Ajub. 2010. Congresso. Palestra Caros Jovens!



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Encontro29.07.2016
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AJUB.2010.Congresso.Palestra

Caros Jovens!

Cada um de vocês, principalmente os que vieram de longe, trouxe consigo sua bagagem.

O que é a bagagem? É o conjunto de objetos, utilidades que trazemos conosco para suprir nossas necessidades em dado local, ocasião, atividade, evento. Essa é a bagagem material, visível. Mas além da mochila, sacola ou até mala, vocês trouxeram para esse Congresso algo mais: a sua mente, seus conhecimentos, suas experiências, suas emoções, seus projetos, seus anseios. Isso também é bagagem – que nos acompanha e sempre. É a nossa bagagem espiritual ou imaterial.

Agora é só trocar a palavra ‘bagagem’, por outra, por CULTURA, e assim vocês já entendem o que é cultura: é nossa bagagem material e espiritual.

Cultura material engloba, portanto – utensílios, ferramentas, moradias, construções, vestimentas, alimentação, equipamentos de trabalho, higiene, transporte e outros bens materiais, próprios de uma pessoa e de uma comunidade.

Cultura espiritual ou imaterial consiste em – tradições, costumes, folclore, crendices, superstições, arte, religião e língua, enfim a história, próprios de uma pessoa e de uma comunidade.

Mas a cultura não surge do nada, assim, por acaso. É o fruto do trabalho, individual e coletivo e não só de hoje, mas de anos, séculos, milênios. Assim chegamos ao lema desse Congresso:

“Збудували працею” – construíram com o trabalho. O patrimônio cultural que temos, de que nos servimos, de que nos orgulhamos, é fruto de trabalho tanto nosso, como principalmente de muitas gerações que nos precederam. Hoje vamos analisar, estudar, debater a cultura ucraniana – material e imaterial – construída e formada, presente, preservada e a preservar na comunidade ucraniana no Brasil e especificamente nessa região – que é um dos pólos da imigração ucraniana.

Nessa palestra vamos tratar especificamente de aspectos da cultura espiritual – imaterial – da nossa comunidade, principalmente referentes a essa região, que teve e continua tendo Dorizon-Rio Claro-Mallet como pólo.

Vamos relembrar o início da imigração ocorrida já ha mais de um século – pois no ano que vem vamos comemorar 120 anos da imigração ucraniana no Brasil.

Vamos lembrar alguns nomes ilustres de personalidades vindas dessa região ou que aqui atuaram e que se destacaram por terem dado relevante contribuição para a comunidade e para sociedade como um todo.

Examinaremos brevemente a imigração ucraniana sob o aspecto geográfico, ou seja, que localidades os imigrantes povoaram e sob o aspecto etnográfico: que tipo de imigrantes aqui vieram e para que tipo de membros da sociedade eles evoluíram.

A imigração ucraniana ocorreu em vários anos. Teve um início modesto que depois se tornou um movimento massivo de milhares de famílias que se fixaram principalmente no Paraná, mas também no norte de Santa Catarina – e alguns no remoto Rio Grande do Sul, bem como em São Paulo.

No Paraná – incluindo também o norte de Santa Catarina – a povoação do território com imigrantes ucranianos pode ser esquematizada em 5 conjuntos – como consta no belíssimo livro recentemente publicado por Larocca Associados “Casa Eslavo-Paranaense” que tem como sub-título “Arquitetura de madeira dos Colonos Poloneses e Ucranianos do Sul do Paraná”.

Esses conjuntos seriam: 1 – Conjunto Metropolitano – de Curitiba e arredores: Colônia Marcelino, Guajuvira, etc.; 2 – Conjunto Rio Negro – que tem como pólo Rio Negro – e inclui Mafra – Iracema, etc.; 3 – Conjunto Prudentópolis – que tem como pólo Prudentópolis – e se irradia para o municípios vizinhos, como Ivaí, Imbituva, Ipiranga, Guarapuava, Inácio Martins; 4 – Conjunto União da Vitória – que tem como pólo União da Vitória e Porto União e inclui Porto Vitória, Bituruna, Cruz Machado, General Carneiro; 5 – Conjunto Vale do Médio Iguaçu – que tem como pólo Mallet – e inclui Irati, Rio Azul, Rebouças, Fernandes Pinheiro, Palmeira, São João do Triunfo, São Mateus do Sul, Antonio Olinto, Canoinhas, Três Barras, Paulo Frontin e Paula Freitas.

Por estarmos em Dorizon – vamos focar hoje nossa atenção sobre esse último Conjunto – o do Vale do Médio Iguaçu. E foi justamente aí que se fixaram os primeiros imigrantes ucranianos aqui no Brasil. Isso não aconteceu por acaso, pois nessa região do Vale do Iguaçu foram criadas naquela época pelo Governo Colônias Oficiais, justamente para assentar os imigrantes eslavos, poloneses e ucranianos.

Num quadro organizado a partir do livro História do Paraná, de Balhana, Pinheiro Machado & Westphalen (Curitiba, Grafipar, 1969), constam duas colônias oficiais criadas em 1891: Colônia Santa Bárbara – no município de Palmeira, aqui ao lado, povoada por poloneses, ucranianos e italianos e Colônia Rio Claro – aqui no atual Município de Mallet, colonizada por poloneses e ucranianos. Nesse mesmo quadro consta que nos anos seguintes foram criadas: em 1892: a Colônia Eufrosina, em S. Mateus do Sul; em 1895, a Colônia de Antônio Olynto, no atual Município de Antônio Olinto; em 1896 a Colônia de Mallet; em1908 a Colônia de Gonçalves Júnior e também a Colônia Itapará, no atual Município de Irati; em 1909 a Colônia Vera Guarany, nos atuais Municípios de Paulo Frontin e Paula Freitas.

E as primeiras notícias documentadas que temos de imigrantes ucranianos encaixam-se exatamente nessas datas: Temos o testemunho pessoal de Ivan Pasevich que escreve que saiu da Ucrânia da vila Serveriv, do Município de Zolocziv, no mês de maio de 1891, junto com seu Pai Teodoro Pacevich sua mãe Sofia e mais três irmãos, ou sejam 6 pessoas, que se estabeleceram na Colônia Rio Claro, aqui nessa região. Junto com eles chegaram ao Brasil, até Paranaguá mais 3 famílias ucranianas. Desse Ivan Pasevich falaremos mais logo a seguir.

Temos também documentada a vinda de mais 6 famílias, no total 32 pessoas, que se estabeleceram em 1891 na Colônia Santa Bárbara, no vizinho Município de Palmeira, vindas também de vilas da Ucrânia ocidental, da região de Zolocziv: como Trostanech Malyi, Kotliv. Temos os sobrenomes desses emigrantes: Harasym, Borchakowskyi, Stecz, Pacitchnyi, Moskalevskyi. Esse foi o começo, modesto, mas documentado. Por isso em 1991 comemoramos o Centenário do início da imigração ucraniana ao Brasil e em 2011 comemoraremos os 120 anos.

Naturalmente o fluxo imigratório se intensificou e em 1895 tomou proporções muito grandes e continuou muito intenso até pelo menos 1911.

E como eram essas pessoas que vieram da Ucrânia, o que elas pensavam, com o que sonhavam, que realidade encontraram aqui no Brasil, como enfrentaram as adversidades?

Sabemos que se tratava forçosamente de agricultores, pois o Brasil só aceitava agricultores para povoar essa região.

Eram famílias que já não encontravam espaço lá na Ucrânia Ocidental – densamente povoada e cujas terras estavam em mãos de latifundiários, conhecidos como “pany”, geralmente da elite polonesa e também ucraniana, leal ao poder ali dominante na época – nas atuais Províncias de Ternópil, Lviv, Ivano-Frankivsk (antigamente Stanislaviv) – região então ocupada pelo Império Austro Húngaro. Por isso os emigrantes, tanto ucranianos como poloneses vinha com Passaporte Austríaco, porque era esse Império que dominava a Ucrânia ocidental e também a Polônia – isso foi assim até a 1ª Guerra Mundial em 1914, quando terminou o Império Austro-Húngaro.

E mais detalhes sobre os emigrantes – de onde sabemos?

Todos concordam que uma imagem vale por mil palavras. Por isso se usam imagens em palestras para reforçar a informação, auxiliar o entendimento e a memória. Da história da nossa imigração quase não temos imagens, fotografias, temos poucas informações – mas nossa imaginação tão poderosa pode recriar muitos fatos, imaginando-os, principalmente quando dispomos de um relato bem detalhado e muito original de um imigrante que escreveu em breves duas páginas suas memórias – e isso foi publicado no Jornal “Pracia” de Prudentópolis no dia 12/12/1951.

É um depoimento de um dos primeiros imigrantes ucranianos que chegaram ao Brasil ainda no ano 1891. Ivan Pacevich instalou-se com sua família em Rio Claro, a poucos quilômetros daqui, distrito do atual Município de Mallet. É muito interessante a descrição das condições de vida dos primeiros imigrantes. É só escutar atentamente e vocês poderão reviver o ambiente em que eles se viram colocados e tiveram que construir sua vida, transformando as dificuldades em oportunidades. Eis o relato:

“Era o mês de maio de 1891. Estamos nos despedindo da nossa vila natal, de Serveriv, do Município de Zolochiv, para buscar no distante Brasil uma nova pátria. Eu, jovem de 15 anos, com meus pais Teodoro e Sofia e minhas três irmãs Maryna, Hannia e Iustyna. Partimos em quatro famílias, e juntos chegamos até Paranaguá. Lá essas famílias se separaram de nós – e já não nos encontramos mais com elas.



Até o porto de Hamburgo viajamos por nossa conta e de Hamburgo até o Rio já fomos por conta do governo. Embarcamos no navio no dia 6 de junho e chegamos ao Rio no dia 23 de agosto. Viajamos tanto tempo, porque naquele período no Brasil ocorria a revolução entre os federalistas e os “pica-pau”. Por isso, ficamos muito tempo parados na África e depois no Rio uma semana inteira não nos deixavam sair do navio. Do navio, com pequenos barcos nos levaram para a Ilha das Flores, onde tivemos que ficar em segurança por seis semanas. Da Ilha das Flores nos levaram de navio para o Porto de Paranaguá e dali para Curitiba. Curitiba naquele tempo era muito pequena, cheia de banhados e barro. Ruas estreitas, e na atual rua Rio Branco se podia atolar. A estrada de ferro existia somente de Paranaguá a Curitiba. – Em Curitiba nos alojaram em barracas fora da cidade, na rua 7 de setembro. Ali nós moramos 3 meses. Meu pai trabalhava temporariamente numa fábrica de mate, onde recebia 2,50 mil réis por dia. E nós com a mãe ficávamos na barraca. Nossa permanência em Curitiba se estendeu, porque naquele tempo estavam abrindo a estrada para Porto Amazonas. Finalmente concluíram a estrada, nos colocaram em carroças e levaram para Porto Amazonas, onde embarcamos numa balsa – e seguimos rio abaixo pelo Rio Iguaçu. Viajamos seis dias até Barra Feia. Em Barra Feia nos alojaram em cabanas de taquara. Ali, naquele tempo estavam abrindo a estada para a Colônia Rio Claro. Depois de duas semanas colocaram nossas coisas sobre mulas e nós a pé fomos para a Colônia Rio Claro. E lá de novo, nos alojaram em cabanas de taquara. Novamente tivemos que permanecer ali por dois meses. Naquele tempo estavam medindo as chácaras. Quando concluíram a medição, a nós coube o terreno n° 64, nós pegamos as coisas nas nossas costas e pelas picadas estreitas rumamos para o número 64. Na chácara nós já encontramos um barraco maior de taquara, que devia servir-nos como nossa casa. Como já em Rio Claro nós recebemos foices, enxadas e machado, meu pai começou a limpar o lugar perto do nosso rancho. Mais tarde roçamos e cortamos o mato, para poder plantar alguma coisa. A floresta era densa e escura, cheia de cobras e animais selvagens. Os animais selvagens chegavam até na frente da nossa casa, por isso passamos muito medo e preocupação, para espantá-los dali. No roçado meu pai semeou manualmente 5 litros de centeio. A terra era nova e a primeira colheita foi muito grande, porque desses 5 litros nós colhemos 96 quartas. Meu pai fabricou uma mó manual ‘zhorna’ e nela nós moemos a primeira farinha. Até hoje sinto o gosto do primeiro pão – porque nós não tínhamos comido pão desde a Haletchená. No começo nos sentíamos muito estranhos, porque ficamos por 3 anos em ambiente puramente polonês. Só após três anos chegaram à colônia Rio Claro os primeiros ucranianos (8 famílias), a família dos Povidaiko, Scheremeta, Bilenkyi, Pasko, Koszan, Krassovskyi, Maruschka, Justechen. Quando soubemos que eles chegaram a Rio Claro, nós todos de casa fomos visitá-los e saudá-los com o nosso pão. Porque por esse tempo nós já tínhamos organizado nossa propriedade, já tínhamos um pouco de terra limpa, o próprio pão e sua própria vaca, que compramos com o dinheiro que eu ganhei com meu trabalho, - por 60 mil réis (uma vaca com uma novilha de um ano e um pequeno terneiro).

Igreja, no começo nós não tínhamos nenhuma. O Natal e a Páscoa nós comemorávamos em casa. Meu pai benzia a ‘paska’ com água benta e nós todos juntos rezávamos o Pai-Nosso “Otche Násch’, e isso era toda a nossa cerimônia de comemoração. Só em 1897, com a vinda do Padre Rosdolskyi, na Colônia 5 foi construída a primeira Igreja. Duas ou três vezes ao ano nós íamos a pé pelas picadas até à Igreja na Colônia 5. Geralmente caminhávamos dois dias. No ano de 1899 começamos a construir a Igreja na Serra do Tigre.

O primeiro tronco do fundamento da Igreja nós cortamos com meu pai e depois todos o carregamos nas costas. Até o Padre Rosdolskyi ajudava. E assim nas costas o povo carregou todo o material, dos fundamentos até às taboinhas do telhado. Concluímos em 1900.

Nesse tempo já até as estradas eram melhores, e era mais fácil chegar à Igreja. Estrada-de-ferro ainda não havia nenhuma. Dorizon e Mallet ainda não existiam, havia só floresta negra e taquaral. Em 1892 começaram a construir a estrada-de-ferro de Curitiba a Ponta Grossa e dali a Porto União. Só em 1907 a estada chegou a Mallet e em 1908 no Porto. Foi então que começaram a construir casas perto das estações da estrada-de-ferro e assim começaram a surgir aqui as primeiras cidadezinhas. Não havia nenhuma escola, não havia professores. Ensinavam aqueles que sabiam escrever. Em 1905 construíram a primeira escola em Serra do Tigre e o primeiro professor era Mykola Futerko. Ali também existia a primeira Sociedade de Mohyla. Essa Sociedade se desenvolvia muito bem. Infelizmente durou só até à morte do Pe. Rosdolskyi. Em Curitiba, em 1907 era publicado o jornal “Zoriá”, e pagava-se a assinatura anual por 7 mil réis. E assim os anos iam passando. Nós já tínhamos a estrada-de-ferro bem pertinho e Dorizon aos poucos ia crescendo. Ali foi construída em 1910 uma escola e o primeiro professor foi o Sr. Valentin Kutz, que veio ao Brasil em 1911. Ali também foi fundada a primeira Sociedade em nome de Tarás Chevtchenko – e a escola também era denominada de Sociedade Chevtchenko. O mais atuante era o senhor Antin Firman, em cuja casa se concentrava toda a vida da comunidade. Em Dorizon aconteceu em 1912 o primeiro Congresso dos Ucranianos no Brasil.

Agora, após 60 anos de minha vida, tudo o que nós primeiros imigrantes passamos aqui me parece um sonho. E como no sonho vejo a floresta negra, tocos queimados e picadas estreitas. Os mais velhos já morreram e deixaram o lugar para os mais novos. Mas também a esses os anos já estão curvando para o chão. É uma pena que se está esquecendo tudo o que nós passamos e tudo o que nós fizemos, porque aos mais jovens não interessam muito os primeiros anos de nossa vida no Brasil. Mas é uma pena, porque tudo o que aqui existe, campos limpos e estradas, tudo isso está coberto com o nosso suor, e por vezes sangue. Nas páginas do jornal só se consegue recordar piedosamente em breves fragmentos – mas seria muito importante que alguém fosse para as colônias e procurasse por aqueles que foram testemunhas vivas do corte das florestas e em base ao testemunho deles escrevesse a história de nossa colônia no Brasil. Porque os anos passam – e cada ano mais e mais nos derruba e nos deixa cada vez menos numerosos. Ivan Pacevich.”

Ouçamos agora atentamente só mais um breve trecho de uma reportagem que foi escrita no Rio Claro, em setembro de 1897, por um imigrante, para um Jornal Ucraniano dos Estados Unidos ‘Svoboda’. A tradução é de D. Daniel e de Sidnei Muran – e consta na brochura publicada por ocasião do Centenário da Igreja Ucraniana de Mallet – em 2006.

“ Escrevo a vocês com um grande entusiasmo. Alegro-me em poder receber e ler o vosso jornal (Svoboda). Ele é lido, não apenas por mim, mas por todos os ucranianos que vivem em nossa Colônia. Temos aqui uma sala de leitura, junto à igreja e a residência que nós construímos para o nosso padre, Nikon Rozdolski. (...)”

“...Quando nós aqui chegamos, encontramos apenas a floresta e morros. Agora a nossa colônia já se parece com um pequeno ‘celó’, com as propriedades instaladas dos dois lados da estrada principal. No centro da colônia, a nossa Igreja, grande a majestosa. Por enquanto esta é a única Igreja Ucraniana no Brasil. Junto à Igreja, o campanário, a escola e a residência do sacerdote. Assim a honra dos ucranianos é mantida. Os poloneses da Colônia Rio Claro, que ali se encontram já ha sete anos, ainda não possuem a sua igreja, apenas uma capelinha. Nós, os ucranianos, já estamos prontos para construir mais uma Igreja em uma colônia próxima. (...)

O padre Nikon ensina muito bem as nossas crianças, não apenas a catequese, mas também noções de aritmética e a língua portuguesa. Nós precisamos muito aprender esta língua, nunca devemos abandonar a nossa língua materna.

Os brasileiros nos estimam muito, freqüentam, inclusive, a nossa igreja. Precisamos saber nos comunicar com eles. Muitas vezes eles freqüentam as nossas casas, nos visitam. Eles apreciam muito o nosso modo de cultivar a terra. Querem nos imitar. Aqueles que moram mais próximos de nós, já conseguem semear o centeio, cultivar as batatinhas. Alguns conseguem falar a língua ucraniana. No começo, quando os brasileiros chegavam até nós, oferecíamos a eles um pedaço de pão. Porém, eles não aceitavam, porque não sabiam o que era. Hoje eles apreciam muito o nosso pão. Por isso eles admiram muito o nosso povo. Assim eles falam: “Os ucranianos da Galícia são gente boa...”.

“... Para nós agora é tempo de colheita. Colhemos o centeio, a hretchka, cevada, amendoim. A terra aqui é muito boa. Graças a Deus a colheita foi muito boa. A hretchka pode-se semear até três vezes ao ano; a cevada duas vezes ao ano; o amendoim duas vezes. O centeio apenas uma vez, porém, a colheita é muito boa. O trigo quase não se semeia, pois os passarinhos comem tudo. O milho também produz muito. Plantamos batatinhas duas vezes ao ano. ...”

“... Aqui em Rio Claro temos apenas frutas cítricas: laranjas, limões e alguns tipos de ameixas brasileiras. Já plantei a uva, mas ainda não está produzindo. Nem todos os ucranianos possuem um parreiral, ou outros tipos de frutas. Muitos dos ucranianos procuram imitar os poloneses que já se encontram no Brasil há oito anos. Muitos plantam a mandioca e dela fazem a farinha. Esta farinha pode ser misturada no pão ou comer com a carne. Aqui existem plantações de banana – uma fruta com uma casca dura. Quando nós a descascamos, encontramos uma fruta muito deliciosa, parecida com a manteiga. É muito bom comer o pão com a banana. Existem ainda outras árvores frutíferas. A guabiroba produz um fruto muito doce. Existe também a cereja, uma fruta vermelha muito boa. A variedade de árvores na floresta é muito grande, ainda não sei identificar todas. Algumas eu conheço pelo nome: pinheiro, imbuia, cedro, canelas, palmeiras, guabiroba, cereja. Para a construção de casas as melhores madeiras são produzidas pela imbuia, pelo pinheiro e pelo cedro. O clima aqui é muito saudável, a água também é muito boa. Quase todos os nossos colonos possuem criações de abelhas. A produção de mel é muito boa, mas ninguém quer comprar porque cada um tem a sua própria produção. ...”

Haveria ainda inúmeros outros depoimentos, de outras regiões e de outras épocas. Vamos nos limitar a esses. Também outras etapas da imigração ucraniana não serão tratadas aqui. Na comemoração dos 120 anos, no ano que vem, haverá oportunidade para isso.

Assim eram os nossos antepassados. Eles lutaram, com garra, alegria, otimismo e em sua maioria foram grandes vencedores. E nós temos orgulho desses verdadeiros heróis, desbravadores. Seus filhos, netos, bisnetos foram galgando postos e resultaram nos atuais pequenos, médios e grandes produtores agrícolas, comerciantes, industriais, profissionais liberais, administradores, professores, funcionários públicos, políticos, sacerdotes, religiosas, bispos!

É importante lembrarmos essa história – especialmente nessas regiões, regadas pelo suor e sangue de nossos antepassados. Isso valoriza a nossa própria história, que tem base tão sólida e nos estimula a levarmos adiante essa busca por novas conquistas, bem-estar e progresso tanto material como espiritual.

Dorizon, como já se percebeu nos relatos tornou-se um importante centro de preservação e propagação de tradições ucranianas e cultura local dos imigrantes.

Como já ficamos sabendo, aqui realizou-se em 1912 o primeiro Congresso dos Ucranianos no Brasil. Em 1922, de 7 a 9 de julho, também houve aqui um encontro histórico da comunidade ucraniana, com a presença do Metropolita Andrei Scheptyczkyi, autoridade máxima da Igreja Ucraniana Católica, vindo da Ucrânia em visita pastoral às comunidades aqui do Brasil, também do Professor Karmansky, que havia estado anos antes como representante do Governo ucraniano da República Democrática da Ucrânia, no breve período de Independência da Ucrânia após a 1ª guerra mundial. Sob a liderança de Karmansky foi então fundada a Sociedade denominada “União Ucraniana do Brasil”, atual Sociedade Ucraniana do Brasil.

Com o passar do tempo foram surgindo lideranças e entre elas sempre se destacaram os padres e mais tarde as irmãs, que passaram a cuidar do ensino nas escolas. Já ouvimos falar bastante do Padre Nikon Rosdolskei. Depois dele coube o trabalho de liderança e organização ao Padre basiliano Cyrillo Semkiv, depois Miguel Berejuk, Pedro Protskiu, Emiliano Ananevicz, Monsenhor Clemente Preima, Severo Preima, Monsenhor Pedro Busko, Metódio Koval, Valdomiro Hanneiko, e a nova geração de sacerdotes: Padres Sérgio Krasnhak, Jeroslau Susla, Edison Boiko, Paulo e Valdomiro Barabasz, e muitos outros passados e atuais, até chegarmos ao Pe. Daniel, hoje Dom Daniel, que é nascido em Pato Branco, mas já atua muitos anos nessa região e que continua essa tarefa importante, promovendo e apoiando a organização harmoniosa e saudável da comunidade, preservando os valores ucranianos e estimulando o progresso social, cultural, material e espiritual da região.

É importante lembrar especialmente a família Vodonos, daqui de Dorizon, da qual se destacou o Irmão Paulo Vodonos, da Congregação dos Irmãos Maristas, um dos fundadores e por longos anos Pró-Reitor da PUC, Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Também merece menção especial a família Firman, da qual um dos membros Pedro Firman Neto se elegeu Deputado Federal.

Seria cansativo citar várias dezenas de sobrenomes, muitos conhecidos de vocês, que provém dessa região e que galgaram importantes postos no nosso estado e país. Mas é imprescindível lembrar de uma personalidade, cujo centenário de nascimento comemoramos oficialmente e solenemente há poucos meses: o pintor Miguel Bakun, nascido aos 27 de outubro de 1909 em Rio Claro – Município de Mallet, batizado pelo Padre Ciryllo Simkiv.

Miguel Bakun é considerado nosso ‘Van Gog’ paranaense e brasileiro e sua obra artística é respeitada e reconhecida oficialmente.

A Secretaria da Cultura do Estado do Paraná, sob a liderança da Secretária Vera Mussi promoveu vários eventos comemorativos, com a participação do Sr. Embaixador da Ucrânia no Brasil, Cônsules, Representação Central Ucraniano Brasileira e lideranças em geral, Deputado Felipe Lucas, e inclusive o Sr. Prefeito de Mallet.

Agora só esperamos que o Município de Mallet homenageie devidamente o filho da sua terra, que já obtém tão alto reconhecimento na capital e precisa ser reconhecido no Município em que nasceu: uma praça, um monumento, um Centro Cultural, algo assim seria adequado, agora quando ainda estamos comemorando o Centenário do seu nascimento.

Não muito distante daqui, ali do outro lado da Serra da Esperança, encontra-se o Município de Cruz Machado: ali nasceu Helena Kolody, cujos pais eram imigrantes vindos da Ucrânia. Ela também uma grande expoente da cultura – poeta de grande renome e admiração. Cultuada em todo o Paraná. Orgulho de nossa comunidade. Seu centenário de nascimento será em 2012!

Concluindo, gostaria de estimular a todos a pensarem sobre o que ouviram, e ao pisarem o solo dessa região e falarem com quem aqui mora e preserva o que foi construído e feito no passado, procurem valorizar o trabalho, a produção e preservação da cultura, aqui trazida e aqui conservada. A simplicidade também pode esconder valores admiráveis.

Bom Congresso a todos.



Muito obrigado.

Mariano Czaikowski, Cônsul Honorário da Ucrânia – Dorizon/Serra do Tigre, 06/02/2010


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