Alexandre Assis Tomporoski Mestrando em História pela ufsc



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Serra Fita – Serra Vida: Os trabalhadores da Lumber e a classe operária no Planalto Norte de Santa Catarina, 1910-1940.

Alexandre Assis Tomporoski

Mestrando em História pela UFSC


assis.historia@bol.com.br
A região do Planalto Norte de Santa Catarina compunha, nas primeiras décadas do século XX, um cenário de crise marcado por profunda instabilidade e tensão social. Entre os anos de 1912 e 1916 esta área fora um dos epicentros do movimento sertanejo do Contestado, impulsionado, sobretudo, pela desestruturação da ordem social e do modo de vida então em vigência. Atuando simultaneamente, inúmeros elementos foram agentes desse processo, em especial a inserção do capital estrangeiro na região.

Nesse contexto político, a Questão de Limites entre Paraná e Santa Catarina, iniciada em 1853, arrastara-se sem solução definitiva até o ano de 1917. Embora o litígio territorial entre os dois estados não tenha sido determinante para a eclosão do conflito1, a disputa alimentou ódios e inimizades locais, bem como promoveu atritos nas regiões fronteiriças. A cobrança de impostos e a distribuição de terras a particulares por parte dos Estados litigantes também foram significativos elementos de tensão2.

Em meio à crise de divisas, os dois estados lançaram mão da colonização de áreas em litígio, empregando o assentamento de imigrantes europeus como tentativa de obter o controle hegemônico do território. Fora este o intuito do estado do Paraná quando em 1895 assentou imigrantes de origem eslava na colônia Antônio Olinto, trinta quilômetros ao norte da colônia Lucena, ao longo do Rio Negro. No ano de 1910 essa colônia contabilizava mais de dois mil poloneses e ucranianos residentes, dentre os quais parte do grupo de trabalhadores3 que seria empregado na Lumber4.

A Southern Brazil Lumber and Colonization Company, companhia norte-americana financiada por capitais ingleses e franceses, foi estabelecida em Três Barras5 no ano de 1910. O objetivo principal era serrar a madeira nativa e colonizar as terras marginais ao ramal ferroviário construído pela Brazil Railway Company6, que ligaria União da Vitória (PR) a São Francisco do Sul (SC), abrindo assim um canal de escoamento para a erva mate e a madeira beneficiada na região.

No planalto subsistia há muito um grupo que esteve ligado aos primórdios do processo de ocupação do território. A partir do momento em que as terras tornaram-se economicamente interessantes, o modo de vida e a própria existência do caboclo7, que dependiam do apossamento e da exploração comum das terras, tanto para a composição da roça cabocla, quanto para o fabrico de erva mate, esteve ameaçada. O caboclo vivia um forte processo de marginalização que estava diretamente ligado ao projeto de construção de uma identidade nacional brasileira, que desde o final do século XIX pregava a exclusão de grande parte dos grupos considerados racial e culturalmente inferiores8. No que se refere ao Planalto Norte de Santa Catarina, a atuação direta de novas forças políticas e econômicas impôs ao caboclo novas relações com a terra, que agora não estariam mais baseadas na cultura e na morada habitual, mas na lógica do capital. Até então, sua concepção de tempo estava diretamente relacionada às tarefas ligadas às suas necessidades de subsistência. Eram as necessidades impostas pelas funções produtivas que determinavam as tarefas a serem desenvolvidas e, conseqüentemente, o tempo que cada uma delas exigiria do dia de trabalho do caboclo, sendo seu tempo orientado pelas tarefas9.

O emprego de práticas ligadas à exploração comunal de certas áreas possibilitava ao caboclo uma subsistência apenas pouco mais do que miserável, entretanto, lhe permitia um certo grau de liberdade para agir segundo sua autodeterminação. Esse conjunto de práticas pode ser percebido como uma espécie de economia moral10 dos caboclos da região, especialmente se analisado em contraposição ao processo de avanço do capital estrangeiro, que alteraria de modo substancial o gênero de vida costumeiro11. Porém, a atuação da Lumber representou para o caboclo mais do que uma ameaça a estas práticas pela destruição das matas e ervais nativos. Além do impacto econômico e ambiental, a deflagração de um processo de grilagem da terra desencadeou também um fenômeno de exclusão étnica12, com a expulsão ou assassínio das famílias caboclas apossadas de terras que até então percebiam como sendo legitimamente suas e que passariam a ser cercadas e exploradas pela Lumber.

A construção de identidades étnicas por parte dos imigrantes estavam ligadas a forma de inserção econômica de cada grupo. Os poloneses caracterizaram-se por estabelecerem representações acerca do pioneirismo e da colonização de terras devolutas, sendo reconhecidos por um ethos do trabalho, que se contrapunha aos vícios da população nacional13.

A preferência pelo imigrante em detrimento do caboclo também teve reflexos na divisão do trabalho estabelecida na Lumber. No complexo industrial montado em Três Barras foram empregados aproximadamente quatrocentos empregados permanentes14, em sua maioria imigrantes europeus de origem eslava, além de grande número de caboclos, os quais trabalhavam sob regime de empreitada, no corte e transporte das toras na mata15. As relações entre estes dois grupos distintos, imigrantes eslavos e caboclos, seus possíveis conflitos e solidariedades, são de fundamental importância para a tentativa de reconstrução do processo de formação da classe operária no Planalto Norte de Santa Catarina.

No que tange a historiografia acerca da classe operária no Brasil16 é possível perceber um revigoramento neste campo de estudos nas últimas décadas. Pode-se identificar alguns marcos referenciais para pesquisadores da área, especialmente no que se refere ao emprego das fontes. A reavaliação e ampliação do leque de fontes utilizadas possibilitou o emprego de “novas” fontes, como processos da Justiça do Trabalho, cujas informações têm possibilitado o desnudamento de uma face até então obscurecida da classe operária no Brasil. No bojo deste processo também é perceptível um aprofundamento dos estudos regionais, sendo pertinente salientar a crescente importância do estudo de empresas individuais ou de cidades menores, localizadas no interior.

Em meio às novas tendências também se destacam a ênfase dada às histórias específicas de categorias de trabalhadores; o exame das condições de vida e de características técnicas e sociais da produção; as ações grevistas e os mecanismos de controle ideológico. Neste sentido é importante destacar as perspectivas propostas pela história social, que atenta para a necessidade de uma “história de cima” para complementar a “história de baixo”, evitando-se assim negligenciar as relações mútuas e com o todo, ou seja, a classe operária precisa ser percebida também em suas relações com as classes dominantes e com o Estado17. Assim, a ênfase dada ao cotidiano operário, que trouxe uma dinâmica até então recusada pela historiografia tradicional, não pode resumir-se à idealização da história da classe operária acima e fora dos conflitos de classe. Não é possível analisar a classe em separado do processo histórico que a gerou.

Neste sentido alguns indícios são sintomáticos para a reconstrução do processo histórico em que ambos - trabalhadores da Lumber e a empresa - estavam envolvidos. No estudo da atuação da Lumber na região, importantes esclarecimentos surgem quanto ao desenvolvimento de um cuidadoso processo de cooptação de lideranças disseminado pela companhia em diferentes esferas de poder. O primeiro marco deste processo refere-se aos primórdios da penetração capitalista naquela região. A associação da Lumber aos “coronéis”18, que pela posição social de que usufruíam foram os interlocutores desses novos agentes, promoveu a desestruturação das relações de dominação vigentes, que davam ao caboclo a condição de sobreviver percebida como justa. Os “coronéis” passaram a representar os interesses estrangeiros não só no planalto, como em toda região do Contestado19.

Com o desenvolvimento do processo de inserção do capital estrangeiro, a Lumber passou a cooptar as lideranças políticas dos estados do Paraná e de Santa Catarina, com a intenção de evitar embaraços legais e obter facilidades administrativas20. A empresa, munida de seu amplo poder de pressão econômica, conseguiu, inclusive junto às autoridades locais e centrais, a resolução favorável de questões de interesse mútuo. Nas eleições de 1930 o diretor da companhia demitiu os operários que haviam votado em Vargas. Quando da irrupção das hostilidades da Revolução de 1930 o mesmo diretor, por intermédio do chefe do Corpo de Segurança, quis dinamitar a ponte da estrada de ferro para impedir a passagem das forças revolucionárias em direção a São Paulo21.

Esse processo de cooptação de lideranças também alcançou as autoridades que atuavam em âmbito local. É possível perceber através da análise de processos crime por acidente no trabalho ocorridos na Lumber indícios da cooptação destas autoridades por parte da companhia, com o intuito de evitar o pagamento de indenizações aos trabalhadores acidentados ou a suas famílias. Os acidentes de trabalho certamente compunham um quadro de constante terror para os trabalhadores da Lumber. Tanto no serviço das matas, quanto no processo de beneficiamento da madeira, os registros de trabalhadores acidentados se multiplicavam e é fundamental atentar para o fato de que os acidentes de trabalho representavam condições compartilhadas pelos diferentes grupos de trabalhadores22. Neste sentido o procedimento adotado pela empresa com relação aos acidentes é um indício sintomático da relevância de tais acontecimentos para o conjunto da empresa e para os trabalhadores23.

A análise dos processos crime por acidente de trabalho24 revelou indícios da ligação entre a empresa e as autoridades que atuavam em nível local. Quando da ocorrência do acidente as testemunhas eram curiosamente selecionadas pela diretoria da empresa. Essas testemunhas eram trabalhadores da companhia e todos, inclusive a vítima, prestavam seus depoimentos dentro das instalações da Lumber, o que consistia em um importante fator de pressão sobre o grupo selecionado. Nos depoimentos transparece uma quase necessidade, senão obrigação, por parte dos trabalhadores em afirmar que a “culpa” fora exclusivamente da vítima. Isso se comprova pela grande quantidade de afirmações favoráveis à companhia nos depoimentos dos trabalhadores nos quais, muitas vezes, atribuem a causa a fatores como a idade avançada do trabalhador ou à sua imprudência, além de destacarem o auxílio médico rápido e eficaz prestado pela empresa.

O “Relatório Sobre Accidente no Trabalho” adotado pela Lumber era preenchido por funcionários da empresa e encaminhado à autoridade oficial, que muitas vezes o anexava ao inquérito policial. É notório o condicionamento dos resultados da investigação às informações inicialmente fornecidas, resultando, normalmente, no arquivamento do inquérito. Este, ao relacionar as causas do acidente à imperícia do trabalhador, segundo a legislação em vigor, em 1919, desonerava a companhia de pagar indenizações ou benefícios25.

No ano de 1927 há um conjunto de processos crime por acidente no trabalho que permite estabelecer algumas comparações e inferências. Os trabalhadores continuam surgindo com justificativas deslocadas para o acidente, desonerando a empresa das indenizações. Entretanto, alguns casos de condenação por parte da empresa começam a surgir, como a indenização paga aos familiares de Miguel Guergond, que faleceu após ser esmagado por uma tora no serviço das matas; ou quando do pagamento de meias diárias referentes aos dias em que o operário Antônio Anacleto estivera hospitalizado26, devido ao esmagamento dos dedos indicador e médio da mão direita após a queda de um dormente.

Importantes considerações também surgem em relação aos salários27 e à habitação dos trabalhadores da Lumber. Nos processos analisados referentes ao ano de 1927 surpreende o grande número de trabalhadores que residiam em “Colônia Bugre”, sendo a maioria de origem eslava. Infere-se que a colônia Bugre era o principal espaço habitado pelos trabalhadores da companhia, no limite, uma espécie de esboço de vila operária em pleno sertão planaltino. Estas informações supõem a existência de um espaço comum fora da fábrica, onde as experiências poderiam ser compartilhadas28 e os interesses em comum potencializados transcendendo o mundo do trabalho e proporcionando aos trabalhadores trocas, conflitos e alianças que invadiam seu cotidiano e o conjunto de suas relações sociais29.

Também é possível supor que as diferenças étnicas e culturais entre os trabalhadores nacionais e os imigrantes e também entre os diversos grupos eslavos poderiam ter-se amenizado30. Suas diferenças e conflitos não podem ser menosprezados, no entanto, as primeiras levas de imigrantes que chegaram à região tenderam a amalgamar-se a população local, quando muitos imigrantes e descendentes passaram a adotar o mesmo modo de vida da população pobre nacional, num processo de acaboclamento31. Esta possibilidade não pode ser descartada quanto ao grupo de imigrantes que se tornaram trabalhadores da Lumber, pois, como já visto, estes foram assentados na colônia Antonio Olinto no ano de 1895.

A tentativa de reconstrução de parte do processo histórico que teria permitido o florescimento de uma classe operária no Planalto Norte de Santa Catarina exige que se perceba as formas e modos pelas quais os trabalhadores da Lumber compartilharam experiências e definiram os objetivos comuns e antagônicos32. Certamente seus interesses estavam conectados aos diversos setores de suas vidas: a habitação, a fábrica, a bodega; mas credito, sobretudo aos constantes acidentes de trabalho a possibilidade de aglutinação de tais interesses em comum por parte dos trabalhadores, independentemente de seu grau de especialização; do seu salário; da função desenvolvida ou do grupo étnico de que procediam. A exploração em comum percebida pelos trabalhadores permitiu-lhes não apenas a percepção de que partilhavam de uma mesma condição, mas também que a companhia lhes impunha tais condições de trabalho e sobrevivência e se opunha às suas necessidades e reivindicações33. Apesar dos trabalhadores surgirem como deferentes nos depoimentos analisados nos processos crime, tanto em 1919 quanto em 1927, a constatação de casos onde a empresa fora condenada a indenizar os trabalhadores permite vislumbrar algum tipo de transformação, uma reavaliação dos parâmetros que regiam esta relação.

Apesar da extrema escassez de fontes e informações, certamente a greve deflagrada pelos trabalhadores da Lumber entre 31 de maio e 07 de junho de 1919, a qual teria reivindicado maior segurança no trabalho34, permite supor que este fora um significativo elemento de pressão para a mudança, mesmo que sutil, deste contexto.

Com relação à greve, há indícios de que durante o período de paralisação aqueles que colaboraram com a ação grevista foram perseguidos e punidos pela Lumber. Além do seqüestro de fazendeiros da região, a empresa determinou que o advogado e ex-prefeito de Três Barras, Dídio Augusto, representante dos interesses dos trabalhadores junto à companhia, fosse preso e deportado para São Francisco do Sul. Chegando àquela cidade o advogado foi solto sob a condição de não mais retornar a Três Barras35. Durante o período de deflagração do movimento grevista na Lumber, o Corpo de Segurança da Companhia e a polícia catarinense teriam implantado um regime de terror, quando os seguranças da Lumber, por meio de sua típica atuação violenta, reprimiram a greve e seus colaboradores.

O Corpo de Segurança da Lumber tem recebido da historiografia que trata deste grupo uma análise um tanto superficial e baseada mais na reprodução de afirmações pouco documentadas do que em evidências. Esta organização fora constituída com o intuito de facilitar a atuação da empresa na área, estabelecendo a disciplina de toda a estrutura da Lumber. Entre as atividades exercidas estavam a proteção das instalações da empresa; a repressão aos protestos dos operários; a expulsão de caboclos de terras de interesse da companhia. Assim, esse grupo foi tomado como agente disseminador de diversas formas de violência, tendo-as empregado para estabelecer a nova ordem do capital àquela sociedade.

No entanto, novos indícios vêm desnudar uma face obscurecida deste grupo. Esta “nova” fonte relata o assassinato do Delegado de Três Barras, Tenente Câmara Júnior, em 28 de outubro de 1920, do qual teriam participado homens do Corpo de Segurança da Lumber.

Após ter recebido queixa contra o operário Hugo Bencker, por motivo não esclarecido, o Tenente Francisco Arruda Câmara Junior, Delegado de polícia de Três Barras intimou-o, tendo o operário descumprido a ordem. No dia seguinte o Delegado determinou que dois praças efetuassem a prisão de Hugo. Por volta das 13:00 horas os dois dirigiram-se ao Escritório Central da Lumber, e enquanto falavam com um dos diretores aproximou-se um numeroso grupo de trabalhadores da companhia, à frente vinha Theófilo Becker. Este, de punhos cerrados xingou os praças e afirmou que não permitiria a prisão de Hugo. Os dois praças regressaram ao Quartel tendo comunicado o acontecido ao Delegado. Naquela noite, por volta das 20:00 horas, o Delegado conversava com três moradores do município, todos civis, sobre a falta de respeito que, no Distrito de Três Barras, havia para com as autoridades constituídas. Neste momento chegou à porta do Quartel um grupo numeroso, armado de “winchesters” e revólveres, invadindo a sala e abrindo fogo, sendo a morte do Tenente Câmara Júnior instantânea36.

Este, que aparentemente é apenas mais um caso de resolução violenta de conflitos ocorrido na região, surpreende por dois fatores: em primeiro lugar, o assassinato de um Delegado de Polícia o que, mesmo em 1920, representaria uma grave crise na ordem vigente local; em segundo lugar, e, ainda mais surpreendente, é perceber que entre o grupo comandado por Theófilo Becker havia outras dez pessoas, inclusive Manoel Soares Fabrício e Antonio Diogo, guardas do Corpo de Segurança da Lumber, e que ao lado destes estavam Avelino Pimenta, Luiz José Guerra e Antonio Guerra, ambos operários da companhia.

Estes indícios podem representar uma grande mudança acerca da interpretação da atuação deste grupo e suas relações estabelecidas para com os trabalhadores da Lumber. Este contato passa a ser percebido não apenas como antagônico, mas também como possivelmente solidário, mesmo que em momentos específicos de convergência de interesses comuns. Certamente os guardas da Lumber ocupavam posições e funções distintas dentro da hierarquia da empresa, no entanto, não na estrutura social em questão, inclusive partilhando formas de exploração semelhantes às experimentadas pelos operários da empresa. Ambos os grupos estavam unidos por um elo comum que os ligava a Lumber e que contribuía concretamente para a construção de noções de solidariedade e proteção. Dessa forma, é possível supor que ao experimentar a noção de pertencimento a esta instituição os trabalhadores tenham construído laços de solidariedade, os quais foram fundamentais, especialmente como estratégia de sobrevivência neste contexto de exploração desenfreada.



1 VINHAZ DE QUEIROZ, Maurício. Messianismo e conflito social: a guerra sertaneja do Contestado (1912-1916). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966, p. 67 a 69.

2 MONTEIRO, Duglas Teixeira. Um confronto entre Juazeiro, Canudos e o Contestado. In: FAUSTO, Boris [et all] (org) O Brasil Republicano, 2: Sociedades e Instituições (1889-1930). 5. ed. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1997, p. 71.

3 É relevante considerar que uma parte importante da mão de obra empregada na Lumber era constituída tanto por colonos ou filhos de colonos, como por caboclos da região. Estes trabalhadores foram compelidos a procurar emprego fora da agricultura, encarando o processo de assalariamento como uma estratégia camponesa de sobrevivência. Assim, aliando a possibilidade de morar e produzir alimentos sem custos em sua propriedade (ou posse) ao trabalho de operário na Lumber, este trabalhador experimentava uma dupla condição, definida tanto por suas atribuições de colono como por sua condição de operário. Trabalhava na fábrica, mas mantinha uma ligação estreita com a terra, através de atividades como a lavoura de subsistência ou a exploração dos ervais nativos, que constituíam o modo de vida típico do sertão planaltino. Certamente os salários eram mais importantes para a subsistência do que a produção obtida na colônia, ou seja, a lavoura era complementar aos salários. No entanto, o trabalho na terra mantinha certa estabilidade e identificação com a vida e com uma comunidade tipicamente rural. SEYFERTH, Giralda. Aspectos da proletarização do campesinato no Vale do Itajaí (SC): os colonos-operários. In: LOPES, José Sérgio Leite. (Coord.) Cultura e Identidade Operária. Aspectos da cultura da classe operária, p. 103 a 120.

4 DIACON, Todd A Milenarian vision, capitalist reality. Brazil’s Contestado rebelion, 1912-1916. Durham: Duke University Press, 1991, p. 55.

5 A Lumber montou outra serraria em Calmon (SC), esta filial não será contemplada na presente análise por transcender a região do Planalto Norte de Santa Catarina, recorte espacial pré-determinado.

6 A Brazil Railway Company era a firma holding do Sindicato Farquhar, cujos empreendimentos nas primeiras décadas do século XX espalhavam-se por todo o país. Fora a responsável pela construção da estrada de ferro São Paulo – Rio Grande, que cortaria o Planalto Norte catarinense, abrindo as terras à colonização e exploração.

7 Considero o caboclo como caracterizado não apenas pela simples idéia de mistura étnica entre indígenas e descendentes de lusos. Este grupo pode ser definido mais apropriadamente ao considerar-se seu modo de vida, tradições e costumes.

8 A partir de 1930 a honra racial do caboclo teria sido parcialmente resgatada pelas elites. Eles passaram à condição de portadores de culturas menos avançadas ou não civilizadas, “o eixo da inferioridade deslocou-se da raça para a cultura”. In: SEYFERTH, Giralda.Identidade Nacional, diferenças regionais, integração étnica e a questão imigratória no Brasil. IN: ZARUR, George de Cerqueira Leite. Região e Nação na América Latina. Brasília: Editora da UNB. São Paulo. Imprensa Oficial do Estado, 2000, p. 90 e 91.

9 THOMPSON, E. P. Costumes em Comum. Estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo. Companhia das Letras, 1998, p. 271.

10 THOMPSON. Op. Cit., P. 152.

11 MACHADO, Paulo Pinheiro. Um estudo sobre as origens sociais e a formação política das lideranças sertanejas do Contestado, 1912-1916. Campinas, 2001. Tese (Doutorado em História), UNICAMP, Campinas, P. 136 e 167.

12 MACHADO. Op. Cit., P. 146.

13 SEYFERTH. Op. Cit., P. 97 e 98.

14 Em 1912 o número de trabalhadores na Lumber estava estimado em cerca de 400. Entretanto, em 1915 esta contagem atingia 655, IN: DIACON. Op. Cit., P. 51.

15 MACHADO. Op. Cit., P. 145.

16 Informações acerca das novas perspectivas e tendências historiográficas em relação ao estudo da classe operária no Brasil: BATALHA, Cláudio Manoel. A historiografia da classe operária no Brasil: Trajetória e tendências. IN: FREITAS, M.C. Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo: Contexto, 1998, P. 156 e 157; e HARDMANN, Francisco Foot. Nem pátria, nem patrão! Memória operária, cultura e literatura no Brasil. 3. ed. rev. e ampl. São Paulo: Editora UNESP, 2002, P. 236, 237 e 244.

17 THOMPSON. E. P. Tradición, revuelta y consciencia de clase: Estudios sobre la crisis de la sociedad preindustrial. Barcelona: Editorial Critica. 2. ed. 1984, P. 13 e 14.

18 O coronelismo constituía uma prática política que expressava o poder local dos grandes fazendeiros e que vigorou em muitas regiões do país tanto antes da República como depois da Revolução de 1930. O termo “coronel” se refere a mais alta patente da Guarda Nacional. O coronelismo - poder local dos grandes proprietários e comerciantes - possuía condições de autonomia que possibilitavam o exercício do mando local e regional, inclusive como base para as condições políticas estaduais, IN: MACHADO. OP. Cit., P. 84.

19 AURAS, Marli. Guerra do Contestado: a organização da irmandade cabocla. 4. ed. Florianópolis: Ed da UFSC, 2001, P. 43.

20 Neste contexto, é sintomática a atuação de Affonso Camargo, Vice-presidente do Paraná, como advogado da Lumber enquanto exercia o cargo público. Também o Cel Henrique Rupp, Superintendente Municipal de Campos Novos foi inspetor de terras da Brazil Railway Company. No ano de 1916 o advogado lageano Nereu Ramos, filho do ex-governador Vidal Ramos era representante oficial dos interesses da Lumber junto ao governo de Santa Catarina. IN: MACHADO. Op. Cit., p. 142.

21 KROETZ, Lando Rogério. As estradas de ferro de Santa Catarina (1910-1960). Curitiba, 1975. Dissertação (Mestrado em Economia), UFPR, Curitiba.

22 Essas experiências compartilhadas possibilitaram a construção de um saber prático, a partir do qual decisões poderiam ser tomadas embasadas em uma sabedoria geral. A palavra circula, as pessoas falam, conversam, por exemplo, sobre os acidentes de trabalho sofridos por seus parentes ou vizinhos. Trocava-se tais informações, já que os acidentes atingiam uma rede muito grande de pessoas, essa troca teria constituído uma orientação daquilo que é certo ou errado, possível e razoável (identidades comuns são construídas também na moradia, além da fábrica), transcendendo as diferenças étnicas estabelecidas. PAOLI, Maria Célia. São Paulo operária e suas imagens (1900-1940). Espaço e Sociedade: Revista de estudos regionais e urbanos. Nº 33, ano XI, 1991, p. 27 a 41.

23 A Lumber, além de construir uma farmácia e um hospital em Três Barras, instituiu um formulário padrão para registro de acidentes, o “Relatório Sobre Accidente no Trabalho”.

24 Informações acerca dos acidentes de trabalho na Lumber IN: TOMPOROSKI, Alexandre Assis. Da seiva ao sangue: A violência da Lumber em sertões Contestados, 1910-1930. Trabalho de conclusão de graduação em História/UDESC, dezembro 2003, P. 87 a 95.

25 Inquérito Policial por Accidente no Trabalho. Patrão: Southern Brazil Lumber and Colonization Company. Operário: Miguel Pitak. Três Barras, 1919. Arquivo Histórico Municipal de Canoinhas; Auto de Autópsia e Inquérito Policial. Autora: A Justiça. Offendido: Manoel Francisco Gaspar. Três Barras, 1919, AHMC.

26 Auto de Acção por Accidente no Trabalho. Patrão: Southern Brazil Lumber and Colonization Company. Operário: Alfredo Alves, 1927, AHMC; Auto de Acção por Accidente no Trabalho. Patrão: Southern Brazil Lumber and Colonization Company. Operário: Antonio Anacleto, 1927, AHMC Auto de Acção por Accidente no Trabalho. Patrão: Southern Brazil Lumber and Colonization Company. Operário: Miguel Guergond, 1927, AHMC; Auto de Acção por Accidente no Trabalho. Patrão: Southern Brazil Lumber and Colonization Company. Operário: Antonio Amaral, 1927, AHMC.

27 Os salários dos trabalhadores acidentados no ano de 1927 estavam assim determinados: Antonio Anacleto – acidentado em 31/03/1927, empregado no serviço das matas, recebendo 7.700 réis/dia; Alfredo Alves – acidentado em 06/06/1927 – manobreiro de trens da Lumber, recebendo 6.050 réis/dia; Miguel Guergond – acidentado em 01/09/1927, empregado no serviço das matas recebendo 7.500 réis/dia; Antonio Amaral – acidentado em 29/09/1927 – encarregado do combustível dos guinchos, recebendo 6.750 réis/dia. Ainda não foi possível determinar uma relação entre salário e ocupação do trabalhador. Entretanto, com excessão de Alfredo Alves, cujo salário atingia 25% a menos que os demais acidentados, pode-se afirmar comparativamente que os salários dos trabalhadores da Lumber estavam bastante próximos dos níveis dos grandes centros, onde o salário de um trabalhador não-especializado girava em torno de 200 mil réis por mês, IN: DECCA. Maria Auxiliadora Guzzo. A vida fora das fábricas; cotidiano operário em São Paulo (1920-1934). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, P. 21. Apesar disso, enquanto os salários aumentaram de 1914 a 1927 por volta de 150% o custo de vida, de 1920 a 1927 aumentou mais de 280%. IN: PINHEIRO, Paulo Sérgio; HALL, Michael. A classe operária no Brasil, 1889-1930. Documentos. Volume II: Condições de vida e de trabalho, relações os empresários e o Estado. São Paulo. Editora Brasiliense, 1981, P. 137.

28 A moradia implicava em uma certa proximidade compartilhada coletivamente e resultava em uma presença relevante da discussão, da qual emergiria um saber prático. A moradia é território de uma vida social que dá uma identidade aos trabalhadores. PAOLI, Op. Cit.

29 As possibilidades de diversão no Planalto orbitavam em torno das festas, bailes e vendas. Estas, também conhecidas como bodegas ou armazéns, eram os principais centros de sociabilidade da região, onde também os conflitos eram constantes. TOMPOROSKI. Op. Cit., P. 48.

30 Devido a uma relevante circulação da informação, as colônias - que podiam constituir em uma espécie de isolamento étnico -, representavam centros de sociabilidade e de trocas ligadas à experiência comum da fábrica e dos acidentes de trabalho. Resultando em elementos suficientes para superar problemas comuns como língua e costumes distintos, podendo consistir em um marco inicial do processo de aproximação e de integração étnica. PAOLI, Op. Cit.

31 MACHADO. Op. Cit., P. 336.

32 THOMPSON. E. P. A formação da classe operária inglesa. Volume 1. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. P. 10.

33 THOMPSON. E. P. Tradición, revuelta y consciencia de clase. Op. Cit., P. 34 a 39.

34 Independentemente dos salários relativamente altos, as péssimas condições de trabalho e, conseqüentemente, os constantes acidentes, além de jornadas de até 10 horas diárias teriam sido o estopim para a greve na Lumber em 1919. DIACON. Op. Cit., P. 51.

35 Jornal Gazeta do Povo, n. º 106. Edição de 09 de junho de 1919, Curitiba.

36 Processo crime por Homicídio do Tenente Francisco Arruda Câmara Junior. Réu: Theófilo Becker e Outros. Canoinhas, 1920, AHMC.


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