Algumas consideraçÕes sobre a relaçÃo literatura infantil e escola



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ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A RELAÇÃO LITERATURA INFANTIL E ESCOLA
Maura Maria Morais de Oliveira Bolfer1
O objetivo desse trabalho é refletir sobre a relação entre a literatura infantil e a escola.

De acordo com Lajolo e Zilberman (1984), os laços entre a literatura e a escola efetivaram-se à medida que a sociedade atingiu a era da industrialização, modernizando-se em decorrência dos novos recursos tecnológicos. Esse fenômeno transformou a literatura infantil em mercadoria, submetendo-a ao jogo de mercado, no qual a escola figura como grande compradora, mas não garante o consumo por parte do leitor.

Visto o problema por esse ângulo, o livro de literatura infantil, como produto a ser comercializado, acaba ajustando-se a este comprador, de maneira a “seduzi-lo” ao consumo.
Utilitarismo e consumo
De acordo com Zilberman (1989), em função do caráter utilitarista e da valorização da leitura, desde 1972, a UNESCO colocou o livro como instrumento fundamental para o aperfeiçoamento humano.

A partir desse marco, intensificou-se a indústria do livro, e as obras de literatura passaram a atender às exigências do mercado, dificultando a indicação de bons títulos às crianças pelos pais e educadores, reforçando-se a necessidade de desenvolver práticas de leitura que propiciem o hábito de reflexão e crítica das obras disponíveis no mercado editorial.

De acordo com Britto (1997), esta produção procura atingir nichos mercadológicos específicos, no caso, a escola e, em particular, os estudantes-leitores, procurando constituir-se em coleções, de forma a “amarrar” o leitor, retratando a realidade imediata do consumidor-aluno-leitor.

Por fimtal literatura, na medida em que procura se colocar a serviço de interesses mercadológicos, tende, muitas vezes, a banalizar os valores e os conteúdos tematizados.


Literatura e escolarização
Segundo Lajolo e Zilberman, (1984), a literatura infantil de hoje se constituiu basicamente com o advento da modernidade, a partir do momento em que se instituiu o conceito de criança e as questões ligadas à educação passaram a se pautar pelos paradigmas vigentes.

Diante do veloz processo de industrialização provocado pela Revolução Industrial, acelerou-se a urbanização, ampliou-se o investimento na tecnologia e a sociedade transformou-se com o surgimento de diferentes classes sociais. Em decorrência disso, com a crescente migração do meio rural para as cidades e a necessidade da universalização da educação, surge o momento propício para o aparecimento da literatura infantil.

Nesta nova sociedade industrial, atribui-se à criança um novo papel de natureza simbólica, e, conforme Lajolo e Zilberman (1984), ela passa a ser alvo da atenção e do interesse dos adultos, em vista de suas virtudes, como a fragilidade, a desproteção e a dependência. Assim, as crianças são confiadas, principalmente, à instituição escolar que deveria promover a transmissão de valores ideológicos; o desenvolvimento de habilidades, de técnicas e de conhecimentos necessários à produção de bens culturais e manutenção da situação vigente.

Sob o novo paradigma, o saber adquire um lugar central, passando a refletir, no modelo social, uma preocupação generalizada, ficando clara a importância do hábito de ler e, conseqüentemente, o de escrever para a formação do cidadão, tarefa que caberá à escola incentivar e promover.

Como afirma Certeau, “nos últimos três séculos, aprender a escrever define a iniciação por excelência em uma sociedade capitalista e conquistadora” (2001: 227).

A importância de ler e escrever como essenciais à formação do cidadão pode ser vista, por exemplo, na conhecida história de Pinóquio, de Carlo Collodi, na qual se torna nítida a intenção pedagógico-moralizante anunciada pelas condições impostas pela fada madrinha (aquela que ensina suavemente e com firmeza) para que o boneco de pau se tornasse um menino de verdade: ser obediente, não mentir. Além disso, fica aí também bastante claro o sacrifício de Gepeto (o pai), que precisa vender seu casaco para conseguir adquirir o material necessário para que Pinóquio freqüentasse a escola.

Este conto (como muitos outros) retrata a valorização da escola, vista como uma conquista que permite a ascensão na escala social. Neste sentido, a escola alfabetiza e transmite os conhecimentos acumulados pela sociedade ao longo dos anos. Por detrás destas histórias, subjaz a crença de que, deixando de ser analfabeta, a pessoa passa a ser socialmente mais considerada. Contudo, não é nossa intenção realizar um estudo profundo e detalhado da história do processo de escolarização das crianças e do percurso da literatura infantil ao longo dos anos.

De uma maneira geral, as crianças passam pela escola, instituição reconhecida pelo seu papel na sociedade e, assim,

...a escolarização converte-se aos poucos em atividade compulsória das crianças, bem como a freqüência às salas de aula, seu destino natural. (...) A escola se qualifica como espaço de mediação entre a criança e a sociedade (LAJOLO e ZILBERMAN, 1984: 17).

À medida que a escola é valorizada, surge a necessidade de suprir a carência de material adequado à leitura das crianças, ficando patente a importância do hábito de ler para a formação do cidadão, atividade atribuída ao sistema escolar. (...) Intelectuais, jornalistas e professores começaram a produzir livros infantis que tinham um endereço certo: o corpo discente das escolas (LAJOLO e ZILBERMAN, 1984: 28).

Por um lado, a escola como destinatária, escolariza, didatiza e pedagogiza esta produção literária, e por outro lado, acaba-se literalizando a escola, conforme revela Soares (1999).

Segundo essa autora, introduzida na escola, a leitura literária acaba sendo determinada e orientada, configurando-se como tarefa e dever escolar, precisando ser avaliada, demonstrada e comprovada, ou seja, indicando o modo de se ler na escola.

Assim, o processo de escolarização pode ser adequado ou inadequado. Se adequado, tende a conduzir o leitor a uma prática de leitura que o torne capaz de intervir no mundo, sendo, então, instrumental para alargar sua cosmovisão. Esta forma de escolarização tende a desenvolver no leitor o conceito de autoria, de obra e de fragmento de obra.

Por outro lado, se inadequado, o processo de escolarização acaba desenvolvendo no leitor uma provável resistência ou mesmo aversão à leitura, afastando-o da intervenção no mundo. Este tipo de leitura tem, portanto, um fim em si mesma: é a leitura pela leitura.

Dessa maneira, a leitura só será interessante quando contribuir efetivamente para a formação do indivíduo enquanto cidadão. Na prática, isso não vem acontecendo de maneira efetiva, por conta daquilo que, entre outros motivos, Britto (1997) chamou de pedagogia do gostoso. A elaboração de boa parte dos livros infantis está sendo motivada pela produção de textos simplificados, mostrando o prazer ligado ao lazer, entretenimento, por meio de enredos banalizados, uso da linguagem oralizada, supondo um leitor mínimo (com esta afirmação não estamos querendo negar que existe uma produção de boa qualidade), mostrando certa tendência à reprodução de comportamentos do senso comum.

Outro problema é que grande parte destes livros estão sendo produzidos para fins didáticos, deixando de valorizar, por exemplo, a presença do maravilhoso, uma das características fundamentais da literatura infantil, visando a um público específico, retratando a realidade do consumidor e fazendo com que o leitor veja neste “produto” o reflexo de seu universo ideológico. Isso, obviamente, tende levar à banalização dos valores e conteúdos.

Os livros de literatura infantil destinam-se às crianças, que estão ou estarão inseridas na escola. Portanto, a clientela da literatura infantil é, em grande parte, a clientela escolar. Desse modo, estes livros são produzidos para o consumo na escola ou através da escola. Se trazida para a escola, esta literatura se escolariza. Escolarizada, sua leitura, ato cultural e historicamente demarcado, acaba sendo considerada meio de promoção social. Assim, ler pouco ou não saber ler faz com que o cidadão sinta-se ou torne-se inferiorizado. Na sociedades letradas, o conhecimento depende do livro e das habilidades do leitor. Estas habilidades vão além do decodificar letras e palavras e têm por objetivo formar o leitor adulto capaz de intervir e compreender sua realidade social.

De acordo com Britto:

...mais do que um ato mecânico de decodificação, a leitura é uma atividade intelectual relativa à linguagem que se caracteriza pela intelecção de um discurso específico que se organiza segundo regras próprias, diferentes das da linguagem oral. Sabe-se bem que este discurso apresenta uma estratégia argumentativa muito particular, com sintaxe, universo lexical e referencialidade específicos, constituindo o que se tem chamado de “o mundo da escrita” (1997: 112).
Tem-se atribuído à leitura, principalmente à leitura infantil, um caráter educativo e formador, vinculando-a à escola, lugar reconhecido pela função educativa e formadora de crianças e jovens. Por isso, o ideal é que aquilo que será lido privilegie o lado instrutivo, que provoque interesse, e o lado divertido, que esconda uma realidade moral. Faz-se, assim, uma aliança entre o útil e o agradável, como demonstra Chartier: “o romance instrutivo é como uma boneca russa. Abrimo-lo para ler uma bela história, cativante, e encontramos dentro saberes científicos, integrados ao longo da narrativa” (1999: 64).

Vê-se que, pela leitura, o leitor, por meio de suas relações sociais, experiências prévias e visão de mundo, pode reproduzir em seus pensamentos e atitudes a ideologia dominante ou, de outra forma, criticar essa ideologia. O ato de ler se mostra como um ato inventivo, que produz sentidos.

De acordo com Britto, esses textos passam a funcionar como antena da sociedade, trazendo e denunciando a visão de mundo imposta pelas forças dominantes, “versão autorizada” e portadora de um conhecimento verdadeiro e necessário. Neste sentido, são textos de ficção que trabalham com o imaginário e com o fantástico e que acabam liberando o leitor do peso da realidade, trazendo-lhe uma recompensa afetiva, mesmo quando denunciam, ampliam ou iluminam a realidade.

Assim, estes textos agem como comentários de um discurso fundador, de um discurso original, no qual a moral e os valores vigentes na sociedade estão presentes. São comentários porque falam do discurso fundador, reproduzindo-o ou reatualizando estes valores.

Como coloca Foucault (1999: 25), “o comentário não tem outro papel, sejam quais forem as técnicas empregadas, senão o de dizer enfim o que estava articulado silenciosamente num texto primeiro.”

Como explicitam seus próprios autores, o discurso fundador do comentário, no caso de alguns livros de literatura infantil, seriam as teorias pedagógicas.

Por exemplo, Elias José, em Uma escola assim, eu quero pra mim (1999), diz:

Envolvido em leituras teóricas, acompanhando as várias experiências a partir do construtivismo, dando aulas ou palestras sobre Leitura e Produção de Textos para Alfabetizadores, nasceu a idéia de escrever este livro. (...) Se o livro conseguir, ao mesmo tempo, encantar e mexer um pouco com o sistema rígido de alfabetizar, todos nós – autor, ilustrador e editores – nos sentiremos muito recompensados (p. 29).


Na contracapa de Uma professora muito maluquinha (ZIRALDO, 1995) há o seguinte registro que evidencia a pretensão do autor em sugerir um modelo escolar:

Ziraldo comemora, com este livro, o 15o ano de sua convivência com a Editora Melhoramentos, que começou quando, certa vez, uma professora sugeriu a ele que colocasse em um livro “sério” suas idéias sobre as relações dos adultos com as crianças. Como se fosse uma brincadeira, ele inventou o Menino Maluquinho. Agora, outras professoras têm pedido que ele transforme em livro suas idéias sobre a “arte” de ler e escrever e sobre as lembranças de uma professora que abriu seus olhos para o mundo. Como uma nova brincadeira, igualmente séria, eis o livro! (1995).

As professoras, ao pedirem a Ziraldo um livro sério, estariam sugerindo que ele fosse além da ficção e do simples prazer da fantasia, ou seja, escrevesse um livro que apontasse idéias da arte de ler e escrever. Ao realizar este livro, o autor estaria atendendo à demanda das professoras e abordando o ensino da leitura e da escrita nos moldes do movimento da educação brasileira desenvolvido a partir dos anos 70/80, quando surgiram inúmeras ações de promoção de leitura e de renovação pedagógica inspiradas na concepção construtivista: ensinar a ler e a escrever, estimular de alguma maneira as professoras que trabalham com leitura e escrita. Portanto, Uma professora muito maluquinha seria a professora da criança moderna, inspirada no Menino Maluquinho. Nesta obra, em que a professora é a protagonista, Ziraldo idealiza o processo pedagógico e torna-se emblema de campanhas publicitárias oficiais veiculadas nas mídias (jornais, TV, rádios, teatro) que enfatizam a nova postura da professora, engajada nas novas propostas educacionais do país. Dizemos que é engajada, pois, como veremos posteriormente em análise mais detalhada, quer convencer a escola e a professora a mudar suas práticas, usando a criança como veículo que pode encaminhar, sugerir e estimular esta mudança.

Nesse sentido, não podemos negar que tanto a literatura infantil quanto a escola agregam uma natureza formativa, podendo ser instrumento que tem servido à multiplicação da norma vigente.


Conclusão


Como vimos, a literatura infantil, utilizada na escola, pode, em certa medida, reproduzir o mundo adulto pela atuação do narrador, pela veiculação de conceitos/comportamentos aceitos/desejáveis socialmente ou pelo uso de determinada norma lingüística. Em contrapartida, “a escola e a literatura [infantil] podem provar sua utilidade quando se tornarem o espaço para a criança refletir sobre sua condição pessoal” (ZILBERMAN, 1998: 21).

Isso ocorre porque grande parte dos leitores não produz, diretamente, textos/livros, mas é consumidora em potencial, por fazer uso deles em sua vida. De um modo geral, os leitores, ao realizarem uma leitura peregrinam por um sistema imposto, como diz Certeau (2001), produzindo um sentido. Um sentido que é construído, considerando-se as circunstâncias que os leitores lêem, assim como o suporte em que está o texto circunscrito. Vê-se dessa forma, a leitura sendo encarada como uma operação de caça, uma busca de sentidos, na qual os leitores não ficam passivos diante dos textos. E não ficam passivos porque fazem diferentes apropriações de um mesmo produto: o texto. Isso, tende a ocorrer porque, como diz Kramer, (2001:107), “o leitor leva rastros do vivido no momento da leitura para depois ou para fora do momento imediato – isso torna a leitura uma experiência [singular]”.

Por conta disso, há uma certa tendência em levar em conta as operações realizadas pelo leitor, tendo em mente que quando se lê, o que é vivido na tradição oral e na realidade de cada um interfere na produção de sentido do texto, ou seja, leitura e interpretação dialogam com a vida e com o capital cultural de cada leitor, aí considerado o Outro com quem o Autor dialoga.

BIBLIOGRAFIA


BRITTO, Luiz Percival Leme. A criança não é tola. In: PAULINO, Graça (org.). O jogo do livro infantil: textos selecionados para formação de professores. Belo Horizonte: Dimensão, 1997

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano 1: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 2001

CHARTIER, Anne-Marie. Leitura e saber ou a literatura juvenil entre ciência e ficção. In: EVANGELISTA, Aracy A. M,; BRANDÃO, Heliana M. B. e MACHADO, Maria Zélia V. (orgs.). A escolarização da leitura literária: o jogo do livro infantil e juvenil. Belo Horizonte: Autêntica, 1999

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1999, 5a edição

JOSÉ, Elias. Uma escola assim, eu quero pra mim. São Paulo: FTD, 1999, 7a edição

LAJOLO, Marisa e ZILBERMAN, Regina. Literatura Infantil Brasileira: histórias & histórias. São Paulo: Ática, 1984

SOARES, Magda. A escolarização da leitura infantil e juvenil. In: EVANGELISTA, Aracy A. M,; BRANDÃO, Heliana M. B. e MACHADO, Maria Zélia V. (orgs.). A escolarização da leitura literária: o jogo do livro infantil e juvenil. Belo Horizonte: Autêntica, 1999

ZILBERMAN, Regina e BORDINI, Maria da Glória. Guia de leitura para alunos de 1o e 2o Graus. São Paulo: Cortez, Porto Alegre: INEP, MEC, CPL, PUCRS, 1989, 4a edição

ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. São Paulo: Global, 1998, 10a edição

ZIRALDO. Uma professora muito maluquinha. São Paulo: Melhoramentos, 1995




1 Professora do Instituto Superior de Educação Uirapuru – Sorocaba e Centro Universitário Hermínio Ometto / Uniararas – Araras / Participante do ALLE – FE – UNICAMP


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