Albert de Rochas As Vidas Sucessivas Traduzido do Francês Les Vies successives



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Caso nº 6 – Srta. Mayo,58 1904


O sujet é uma moça de dezoito anos, perfeitamente sã e que jamais ouviu falar sobre magnetismo ou espiritismo.

Tendo durante cerca de dois meses vivido na mesma casa que essa jovem, pude proceder às experiências bem lentamente e sem tomar nenhum partido, deixando suas faculdades desenvolverem-se na direção para onde estavam naturalmente orientadas.

Quase todas essas sessões tinham por testemunha o Dr. Bertrand, presidente das câmaras municipais de Aix e médico de sua família, e o Sr. Lacoste, engenheiro, amigo de seu padrasto, que tiveram a amabilidade de tomar notas. Essas notas são preciosíssimas, uma vez que o Dr. Bertrand e o Sr. Lacoste, não tendo mais assistido a esses fenômenos, indicavam as diferentes fases muito melhor do que eu o teria feito, porque, habituado àqueles, estas me impressionam menos. Também reproduzi-as in-extenso, crendo que o leitor perceberia assim muito melhor o desenrolar das sessões.

Diário das sessões

1ª sessão: 2 de dezembro de 1904

Tento, por meio de passes longitudinais, adormecer Mayo; após alguns minutos ela tem a impressão de que está aumentando. Eu a trago de volta a seu estado natural através de passes transversais.

Retomo a experiência após quinze minutos e chego a determinar o primeiro estado de letargia. Não sigo adiante e a desperto.


2ª sessão: 4 de dezembro de 1904

Tento adormecer e despertar Mayo através da pressão nos pontos hipnógenos dos punhos. Chego a determinar um sono leve e uma muito fraca sugestibilidade.
3ª sessão: 5 de dezembro de 1904

Levo Mayo até o estado de sonambulismo por meio de passes longitudinais. Nesse estado ela mantém os olhos abertos e está em comunicação com os assistentes. Tento o efeito da música. Yann Nibor canta diante dela algumas de suas obras mais emocionantes. Mayo ergue-se, cativada, e representa as emoções que experimenta, com menos intensidade todavia do que Line.59 O piano não somente produz efeitos mínimos, como parece por vezes ser-lhe desagradável.

Após esses testes retomo a magnetização de Mayo e levo-a ao estado de rapport, onde ela não ouve e nem vê senão a mim.


4ª sessão: 6 de dezembro de 1904

Levo seu sono até o momento em que ela vê formar-se a seu lado um fantasma levemente luminoso; a visão é confusa. Não encontro nenhum indício de regressão da memória.
5ª sessão: 7 de dezembro de 1904

Lentamente, por meio de passes, faço Mayo passar novamente pelos diversos estados de hipnose que ela já percorreu.

Constato que aceita as sugestões apenas durante um instante bastante curto, ao final da primeira letargia.

Nesse estado de sonambulismo que se segue ela não é absolutamente sugestionável. Conserva a memória do que se passou no estado de vigília e nos precedentes estados de sonambulismo. Pressionando o meio da fronte, determino as recordações relativas aos fatos que se passaram anteriormente nos estados mais profundos.

Após a segunda letargia, o estado de rapport manifesta-se bastante nitidamente: Mayo não houve e nem vê nada ou ninguém, apesar de recordar-se ainda de meu nome e do seu. Percebe os fluidos e apresenta o fenômeno da exteriorização da sensibilidade.

Após uma nova letargia (a terceira), ela entra no estado caracterizado pela simpatia ao contato, isto é, sente todas as ações exercidas sobre mim quando a toco. Além do mais, ela perdeu a lembrança de tudo o que se passou nos estados precedentes.

6ª sessão: 9 de dezembro de 1904

Mayo consegue exteriorizar mais completamente seu corpo astral. Ela o vê nitidamente a seu lado. Digo-lhe para dar-lhe a forma de sua mãe;60 ela o consegue.

Nenhum vestígio de regressão da memória.


7ª sessão: 10 de dezembro de 1904

Exteriorização completa do corpo astral, que se forma ao lado do sujet. Determino a Mayo que faça subir seu corpo astral tão alto quanto possa. Constato que ela o desloca, porém não pode fazê-lo atravessar o teto. Experimenta uma sensação dolorosa cada vez que toco o cordão fluídico que se eleva acima de sua cabeça.
8ª sessão: 11 de dezembro de 1904

Esta sessão é consagrada ao estudo das expressões do rosto e dos gestos provocados em Mayo pelos sentimentos expressos musicalmente. É Yann Nibor quem canta. Mayo exprime admiravelmente os sentimentos em si despertados pela Marselhesa (exprime os mesmos gestos que Line) e pela honra e pátria de Yann Nibor.
9ª sessão: 12 de dezembro de 1904

Nesta sessão estudamos especialmente o desenrolar do fenômeno do ponto de vista do tempo. É o Sr. Lacoste quem toma notas contando as horas à moda italiana, de 1 a 24, partindo de meia-noite.

13:30 – Estado de vigília; nenhuma sugestibilidade. Os passes não produzem efeito algum sobre o sujet.

13:33 – O Sr. de R. toma então as mãos de Mayo e coloca seus polegares contra as palmas das mãos do sujet. Por sua vontade projeta seus fluidos em Mayo, que sente imediatamente uma corrente subir por cada um de seus braços.

Após um minuto (13:34) o sono é completo.

13:36 – Mayo sai da letargia para entrar no sonambulismo que o Sr. de Rochas chama de segundo estado da hipnose:61 os olhos se abrem, ela apresenta inteiramente a aparência da vigília, porém apresenta a insensibilidade cutânea.

O Sr. de R. continua sua ação pelas mãos e determina assim a segunda letargia. Apercebendo-se de que a respiração diminui, ele a restabelece colocando sua mão direita espalmada sobre o peito do sujet. Continua em seguida a magnetização por meio de passes.

13:39:30 – Mayo desperta no estado de rapport (terceiro estado). Ela não é mais sugestionável. Recusa-se a mostrar as pernas,62 entretanto consente em abraçar o Sr. de R. Não percebe os fluidos das mãos nem o interior de seu corpo. Começa a exteriorizar-se e a sentir as sensações provocadas no magnetizador (por ação direta) nos pontos onde ele a toca.

13:44 – Continuação dos passes; terceira letargia.

13:46 – Despertar em um novo estado, o quarto.63 Ela não se recorda de já ter estado nele. Experimenta à distância as sensações do magnetizador. Esqueceu seu nome. O instinto do pudor persiste; recusa-se a mostrar as pernas.

13:47 – Continuação dos passes; entrada na quarta letargia.

13:50 – Despertar no quinto estado. O Sr. de R. constata, beliscando o ar ao redor de Mayo, que ela começa a desprender-se pela cabeça. Ela apóia, durante cerca de um minuto, a cabeça no ombro do magnetizador, como que para adquirir forças; em seguida volta à sua atitude habitual. Esqueceu seu nome; lembra-o quando o Sr. de R. fricciona-lhe a raiz do nariz.

13:54 – Continuação dos passes. Entrada na quinta letargia com uma leve sacudidela.

13:56 – Despertar no sexto estado. Ela vê formar-se à sua esquerda um fantasma luminoso. O Sr. de R. constata que é nesse fantasma que se localizou toda a sua sensibilidade. Ela recusa-se a mostrar as pernas, mesmo a uma mulher.

14:00 – O Sr. de R. continua a magnetização entremeando os passes com as pressões do polegar na palma da mão do sujet. Entrada deste na sexta letargia.

14:01 – Despertar no sexto estado. Mayo vê seu fantasma à direita; o da esquerda desapareceu quase que completamente. Ela se recorda de já ter visto aparecer sua mãe (sexta sessão), porém não deseja revê-la.

14:03 – Continuação da magnetização. Entrada na sétima letargia.

14:04 – Despertar no oitavo estado. O corpo astral está completo. O Sr. de R. tenta fazê-lo subir, enviá-lo ao outro aposento; o corpo foi retido pelo teto e paredes. O Sr. de R. diz a Mayo que lhe estenda a mão direita astral e ele a belisca; Mayo sente a beliscada.

Ela vê como um cilindro luminoso o círculo traçado pelo Sr. de R. ao redor dela.

14:11 – O Sr. de Rochas procede ao despertar, por meio de passes transversais, e ela acorda rapidamente.

14:15 – O despertar é completo. Mayo não se sente absolutamente fatigada. O indicador de sua mão direita apresenta a marca bem nítida de uma unha.64


10ª sessão: 13 de dezembro de 1904

Pesquisa dos pontos hipnógenos por meio da insensibilidade cutânea e da sensibilidade à distância. Procuro um pouco ao acaso e somente nos locais onde posso permitir-me a exploração. Constato que há pontos hipnógenos nos dois punhos, abaixo dos olhos, abaixo e atrás das orelhas, na depressão interclavicular.
11ª sessão: 14 de dezembro de 1904

Sessão consagrada aos efeitos musicais durante o sonambulismo. O piano continua a ser pouco agradável.
12ª sessão: 16 de dezembro de 1904

Reprodução dos fenômenos de exteriorização do corpo astral pela formação sucessiva de um semifantasma à esquerda, seguida de um semifantasma à direita. Uma singularidade inexplicada apresentou-se aqui: Mayo, olhando seu fantasma situado à sua esquerda, viu-o de perfil, mas de perfil virado para trás, ao invés de estar no mesmo sentido de seu corpo físico.
13ª sessão: 17 de dezembro de 1904

Após ter constatado mais uma vez que Mayo não é sugestionável nem no estado de vigília, nem no estado de sonambulismo, adormeço-a muito lentamente com o auxílio da pressão no ponto hipnógeno de um ou de outro de seus punhos, repetindo, cada vez, a um momento diferente da primeira letargia: “Você não poderá levantar-se sem minha permissão.” Constato então que a sugestão não produz seu efeito senão quando é formulada no instante bem curto que precede a passagem ao sonambulismo.65

Levo em seguida seu sono até o estado de rapport. Nesse estado pode-se aproximar uma vela acesa de seus olhos sem que Mayo perceba; porém, quando olho para a vela, ela recua vivamente. Aproxima-se um frasco de amoníaco de seu nariz e ela não sente nada; entretanto, sente-o vivamente logo que respiro com precaução as emanações do amoníaco.66 Digo-lhe que me beije; ela o faz com prazer sobre a face. Toco de leve seus lábios; ela recua, zangada. Não se recorda de ninguém.

Continuo a magnetização. Ela vê formar-se à sua esquerda um fantasma luminoso que apresenta sua forma atual. Digo-lhe que dê a esse fantasma a forma que ela tinha aos dezesseis anos; ela se vê com essa idade, depois com quatorze, com doze. Com dez anos ela se crê em Marselha, o que é correto. Com oito anos está em Beirute, fala de seu pai, de sua mãe e dos amigos que freqüentavam a casa, o que também é correto.

Faço então, através de passes transversais, o corpo astral entrar no corpo físico, o que se realiza com um pouco de dificuldade, e procedo ao despertar completo.

Quando Mayo está bem desperta, não constato mudança apreciável em sua mente; porém, não querendo arriscar um acidente, readormeço-a e exteriorizo novamente seu corpo astral. Ela ainda o vê sob a forma de uma criança de oito anos. Devolvo-lhe a forma de dezoito anos e a desperto.

Quando ela recai na primeira letargia, digo-lhe que se esforce por lembrar-se do que se passou durante o sono e de escrevê-lo para mim. Repito-lhe esse pedido quando ela está acordada.


14ª sessão: 18 de dezembro de 1904

No início da sessão, Mayo me dá a anotação seguinte, que redigiu para obedecer à minha sugestão de ontem:

“No momento em que o Sr. de Rochas pressiona meu punho, sinto alguma coisa forte, quente, que penetra em meu braço e que me pesa como se eu tivesse muito sono. Ouço primeiro distintamente e compreendo muito bem as palavras que são ditas a meu redor. Em seguida, pouco a pouco, minhas idéias se embaralham e não percebo mais do que um murmúrio, mas compreendo que é o Sr. de Rochas quem fala. Sinto-me muito bem nesse estado e ficaria sempre nele se assim quisessem deixar-me. Porém, chega um momento em que sinto que desperto: revejo tudo o que está a meu redor; penso como de hábito e não conseguiriam que eu fizesse o que não quero nem que eu acreditasse no que não é verdade. Não estou, no entanto, como de hábito, uma vez que não sinto quando me puxam os cabelos, me tocam a mão ou o rosto, ou quando ponho o dedo sobre a chama de uma vela. Não experimento nenhuma sensação de frio ou de calor.

“Gosto do Sr. de Rochas um pouco mais do que de hábito.”

Ela me conta que durante toda a noite sonhou que estava ainda em Beirute.

Procuro verificar de novo a sucessão dos estados.

Após a primeira letargia, vem o sonambulismo que chamo de segundo estado de hipnose (sendo o primeiro estado o de credulidade, que falta em Mayo); e, em seguida, a segunda letargia e o estado de rapport (terceiro estado), no qual sua memória começa a ficar confusa sem ser completamente apagada.

Após a letargia, ela se exterioriza e experimenta minhas sensações, mesmo quando não a toco, contanto que eu não me afaste demais (quarto estado). Ela começa a ver desenhar-se um fantasma azul à sua esquerda e percebe neste um orifício sombrio acima da orelha e um outro no punho. Esses orifícios correspondem aos pontos hipnógenos constatados anteriormente na décima sessão.67

4ª letargia, 5º estado – Mayo vê seu fantasma à direita, vermelho; ela o vê de perfil e percebe um orifício sombrio na fronte e no punho.

5ª letargia, 6º estado – Ela vê, como num espelho, seu corpo fluídico completamente formado e de frente, diante de si. Percebe orifícios sombrios nos dois lados da fronte, acima das orelhas e na depressão interclavicular. Este é o maior de todos.

Provoco o despertar através de passes transversais.

O corpo astral volta a seu corpo físico sem desdobrar-se em fantasma vermelho e fantasma azul.

15ª sessão: 19 de dezembro de 1904

Adormeço Mayo pela pressão do ponto hipnógeno de seu punho esquerdo.

A primeira letargia e o segundo estado (sonambulismo) não apresentam nada de particular.

Durante o terceiro estado (rapport), o Dr. Bertrand aproxima dos olhos de Mayo uma vela acesa: nenhum movimento, mas há recuo brusco e pálpebras abaixadas logo que olho para a chama. O doutor aproxima um frasco de amoníaco do nariz de Mayo, a quem digo para aspirar fortemente; ela o faz e não sente nada, porém desvia precipitadamente a cabeça quando toco a mão do doutor.

Suas pernas são apalpadas, ela não reage. Suas coxas são apalpadas; imediatamente ela toma ares de ofendida e vira a cabeça recuando.

4º estado – Ela se esqueceu tudo, até mesmo seu nome; começa a exteriorizar-se.

5º estado – Vê à esquerda seu fantasma, que está de perfil, o rosto virado para trás. Vê nesse fantasma luminoso pontos obscuros que correspondem a seus pontos hipnógenos.

Quando lhe digo para indicar em seu corpo físico o ponto correspondente a um dos pontos hipnógenos que ela vê sobre seu fantasma, por exemplo o da fronte, ela toca com o seu dedo o ponto hipnógeno da parte direita da fronte e não o da parte esquerda. Coloco um espelho ao lado do fantasma; ela o vê nesse espelho e então indica os pontos hipnógenos no lado esquerdo de sua fronte.68

6º estado – Formação do fantasma que ela vê de perfil à sua direita.

7º estado – Formação do fantasma completo (do duplo), que ela vê de frente, diante de si e um pouco à direita.

O instinto do pudor cedeu e ela não se recorda de ninguém.

Pergunto-lhe sua idade; ela responde dezoito anos.

Digo-lhe para voltar aos dezesseis anos; ela vê seu corpo atual transformar-se.

Ocorre o mesmo para quatorze, doze e dez anos.

Quando ela atinge dez anos, pergunto-lhe onde mora. Responde: “Marselha”, o que era verdade e eu ignorava.

Com oito anos, ela está em Beirute, o que também era verdade. Recorda-se das pessoas que freqüentavam sua casa. Pergunto-lhe como se diz “bom-dia” em turco; ela responde “salamalec”, o que esqueceu no estado de vigília.

Com seis anos, está de novo em Marselha.

Com dois anos, está em Cuges, na Provence (correto).

Com um ano não pode falar; limita-se a me responder sim ou não, através de sinais com a cabeça.

Mais distante, no passado, “ela não é mais nada”. Sente que existe, eis tudo.

Mais distante ainda, encontra-se na penumbra e lembra-se de ter tido outra vida.

Não a levo mais adiante; reconduzo-a, simplesmente, por meio de sugestões sucessivas, à idade de dezesseis anos; em seguida continuo através de passes transversais.

Ei-la com dezoito anos, perfeitamente desperta. Continuo os passes transversais sob o pretexto de libertá-la completamente. Por duas vezes pergunto-lhe sua idade e ela me responde rindo: “Mas você sabe muito bem: dezoito anos.” Em seguida seu olhar torna-se vago e, para uma nova pergunta, ela responde: vinte anos.

– Você ainda mora em Aix?

– Não, (e com tristeza) estou longe.

– Você se lembra do Sr. e da Sra. Lacoste?

– Sim.


– Você também se lembra do Sr. de Rochas?

Ela sorri, respondendo-me, e mostra, assim, que me reconhece.

Reconduzo-a a seu estado normal através de passes longitudinais.

16ª sessão: 20 de dezembro de 1904

Pressionando, no estado de vigília, o ponto da memória sonambúlica no meio da fronte, obtive a regressão da memória até o limite onde havíamos chegado na véspera, porém não mais adiante.

Reprodução rápida dos fenômenos da sessão precedente. Confirmação das notas que havíamos tomado.

Adormeço a mão de Mayo com o auxílio de passes longitudinais. Essa mão passa, isoladamente, por estados análogos aos que se produzem quando ajo sobre a cabeça e a fronte. Ela começa por tornar-se insensível; em seguida é sugestionável, isto é, sob minhas ordens os dedos não podem dobrar-se senão no momento em que dou a permissão. Esse estado dura pouco; em seguida, a insensibilidade continua sem sugestibilidade (o que corresponde, em Mayo, ao sonambulismo e à segunda letargia). Enfim, aparece o estado de rapport, caracterizado pelo seguinte: a mão não percebe senão os objetos tocados pelo magnetizador.

Desperto a mão através de passes transversais.

Operando sobre o nariz ou as orelhas, ou sobre a boca com a ponta dos dedos, determina-se igualmente a sugestibilidade, porém sempre durante um tempo muito curto.

17ª sessão: 22 de dezembro de 1904

Adormeço Mayo, primeiramente pela pressão do ponto hipnógeno de seu punho esquerdo. Continuo a magnetização, através de passes, e levo-a à formação do corpo astral, primeiro à esquerda, depois à direita. A memória, que ela tinha perdido progressivamente à medida que o sono se aprofundava, reaparece completa quando o corpo astral é exteriorizado. Mayo porém não vê ainda senão a mim e aos objetos com os quais a coloco em contato.

Determino então, por sugestão, a regressão da memória até a idade de doze anos e peço-lhe que escreva seu nome para dar-me uma amostra de sua letra. Ela escreve lentamente “Marie” (figura 7).



Figura 7


Levo-a aos oito anos e faço o mesmo pedido. Para minha grande admiração, ela escreve duas letras em árabe (figura 8).

Figura 8


Peço explicações à Sra. Lacoste, que me esclarece que, nessa idade, Mayo estava em Beirute freqüentando a escola de Irmãs.

Figura 9 – Reprodução de sua


assinatura quando desperta.

Faço-a recuar progressivamente no passado até seis anos, quatro, três, o momento de seu nascimento, o ventre de sua mãe, e ainda mais longe.

– O que você é agora?

– Sou uma mulher. Ela chamava-se Line.69

– Onde você mora?

– Não sei.

– Você está viva ou morta?

– Estou morta.

– Como você morreu?

– Ela não morreu de doença. Foi na água... afogada... a água entrava... ela não podia mais respirar... ela não enxergava mais... estava inchada.

– Você assistiu ao seu enterro?

– Não, não; não encontraram meu corpo.

– Você sofreu com sua decomposição na água?

– Não. Depois de minha morte eu não estava feliz nem infeliz.

Julgando que a experiência havia sido levada muito longe, digo a Mayo para caminhar em direção ao futuro. Aplico alguns passes transversais e pergunto-lhe se retornou ao mundo. Após sua resposta afirmativa a uma nova pergunta minha, ela me diz que alguma coisa a levou a reencarnar e que desceu em direção à sua mãe quando esta estava grávida.

Reconduzo-a sucessivamente em seguida a dois, quatro, dezoito, dezenove anos.

– Onde está agora?

– Não estou aqui.

– Sabe em que país?

– Não.


Com vinte anos: – Onde você está?

Mayo dá a entender que não sabe.

– Como você será aos vinte anos?

– Não sei; vejo pessoas que não são como as daqui.

– Vou fazê-la envelhecer mais. Pare-me quando houve em sua vida alguma coisa de notável: uma doença, um casamento... Você tem vinte e um anos..., vinte e dois anos... Alguma coisa?

– Não.


E subitamente ela retorna aos dezenove anos. Seu meio-fantasma está ainda à sua direita.

Desperto-a então completamente através de passes longitudinais e, em seguida, pela pressão do ponto hipnógeno do punho direito. Mayo perdeu então completamente a lembrança do que se passou durante o sono.

Pressionando com o dedo o ponto da memória sonambúlica situada ao meio da fronte, determino o despertar dessa memória.

Faço-a voltar progressivamente ao passado; ela vai assim até a época de seu nascimento. Levo-a mais longe, ela recorda-se de que já viveu: que se chamava Line, que morreu na água, afogada, que se elevou no ar, que lá viu seres luminosos, mas que não lhe foi permitido falar-lhes, que nesse estado não sofreu nem aborreceu-se, que aprendeu que se pode voltar à Terra...

Retorno então a direção de sua memória em sentido inverso e levo-a aos quinze, dezoito, dezenove, vinte e um anos. Com vinte e um anos ela está num país onde os habitantes são negros e vivem inteiramente nus. Ela não pode ir mais longe e recai bruscamente nos dezoito anos.

Cesso a pressão de meu dedo e Mayo não se recorda de mais nada.


18ª sessão: 23 de dezembro de 1904

Nesta sessão procuro obter alguns detalhes a mais sobre a vida anterior de Mayo e sobre seu futuro.

Line era filha de um pescador bretão, casou-se aos vinte anos com um também pescador, chamado Yvon, cujo sobrenome ela não mais recorda. Teve um filho, falecido com a idade de dois anos. Seu marido faleceu num naufrágio. Desesperada, ela se joga na água do alto de um penhasco. Seu corpo foi comido pelos peixes. Ela não sentiu nada nesse momento. Além do mais, depois de sua morte, jamais sofreu.

Quanto ao futuro, ela se vê aos dezenove anos, viajando no mar com a mãe e estabelecendo-se num país onde todas as pessoas vivem nuas. Não vê nada além.70

Constato que Mayo, por mais sensível que se tenha tornado, não pode ser adormecida sem seu próprio consentimento.


19ª sessão: 24 de dezembro de 1904

Reprodução da história de Line com detalhes ainda mais precisos sobre sua vida, sua estada na erraticidade após a morte, sobre o impulso que ela experimentou para reencarnar em seu corpo atual e sobre esta reencarnação, que se produzem pouco a pouco.

Tendo-a levado ainda mais longe no passado, mais longe do que a vida de Line, ela encontra-se na erraticidade, porém num estado bastante penoso, porque anteriormente fora um homem “mau”.

Enquanto seu corpo astral estava exteriorizado, involuntariamente apliquei um golpe em sua mão astral e sua mão carnal tornou-se bastante vermelha após alguns instantes.

20ª sessão: 26 de dezembro de 1904

A vermelhidão produzida ontem sobre a mão de Mayo em conseqüência do golpe aplicado em sua mão astral subsiste ainda hoje. Não há lesão na pele.

Verifico de novo, magnetizando Mayo, que o meio-fantasma que se forma à direita é vermelho e que o que se forma à esquerda é azul. Constato ainda igualmente que ela vê o perfil desses fantasmas em sentido inverso ao seu e que os vê no mesmo sentido quando os olha no espelho. Este foi um fenômeno novo que eu não havia ainda encontrado e que não explico, porém pode-se compará-lo à escrita em espelho, tão freqüente nas manifestações espíritas.

Procedo então à regressão da memória.

À medida que Mayo rejuvenesce na vida atual, vê seu corpo astral tomar uma forma cada vez mais jovem. Percebe bastante distintamente o rosto e as mãos, estando o resto muito mais vago.

No momento em que entra no corpo de sua mãe, o pequenino corpo desaparece, dispersando-se.

Quando Line esteve na penumbra após a morte, procurou reencontrar o marido e o filho, porém não o conseguiu.

Vivia no tempo de Luís XVIII.

Na encarnação precedente, ela era um homem chamado Charles Mauville, cuja existência desenrola-se em sentido inverso à ordem na qual a exponho.

Charles Mauville inicia-se na vida pública como funcionário num escritório em Paris. (Procuro em vão fazê-lo precisar o local desse escritório e o ministério do qual ele depende.) Havia então constantes combates nas ruas; ele próprio matou muita gente e nisso sentia prazer; ele era malvado. Cabeças eram cortadas na praça.

Aos cinqüenta anos adoece, abandona o escritório. Não tarda a morrer. Pode seguir seu enterro e ouvir as pessoas dizendo que ele “se divertiu demais”. Continua ainda durante algum tempo preso a seu corpo. Sofre e é infeliz. Enfim passa para o corpo de Line.


21ª sessão: 27 de dezembro de 1904

Chegando ao sétimo estado, Mayo perde completamente a memória, não reconhece mais ninguém, não há no mundo ninguém mais além dela e de mim, porém sequer recorda-se de nossos nomes. Todavia conserva sua inteligência e a memória de sua língua, visto que responde às minhas perguntas.

Ela vê seu meio-fantasma azul à esquerda e seu outro meio-fantasma vermelho à direita. Só distingue bem as partes do corpo que não estão cobertas. Quando eleva o braço direito, vê elevar-se o braço do fantasma da esquerda e vice-versa.

Levo-a ao oitavo estado. O fantasma torna-se então único e completo. Sua memória habitual volta-lhe. Procedo, em seguida, por sugestões sucessivas, à regressão da memória.

Quando ela alcança a idade de um ano, pergunto-lhe se já sabe falar. Responde-me que não.

– Como então você pode me responder?

– Mas sou eu quem lhe responde; o que vejo bem pequeno é apenas uma parte de mim.

– Então você não está toda em seu pequenino corpo?

– Não, há uma névoa luminosa ao redor desse corpo.

– Mas não há outra coisa?

– Sim. Há, do lado de fora, meu espírito, que vê meus dois corpos: um, tal qual era com um ano de idade; o outro, tal qual é hoje.

Levo-a então ainda mais longe na regressão da memória.

Mayo me confirma que ela (seu corpo astral) entra em seu corpo (físico) apenas pouco antes do nascimento, e parcialmente. Anteriormente ela não se encontra no pequeno corpo, porém perto da mãe, e no entanto começa a experimentar algumas sensações de um e de outro. Quando vem ao mundo, experimenta uma sensação bem nítida: a de respirar.

Antes de ser chamada para perto de sua mãe atual, encontrava-se na penumbra; não sofria.

Faço-a rapidamente retornar ao passado por meio de passes longitudinais e, quando a interrogo, ela é Line; tem quinze anos, não está ainda casada, vive com a mãe, nunca viu seu pai e não sabe seu sobrenome.

Mais longe ainda no passado.

Encontra-se na completa escuridão. Sofre e não pode explicar o tipo de sofrimento; não é um sofrimento físico, é como um remorso. Recorda-se muito bem de ter sido Charles Mauville e não hesita em lembrar-se do nome de batismo e do sobrenome.

Mauville morreu aos cinqüenta anos, de um resfriado.

Levo Mayo mais longe, até este momento: ela tosse.

Reconduzo-a em seguida rapidamente ao tempo atual através de passes transversais rápidos: ela entra no corpo de Line e percorre rapidamente as diversas fases da vida. Modero um pouco os passes quando chego à época de sua morte; a respiração torna-se então entrecortada, o corpo balança-se como que levado pelas ondas e ela apresenta sufocações que apresso-me em fazer desaparecerem, despertando-a completamente.

22ª sessão: 29 de dezembro de 1904

O resumo desta sessão foi redigido pelo Dr. Bertrand.

O Sr. de R. tenta adormecer Mayo através de passes longitudinais; não consegue. Adormece-a pela pressão no ponto hipnógeno do punho direito.

A insensibilidade cutânea produz-se quase que imediatamente, porém não há a mínima sugestibilidade no estado de sonambulismo (segundo estado).

No estado de rapport ela vê apenas o Sr. de R., que lhe pergunta se ela pode rejuvenescer e voltar à idade de dezesseis anos sem que seu corpo astral saia do corpo físico. Ela responde que sim, que sente que tem agora dezesseis anos, mas que não se recorda do que era aos dezoito anos.71

O Sr. de R. continua os passes. Mayo chega ao quarto estado, onde sente todas as sensações do magnetizador quando este a toca.

Ela está insensível a todas as excitações dirigidas à superfície cutânea, porém as partes úmidas de seu corpo, tais como a língua, as mucosas, o interior de suas mãos, que é úmido, são sensíveis. O Sr. de R. observa que isto é devido à solubilidade do fluido nos líquidos.

Mayo apóia a cabeça sobre o ombro do Sr. de R. para, diz ela, aí readquirir forças; em seguida, quando as obtém, retoma espontaneamente sua posição normal.

Os passes continuam. Após uma nova letargia, Mayo chega ao quinto estado. Seu corpo astral aparece sob a forma de duas nuvens luminosas, representando-a muito vagamente de perfil, e essas nuvens produzem-se sucessivamente: a primeira azul, à sua esquerda; a segunda vermelha, à sua direita.

No sexto estado, os dois meio-fantasmas reúnem-se para formar um fantasma completo, vermelho e azul, que ela vê a alguns passos diante de si. Nesse momento sua memória, que se havia pouco a pouco obscurecido, retorna-lhe inteiramente.

O Sr. de R. ordena a Mayo que faça subir, tão alto quanto possa, seu corpo astral. Ela o vê, com efeito, subir acima de sua cabeça sob a influência de sua vontade, porém sem poder ultrapassar o teto. O Sr. de R. constata que Mayo sente bastante vivamente os mínimos movimentos que ele efetua no ar acima da cabeça dela. É o cordão entre o corpo físico de Mayo e seu corpo astral, que é então tocado; porém a ação não é sentida senão quando o contato verifica-se com alguém que esteja em rapport com ela ou seu magnetizador.

O Sr. de R., tendo provocado a descida do corpo astral, aborda o fenômeno da progressão no tempo da personalidade do sujet.

Após tê-la levado por sugestão à idade de dezesseis anos, ele a conduz igualmente por sugestão aos dezoito anos e, em seguida, aos vinte, e então inicia-se o diálogo seguinte:

– Em que país você se encontra?

– Não sei.

– Com quem você está?

– Com meu padrasto.

– E então?

– Há negros.

– Vamos! Vá mais longe. Você tem agora vinte e um anos, vinte e dois anos.

Mayo não pode ultrapassar os vinte anos; após esforços penosos, recai sempre nessa idade. Encontra-se em local de negros, em uma casa muito distante de uma estação de trem cujo nome não consegue ler. O Sr. de R. insiste e ela responde sempre: “Não posso” ou “Não sei”.

O Sr. de R. a reconduz então, por passes longitudinais, aos dezoito anos, depois aos dezesseis, aos quatorze, aos doze, aos oito. Nesse momento ele constata, levantando levemente seu vestido, que o instinto do pudor ainda subsiste. Porém, aos cinco anos, não o há mais. Aos dois anos ela responde que não sabe ainda falar, que diz somente “pa”.

O Sr. de R. tenta então fazê-la precisar o ponto onde se encontra seu espírito. Ela responde, hesitando, que ele é como uma chama branca, como um dedo luminoso entre seu corpo físico e o pequeno corpo astral.

– Recue mais na existência. Entre no ventre de sua mãe. Como se torna o pequenino corpo?

– Ele se confunde.

– Onde você está agora?

– Não sei; não vejo nada. Sei que há algo que se move.

– Volte à vida atual. Que sensações você experimentou quando nasceu?

– Meu corpo astral tomou uma forma quando foi cortado o cordão umbilical.

– Entre no ventre de sua mãe, depois saia. Você ainda está retida pelo cordão umbilical. Você respira?

– Não.


– O cordão é cortado. Você respira?

– Sim.72

– Volte agora para a penumbra.

Mayo declara que não sofre, que não vê nada e não pensa em nada. Sente espíritos a seu redor, porém não os vê. A um dado momento foi forçada a reencarnar e aproximou-se de sua mãe, de quem se acercou.

O Sr. de R. ordena então:

– Torne-se Line novamente, no momento em que ela se afogou.

Imediatamente Mayo faz um movimento brusco sobre a poltrona, volta-se para o lado direito, o rosto entre as mãos, e permanece assim durante alguns segundos. Dir-se-ia uma primeira fase do ato realizado voluntariamente, pois, se Line morre afogada, é um afogamento voluntário, um suicídio, o que dá à cena um aspecto bem particular, bem diferente de um afogamento involuntário.

Em seguida, Mayo volta-se bruscamente para o lado esquerdo. Os movimentos respiratórios precipitam-se e tornam-se difíceis: o peito eleva-se com esforço e irregularidades, o rosto exprime ansiedade, angústia, os olhos estão apavorados. Ela faz verdadeiros movimentos de deglutição, como se engolisse água contra sua vontade, pois nota-se que resiste. Solta nesse momento alguns sons inarticulados. Dir-se-ia que ela se torce, ao invés de se debater, e seu rosto exprime um sofrimento tão real que o Sr. de R. ordena-lhe que envelheça algumas horas. Em seguida, pergunta-lhe:

– Você se debateu durante muito tempo?

– Sim.


– Foi uma morte ruim?

– Sim.


– Onde você está?

– Na penumbra.

Após alguns passes Line não se recorda de mais nada, nem mesmo de seu suicídio. Ela não sofre.73

Continuando os passes transversais, o Sr. de R. reconduz Mayo à sua vida atual: aos dois, seis, dez, dezoito anos, e ele acaba de despertá-la, pressionando o ponto hipnógeno do punho esquerdo.


23ª sessão: 30 de dezembro de 1904

O resumo desta sessão foi redigido pelo comandante Rémise, presidente da Sociedade Teosófica de Marselha.

A Srta. Mayo tem dezoito anos, é inteligente, instruída, perfeitamente sã física e moralmente. Apresenta a particularidade de não ser sugestionável. As sessões não a fatigam.

Desde os primeiros passes magnéticos longitudinais ela adormece, passando rapidamente pelo estado de credulidade para chegar quase que imediatamente ao segundo estado da hipnose: o sonambulismo.

Durante o sono magnético, perde progressivamente a sensibilidade cutânea e a memória das coisas exteriores, retomando esta última apenas no momento em que seu corpo astral está completamente exteriorizado.

À medida que essa exteriorização se efetua, ela vê formar-se, a partir de dois ou três centímetros de seu corpo carnal, e seguindo exatamente seus contornos, camadas de substância fluídica cada vez maiores que se interpenetram e cuja sensibilidade vai decrescendo do centro à periferia. É fácil percebê-lo, beliscando-se o ar a diferentes distâncias do corpo carnal.

Em pouco tempo, a Srta. Mayo não vê nada mais além do seu magnetizador e ela própria. Sentado um pouco à frente e a um metro dela, ela não me vê.

Desde o momento em que o coronel estabelece a comunicação, tocando-me levemente, ela me percebe e o diz.

Se, durante as experiências, seu corpo carnal permanece insensível aos contatos diretos, o que se compreende uma vez que seu corpo sensível, o corpo astral, é exteriorizado, em contrapartida ela experimenta todas as sensações sentidas pelo seu magnetizador. Assim, faz-se com que respire amoníaco e ela não o sente, enquanto que se joga vivamente para trás logo que o frasco é aproximado das narinas do coronel; e tão logo é-lhe explicado o que acaba de passar-se, ela não quer acreditar. Ao despertar é necessário suscitar-lhe, pela pressão do ponto da memória sonambúlica que se encontra ao meio da fronte, a recordação do que acaba de experimentar. Tão logo seu corpo astral se encontra completamente exteriorizado, ele se desliga do corpo visível e ela vê a cerca de um metro para a esquerda um fantasma bicolor azul e vermelho ligado ao corpo carnal por um cordão fluídico da grossura de um dedo.

Não possuindo a clarividência, não posso verificar nem a cor nem o grau de sutileza do fantasma, porém posso constatar sua presença e sua sensibilidade, avançando lentamente a mão na direção que ela indica. O contato com o corpo astral produz sobre meus dedos uma sensação de frescor bem nítida. Esta sensação é sem dúvida produzida pela parte do duplo etéreo que se encontra exteriorizado com o corpo astral.

Sob as ordens de seu magnetizador, a Srta. Mayo opera o desdobramento do corpo astral. O meio-fantasma vermelho vai colocar-se a cerca de um metro à sua direita, enquanto o azul permanece à sua esquerda. Ela procede em seguida à reconstituição dos dois fantasmas em um único à sua direita.

O coronel belisca o ar entre o corpo astral e o corpo carnal, à altura da linha onde a Srta. Mayo vê o cordão fluídico. Esta, por um leve movimento de recuo, revela a sensação que experimenta.

A pedido meu, ela opera a levitação de seu corpo astral, entretanto este, diz ela, é retido pelo teto, que não pode atravessar.

Uma pressão dos dedos a alguns centímetros acima do corpo carnal denuncia, pelo movimento que provoca no sujet, a posição exata do cordão fluídico, que, partindo do alto da cabeça, segue uma direção vertical.

A convite do coronel, a médium conduz seu corpo astral a um metro à sua direita.

A consciência não abandonou o corpo carnal. Sabendo que alguns sensitivos gozam da propriedade de exteriorizá-la, pergunto ao coronel se a Srta. Mayo pode fazê-lo. Sob suas ordens ela tenta, porém em vão, fazê-la passar para seu corpo astral.

As experiências de regressão da memória iniciam-se então.

Sob as ordens de seu magnetizador, a Srta. Mayo volta ao passado progressivamente em sua encarnação atual até seu nascimento e, em seguida, bastante além. Ela se revê primeiramente com a idade de dezesseis anos. Ainda não conhece o coronel e, no entanto, logo que este lhe pergunta nitidamente: “Você tem dezesseis anos; conhece o coronel de Rochas?”, pela sua resposta negativa, dada sorrindo, ela parece dizer: “Não conheço, é verdade, porém não é um estranho para mim.” É como se a consciência de dezoito anos, sua consciência atual, exercesse uma ação retroativa sobre sua consciência dos dezesseis anos. Esta particularidade manifestar-se-á ainda na narração de suas encarnações anteriores.

Sucessivamente ela se vê aos quatorze, doze, oito, seis, cinco anos. Nela o pudor aparece entre cinco e seis anos. A prova é feita por um leve toque no joelho. Aos cinco anos esta carícia a deixa insensível, enquanto que aos seis provoca uma leve inquietação, acompanhada de um rápido movimento da mão em direção à parte tocada.

Operando simplesmente pela palavra, o coronel faz com que dê a seu corpo astral as formas que tinha nas diferentes idades, recuando progressivamente ao passado. Ela retorna simultaneamente aos estados de espírito que apresentava com essas idades. Assim, aos dez anos estava em Beirute. Não sabia ainda o francês e aprendia a escrever em árabe.

Quando chega ao momento de seu nascimento, seu corpo astral desaparece, porém ela vê, então, envolvendo o corpo carnal de sua mão, uma espécie de nuvem de substância fluídica que não existia anteriormente. (É sem nenhuma dúvida o germe do que formará mais tarde o corpo astral.)

Antes da época da concepção, ela se vê flutuando na “penumbra”. Não sofre e não percebe nada a seu redor, apesar de sentir que há ali outros seres cuja natureza não compreende. Atravessa rapidamente esse estágio para, após um momento crítico (morta por submersão), reencontrar-se na Bretanha no corpo de uma mulher de pescador chamada Line.

Sempre recuando, ela se encontra na completa escuridão, onde sofre.

Mais longe ainda vê-se no corpo de um homem malvado, Charles Mauville, que morre aos cinqüenta anos. Não pode recuar além do nascimento dele, e o coronel, julgando não ser prudente levar mais longe a experiência, a reconduz progressivamente à existência atual, convidando-a a descrever com alguns detalhes as principais fases de suas experiências sucessivas. Ela procede, para este efeito, por perguntas e respostas. Trata-se primeiramente de Charles Mauville.

– Onde você nasceu?

– Em Paris.

– Sob que regime?

– A realeza.

– Você tem trinta anos. Onde está e o que você faz?

– Estou em Paris e trabalho num escritório.

– Qual é o gênero de trabalho?

(Após hesitação) – Não sei.

– Escreva seu nome.

Ele assina, sem hesitação, “Charles Mauville”.

– Quem governa agora a França? Um cônsul?

– Não, vários.

– Você é sem dúvida um revolucionário?

Não há resposta, porém um sorriso significativo.

– Você muito provavelmente aprovou a morte do rei e da rainha?

– Do rei, sim; da rainha, não.

– Você tem má conduta?

(Após hesitação e um pouco confusa) – Sim.

Charles Mauville tem cinqüenta anos. A Srta Mayo descreve-nos uma das fases da doença que a consome. Ela parece sentir todas as características da doença de peito: opressão, acessos penosos de tosse.74

O coronel a faz assistir a seu enterro.

– Havia muita gente seguindo seu féretro?

– Não.

– O que diziam de você? Nada de bom, não é? Lembravam que você havia sido um homem malvado?



(Após hesitação e bem baixo) – Sim.

Ela se encontra em seguida na completa escuridão; o coronel a faz atravessá-la rapidamente e ela reencarna na Bretanha. Vê-se criança e, em seguida, moça, tem dezesseis anos e não conhece ainda seu futuro marido. Aos dezoito anos ela o encontra, desposa-o pouco tempo depois e torna-se mãe. Nesse momento assistimos a uma cena de parto de um realismo surpreendente. O sujet revira-se na poltrona, seus membros se retesam, o rosto contrai-se e seus sofrimentos parecem tão intensos que o coronel ordena-lhe que passe rapidamente por essa fase.

Ela tem vinte e dois anos, perdeu o marido num naufrágio e seu filhinho faleceu. Desesperada, afoga-se. Este episódio, que ela já reproduziu em outra sessão, é tão doloroso que o coronel lhe diz para passar por ele rapidamente, o que ela faz, experimentando, no entanto, um violento abalo. Na “penumbra”, onde se vê em seguida, não sofre, como já dissemos, enquanto que tinha sofrido na completa escuridão após a morte de Charles Mauville. Reencarna, em seguida, em sua família atual e é reconduzida à idade presente. A progressão ocorre por meio de passes magnéticos transversais.

24ª sessão: 31 de dezembro de 1904

Proponho-me nesta sessão a obter alguns novos detalhes sobre a personalidade de Charles Mauville e a esforçar-me por conseguir levar Mayo até uma vida precedente. Aprofundo então rapidamente o sono por meio de passes longitudinais até a infância de Mauville.

No momento em que o interrogo ele tem cinco anos. Seu pai era contramestre em uma manufatura, sua mãe veste-se de preto e usa um gorro.

Continuo aprofundando o sono.

Anteriormente fora uma dama cujo marido era um fidalgo ligado à corte; chamava-se Madeleine de Saint-Marc. No momento em que a interrogo pela primeira vez, ela tem vinte e cinco anos, é bonita, porém não tem namorado. Ofereço-me para preencher esta lacuna: ela me responde com um leve tapa dado com graciosidade, não insisto e falo-lhe dos tecidos preciosos que eu trouxe de minha viagem à Índia. Mando meu criado “Champagne” procurar um xale de rendas pretas (reais), que lhe mostro. Ela o desdobra e admira sua delicadeza. Falo-lhe para aceitá-lo; ela me agradece sorrindo. “Você sabe que isto significaria um comprometimento.” Rejeita-o com vivacidade e se levanta amuada.

Endereço-lhe de novo a palavra e ela me responde como se não tivesse nenhuma lembrança do que acabava de acontecer. Como está de pé, pergunto-lhe se vai sair.

– Sim, vou a Vèpres.

– Permite-me acompanhá-la?

– Certamente.

Ela começa a caminhar lentamente, com a cabeça para cima e com desdém. Mantenho-me a seu lado sem oferecer-lhe o braço, que ela própria toma. Após alguns passos, pára. Coloco atrás dela uma cadeira, pensando que vai sentar-se, porém ajoelha-se, faz suas devoções e, em seguida, senta-se conservando o ar de desdém... Depois de alguns instantes levanta-se, empurra com o pé a cauda de seu vestido e pede-me para reconduzi-la.

Quando a suponho já em casa, faço uma pequena pesquisa sobre sua vida.

Ela conheceu a senhorita de Lavallière, que lhe era muito simpática. Não conhece a Sra. Montespan. A Sra. de Maintenor desagrada-lhe.

– Diz-se que o rei a desposou secretamente.

– Oh! É simplesmente sua amante.

– E o rei, o que você acha dele?

– É um orgulhoso.

– Você conhece o Sr. Scarron?

– Meu Deus! Como era feio!

– Viu representar Molière?

– Sim, mas não gosto muito dele.

– Você conhece Corneille?

– É um selvagem.

– E Racine?

– Conheço sobretudo suas obras. Gosto muito delas.75

Proponho-lhe envelhecer para que veja o que lhe acontecerá mais tarde. Recusa-se terminantemente. É em vão que ordeno com autoridade, mas não consigo vencer sua resistência senão por meio de enérgicos passes transversais dos quais ela procura furtar-se por todos os meios.

No momento em que paro, ela tem quarenta anos, abandonou a corte, tosse e sente-se doente do peito. Faço-a falar sobre seu caráter. Confessa que é egoísta e ciumenta, sobretudo com relação às mulheres bonitas.

Continuando os passes transversais, conduzo-a aos quarenta e cinco anos; ela morre de tísica. Assisto a uma curta agonia e ela entra na completa escuridão.

O despertar foi sem interrupção pela continuação rápida dos passes transversais.

25ª sessão: 1º de janeiro de 1905

A sessão é consagrada unicamente às expressões provocadas pela música em Mayo, levemente adormecida.
26ª sessão: 2 de janeiro de 1905

O resumo desta sessão é redigido pelo Dr. Bertrand.

O Sr. de R. adormece Mayo como de hábito. Mayo passa por todos os estados sucessivos. Chega ao momento da formação do corpo astral: ela o vê.

– Se você colocasse seu dedo astral na água, o que aconteceria?

– Ele se fundiria.

– E já desperta, o que aconteceria?

– Não sei.

– O que fizemos ontem?

– Recordo-me pouco, não muito.

O Sr. de R. ordena a Mayo que volte aos dezesseis, aos quatorze, aos dois anos.

– Como é seu corpo astral? Que forma ele tem?

– Ele não tem roupas. Vê-se a cabeça. O resto, só um pouco. É vaporoso, tem a forma de uma criança com uma névoa ao redor.

(O Sr. de R. faz-me observar que, segundo os sujets, o corpo astral não entra inteiramente no corpo físico senão aos sete anos.)

– Aos quatro dias, como é ele?

– É a mesma coisa.

– Com um dia?

– Ele quase não é mais visto e a névoa aumenta.

– E à véspera do nascimento?

– Não mais está lá, não o vejo mais. Ah, sim, ele vira-se, mexe-se; ele acerca-se de sua mãe.

– E aos três meses antes do nascimento, você o vê?

– Não.


– E antes, onde você está?

– Na penumbra.

– Vá mais longe, vá mais longe, você é Line, tem vinte e cinco anos. Está casada?

– Sim.


– Você tem um menininho?

– Ele morreu.

– Você tem vinte anos. É casada?

– Sim.


– O que você sente?

– Enjôo.


– Você sente algo mexer em seu ventre?

– Sim.


(Porém, apesar da insistência do Sr. de R., Mayo recusa-se a seguir o curso dos acontecimentos e salta de repente a vinte e quatro anos.)

– Que idade você tem?

– Vinte e quatro anos.

– Vá mais longe, mais longe, torne-se mais jovem.

– Não.

– Por quê?



– Porque...

– Vá aos quinze anos.

– Não, não (acompanha estas palavras com gestos bruscos).

– Você não deseja ninguém aqui?

– Não.

O Sr. de R. pede a todo mundo para sair. Finge sair e, voltando, pergunta:



– Que idade você tem?

– Vinte e quatro anos.

Mayo apóia-se no ombro do Sr. de R. para adquirir forças, fluidos. O Sr. de R. sai um instante e retorna:

– Que idade você tem?

– Quinze anos.

O Sr. de R., crendo que Mayo não deseja explicar-se sobre o que se passou durante o seu casamento, não insiste e lhe diz:

– Recue, recue, antes do seu nascimento, na completa escuridão, recue. Você é Charles Mauville. Tem trinta anos. Você mora em Paris?

– Sim.


– Vocês brigavam?

– Sim. Isto me divertia.

O Sr. de R. observa que o sujet não apresenta no momento nenhum sentimento de pudor, como um menino. Ele toca-lhe o peito e Mayo não faz nenhum movimento.

– Recue, recue. Você é pequeno, menor, menor ainda, está na completa escuridão. Você sofre?

– Sim.

– Você é Madeleine. Que idade tem?



– Trinta anos.

Qual é o nome de seu pai?

– Dorneuil.

– O nome de sua mãe?

(Não há resposta.)

– Rejuvenesça. Você tem quinze anos.

– Não tão depressa.

– Já está lá? O que faz seu pai?

– Nada.

– Onde você mora?



(Não há resposta.)

– Num castelo?

– Sim, num castelo.

– Quem você recebe? Alguém a corteja? (Ela ri.) Você deseja casar-se?

– Sim.

– Vou fazê-la envelhecer. Você me dirá o que se passa na corte. Conhece alguém lá?



– Conheço um jovem: Gaston de Saint-Marc.

– Ele lhe agrada?

– Sim.

– Qual é a sua situação?



– Ele se encontra na corte.

– Envelheça um pouco. E esse casamento?

– Já aconteceu.

– Você está contente?

– Sim.

– Onde se casou?



– No castelo.

– Havia muita gente?

– Claro.

– Quem te casou? Foi um bispo?

– Sim, um bispo de Paris.

– Onde você mora?

– Num hotel na cidade.

– Você ama seu marido?

– Não.

– Você vê outros jovens?



– Não.

– Foi apresentada ao rei?

– Sim.

– Onde?


– Em Versalhes.

– O que faz seu marido?

– É um fidalgo.

– O rei tem uma favorita?

– Não sei ainda; não faz muito tempo que estou aqui.

– Envelheça. Você tem vinte e dois anos... Quem é a favorita?

– La Vallière.

– Você a conhece?

– Sim, ela é boba... chora o tempo todo... é triste.

– Como ela caminha?

– Um pouco para frente.

– Ela manca?

– Talvez.

– Você conhece os ministros? Quem é o ministro da guerra?

– O Sr. de Louvois.

– Ele é amável?

– Oh, não.

– E Vauban? É boa pessoa?

– Não; ele parece um camponês.

– Se alguém a cortejasse, quem você preferiria?

– O rei!

– Você conhece a Sra. de Montespan?

– Não a conheço.

– E a Sra. de Maintenon? 76

– Não a conheço.

– E a Sra. de Montmorency? Você a conhece? É bonita?

– Heh!!! (levemente dando de ombros.)

– Envelheça. Você tem vinte e três anos. Seu marido a abandona?

– Oh, sim, muito.

– Ele tem amantes?

– Claro.

O Sr. de R. levanta-se, afasta-se e retorna com um bonito bibelô que oferece a Madeleine com palavras amáveis e fazendo-lhe uma declaração; entretanto, isto não parece comover muito Mayo, que, sentada em seu sofá com ares de grande dama, recebe os cumprimentos e a declaração sem mexer-se e sem embaraço, como uma mulher que está habituada a estas situações.

– Você viu o rei?

– Sim, um dia em que ele descia a grande escada.

– Você conhece o abade Bossuet? (Sinal negativo.) Bem! Então vamos ouvi-lo, se você quiser, em Saint-Étienne-du-Mont, onde ele prega hoje.

Mayo levanta-se. O Sr. de R. oferece-lhe o braço. Eles vão, os dois, ao fundo da sala. Lá, o Sr. de R. diz: “Chegamos”. Mayo levanta levemente o seu vestido e põe-se de joelhos. Ergue-se após um instante, escuta e, como o Sr. de R. lhe pergunta se vê Bossuet, ela responde: “Sim, não fale tão alto.” E continua a escutar.

O Sr. de R. acompanha-a novamente até perto do sofá. Mayo apresenta verdadeiramente, neste momento, ares de “grande dama”.

– Você ouviu o que disse o abade Bossuet?

– Não escutei bem.

– Em que você pensava durante o sermão?

– Não lhe interessa.

Tendo a sessão durado bastante, o Sr. de R. desperta Mayo e ela repassa todas as fases de suas múltiplas existências.

Após alguns instantes, tosse: um verdadeiro acesso de tosse violenta; em seguida morre e compreende-se, por seus movimentos e suas atitudes, que ela sofre.

Depois volta a ser Charles Mauville. Um instante depois, tosse ainda (O Sr. de R. lembra que Charles Mauville morreu de doença do peito perto dos cinqüenta anos, como morreu Madeleine.). Charles Mauville morre.

Alguns instantes depois, sob a influência dos passes transversais, ela é de novo Line. Em seguida chora, torce-se, agarra-se à sobrecasaca do Sr. de R., os seios estão verdadeiramente mais volumosos do que o normal (nós todos o constatamos). Line sente verdadeiras dores. De repente acalma-se. Acabou: a criança nasceu. Line deu à luz. Em seguida chora: é seu marido que morre. Ela chora ainda e de repente, mas muito rapidamente, debate-se, suspira, afoga-se e entra na penumbra.

Ela passa, enfim, ao corpo de Mayo e chega progressivamente até os dezoito anos.

O Sr. de Rochas desperta-a completamente. Ela não sente nenhum cansaço e põe-se imediatamente a rir e a conversar como se nada tivesse acontecido.

27ª sessão: 4 de janeiro de 1905

O relato desta sessão foi redigido pelo Sr. Lacoste.

Mayo passa sucessivamente pelos diferentes estados e chega ao estado de rapport: não vê nada.

O Sr. de Rochas lhe diz: – Você vê esta lâmpada?

– Não.


(O Sr. de R. fixa a lâmpada) – E agora?

– Sim.


O Dr. Bertrand, a pedido do Sr. de R., põe-lhe na mão um objeto que o Sr. de R., virando a cabeça, não vê. Mayo não vê o objeto. O coronel o fixa então.

– E agora?

– É uma múmia.

(Era efetivamente uma pequenina estatueta egípcia com a forma de uma múmia.)

O doutor põe na mão do Sr. de R. um outro objeto.

– É branco. É um cartão branco. (É, com efeito, uma fotografia apresentada de costas.)

O doutor vira.

– É Yann Nibor. (Não é Yann, mas a fotografia do Sr. Lacoste, tirada ao lado e na mesma mesa que uma foto do poeta bretão.)

Mayo chega ao período da simpatia ao contato (quinto estado) e, em seguida, ao de formação dos meio-fantasmas. O Sr. de R. toca o meio-fantasma formado.

– Que sensação você experimenta?

– Algo me comprime.

O Sr. de R. insiste com a mão...

– Me machuca.

– O meio-fantasma está ligado ao corpo físico?

– Não.

– Como está ele?



– Ele está no espaço.

Continuando o Sr. de R. os passes, o corpo astral torna-se completo diante do sujet, um pouco à sua esquerda. A memória, perdida anteriormente, retorna-lhe a partir desse momento. O Sr. de R. leva Mayo aos dezesseis, aos doze, aos seis anos. Tenta dar-lhe sugestões de sensação; elas não funcionam. O Sr. de R. a faz chegar aos cinco, aos três, a um ano de idade.

– Você mama. Sou eu a sua ama-de-leite.

– Não (rindo).

– Você está na penumbra; recue ainda mais; você é Line; afogou-se, com que idade?

– Com vinte e seis anos.

– Volte aos vinte e quatro anos. Você sabe escrever?

– Sim


O Sr. de R. lhe dá um lápis. Mayo escreve com certa hesitação: “Line Be...” (figura 10).

Figura 10

Ela reflete. “Não sei...” Ela pára.

– Recue mais; chegue aos dez anos. Você sabe escrever?

– Não.

– Recue. Chegue ao mês antes de seu nascimento... Recue mais... Você é Charles Mauville com trinta anos. Você se encontra nesse período?



– Sim.

– Escreva o seu nome.

Mayo escreve: “Charles Mauville”. Escreve-o muito bem, rapidamente, sem hesitar (figura 11).

Figura 11

– Recue; você tem quinze anos; freqüenta a escola?

– Sim.


– Onde?

– Com os padres.

– Em que colégio?

– Saint-Charles... mas não sei bem... (ela pensa). Não sei bem se é Charles...

– Escreva “Colégio Saint-Charles”.

Mayo escreve Colégio Saint-Charles muito bem e sem hesitar (figura 12).



Figura 12

A figura 13 mostra as mesmas palavras escritas por Mayo desperta.

Figura 13

– Recue... Você tem dez anos, cinco anos, está na completa escuridão... Você é Madeleine de Saint-Marc... Você se encontra nessa fase?

– Sim.


– Você tem trinta anos; faça sua assinatura.

(Mayo não quer escrever e larga o lápis.)

– Eu não sei.

– Mas e quando você quer escrever?

– Faço alguém escrever para mim.

– Mas você sabe ler?

– Oh! Certamente.

O Sr. de R. pega um livro e o apresenta aberto a Mayo, que o olha mas não lê.

– Por que você não lê?

– Mas eu não leio essas letras, leio apenas as letras manuscritas.

– Você não assinou sua certidão de casamento?

– Não (e balançou a cabeça negativamente).

– Vejamos: você se casou aos vinte anos; você se encontra no momento de seu casamento na igreja, na sacristia para assinar. Você não assinou?

– Não.


– À noite, o que se passou?

(Mayo vira-se bruscamente e não quer responder.)

– Envelheça. (Sinais negativos de Mayo, que se vira, levanta-se e deixa o sofá.)

O Sr. de R. age vigorosamente sobre ela através de passes transversais.

– Você tem vinte e dois anos. É casada?

– Sim.


O Sr. de R. continua os passes. Mayo tosse.

– Reencarne... Torne a ser Charles Mauville. Charles aos cinco anos, dez anos... Ele freqüenta a escola?

– Sim, com os padres... no Colégio Saint-Charles... em Paris...

– Você tem vinte anos. O rei continua sendo rei?

– Sim.

– Interessa a você a política?



– Não.

– O que reprovam no rei?

– Não o querem mais como rei.

– Você ouviu falar de Cagliostro?

– Não.

– Do colar da rainha?



– Sim.

– O que você pensa disso? A rainha o comprou?

– Não.

– O Sr. de Rohan o deu a ela?



– Não.

– Em que ano estamos? Que mês?

(Não há resposta.)

– Há jornais aqui?

– Sim.

– Pegue um e leia a data.



– Não a vejo.

– Você tem vinte e um anos; o que faz o governo?

– Está bem próximo de cair.

– Você tem dois anos. Onde está o rei?

– Está na prisão... com a rainha.

– E você, onde está?

– Estou num escritório.

– Onde?


– Em uma praça... há um chafariz.

– No Palais-Royal?

– Não.

– Para os lados de Boulogne?



– Não... há um jardim num canto...

– Você tem vinte e três anos. O rei morreu. Onde ele foi executado? Na praça onde você tem seu escritório?

– Não... eu não me recordo do nome da praça.

– Já houve luta?

– Não.

– Você pensa que haverá?



– Claro.

– Por quê?

– Haverá luta, visto que não há mais rei.

– Você tem vinte e quatro anos... há luta... Você matou alguém?

– Sim.

O Sr. de R. constata que Mayo comporta-se então como um homem. Deixa-se abraçar, deixa que se ponha a mão em seu peito sem nenhuma oposição.



O Sr. de R. continua os passes... Mayo começa a tossir... morre de doença do peito... vai para a completa escuridão.

– Onde está seu corpo astral?

– Na completa escuridão.

– Por quê? Porque você pandegou ou porque matou?

– Um pouco por causa de tudo.

– Volte a ser Line... Você tem quatro anos. Vê alguma coisa brilhante a seu redor?

– Não.

O Sr. de R. faz com a mão um círculo imaginário em torno de Line. Ela o intercepta por um movimento de recuo quando ele chega no alto e à esquerda da cabeça, o que parece indicar que há ali uma emanação do corpo astral.



– Envelheça... Você tem sete anos. O que faz seu pai?

– Ele era pescador.

– A casa é de vocês?

– Sim.


– vocês moram em uma aldeia?

– Não sei.

– Envelheça mais... Você tem dez anos, quinze anos, vinte e cinco anos, sem parar.

– É muito rápido. Não posso.

– Você tem dezessete anos. Quer casar-se?

– Sim.


– Envelheça... Você tem vinte anos, vinte e um anos... Você tem filhos? Com que idade?

– Três meses.

– Passe rapidamente... Você tem vinte e cinco anos. Você perdeu seu marido... seu filho?

– Sim.


– Envelheça rapidamente... Você está na penumbra?

– Sim. (Um sobressalto rápido marcou o momento do afogamento.)

– Envelheça... Você vai reencarnar no corpo de Mayo... Você tem dez anos... quatorze anos.

– Não posso ir tão rápido.

– Voltemos atrás. Você tem oito anos. Vê seu corpo astral?

– Não se vê bem.

O Sr. de R. afasta a luz e Mayo vê seu corpo astral à esquerda.

O Sr. de R. continua a fazer Mayo envelhecer, atribuindo-lhe sucessivamente dez, doze, quatorze, dezesseis, dezoito anos. Aos dezoito anos ele lhe diz:

– Volte para dentro de você; faça voltar seu corpo astral. Ele voltou?

– Não muito bem.

(O Sr. de R. continua os passes transversais.)

– E agora?

– Sim.

O Sr. de R. continua os passes. O despertar demora bastante a acontecer. Mayo apóia-se em seu ombro para adquirir forças... Enfim desperta. O Sr. de R., apertando o ponto frontal, pergunta-lhe:



– Por que o despertar foi tão lento?

– Não sei.


28ª sessão: 5 de janeiro de 1905

Redação do Dr. Bertrand:

O Sr. de Rochas mostra-me em Mayo vários pontos hipnógenos caracterizados pela insensibilidade cutânea e pela insensibilidade que se manifesta ao longo de uma espécie de jato fluindo desses pontos. É o que eu já havia observado com respeito aos pontos hipnógenos dos punhos. Os novos pontos são igualmente conjugados, isto é, pressionando-se um, adormece-se; e pressionando-se o outro, desperta-se. O primeiro sistema encontra-se atrás de cada orelha, acima da apófise mastóide; o outro sistema apresenta seu primeiro ponto na parte mediana superior do peito (sobreesternal) e seu segundo ponto aproximadamente no meio das costas, sobre a linha mediana.

Mayo, em seguida, adormece através dos procedimentos habituais. A insensibilidade torna-se completa: Mayo passa a mão sobre uma vela sem senti-la. No entanto, a sensibilidade do tato subsiste, pois ela toca uma tesoura, uma moeda, etc., e reconhece todos esses objetos de olhos fechados. Mayo absolutamente não sente o amoníaco. Também não reage à luz; sua pupila não se contrai por uma lâmpada ou uma vela que bruscamente é aproximada ou afastada rapidamente de seus olhos.

Uma vez no estado de rapport, Mayo vê apenas o Sr. de R. e nada mais. O Sr. de R. ordena-lhe que ande: ela levanta-se, caminha e choca-se bruscamente com a porta do quarto.

A pele de Mayo não é sensível, mas Mayo é sensível à distância. Faz-se com que ela coloque a mão aberta sobre uma folha de papel. Em seguida, picando-a à distância com a ponta de um lápis e reunindo por traços os pontos sensíveis, seguem-se exatamente as bordas da mão, a cerca de dois centímetros de distância; pode-se da mesma maneira traçar uma segunda linha sensível, porém a um grau mínimo, distante da primeira aproximadamente quatro centímetros. Mayo é sensível a ouro, que a queima. O Sr. de R. deixa cair sua aliança e pede a Mayo para pegá-la. Mayo a procura e faz um brusco movimento de recuo. Sua mão encontrou a aliança e experimentou como que uma queimadura.

Ela é ainda mais sensível ao diamante, que a queima também, e jamais se enganou quando foram aproximados de sua mão diamantes verdadeiros ou falsos. O Sr. de R. indica que o estanho, por outro lado, a faz experimentar uma sensação de frio, enquanto que o ferro, o metal, o aço não provocam nenhuma reação.

O Sr. de R. continua os passes.

Mayo chega ao período de simpatia à distância (quarto estado). O Sr. de R. belisca a própria mão; Mayo retira a sua. O Sr. de R. belisca a própria orelha; Mayo leva a mão à sua.

Sob a influência dos passes longitudinais o corpo astral começa a formar-se à esquerda. Mayo diz que o vê mal porque há muita luz. O Sr. de R. ordena-lhe que o faça passar para trás da porta aberta do armário com espelho, situado à sua direita. Ela o faz sem dificuldade.

Quando seu corpo astral está bem-formado, ela pode dar-lhe a forma que deseja ou que seu magnetizador deseja quando ela lhe obedece.

– Olho para o Sr. Lacoste. Seu corpo astral se modifica? 77

– Não.


Pense no Sr. Lacoste e tome sua forma. Olhe bem para ele. Tomou sua forma?

– Sim.


– Seu corpo astral tem barba?

– Sim.


– Retome sua forma habitual.

Quando essa forma é retomada, o Sr. de R. faz observar que a emanação astral dissolve-se em substâncias diferentes, segundo o estado psíquico dos sujets. O dissolvente geral é a água, porém a seda absorve essa emanação nas pessoas de espírito já evoluído e não a deixa brilhar; ela serve de isolante. É por isso que certos sensitivos ficam incomodados com roupas ou cobertas de seda, enquanto que “respiram” mais facilmente sob vestes de lã, que absorvem, ao contrário, as emanações mais materiais. Ele coloca um lenço de seda entre as mãos de Mayo, que, após alguns segundos, diz que sofre. O Sr. de R. retira o lenço e o sacode, para satisfação evidente do sujet.

O Sr. de R. recomeça, como em outras sessões, a rejuvenescer Mayo com passes longitudinais. Ela tem dezesseis anos. Em seguida ele a faz envelhecer através de passes transversais reforçados pela sugestão: dezoito anos, vinte anos.

– Você está com negros. Você os vê?

– Não. Sei que eles estão aqui, uma vez que estou em seu país; porém não os vejo.

– Você vê seu sogro?

– Não, mas ele está aqui. Não o vejo, mas sei.

O Sr. de Rochas continua os passes transversais.

– Onde você está?

– Não sei.

– Você está no país dos negros?

– Sim. Eu represento.

– No teatro?

– Sim.


– Você toca piano?

– Não.


– Representa comédia?

– Não.


– Que idade você tem?

– Vinte anos... E é impossível ir mais adiante.

O Sr. de R. desperta então Mayo; porém o despertar demora bastante a produzir-se. Quando se completa, Mayo não mais se recorda de nada. A pressão exercida pelo Sr. de R. no ponto situado ao meio de sua fronte a faz reviver suas recordações. Ela se lembra então dos objetos que tocou (tesoura, moedas, etc.); o incidente da aliança e a queimadura, a saída de seu corpo astral e a diminuição progressiva da memória.

– Quando a senhorita readquiriu a memória? 78

– Quando o corpo astral ficou completamente formado.

– O que mais se passou?

– O corpo astral foi em parte dissolvido; a ponta dos dedos sumiu quando me foi dado um lenço para segurar.

– E tudo retornou?

– Sim, quando o lenço foi sacudido.

29ª sessão: 6 de janeiro de 1905

Esta sessão teve por finalidade a tentativa de fazer Mayo voltar ao passado antes de Madeleine. Chego, com efeito, a levar Mayo até o estado de uma criança morta em tenra idade; porém, parecendo-me forte demais a tensão, não insisto e a reconduzo devagar ao estado de vigília com as seguintes particularidades:

Quando ela é Madeleine de Saint-Marc não quer absolutamente envelhecer, e ocasiono uma crise bastante violenta quando tento forçá-la a isso por sugestões e passes.

Quando volta a ser Charles Mauville com a idade de trinta anos, faço-a dar-me sua assinatura novamente (figura 14), que tem a mesma letra daquela que me havia dado na 27ª sessão (figura 11).

Figura 14

Faço-a ainda escrever quando é levada à personalidade de Line com a idade de doze anos. Ela freqüenta então a escola e faz exercícios gráfico-motores (figura 15).

Figura 15

Aos dezesseis anos ainda freqüenta a escola e escreve muito bem (figura 16); sua escrita é então muito mais correta do que quando tinha vinte e quatro anos (27ª sessão, figura 10) e não tinha mais ocasião de escrever.

Figura 16


30ª sessão: 9 de janeiro de 1905

Nesta sessão estudei as localizações cerebrais e cheguei aproximadamente aos mesmos resultados que divulguei num artigo nos Annales des Sciences Psychiques (Anais das Ciências Psíquicas), nº 3, ano de 1899, p. 129). Determinei notoriamente, de maneira bastante nítida, o êxtase religioso.

Em seguida ensinei Mayo a reconhecer, pela insensibilidade cutânea, quando ela estava sob a influência de uma sugestão, e a fazer desaparecer essa sugestão. Enfim mostrei-lhe como ela podia adormecer-se e despertar-se ela própria com o auxílio dos pontos hipnógenos.

Em 1906, retornei a Aix e tive novas sessões com a Srta. Mayo. Foram necessárias várias sessões para restabelecer sua sensibilidade e pudemos constatar que ela passava exatamente pelas mesmas existências que no ano precedente.




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