Alex barreiro



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Anais do XIII Encontro de Iniciação Científica da PUC-Campinas - 21 e 22 de outubro de 2008

ISSN 1982-0178

FOCOS PRODUTORES DE MEMÓRIA HISTÓRICA: ANÁLISE DE CAMPINAS PELO OLHAR ICONOGRÁFICO

ALEX BARREIRO

Faculdade de História

Centro de Ciências Humanas

alex-barreiro@bol.com.br



Prof. João Miguel Teixeira de Godoy

História Regional

Centro de Ciências Humanas

joaomigueltgo@yahoo.com



Resumo: Esta pesquisa proporciona uma reflexão a respeito da identidade da cidade de Campinas, utilizando como documento um álbum fotográfico.

Através dos estudos relacionados à cidade de Campinas, o projeto procurou inferir questões sobre a história da cidade, assim aglutinando informações que orientam o leitor a interrogar uma história municipal, que foi elaborada a partir de uma série de interesses.


Palavras-chave: Memória, Fotografia, Campinas.

Área do Conhecimento: Ciências Humanas – História - História do Brasil.

1. HISTÓRIA, MEMÓRIA E PODER


O enfoque desta pesquisa infere interpretações das relações existentes entre História e Memória, assim vinculada aos estudos iconográficos, a partir deste projeto de pesquisa formula um problema ligado à história de Campinas.

O trabalho realizado pelos autores, Flávio de Godoy Carnielli e Sonia Aparecida Fardim foram utilizados para o desenvolvimento das análises desta pesquisa, contribuindo no que se refere à oficialidade dos fatos da cidade de Campinas, que no decorrer do tempo acabou sendo cristalizada, e atualmente vinculada e intitulada como memória oficial.

O primeiro capítulo analisou as produções historiográficas a respeito da memória e sua relação com a história, proporcionando uma reflexão sobres estes focos produtores e suas respectivas importâncias sociais, que não se restringem ao campo das idéias, mas interferem no cotidiano humano, tornando-se responsável pela consolidação das identidades.

Os autores selecionados para discussão e abordagem da problemática foram; Eric Hobsbawn, Marc Ferro, Michael Pollak e Ulpiano Bezerra de Menezes.

Para Hobasbawn a capacidade de lembrar, de resgatar um acontecimento, um fato armazenado na memória, são fatores contundentes para o sujeito construir consigo uma idéia personificada de um presente, e da atuação de seu ser neste presente. Tamanho processo não se restringe ao campo imagético, proporcionando ao fenômeno da memória apenas uma série de recordações e lembranças, mas, vinculado a outras memórias torna-se possível um compartilhamento de uma mesma história, e quando considerado este feito, a memória ultrapassa o imaginário, utilizando como uma de suas formas um motivo de alegação.

Conforme o pensamento do autor Marc Ferro, em sua obra “A História Vigiada, a história possui várias vertentes, sendo que, cada uma delas busca explicar a verdade em sua essência, porém cada verdade elaborada a respeito de um fato carrega signos diferentes, mas não o sentido.

A história é vista e interpretada de variáveis maneiras, os focos reprodutores das informações contém, formas, normas, e funções que difundem um discurso diferente, o que não permite uma construção científica da história, como propõem algumas correntes historiográficas.

A memória é o sistema funcional responsável pelo desenvolvimento da legitimidade, mas não qualquer memória.

A ligação e as formas relacionais entre instituições e sociedades, a recuperação de alguns personagens simbolizados como heróis da pátria, os monumentos expostos em praças públicas, à seleção de objetos colocados em museus, o arsenal fotográfico divulgado ao público exibindo o conjunto de fatores citados anteriormente, que aprofundaremos nos próximos capítulos, fazem parte de uma memória específica, coligada às instituições cujas vertentes implicam na formulação de uma imagem historicizada, absorvendo e emitindo signos.

De acordo com Marc Ferro, os personagens históricos e a história mudam de sentido, conforme a legitimidade muda de signo.

Séries de exemplos podem ser citadas, como a figura de Joana D´arc, que o próprio Ferro utiliza, ou o mártir da inconfidência mineira “Tiradentes”, Lampião, etc...

O autor Michael Pollak, em seu ensaio “Memória, Esquecimento e Silêncio” inicialmente discutiu as idéias expostas acima enfatizando outras funções cabíveis a memória, dialogando com as idéias de Maurice Halbwachs.

No decorrer do ensaio é possível perceber as diretrizes tomadas pelo autor para elaborar sua idéia e explicitar os mecanismos subsistentes que cristalizam a imagem denominada de memória oficial. A priori a discussão realizada é de que toda memória é seletiva, e esta seletividade é percussora em sustentar um dispositivo ideológico social.

A memória oficial atual e a memória anterior entram em conflitos até o “momento de definição”, uma memória sobrepõe à outra a partir de uma construção e uma negação de um determinado passado.

O autor utiliza como exemplo a Alemanha nazista e a forma como o Estado e os dispositivos ideológicos procuram reinterpretar e reconstruir a imagem anterior, o silêncio torna-se ópio, em seguida a memória atual ganha credibilidade, aceitação e organização na edificação deste novo modelo, a construção da memória nacional é provida de uma montagem ideológica. O passado não se extingue, a memória oficial anterior apenas tende a ser esquecido para se construir o novo, mesmo o “novo” não estando desligado do passado. O longo silêncio do passado, longe de conduzir ao esquecimento, é a resistência que uma sociedade civil impotente opõe ao excesso de discursos oficiais. Ao mesmo tempo ela transmite cuidadosamente as lembranças dissidentes nas redes familiares e de amizades, esperando a hora da verdade e da redistribuição das cartas políticas e ideológicas.

Para uma sociedade subsistir, ela precisa de um sentimento unificado do eu: um conjunto de símbolos, uma história compartilhada, assim reforçando o ideal de nação.

A disputa pela memória é incessante, esse exemplo sugere que mesmo no nível individual o trabalho da memória é indissociável da organização social da vida.

O historiador que se empenha em trabalhar no campo cognitivo das construções através da memória deve estar em alerta para qualquer tipo de ação que busque reforçá-la, reafirmá-la ou distribuí-la sem quaisquer questionamentos de suas narrativas.

O autor Flávio de Godoy Carnielli em sua tese de mestrado “ Gazeteiros e Bairrista – Histórias, Memórias e trajetórias de três memorialistas urbanos de Campinas” promove uma discussão de personagens campineiros cuja imagens persistem no ideário social da cidade através de uma série de focos produtores como; monumentos, fotografias, museus etc. reconstituindo o período vivenciado pelos sujeitos e uma pequena biografia à respeito de cada, legitimando suas denominadas importâncias para edificação de uma Campinas marcada pelo progresso urbano e econômico, que adiante tornara-se “A Princesinha do Oeste” .

Jolumá Brito, José de Castros Mendes e Júlio Mariano são os três nomes de memorialistas que fazem parte do trabalho de Carnielli, eles foram parte de uma geração de amadores que conforme as palavras do próprio autor nunca trabalharam com história, não foram professores, primários ou secundários, e muito poucas vezes ganharam algum dinheiro com suas publicações.

O autor faz uma releitura da produção destes três memorialistas urbanos de Campinas, com enfoque nas leituras que fizeram da cidade vivida por eles (1920-1970),momento que coincide com as grandes transformações urbanas. Leituras que misturam a vida dos memorialistas com a história da cidade, compondo relatos norteados pelo bairrismo.

Carnielli não questionou a formação de um sentimento regionalista, moldado por uma série de memórias institucionais, mas usou destes artifícios apropriando da memória oficial, com o objetivo de reconstituir a formação e a unificação desta memória predominante.

A conclusão de Carnielli é que as especificidades tanto dos memorialistas quanto dos historiadores são amorfas, assim encaixando ambos num mesmo tipo de produção, em um mesmo registro, e permite que se discutam obras aparentemente disparatadas entre si.

Sua tese então pautada no desenvolvimento de uma expressão denominada de Memorialismo Urbano refere-se à produção realizada no final do século XIX até a década de 1960, visando a analise não interrogatória dos documentos fornecidos como supostas verdades absolutas acima de tudo, preservando a memória da cidade de uma Campinas progressista e pioneira regionalmente.

E qual a função do historiador se não é questionar o porquê desta memória que se quer salvaguardar? De interrogar quais memórias permaneceram e quais se encontram caladas diante da versão institucional e preliminarmente oficial?

Se coubesse ao nobre ofício de historicizar apenas a organização dos documentos e uma narrativa adequada para apropriação e construção das vozes dos registros, seria realmente desnecessária a importância do historiador, uma vez que caberiam aos memorialistas tais funções, quais campos distintos como; História e Memória permanecem intrínsecos, e toda documentação memorável de um determinado grupo, no caso de Campinas, uma elite campineira, vem a ser a História da cidade.

Consideramos assim que o termo “Memorialismo Urbano” é o conjunto de memórias de um grupo específico , contando, narrando e produzindo focos produtores de uma determinada visão, no caso a predominante.

2.IMAGEM, NARRATIVA E IDENTIDADE


A segunda parte deste projeto consistiu na idéia de identificar as transformações ocorridas na cidade de Campinas que proporcionaram a criação de um mecanismo que se tornasse capaz de salvaguardar uma determinada história, porém em que momento isto se tornou necessário, quais as implicações ocorridas neste cenário que propiciaram o ato de salvaguardar um passado e legitimá-lo enquanto histórico?

Para isso foi necessário recorrer aos registros relacionados ao período que Campinas recebe um grande número de imigrantes, tabelas que revelam dados pautados numa pesquisa empírica reafirmando a necessidade de uma cidade procurar resgatar determinados aspectos e cristaliza-los.

A socióloga Rosana Baeninger em seu trabalho “Espaço e Tempo em Campinas” utiliza de dados levantados e relacionados ao processa da chegada dos imigrantes na cidade de Campinas.

Campinas neste momento em que recebia grande quantidade de imigrantes e também migrantes, começa a receber influências culturais de diversos lugares, possibilitando alterações no diz que diz respeito às práticas sociais dos habitantes do município, através desta infiltração cultural é necessário criar um dispositivo capaz de salvaguardar uma idéia que represente esta cidade, dispositivos estes que solidifique uma imagem, reunindo sentidos simbólicos e significantes para uma possível representação da idéia de uma identidade Campineira.

A alteridade, o olhar o outro individuo e perceber que ele não pertence a seu vinculo de práticas sociais e culturais, principalmente dentro de um mesmo território, faz com que Campinas veja a necessidade de utilizar de registros para elaboração e construção de uma narrativa histórica, reunindo fragmentos de diversos campos da cidade e moldando através destes a narrativa. Os aspectos urbanos, alguns personagens, os registros engavetados, servirão agora para constituir um cenário, revelando e propagando esta cidade pautada nos princípios arquitetados pelos responsáveis desta elaboração.

Campinas inicia um processo de organização da memória, um mecanismo necessário para que a cola destes habitantes que os unem enquanto campineiros não se evapore diante o multiculturalismo que se instala na região.


3. O OLHAR URBANO


O terceiro e último capítulo traça relações entre fotografia e narrativa. Considerando os álbuns fotográficos enquanto coleção que apresenta uma determinada narrativa configurada pelo ordenamento das imagens fotográficas no seu interior.

O material utilizado para o desenvolvimento do trabalho é uma seleção das fotografias do centro da cidade de Campinas, uma seleção do acervo do museu da imagem e do som de Campinas que foi editado em 2002, intitulado “Fotografia do Centro de Campinas – 1880 a 2002”.

Esta seleção do acervo foi escolhido devido a grande divulgação do material na cidade, várias instituições com vínculos aos campos de pesquisa possuem este material. Outra razão que me levou optar por esta seleção de fotos foi à participação de Sônia Aparecida Fardim na coordenadoria do material.

Considerando que as imagens representam um determinado olhar, influenciado pelos mecanismos condutores ideológicos e estruturais do momento do registro, é possível observamos as fotografias enquanto um reflexo de um determinado campo histórico, quais os objetos fotografados procuram dizer algo sobre a cidade. Os monumentos históricos dos personagens denominados importantes para uma história Campineira, as obras de construções do poder público e a necessidade de registrar Campinas em seu processo de desenvolvimento é o dispositivo necessário para salvaguardar uma história ameaçada pela chegada dos imigrantes que vieram incorporados de costumes e culturas complemente diferente, o que poderia entrar em colisão com os costumes e a cultura municipal. Campinas necessitou se apropriar de uma determinada história e assim legitimá-la criando uma identidade, e através das fotografias percebemos uma série de fatores que complementam e auxiliam a história denominada oficial.


5.AGRADECIMENTOS


Agradeço ao professor orientador João Miguel Teixeira de Godoy pela paciência e dedicação com seus alunos. Também agradeço a todos os meus amigos que me ajudaram no decorrer deste projeto, assim contribuindo em certa medida para o alcance de minhas realizações.





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