Alceu amoroso lima (1893-1983) e a reaçÃo católica ao manifesto dos pioneiros1



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ALCEU AMOROSO LIMA (1893-1983) E A REAÇÃO CATÓLICA AO MANIFESTO DOS PIONEIROS1
Prof. Dr. Cézar de Alencar Arnaut de Toledo

Universidade Estadual de Maringá

caatoledo@uem.br

Oriomar Skalinski Junior

Universidade Estadual de Maringá

jrskalinski@yahoo.com.br


RESUMO

Este trabalho tem como objetivo analisar o primeiro movimento da Reação Católica à publicação do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932). Tomamos como fonte o artigo “Absolutismo Pedagógico”, escrito por Alceu Amoroso Lima, importante liderança católica, e publicado n’O Jornal apenas quatro dias após o Manifesto... A publicação de ambos os textos mostrou uma tensão que se agudizava desde o início da República (1889), o que deflagrou a disputa entre católicos e liberais no campo educacional. Em seu texto, Alceu Amoroso Lima acusava os pioneiros de defenderem o monopólio do Estado nas questões do ensino, o que, em sua visão, seria uma espécie de absolutismo do Estado pedagogo, pois negaria às demais instituições, inclusive as religiosas, o direito de participarem ativamente da formação educacional de seus membros. A análise do artigo “Absolutismo Pedagógico” permite mostrar que, desde o início, a Reação Católica ao Manifesto..., foi contundente. Alceu Amoroso Lima classificava as proposições dos pioneiros, entre outras coisas, como anticristãs, antinacionais e antiliberais. E, ainda, de modo muito incisivo, afirmava em seu texto que caso as ideias contidas no Manifesto... lograssem êxito, significaria um crime contra a nacionalidade. A dura resposta já era indício de que Reação Católica seria maior do que simplesmente uma manifestação de discordância, e se efetivaria por meio da criação de periódicos, material didático, formação de associações de professores católicos e também, de uma complexa articulação da Ação Católica Brasileira.


Palavras-chave: Alceu Amoroso Lima; Absolutismo Pedagógico, Reação Católica; Manifesto do Pioneiros.

Na década de 1930, no contexto da luta travada entre católicos e liberais no campo da educação, Alceu Amoroso Lima (1893-1983), enquanto intelectual de profunda notoriedade e alcance social, ocupou destacada posição como liderança sólida ao redor da qual se aglutinaram os defensores da perspectiva católica. Este trabalho tem como objetivo discutir a reação imediata de ‘Dr. Alceu’ à publicação do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. Para tanto, adotamos como fonte documental o artigo Absolutismo Pedagógico, publicado por Alceu Amoroso Lima nas páginas d’O Jornal no dia 23 de março de 1932 – apenas quatro dias após a publicação do Manifesto... – como resposta católica às proposições dos pioneiros2.

As relações entre catolicismo e educação no Brasil, sabidamente, remontam ao período colonial. Essa longa tradição resultou em uma ampla rede de instituições de ensino construídas e mantidas por diferentes Ordens. A tradição, a estrutura institucional e o peso que historicamente padres e intelectuais católicos tiveram no campo educacional brasileiro, são dados concretos que sustentam o interesse de pesquisas sobre a pedagogia católica e sobre os debates travados por seus partidários. Assim, pode-se afirmar que o campo educacional é composto por um conjunto de práticas sociais e que, ao se estudar as complexas articulações estabelecidas entre catolicismo e educação na década de 1930, significativas contribuições para a análise da composição histórica das práticas pedagógicas no Brasil podem ser feitas.

Adota-se no presente texto, em acordo com Fernandes (2008), a perspectiva de que a análise de impressos e, especialmente, de periódicos, oferece amplas possibilidades para a análise da história da educação, o que possibilita o acesso a materiais e métodos, concepções pedagógicas, e também antagonismos de filiações ideológicas. Nestes termos, o artigo Absolutismo Pedagógico revela-se fonte privilegiada para investigações acerca da história da educação no período.

Neste trabalho, em um primeiro momento discute-se o papel desempenhado por Alceu Amoroso Lima que, como líder da Ação Católica Brasileira, no contexto dos debates com os liberais reformadores da educação, articulou a militância católica e a rede de escolas ligadas à Igreja – além de outros planos da sociedade civil – compondo um bloco sólido para o enfrentamento. Já a segunda parte do texto, dedica-se, especificamente, ao artigo Absolutismo Pedagógico, com o intuito de identificar as ideias que sustentaram a primeira resposta católica à grande investida liberal no campo da educação.

O intelectual católico Alceu Amoroso Lima (1893-1983) desempenhou relevante papel nas disputas pela hegemonia do campo educacional brasileiro entre 1930 e 19503. Sua intensa produção foi um dos importantes elementos da Reação Católica, entendida por Dermeval Saviani (2008) como uma resistência ativa – tanto do clero quanto do laicato – às mudanças no âmbito da educação no Brasil República. A resistência da Igreja é definida como ativa em razão de não ter se limitado à manifestação de discordâncias, tendo implicado na organização de instituições com o objetivo aglutinar intelectuais e dar maior expressão e peso social às propostas elaboradas pela elite do pensamento católico. A fundação da revista A Ordem em 1921, da Confederação Católica em 1922 e do Centro Dom Vital no mesmo ano, são modelares nesse sentido4.

A partir 1928, com a educação destacando-se como área estratégica, foram criadas em diversas unidades da federação as Associações de Professores Católicos (APCs). Estas Associações formariam, em 1933, a Confederação Católica Brasileira de Educação (CCBE). A Revista Brasileira de Pedagogia, publicada entre 1934 e 1938, foi o principal veículo de comunicação da CCBE, ou seja, foi o periódico por meio do qual os educadores católicos dialogaram de maneira oficial com as ideias “avançadas e progressistas” da Escola Nova (RODRIGUES, 2005; SAVIANI, 2008).

A Reação Católica na educação articulou-se ao redor de dois pontos, quais sejam, a pressão para o retorno do ensino religioso às escolas públicas – suprimido com a proclamação da República – e a difusão do ideário pedagógico católico por meio de impressos: livros, material didático, artigos em revistas e jornais. Alceu Amoroso Lima ocupou destacado posto nesse movimento, principalmente a partir de 1928, por meio de seus escritos e à frente do Centro Dom Vital, representando liderança sólida e de grande representatividade social5 (SAVIANI, 2008).

Se a proclamação da República a 15 de novembro de 1889 foi um importante avanço no âmbito político, é correto afirmar que foi apenas um primeiro passo no processo de modernização da sociedade brasileira. Especialmente as mudanças no setor econômico – com a passagem do sistema agrário-comercial para o urbano-industrial – foram forças motrizes a partir das quais se formariam intensas lutas na esfera da cultura, num processo de longa e lenta duração (FAUSTO, 1977; NAGLE, 1976).

Os debates republicanos acerca das ideias liberais implicaram em um movimento de reordenação do campo educacional, com propostas de universalização dos serviços públicos em educação e com a reformulação de planos e métodos de ensino. A educação na República passou a ser vista pelos segmentos progressistas como instrumento de reconstrução social, sendo considerada peça chave no processo de modernização do país – adequando-o, num sentido amplo, às exigências da realidade urbana e industrial (SAVIANI, 2008, CURY, 1988). Em razão da persistente inclusão das questões relativas à educação nos programas de diferentes organizações sociais, Jorge Nagle se refere ao período, especialmente à década de 1920, como francamente marcado por um “entusiasmo pela educação” e por um “otimismo pedagógico” (NAGLE, 1976).

A criação da Associação Brasileira de Educação (ABE) em 1924 foi um marco importante na história da educação brasileira. Concebida como entidade ampla, capaz de reunir várias tendências em torno da bandeira da educação, congregou inicialmente representantes da pedagogia nova e da católica. Entretanto, a ABE revelou-se de fato um terreno fértil para que vicejassem as ideias dos adeptos da Escola Nova (SAVIANI, 2008; CURY, 1988).

O final dos anos 1920 foi marcado pelo declínio da aliança entre São Paulo e Minas Gerais na esfera política e pelo descontentamento de grupos emergentes – especialmente ligados ao setor industrial. A queda no preço do café em 1926, o crack da bolsa de Nova Iorque em 1929, foram eventos que conduziram ao enfraquecimento da economia brasileira. As instabilidades e as modificações na organização social daí decorrentes implicaram em uma nova correlação de forças, levando ao rompimento da “política do café com leite” e ao estreitamento das relações entre o grupo industrial e o militar. Esse movimento teria como desfecho o golpe militar que conduziu Getúlio Vargas ao poder em 1930, constituindo-se um governo de caráter nacionalista e populista (FAUSTO, 1977).

Bandeira (2000) afirma que nesse contexto houve uma reaproximação política entre a Igreja Católica e o Estado, separados desde a Constituição de 1891. Essa reaproximação teria sido ancorada nos canais institucionais da Igreja e em sua decorrente capacidade de penetração junto à população – algo de grande interesse para um governo populista. Segundo Romano (1979) esse espírito de cooperação dos anos 1930, significou a “sacralização da política” e a “secularização do discurso religioso”. Com o Estado atendendo aos pedidos dos líderes católicos e com a Igreja agindo no âmbito político – contribuindo para amainar as contradições sociais. Essa colaboração teria sido selada com a Constituição de 1934. A esse respeito Alceu Amoroso Lima escreveu:
Triunfou integralmente o programa católico. E se a Constituição do Império consignava o princípio da união da Igreja e do Estado, com predomínio deste na prática. Se a Constituição de 1891 consagrava o princípio da separação radical entre os dois poderes, confirmado pela reforma constitucional de 1926, vem agora a Constituinte de 1934, posterior a uma Revolução Política, incorporar a seus dispositivos o princípio novo da colaboração entre a Igreja e o Estado (LIMA, 2001, p. 198).
Floresceria, em meio essa estreita relação com o governo Vargas a Ação Católica Brasileira, fundada em 1935 como um programa de ação pastoral em diferentes planos da sociedade civil. A Ação Católica significou a concretização em terras brasileiras de um novo modelo, modernizado, de organização da Igreja (BANDEIRA, 2000). Gramsci (1991) afirma que para atuar junto ao Estado, a Igreja não pode contar apenas com padres. Necessita de auxiliares leigos que podem, inclusive, ser mais valiosos nessa relação que cardeais ou bispos. Alceu Amoroso Lima esteve à frente da Ação Católica Brasileira de 1935 a 1945 (VILLAÇA, 1985)6.

No mesmo ano em que assumiu a presidência, Getúlio Vargas criou o Ministério da Educação e Saúde deflagrando um novo período de reformas. No campo da educação, a primeira conquista da Igreja em sua reaproximação com o Estado foi o restabelecimento do ensino religioso facultativo nas escolas públicas por meio do Decreto n. 19.941 de 30 de abril de 1931. Ao final desse mesmo ano a ABE organizou a IV Conferência Nacional de Educação, a fim de pressionar o governo por uma nova política nacional. Nesse momento, intelectuais como Lourenço Filho, Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira despontavam como lideranças entre os reformadores. O acirramento de oposições no interior da ABE implicou em conflitos já na IV Conferência, entretanto, a ruptura dos defensores da pedagogia católica com a instituição seria consumada após a publicação do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova em 19 de março de 1932. O Manifesto... foi publicado no sábado 19 de março de 1932 em jornais do Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais, Bahia e Pernambuco, como parte de uma estratégia para uma grande repercussão do texto (SAVIANI, 2008; CURY, 1988).

No Manifesto... os reformadores da educação adotavam princípios marcadamente liberais e criticavam a organização educacional nacional classificando-a de fragmentária e desarticulada. Apontavam que o desenvolvimento das forças econômicas levaria à modernização do país. Fazia-se necessário, assim, o avanço concomitante das forças culturais, cujas bases residiriam na educação. Para tanto, sustentavam que a escola no Brasil deveria ser pública, laica, gratuita e obrigatória (MANIFESTO..., 1990). Segundo tais princípios, a educação seria função do Estado, cabendo a ele o papel de “organizar a escola e torná-la acessível, em todos os seus graus, a todos os cidadãos, independentemente de suas condições econômicas e sociais” (SAVIANI, 2008, p.245).

É correto afirmar que a pedagogia da Escola Nova se opunha aos métodos da pedagogia da Escola Tradicional – identificada com o Império e com a pedagogia católica – classificando de mecânicos e coercitivos elementos tais como: o formalismo, a memorização, a repetição, a autoridade, a emulação, entre outros. Os escolanovistas propunham que as questões educacionais fossem tratadas a partir de princípios, oriundos da biologia, da psicologia e da sociologia. Tratava-se de uma proposta de ação pedagógica que se pretendia alinhada aos avanços científicos de seu tempo e que acreditava poder oferecer uma melhor compreensão de elementos chave para o bom desenvolvimento da aprendizagem (MANIFESTO..., 1990; MONARCHA, 1989; NAGLE, 1976).

A Reação Católica ao Manifesto... aconteceria em curtíssimo prazo pelo punho de Alceu Amoroso Lima, com a publicação do artigo Absolutismo Pedagógico n‘O Jornal no dia 23 de março de 1932 (SAVIANI, 2008).

Alceu Amoroso Lima já havia publicado textos ligados ao campo educacional no ano anterior à publicação do artigo Absolutismo Pedagógico. No livro Debates Pedagógicos (1931) – uma coletânea de artigos previamente divulgados em periódicos ou proferidos sob a forma de conferências – sistematizou suas proposições acerca do debate acerca do retorno do ensino religioso às escolas públicas. Nesses textos, orientado pelo teor da Carta Encíclica Divini Illius Magistri (1929) de PIO XI, já defendia a primazia da família e da Igreja em relação ao Estado enquanto agentes educativos.



Em Debates Pedagógicos é possível encontrar tanto posicionamentos progressistas como reacionários. O próprio Alceu qualificaria como extremadas algumas de suas posições em 1931. Em entrevista à Revista Manchete em 13/08/1971, atribuiu à influência que recebera da personalidade de Jackson de Figueiredo muitos de seus posicionamentos na época. Nessa entrevista, diz que, em se tratando de política, Jackson era um reacionário fanático que acreditava no primado da autoridade sobre a liberdade (LIMA, 1984). Em seguida faz a seguinte afirmação: “Quando Jackson morreu, me senti numa certa obrigação de fidelidade, de continuar sua posição e andei querendo optar pela primazia da autoridade. Mas isto não é o meu natural (LIMA, 1984, p.144). Ainda nesse sentido, no ano de 1973 em publicação alusiva à comemoração de seus 80 anos – uma coleção de diálogos com o jornalista Medeiros Lima – Alceu Amoroso Lima diria acerca de seu posicionamento no início dos anos 1930: “vinha eu de minha recente conversão, com todo ímpeto de cristão, se não novo pelo menos revertido às suas raízes. Daí certas posições extremadas dos meus Debates Pedagógicos” (LIMA, 2000, p.343). A citação abaixo, extraída da apresentação deste livro, é modelar para a compreensão do espírito que então animava as ações do intelectual católico. A respeito do decreto que restabeleceu o ensino religioso de modo facultativo nas escolas públicas escreveu:
Não que seja perfeito esse decreto. O Estado Burguez e Liberal recebe sempre a contra gosto, uma lei que se oppõe ao seu espirito de tyrannia disfarçada. E as restrições que teve de soffrer o projecto inicial, muito mais efficiente e garantidor dos direitos espirituaes da nacionalidade, bem mostram que não é facil vencer os erros de meio seculo de laicisação intensiva que deram por terra com a primeira Republica (LIMA, 1931, p.5).
O teor da citação acima dá importantes elementos para que se entenda o artigo intitulado Absolutismo Pedagógico como consumação de uma oposição que já se acirrava no interior das disputas republicanas. O conflito entre católicos e liberais, a partir da publicação do Manifesto e da imediata resposta católica, passaria a ser aberto. Isto fica claro já nos primeiro parágrafos de Absolutismo Pedagógico em que Alceu Amoroso Lima escreve: “Começamos, graças a Deus, a saír do domínio da ambiguidade. Começam a se delimitar os campos de ação. Passamos do terreno das finalidades implícitas ou inconscientes para o dos objetivos francamente confessados” (LIMA, 1944, p.41). Ao deixar claro para o leitor desde o início do artigo a existência no campo educacional de uma forte e franca oposição entre a perspectiva católica e a dos defensores da Escola Nova, Alceu Amoroso Lima já dava indícios de que a Reação Católica seria vigorosa e obstinada. Nestes termos, não hesita em nomear abertamente seus opositores assinalando que os signatários do manifesto tomavam por base a pedagogia nova de John Dewey, de Paul Gerhard Natorp, do Instituto Jean-Jacques Rousseau e, até mesmo os desdobramentos da escola nova na pedagogia soviética.

Em razão da pedagogia nova não considerar os aspectos da formação do indivíduo no que tange à espiritualidade que, segundo a concepção confessional, seria tão importante quanto a dimensão do conhecimento objetivo, Alceu Amoroso Lima afirmava que as proposições escolanovistas seriam um materialismo pedagógico. E indicava que se tratava de uma pedagogia radicalmente anti-espiritualista. A partir desta delimitação incisiva, defende que: “se a expansão “biológica” do indivíduo é o fim último a que visam os “pioneiros”, o fim imediato é o absolutismo do Estado pedagogo” (LIMA, 1944, p. 43). Deste ponto em diante, as argumentações de ‘Dr. Alceu’, giraram, especialmente, ao redor do fato de que na perspectiva do Manifesto... o Estado seria alçado a uma posição de primazia absoluta no que concerne à educação em detrimento de outras instituições, que tradicionalmente eram mantenedoras de instituições escolares. No limite, afirmou que com isso se constituía um Absolutismo Pedagógico, expressão que daria título a seu artigo. A este respeito escreveu:


Ao Estado, portanto, segundo a concepção desses reformadores do nosso ensino, cabe o direito “absoluto” de moldar a inteligência e o caráter de cada cidadão segundo a finalidade “biológica” da educação. Os homens nas mãos do Estado Onipotente! Raras vezes tenho visto o absolutismo de Estado exposto com tanta clareza [...] (LIMA, 1944, p.43).
Outro ponto do Manifesto... fortemente combatido por Alceu Amoroso Lima é o de que, efetivamente, os pioneiros propunham uma nova finalidade para a educação e não apenas novos métodos de ensino. Ao defenderem uma finalidade eminentemente biológica para a educação, tomavam-na como um direito biológico de cada indivíduo e que deveria ser garantido e proporcionado pelo Estado, os escolanovistas estabeleciam um conflito direto com um princípio fundamental advogado pela Igreja, qual seja, o do direito da família de decidir sobre o modelo de educação que seus filhos deveriam receber. A fim de expor o perigo das proposições do Manifesto... para as famílias religiosas, Alceu Amoroso Lima afirmava que os reformadores da educação apenas recuavam diante do monopólio oficial do Estado nas questões educacionais em razão de motivos financeiros passageiros. O que, no limite, poderia significar a impossibilidade das famílias decidirem sobre a educação de seus filhos. ‘Dr. Alceu’ foi incisivo na justificativa de suas preocupações neste sentido:
Quer dizer, no dia em que fôr removido esse óbice [financeiro], serão também removidas sumariamente as últimas liberdades do ensino particular ou confessional, e a massa compacta dos cidadãos entregue ao novo Leviatã, que jogará anualmente em suas retortas “biológicas”, todas as crianças em idade escolar. Para modelá-las à sua imagem e semelhança. E isso até o dia em que o possa fazer, integralmente, desde o nascimento, pois o cidadão é propriedade do Estado e não de seus pais, como afirmava o absolutismo spartano, e como hoje o afirmam implicitamente os “pioneiros” da pedagogia burguesa, que nada mais são do que os preparadores, concientes ou inconcientes, da pedagogia totalitária (LIMA, 1944, p.43-44).
Após este trecho, Alceu defendia que apesar de se autoproclamarem renovadores, os pioneiros da educação não propunham novidades. Suas ideias acerca da ilegitimidade do direito das famílias à educação de seus filhos, por exemplo, segundo a perspectiva do autor, não eram mais do que uma infeliz retomada das ideias de Robespierre e Danton – que rechaçavam a interferência da Igreja na educação pública. Para Alceu Amoroso Lima, a realização plena da lógica do Manifesto... conduziria, para além do monopólio do Estado no ensino, a uma perspectiva educacional que condenaria a ordem espiritual e os direitos e deveres dela decorrentes. Neste sentido, afirmava categoricamente que o Manifesto... seria, de fato, anticristão, antinacional e antiliberal.
Pois o manifesto é anti-cristão, porque nega a supremacia da finalidade espiritual; é anti-nacional, pois embora referindo-se ao “cuidado da unidade nacional”, não leva em conta, em seu racionalismo árido, nenhuma particularidade do temperamento e da tradição brasileira; e é também anti-liberal, pois se baseia no absolutismo pedagógico do Estado e na negação de toda liberdade de ensino (LIMA, 1944, p. 47).
‘Dr. Alceu’ ainda engrossaria em seu texto esta lista de oposições, ao classificar o manifesto também como: antinatural, em razão de, a seu ver, não considerar os direitos humanos naturais anteriores aos direitos do Estado; anti-humano, por não reconhecer a finalidade superior do homem, entendendo-o apenas em sua esfera biológica; antifamiliar, porque negaria à família o direito de educar seus filhos de acordo com suas convicções; anticorporativo, porque também negaria aos sindicatos a liberdade de educar seus membros; e, finalmente, acusa o Manifesto... de ser anticatólico, pois vedaria à Igreja o direito de participar ativamente da educação de seus membros (LIMA, 1944).

Após expor estes argumentos, no último parágrafo do Absolutismo Pedagógico, Alceu Amoroso Lima ainda realizaria seu mais incisivo ataque aos pioneiros ao classificar suas proposições como um monstruoso crime contra a nacionalidade.


Se as idéias contidas nesses infeliz manifesto lograrem um dia execução neste pobre Brasil, indefeso ao assalto das ideologias mais mortíferas, se fôr justificada a “serena confiança na vitória definitiva de nossos ideais de educação” que esses sectários ostentam, - ter-se-á perpetrado, entre nós, o mais monstruoso dos crimes contra a nacionalidade (LIMA, 1944, 48).
Nestes termos, Alceu Amoroso Lima encerrava seu artigo de modo coerente com o as afirmações de seus primeiros parágrafos, quando afirmava que, a partir daquele momento, passava-se “do terreno das finalidades implícitas ou inconscientes para o dos objetivos francamente confessados” (LIMA, 1944, p.41). Era o embate entre católicos e liberais que rumava, a partir de então, de modo aberto e beligerante, no campo educacional brasileiro, para uma disputa que seria prolongada até a aprovação da primeira lei geral da educação brasileira, em 1961.

Com o acirramento público dos conflitos entre católicos e liberais no campo educacional, catalisados pela publicação do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova e a subsequente resposta católica expressa no artigo Absolutismo Pedagógico, a ruptura entre católicos e ABE foi uma conseqüência. Esta ruptura oficializou-se no dia 12 de dezembro de 1932, na reunião do Conselho Diretor, e o corolário direto desse rompimento foi a criação, no ano seguinte, da Confederação Católica Brasileira de Educação (CCBE). Esta instituição coordenava 40 Associações de Professores Católicos (APCs), o que representava mais de 300 colégios, 60 mil alunos e 6200 professores. Como mostra de sua capacidade organizativa, já no ano de 1934 a CCBE realizou o I Congresso Nacional Católico de Educação, bem como iniciou a publicação da Revista Brasileira de Pedagogia (SAVIANI, 2008). Era o início da resistência ativa dos educadores católicos, que mobilizariam todo o seu aparato institucional em diferentes planos da sociedade civil para garantir seu espaço no campo educacional.


Referências
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MORAIS, J. F. R. História e pensamento na educação brasileira: contribuição de Tristão de Athayde. Campinas: Papirus, 1985.
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1 A apresentação deste trabalho foi parcialmente financiada pela Fundação Araucária.

2 Este artigo foi republicado em duas oportunidades, primeiramente na revista A Ordem ainda no ano de 1932; e, em um segundo momento, no livro Humanismo Pedagógico, publicado por Alceu Amoroso Lima no ano de 1944 – (LIMA, 1944).

3 Alceu Amoroso Lima adotou o pseudônimo Tristão de Athayde em 1919 ao se tornar crítico literário n’O Jornal, a fim de distinguir sua atividade de crítico da de industrial – uma vez que dirigia à época uma fábrica de tecidos herdada de seu pai (CARPEAUX, 1978).

4 A Confederação Católica, por meio do cardeal Sebastião Leme em 1935, foi transformada em Ação Católica Brasileira (ACB), organização que tinha como objetivo central formar quadros laicos e articular a militância da Igreja em diferentes planos da sociedade civil. No âmbito da educação cumpriu destacado trabalho de base junto à juventude, especialmente, por meio da Juventude Estudantil Católica (JEC) e da Juventude Universitária Católica (JUC) (SIGRIST, 1982).

5 Alceu Amoroso Lima foi conduzido à direção do Centro Dom Vital em 1928 em razão da prematura morte de Jackson de Figueiredo (1891-1928). Vale ressaltar que havia sido por influência dele que se convertera ao catolicismo. Seria à frente do Centro Dom Vital – com o apoio do padre Leonel Franca e do cardeal Sebastião Leme – que Alceu protagonizaria grandes iniciativas da Igreja Católica (AZZI, 2001; LIMA, 2001).

6 Para além dos debates travados no campo teórico, a fim de ilustrar a inserção institucional de Alceu Amoroso Lima no âmbito da educação, pode-se mencionar que: participou do Conselho Nacional e Federal de Educação de 1935 a 1969; ocupou a reitoria da Universidade do Distrito Federal em 1938; tomou parte na Comissão constituída em 1947 para a elaboração do anteprojeto da 1ª. LDB; liderou a fundação das Faculdades Católicas nos anos de 1940 e 1941, núcleo da futura PUC/RJ (SAVIANI, 2008; MORAIS, 1985).



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