, dos empobrecidos, da cidade e do campo. Ser presença libertadora neste mundo é um grande desafio. Muitas vezes sabemos falar destas realidades. Mais que isso, o evangelho pede opção mais decidida, engajamento, presença solidária e comprometida, cuidado e atitude como o fez o bom samaritano.

Precisamos nos salvar enquanto humanidade ou estaremos todos perdidos. Precisamos pensar enquanto assembleia: que Igreja somos e que Igreja queremos ser? A quem servimos e a quem queremos servir? Não é suficiente ter as pastorais organizadas ou articuladas entre si, a questão é: qual a finalidade das pastorais? Somos sal da terra e luz do mundo? É preciso saber para que modelo de Igreja nossas pastorais estejam voltadas! Não basta ter um plano.

Jesus Cristo é o centro da comunidade de fé. Neste sentido devemos permanecer unidos à videira que é Jesus. “Quem fica unido a mim, e eu nele, dará muito fruto, porque sem mim vocês não podem fazer nada” (Jo 15, 5).



4. Vida em comunidade

Muitos conselhos de pastoral ainda centram suas preocupações em festas e promoções, deixando para segundo plano a vida de fé comunitária. Ainda não encontramos um jeito de desenvolver uma ação pastoral que priorize a vida da comunidade, as pastorais, a formação, o envolvimento nas organizações e nas lutas sociais? Parece que ainda temos dificuldade de cuidar de nossa espiritualidade, de manter os princípios e valores do Evangelho, como vivenciar o tempo da quaresma, a vigília pascal e o advento sem promoções dançantes nas comunidades.

As Diretrizes da Ação Evangelizadora de nossa diocese (letra f, p. 36) apontam para um tempo de silêncio, de conversão, de priorizar a vida de fé das comunidades. Que compromisso comum podemos assumir enquanto assembleia para a nossa Diocese? Deus nos pede que cada um/a “permaneça firme naquilo que aprendeu e aceitou como certo; e você sabe de quem aprendeu” (2 Tm 3,14). Aprendemos muitos valores pelo testemunho de nossos pais e mães, e um deles é a vida em comunidade. Hoje, porém, sentimos que muitos são conduzidos pelo espírito capitalista, sufocando valores e princípios herdados, deixando assim de ser “sal da terra... e luz do mundo... (Mt 5,13-16)”. O próprio evangelho diz que longe da essência a missão perde o sentido (se o sal perde o gosto, com o que poderemos salgá-lo?), ou seja, se esquecemos o principal, com o que poderemos firmar a nossa fé?.

A pastoral do dízimo ainda sofre algumas resistências, devido à cultura da taxa que não faz justiça e não condiz com o espírito bíblico: “Dê com generosidade segundo suas possibilidades”, conforme o Livro do Eclesiástico 35,9b.

As comunidades são espaços de relações solidárias e justas. As promoções, os momentos de lazer, os encontros, o dízimo, as pastorais devem contribuir para isso. A festa não deve ser apenas um meio de sustentação financeira da comunidade. A festa é alegria do encontro, partilha e comunhão daquilo que somos e temos. Encontro, reencontro, encantamento pela vida que aqui deve atingir a plenitude... Que tal ressignificar o sentido das festas em nossas paróquias e comunidades, como decisão nesta Assembleia? Para não fazer das festas somente um meio de sustentação financeira da comunidade, precisamos, urgentemente, enfrentar o desafio de organizar a pastoral do dízimo.

Por vezes, sentimos também que a fé, as celebrações e orações não comprometem as comunidades com a solidariedade nas lutas sociais, por políticas públicas voltadas para as grandes necessidades, falta de discernimento político de algumas lideranças e políticos que se aproveitam das comunidades. Que postura profética a assembleia poderá tomar sobre essas preocupações?



5. As CEBs continuam vivas

O Concílio Vaticano II revelou seu potencial pastoral em sua abertura para o mundo e para a história e, ao mesmo tempo, sua densidade de reflexão e práxis firma-se na imagem profética da Igreja como sendo o povo de Deus a caminho sob a ação do Espírito Santo, no clamor e nas aflições do povo empobrecido. As CEBs resgataram esses filões através de uma leitura popular da Bíblia, da releitura que a Conferência de Medellin (1968) e Puebla (1979) fizeram na América Latina. Medellin deu realce à temática da Libertação e Puebla para a evangélica opção pelos pobres. O Documento de Aparecida afirma “que as Comunidades Eclesiais de Base têm sido escolas que têm ajudado a formar cristãos comprometidos com sua fé, discípulos e missionários do Senhor, como o testemunha a entrega generosa, até derramar o sangue, de muitos de seus membros” (DAp 178). As Diretrizes da CNBB (2011 – 2015) destacam que as CEBs são “forma privilegiada de vivência comunitária da fé, inserida no seio da sociedade em perspectiva profética”. As Diretrizes de nossa Diocese (2010 – 2013) também apontam para o mesmo rumo, dando ênfase ao compromisso com as lutas e os movimentos sociais, profetismo, Igreja nas casas (nucleação), grupos de reflexão, etc.

Precisamos reconhecer, porém, que estamos frágeis nestas diretrizes propostas pela Igreja. Como poderemos fortalecer esses compromissos com a Igreja CEBs? É possível um novo jeito de ser Igreja neste contexto de século XXI? A CEBs nos convidam para a humanização da vida. Cuidar da vida, das pessoas, humanizar-se e humanizar as relações sociais. Que apontamentos nesta dimensão humana a Assembleia pode indicar? Nossa Diocese irá acolher, em 2016, o 12º Encontro Estadual das CEBs. Que diretrizes seriam necessárias tirar, nessa assembleia, para a construção desse encontro?

6. Em defesa da mãe terra - contra o capitalismo

Constatamos que nos últimos anos há um grande esvaziamento do campo. São poucos os que querem ficar na roça. Os jovens, na sua maioria, vão para a cidade em busca de trabalho, estudo, deixando para trás a terra-mãe e a sua história. Muitas famílias do campo, forçadas pela ciranda do capitalismo, seguem esse mesmo caminho. Somos encurralados pelo sistema capitalista onde “a biodiversidade, as populações tradicionais são excluídas; a terra e a água são tratadas como se fossem mercadorias” (Documento de Aparecida nº 84).

Ideologicamente, somos teleguiados pela mídia que nos manipula e engana a todo o momento. Assim entendemos que no seio da sociedade há dois projetos em jogo: um deles, o capitalismo neoliberal – agora neodesenvolvimentista – que na sua essência é devastador e assassino, intrinsecamente perverso. A ganância e a ambição estão destruindo a natureza, as pessoas, as famílias. O alto consumo de agrotóxicos é realidade presente em nosso meio e resulta em doenças de todos os tipos, ceifa vidas e compromete o futuro da humanidade. O povo e a natureza pagam pelos danos e os lucros ficam nas mãos de grandes grupos nacionais e transnacionais. O Terceiro Mundo, sobretudo, tem experimentado amargamente a iniquidade desse sistema homicida e ecocida, agora neoliberal e global.

Temos hoje uma grande dificuldade de entender a “cultura” do neoliberalismo. Se não entendemos a realidade temos dificuldades de agir sobre ela. O neoliberalismo se caracteriza pela sua desintegração política, social e cultural. Ele trabalha as forças centrifugas, que dispersa, a pastoral quer trabalhar uma força centrípeta, de aproximação de encontro com o outro. O nosso esforço pastoral deve ser no sentido de as pessoas se reencontrarem em comunidade e como cidadãos. É fundamental entender o neoliberalismo. Nós entendemos a pobreza ainda como uma questão financeira, isso é certo, mas existem outros tipos de pobres ainda mais graves. Exemplos: a pobreza moral, pobreza ética, pobreza de solidariedade, pobreza educacional etc. Somos pobres, paupérrimos em muitas coisas que degradam a vida humana.

O sistema neoliberal está dando sinais de esgotamento e de incapacidade. Exige-se uma nova ordem econômica mundial. Por esta causa possível, D. Pedro Casaldáliga na Agenda Latina Americana de 2009 afirma em sua profecia: “Com indignação, com saudades, aquecidos por tanto sonho e luta e sangue, respondendo à dignidade ferida da maioria humana, nos voltamos para o socialismo: um socialismo novo! Porque evidentemente não se trata de repetir ensaios que deram, muitas vezes, em decepção, em violência, em ditadura, em pobreza, em morte. Não se trata de "olhar para trás com ira", nem de voltarmos para modelos superados. Trata-se de rever, de aprender do passado, de atualizar, de não se conformar e, por isso mesmo, de vivermos hoje aqui, localmente e globalmente, a sempre nova Utopia”.

Nesta utopia histórica e esperançosa podemos acreditar que um outro mundo é possível; outro projeto de agricultura saudável, orgânica e agroecológica para o campo é possível; outra sociedade justa, solidária, fraterna e igualitária é possível; e quando unimos a fé cristã, organização e lutas, damos passos para construir este outro mundo possível, o Reino de Deus.

Como estamos construindo, na prática, esse projeto? Em defesa da mãe-terra e no combate aos mecanismos do capitalismo, as diretrizes diocesanas (p.45) apontam para a articulação com os movimentos sociais do campo no resgate das sementes crioulas, práticas de produção ecológica, cuidado com a água e a terra, combate ao agronegócio; bem como, o fortalecimento da luta pela reforma agrária e contra as barragens. Como estamos fazendo essa articulação entre Igreja e movimentos sociais? Como entender os novos movimentos sociais que se organizaram e por que as instituições tradicionais, inclusive a Igreja, bem como os partidos, ficaram de fora destas manifestações? Podemos somar forças nisso? Que propostas e ações bem concretas a Assembleia Diocesana poderia assumir em defesa do Planeta Terra?

7. A opção pelos pobres e excluídos

O Documento de Aparecida, resgatando Medellín e Puebla, renova a opção preferencial pelos pobres e excluídos (vítimas da exclusão social) de maneira enfática e contundente, não deixando dúvidas quanto a essa prioridade. Trata-se, segundo o DAp (397-399) de um dos centros evangélicos da missão de Cristo encarnado na história. É necessária uma atitude continuada que se manifeste em opções e gestos concretos, e evite toda atitude paternalista.

É preciso que dediquemos tempo aos pobres, prestar a eles uma amável atenção, escutá-los com interesse, acompanhá-los nos momentos difíceis, escolhê-los para compartilhar horas, semanas ou anos de nossas vidas e procurando, a partir deles, a transformação de sua situação. Não podemos esquecer que o próprio Jesus propôs isso com seu modo de agir e com suas palavras: “Quando deres um banquete, convida os pobres, os inválidos, os coxos e os cegos” (Lc 14,13).

Assumindo com nova força esta opção pelos pobres, manifestamos que todo processo evangelizador envolve a promoção humana e a autêntica libertação, sem a qual não é possível uma ordem justa na sociedade. Entendemos que os rostos sofredores dos pobres expressam concretamente o rosto Cristo, servo sofredor. Ver o rosto de Cristo no rosto dos sofredores é um processo de conversão pessoal e pastoral, como bem o mostra o texto dos discípulos de Emaús.

Os pobres desafiam o núcleo do trabalho da Igreja, da pastoral e de nossas atitudes cristãs. Tudo o que tenha relação com Cristo, tem relação com os pobres; e tudo o que está relacionado com os pobres reivindica a Jesus Cristo: “Quando fizeram a um destes meus irmãos menores, fizeram a mim” (Mt 25,40).

À luz do Evangelho, o Documento de Aparecida nos desafia para uma renovada pastoral social com promoção humana integral e transformadora. Também, a necessidade e o desafio de passarmos de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária e libertadora.

Ainda não encontramos um jeito de desenvolver uma ação evangelizadora junto aos namorados, gestantes, universitários, dependentes químicos, garotas e garotos de programa sexual, coletores de materiais recicláveis, famílias vitimas da violência. No conjunto de nossas pastorais, como estamos assumindo a causa da libertação dos empobrecidos da sociedade? Como nós olhamos para a realidade das periferias, das famílias mais empobrecidas de nossas comunidades? Que atitudes e ações nós tomamos diante dessa realidade? Na Assembleia Diocesana, que propostas podemos assumir com os empobrecidos e outros sofredores?

8. Pela Vida da Juventude

São várias as formas dos jovens se engajarem na comunidade, nas organizações e lutas populares e contribuírem com a transformação da sociedade, a exemplo do jovem Jesus de Nazaré (Lc 4,14-21). Diante do Evangelho, está o desafio de toda a Diocese assumir e fortalecer a vida da Juventude, assumir e fortalecer na prática a PJR, PJMP, PJ e PJE e outras organizações e iniciativas da juventude, como do MST, MMC, MPA... A igreja necessita da energia da juventude, mas antes é preciso entendê-la e assumir suas causas.

Dar “especial atenção à Juventude empobrecida, marginalizada e distante da Igreja” (DAE, letra d, p. 43), bem como, estar juntos/as em suas organizações e lutas numa aliança pela vida da juventude no sonho de Deus na História (Is 65, 17-25), enfrentando assim, as mazelas da sociedade capitalista, do desemprego estrutural e o “fetiche” do emprego para todos; e combatendo a criminalização da juventude urbana marginalizada (negra, pobre, periférica...), a vulgarização e o comércio libidinoso da imagem e corpo das jovens e dos jovens. Bem como trazer para a pauta de debate da juventude organizada, a luta por trabalho digno sem exploração, moradia, direito de viver sua raiz, manifestar sua cultura, viver o campo e com ele assumir as bandeiras da reforma agrária, agroecologia, educação no e do campo, permanência dos e das jovens no campo, tendo clareza do enfrentamento ao êxodo rural juvenil para garantir a sucessão da agricultura camponesa. Neste sentido, que propostas e ações a assembleia diocesana poderia assumir?

9. Formação - teoria e práxis

Outro desafio se encontra no campo da formação que possa unir teoria e práxis, fé e vida, oração, celebração, mística e luta. A vida cristã é luta (cf. Ef 6,10-20). Quantos cursos, escolas, momentos de formação! São muitas as lideranças que fizeram formação ou estão em processo de formação. Porém, poucas se envolvem ou estão envolvidas em lutas concretas ou engajadas em ações de solidariedade com o próximo e em algum movimento de libertação. Será que se pode ser cristão sem estar engajado em uma luta concreta para transformar o mundo? Diante do Evangelho de Jesus de Nazaré, não!

Onde estamos errando nas nossas formações? Será que não seria importante retomar o Curso Fé e Política (intercalando com o CTPL)? E nós, padres, irmãs, secretárias/os, agentes de pastorais, como estamos nos envolvendo nas lutas com o povo, nas mobilizações, no Grito dos Excluídos, no Dia da Mulher (08 de março)? Esses não são também momentos formativos? É possível fechar as secretarias paroquiais, em certos momentos, possibilitando à equipe paroquial e funcionários para participar nas lutas, lá onde Deus está lutando com o povo (Ex 3)? Não estamos demasiadamente voltados/as para dentro da Igreja, para o espiritual e o íntimo, mesmo em nossas pastorais? Onde fica a Igreja como sinal do Reino de Deus? Como levar adiante o sonho de Deus na história? O Projeto de Jesus de Nazaré, que lhe custou a própria vida, ainda nos motiva a estar em movimento para além das sacristias? O testemunho não deveria partir de nós, a exemplo de Jesus: “Eu lhes dei um exemplo: vocês devem fazer a mesma coisa que eu fiz”? (Jo 13, 15).

Como despertar o gosto pelo estudo bíblico para nosso povo envolvido e absorvido pelas “novas tecnologias”? Hoje se fala que a Igreja deve ser mais missionária, e os católicos, discípulos missionários. Os conselhos não visitam as famílias afastadas. As catequistas não vistam as famílias de catequizandos com dificuldades. A maior parte de nossas lideranças não visita o povo onde ele está, nem tem coragem de puxar um assunto de Bíblia e debater questões de fé. Não está na hora de incluir, na formação com todos os tipos de lideranças, a dimensão missionária (para dentro da comunidade e para fora)? Outro aspecto: como despertar os cristãos e as cristãs para a necessidade da formação continuada?



10. Os desafios com a catequese

“Vocês são o sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-14), mas nem todos tem consciência de sua missão de ser sal da terra e luz no mundo, e muitos têm uma identidade cristã fraca e vulnerável. Isso constitui um grande desafio que questiona a fundo a maneira como estamos educando na fé e como estamos alimentando a experiência cristã, desafio que precisamos encarar com decisão, coragem e criatividade... (DAE p 134, nº 286s).

Hoje a catequese prepara para os sacramentos, ainda. Temos que preparar as crianças e os pais para o impacto que o encontro com Jesus vai causar em nós e para as exigências éticas que serão necessárias para vivermos com coerência a nossa fé.

Olhando para a realidade de nossas comunidades sentimos que o processo de catequese não está conseguindo envolver os participantes na vida de comunidade e nas ações que são propostas. Permanece a catequese para a sacramentalização, cansaço e frustração das lideranças e esvaziamento das comunidades. Não estamos conseguindo fazer o processo que leve ao envolvimento na vida de comunidade, no grupo de jovens e nas questões vitais, como a luta pela terra, saúde, educação, moradia onde a presença profética da Igreja precisa se fazer presente como sal, luz e fermento na massa.

Diante do que percebemos e sentimos na catequese: como assumir o processo de iniciação cristã para que todos possam sentir-se envolvidos e fazer a experiência do encontro com Jesus? O catecumenato crismal está respondendo aos desafios da catequese e da iniciação cristã? Sobretudo no mundo urbano, ao chegarem ao catecumenato, e mesmo à catequese da pré-eucaristia, a maioria de nossas crianças e adolescentes não teve “berço de fé”. Daí ir para a catequese é sentido como um peso, como algo sem sentido. Entraria aqui um trabalho efetivo da pastoral familiar, atuando no seio família e também da Infância Missionária: Criança evangelizando crianças!

A missão evangelizadora precisa de mediações, de instrumentos, de meios para atingir os objetivos propostos. Não estaria na hora de as famílias terem materiais e conteúdos, mais adaptados e atraentes, para os pais sentirem gosto de trabalhar a dimensão religiosa de seus filhos? Não seria importante dar uma atenção especial aos grupos de reflexão, como espaço de catequese familiar e educação da fé? É preciso também ter uma atitude de acolhimento às crianças e adolescentes, cujos pais não participam de comunidade, nem vêm para os encontros, ou são apenas “católicos de nome”. Cada vez mais, no mundo plural de agora, deveremos conviver com as diversidades. E o ser humano que está no grupo, não pode sofrer sansões por causa de pais teimosos que não vão à Igreja nem participam. Mais do que transmitir doutrina, a catequese precisa “criar” atitudes cristãs, educar para os valores evangélicos. Como trabalhar essa dimensão, na catequese, com gestos e atitudes práticas?



11. Uma Igreja mais “comunitária” e menos “em pastorais”

O que fazer com as comunidades pobres e pequenas, sobretudo no interior, que, por serem em poucas pessoas não conseguem nem se manter financeiramente, nem ter lideranças como: ministros, conselho de pastoral, equipe de liturgia...?

No meio dos pobres e simples – sem desprezo a eles e a sua condição – não haveria como organizar a mensagem cristã em material e conteúdo mais apropriado, que ajudasse a ser cristãos nesse ambiente, sem precisar “preparação para o batismo”, “preparação para o matrimônio”, catequese da pré, catequese da 1ª Eucaristia, catecumenato crismal, formação para ministros da Palavra e da comunhão, equipe de liturgia, grupo de canto, pastoral vocacional, zeladora de capelinha, conselho de evangelização e pastoral? Não estaria na hora de distinguir entre “comunidades” (as que têm mais estrutura e condições de se organizar em comunidade) e comunidades menores (os pequenos grupos, famílias isoladas, gente que mora longe...)? Nessa realidade, não seria importante aprofundar mais o sentido do ser comunidade e menos estruturas pastorais, mais missionária e menos sacramentalista?

Essas comunidades menores não poderiam ser espaços de formação integrada mística-celebrativa. Por exemplo: na visita missionária da equipe, num primeiro momento teria um tema de estudo de acordo com a necessidade da comunidade, em seguia um momento místico celebrativo que pudesse contemplar a leitura orante da Bíblia ou ofício divinos das comunidades. Essa forma mais mística e simples de celebrar e viver a fé, com alguns ministérios necessários de acordo com sua realidade, interligando a vida com a Bíblia, a comunhão, o compromisso social e a formação ajudariam essas comunidades menores a serem CEBs.

Lembramos que a eleição do Papa Francisco sugere um tempo de mudança na Igreja. Estamos abertos enquanto Igreja a acolher e dar força para iniciativas missionárias e pastorais, de evangelização, que brotam dos leigos e leigas, sem o aval do padre e sem se encaixar nos nossos esquemas já meio definidos e costumeiros? Com essa realidade de comunidades fragilizadas e até mesmo com as Paróquias em dificuldade financeira, não estaria na hora de também pensarmos um fundo de solidariedade, seja em nível de Paróquia, Região Pastoral ou até em nível de Diocese para garantir, em especial, recursos para a formação nesse campo missionário?

12. Facilitar a evangelização no Extremo Oeste

Somos Igreja Diocesana comunhão e participação. Mas, sentimos que a centralização das atividades pastorais em Chapecó está dificultando a participação da região do Extremo Oeste no conjunto da caminhada da Diocese. As horas de viagens, o desgaste dos agentes, os custos financeiros, enfim essa distância dificulta a articulação pastoral. A distância em relação às paróquias, comunidades e lideranças dificulta também o Secretariado na articulação das pastorais em nível de Diocese, com o risco de enfraquecer o espírito de comunhão e o assumir em conjunto as diretrizes assumidas em assembleia.

É certo que já temos algumas experiências no campo da formação, como as semanas litúrgicas e teológicas, CTPL que já acontecem na região de SMO. Mas precisamos avançar! Preservando a unidade pastoral diocesana, a comunhão e a corresponsabilidade com o bispo diocesano, coordenador de pastoral e o Secretariado, é possível construir caminhos com perspectivas de uma reorganização nas articulações pastorais com uma equipe de coordenação diocesana de pastoral integrada, tendo alguém dessa coordenação na região do Extremo Oeste como referência na articulação pastoral com o mínimo de estrutura possível. Não seria importante tornar público esta necessidade pastoral na assembleia diocesana para que a mesma tome conhecimento e encaminhe às dividas instâncias para uma melhor avaliação, discussão e encaminhamento desta proposta?

13. O desafio com a Pastoral Urbana continua

Temos uma bonita experiência em construção na perspectiva da nucleação, catequese familiar, outras experiências no contexto urbano. É a Igreja nas casas com sinais de CEBs. Não basta ter a pastoral funcionando. É preciso conhecer o movimento da cidade, sua linguagem, cultura, história. Semeando a Palavra, a evangelização deve produzir frutos. Falta de investimento em espaços físicos para reuniões, catequese, pastoral da criança... (Diretrizes, letra b, pg. 37). Precisamos fortalecer a formação dos núcleos nas cidades, ruas, quarteirões, prédios, com maior participação do povo e presença de Igreja, possibilitando estruturas físicas mais simples e leves de comunidades (Diretrizes, número 82, p. 30).

A cidade é um lugar que a Igreja ainda não conseguiu criar raízes. Ela exige dinâmicas pastorais diferentes e o que impede esse processo a estrutura paroquial, ainda organizada para o mundo rural.

Precisamos também manter o cuidado para que o projeto de nucleação não se desvie para o esquema tradicional das grandes comunidades, ou seja, comunidades tradicionais em miniaturas. Não precisamos avançar em outras direções como a formação para novas lideranças, escola bíblica, abertura para a solidariedade e o compromisso social com o envolvimento em algumas lutas concretas, tais como: moradia, trabalho, grito dos excluídos...? Que linhas de ações nesse sentido a assembleia poderia assumir?



14. Nosso compromisso

Na bonita missão de contribuir, desejamos que estes apontamentos fortaleçam o caminhar de nossa Igreja diocesana, mantendo viva sua e nossa trajetória de libertação, bem como o legado de Dom José, mestre e aprendiz do povo. Em comunhão com nosso Pastor Diocesano, D. Manoel, com nosso Coordenador Diocesano de Pastoral, Pe. Domingos C. Curta, com o Conselho Diocesano de Pastoral, com nossas lideranças e comunidades, peçamos as luzes do Espírito Santo. Que Ele nos ilumine, pois temos ainda um longo caminho a percorrer com o desafio de avançar para as águas mais profundas.

A partir desses apontamentos: 1. O que Deus pede de nós, hoje? 2. Que propostas e ações bem concretas podemos tirar para 9ª Assembleia Diocesana, que contemplem a vida pastoral da Igreja (para “dentro”) e a dimensão do Reino de Deus que nos leve a transformação da sociedade (para “fora”)?

Texto organizado por Pe. Reneu Zortea,

com colaborações da equipe paroquial de pastoral da Paróquia São Miguel Arcanjo,

Sirlei Kroth Gaspareto, Ourora Bolzan, Rodinei Balbinot, Paulo Diel, padres Cleto Stülp, Ivo Oro e Domingos Dias.



SMO, julho de 2013.


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