Algumas Notas sobre o Conceito de Ideologia



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Algumas Notas sobre o Conceito de Ideologia

Prof. Rogério Ferreira de Souza *

O conceito de ideologia apresentou modificações em seu significado ao longo da história. A princípio, com o seu criador Antoine Destutt de Tracy (1796) 1, ideologia significava a ciência das idéias, idéias essas que sustentam a vida social. Segundo Karl Mannheim, a concepção moderna de ideologia nasceu quando Napoleão opôs-se ao grupo de De Tracy achando que este grupo se opunha a suas ambições imperialistas, rotulando-os desdenhosamente de ‘ideólogos’. (Mannheim 1986:98)

Segundo Terry Eagleton (1997:69), se Napoleão denuncia os ideólogos, é porque estes são os adversários juramentados da ideologia, empenhados em desmistificar as ditatoriais ilusões sentimentais e a religiosidade divagante com a qual ele esperava legitimar seu governo.

Essa nova conotação do termo, influenciada pelo viés político, produz uma igualmente nova formulação do conceito de ideologia: no lugar de significar ciência das idéias passa a representar, em princípio, as próprias idéias entendidas como ilusórias e abstratas. Essa nova representação do termo e outras representações estão presentes em algumas obras de Karl Marx e Friedrich Engels, que serão analisadas na primeira parte deste artigo.

Na segunda parte, será feita uma análise crítica do conceito de ideologia nas duas obras citadas de Marx e Engels. Finalmente, buscar-se-á relacionar o conceito de ideologia ao de memória, no sentido de abrir o campo de discussão do conceito de ideologia para outras áreas.



Algumas definições de ideologia em Karl Marx (1818–1883)

e Friedrich Engels (1820–1885)

A extensa obra de Marx e Engels mostra, em diversas passagens, diferentes versões do conceito de ideologia. Não se pretende, com este trabalho, esgotar o assunto nem mesmo apresentar todas essas definições. Embora haja mais de uma definição do termo, como já foi mencionado, elas não são contraditórias entre si. Essas definições vão-se tornando mais complexas, à medida que os próprios autores vão amadurecendo em suas obras. Para este trabalho, foram selecionadas duas definições de ideologia que, longe de se oporem, complementam-se.

A primeira sistematização do conceito de ideologia foi apresentada por Marx e Engels, na Ideologia Alemã. Esta obra foi escrita de 1845 a 1846. Sua principal intenção era reestruturar os argumentos dos dois autores acerca do que pensavam sobre a realidade atordoada que os sufocava. Gorender (1983:XIII) resume o seu contexto de criação:

De 1845 a 1846, em contato com as seitas socialistas francesas e envolvidos com os emigrados alemães na conspiração contra a monarquia prussiana, encontraram tempo para se concentrar na elaboração de um livro de centenas de páginas densas…Iniciada em Paris, a redação do livro se completou em Bruxelas, onde Marx se viu obrigado a buscar refúgio, pois o governo de Guizot, pressionado pelas autoridades prussianas, o expulsou da França sob acusação de atividades subversivas. O livro não encontrou editor e só foi publicado em 1932, na União Soviética. Em 1859, Marx escreveria que de bom grado ele e Engels entregariam o manuscrito à crítica roedora dos ratos, dando-se por satisfeitos com terem posto ordem nas próprias idéias.

A Ideologia Alemã representa um marco no pensamento marxista, por ser uma virada para o que realmente seria o pensamento socialista, em confronto com os socialismos anteriormente existentes. Ela também apresenta uma crítica muito bem estruturada ao hegelianismo, até então visto como a última e a mais completa abordagem sobre a realidade. A principal validade dessa obra é o esboço da criação do materialismo histórico, ponto máximo de estruturação do pensamento marxista.

Marx e Engels iniciam falando da revolução provocada pelo fim do sistema hegeliano, ocorrido de 1842 a 1845, que consistia no processo de decomposição do espírito absoluto: Os industriais da filosofia, que até então haviam vivido da exploração do espírito absoluto, lançaram-se então a novas combinações. (Marx e Engels 1989:22).

No entanto, Marx e Engels argumentam que nenhum desses filósofos rompeu realmente com Hegel:

Essa dependência de Hegel é a razão pela qual nenhum desses novos críticos tentou uma crítica de conjunto do sistema hegeliano, embora cada um deles afirme ter ultrapassado Hegel. Suas polêmicas contra Hegel e entre eles a isto se limitam: cada qual isola um aspecto do sistema hegeliano, dirigindo-o, ao mesmo tempo, contra o sistema inteiro e contra os aspectos isolados pelos outros.…Toda a crítica filosófica alemã de Strauss a Stirner limita-se à crítica das representações religiosas. (Marx e Engels 1989:24)

A maior crítica que ambos fazem a todos eles é que nenhum ousou pensar a realidade material: A nenhum destes filósofos ocorreu perguntar qual era a conexão entre a filosofia alemã e a realidade alemã, a conexão entre a sua crítica e o seu próprio meio material. ( Marx e Engels 1989:26)

Rompendo com essa filosofia, Marx e Engels propuseram partir de pressupostos reais, pensar o indivíduo real, sua ação e suas condições materiais de vida. A partir de então, constataram que a principal leitura que se deveria fazer da realidade é a de que existem seres humanos vivos e de que, conseqüentemente, existem relações desses indivíduos com a natureza:

Pode-se distinguir os homens dos animais pela consciência, pela religião ou por tudo que se queira. Mas eles próprios começam a se diferenciar dos animais tão logo começam a produzir seus meios de vida, passo este que é condicionado por sua organização corporal. Produzindo seus meios de vida, os homens produzem, indiretamente, sua própria vida material.( Marx e Engels 1989:27)

Complementaram que são as condições materiais de vida que determinam o que os indivíduos serão:



O modo pelo qual os homens produzem seus meios de vida depende, antes de tudo, da natureza dos meios de vida já encontrados e que têm de produzir. Não se deve considerar tal modo de produção de um único ponto de vista, a saber: a reprodução da existência física dos indivíduos. Trata-se, muito mais, de uma determinada forma de atividade dos indivíduos, determinada forma de manifestar a sua vida, determinado modo de vida dos mesmos. Tal como os indivíduos manifestam a sua vida, assim são eles. O que eles são coincide, portanto, com sua produção, tanto com o que produzem, como com o modo como produzem. O que os indivíduos são, portanto, depende das condições materiais de sua produção.(Marx e Engels 1989:27)

A partir de então, argumentaram que a produção das idéias está diretamente ligada à atividade material, à sua vida real:



A produção de idéias, de representações, da consciência, está, de início, diretamente entrelaçada com a atividade material e com o intercâmbio material dos homens, como a linguagem da vida real. O representar, o pensar, o intercâmbio espiritual dos homens, aparecem aqui como emanação direta de seu comportamento material… Os homens são os produtores de suas representações, de suas idéias etc. mas os homens reais e ativos, tal como se acham condicionados por um determinado desenvolvimento de suas forças produtivas e pelo intercâmbio que a ele corresponde até chegar às suas formações mais amplas.( Marx e Engels 1989:36)

Portanto, se os homens são o que vivem, ou seja, o que suas condições reais de vida lhes permitem ser, a consciência que eles terão do mundo está relacionada à forma como vivem, e, portanto, a ideologia que os orientará será vinculada àquela formação sócio-histórica na qual eles estão inseridos. Por isso, a ideologia é uma ilusão situada na realidade vivida:



A consciência jamais pode ser outra coisa do que o ser consciente, e o ser dos homens é o seu processo de vida real. E, se, em toda a ideologia, os homens e suas relações aparecem invertidos como numa câmara escura, tal fenômeno decorre de seu processo histórico de vida, do mesmo modo por que a inversão dos objetos na retina decorre de seu processo de vida diretamente físico.( Marx e Engels 1989:37)

Este é também o ponto em que os autores rompem com os filósofos hegelianos:



Totalmente ao contrário do que ocorre na filosofia alemã, que desce do céu à terra, aqui se ascende da terra ao céu. Ou, em outras palavras: não se parte daquilo que os homens dizem, imaginam, ou representam, e tampouco dos homens pensados, imaginados e representados para, a partir daí, chegar aos homens de carne e osso; parte-se dos homens realmente ativos e, a partir de seu processo de vida real, expõe-se também o desenvolvimento dos reflexos ideológicos e dos ecos desse processo de vida. Material, empiricamente constatável e ligado a pressupostos materiais. A moral, a religião, a metafísica e qualquer outra ideologia, assim como as formas de consciência que a elas correspondem, perdem toda aparência de autonomia. Não têm história, nem desenvolvimento; mas os homens, ao desenvolverem sua produção material e seu intercâmbio material, transformam também, com esta sua realidade, seu pensar e os produtos de seu pensar. Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência. Na primeira maneira de considerar as coisas, parte-se da consciência como do próprio indivíduo vivo; na segunda, que é a que corresponde à vida real, parte-se dos próprios indivíduos reais e vivos, e se considera a consciência unicamente como sua consciência. (Marx e Engels 1989:37)

Pode-se afirmar que Marx e Engels procuraram aprofundar o conceito de ideologia no prefácio da obra Uma Contribuição à Crítica da Economia Política, de 1859. Ali analisam que a ideologia não é somente uma falsa visão da realidade (como proposto na Ideologia Alemã). Mais do que isso, a ideologia expressa o interesse da classe dominante e articula seus interesses. Neste sentido, a ideologia representa relações de classe, mas faz isso de forma ilusória, ou seja, apresenta o interesse de uma classe (dominante) como se fosse o de toda a sociedade:

Na consideração de tais transformações é necessário distinguir sempre entre a transformação material das condições econômicas de produção, que pode ser objeto de rigorosa verificação da ciência natural, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em resumo, as formas ideológicas pelas quais os homens tomam consciência desse conflito e o conduzem até o fim.( Marx e Engels 1996:78)

Neste sentido, não se deve analisar nem uma pessoa nem um período tal como ele se apresenta. Deve-se, antes de tudo, examinar as condições reais/ materiais de vida, a fim de identificar as contradições inerentes à sociedade.



Assim como não se julga o que um indivíduo é a partir de sua própria consciência; ao contrário, é preciso explicar essa consciência a partir das contradições da vida material, a partir do conflito existente entre as forças produtivas sociais e as relações de produção.(Marx e Engels 1996:80).

Crítica ao conceito de ideologia nas obras citadas

A maior crítica que se pode fazer ao conceito de ideologia apresentado nas duas obras referidas de Marx e Engels é que não são somente as condições materiais de vida que definem o conjunto de idéias presentes nos homens mas também os seus desejos, suas fantasias, seus recalques.

Portanto, a análise das condições materiais de vida, embora sejam elementos fundamentais no entendimento da vida social, no que tange ao plano individual, principalmente a subjetividade, é incapaz de dar conta da interpretação do mundo dos sujeitos, pois esta está longe de ser determinada somente pelas condições materiais de vida.

A forma como cada pessoa sente o universo que a cerca é um campo aberto de possibilidades. Ninguém, mesmo aqueles que passam pelas mesmas experiências, sente da mesma forma os reflexos do que viveu. Primo Levi (1990), referindo-se à obra do psicanalista judeu Bruno Bettenheim, que, como ele, viveu a experiência do campo de concentração, conta que Bruno ficou surpreso com duas pacientes que lhe relatavam a experiência do campo de concentração. Eram duas mães que viveram no campo de concentração e que conseguiram sair de lá vivas e com seus filhos. Uma, ao relatar a experiência do campo, respirou aliviada e lhe disse: “que bom que eu saí, agora posso cuidar de meus filhos”. A outra, ao relatar a mesma experiência, desabafou: “Eu e meus filhos precisávamos ter passado por isso?”


Conclusão: a relação entre o conceito de ideologia e o de memória.

É precisamente este o cuidado que se deve tomar ao trabalhar o conceito de ideologia. Embora esse conceito pareça estar um pouco em desuso, não se pode negligenciar a sua dimensão atual, pois nunca estivemos tão aprisionados pelo poder ideológico, uma vez que, em primeiro lugar, é inegável a existência de um discurso dominante, trazido pelos produtos da mídia, que tendem a universalizar os padrões de gosto, estética, comportamento, etc; em segundo lugar, a dominação ideológica tomou novos contornos muito mais profundos e invisíveis; e, finalmente, é exatamente quando questionamos a existência do poder ideológico que se torna cada vez mais atuante.

No entanto, embora seja fundamental retomar a discussão sobre este assunto, é também preciso identificar os limites desse conceito. No que se refere ao conceito de memória e a sua utilização, há de se levar em conta o aspecto tanto coletivo quanto individual desse conceito e a aplicabilidade do termo como instrumento de propaganda não só do Estado mas também dos grupos em disputas de identidade e do poder simbólico (Bourdieu:1997). Para isso, há de se tomar cuidado e ter sensibilidade para se pensar até que ponto aquela memória estudada (uma vez que a memória tem sempre de ser pensada no plural, pois não existe uma definição única e imutável de memória) é uma representação social das condições objetivas de vida e até que ponto ela corresponde às condições específicas do sujeito.

Embora exista caminho seguro na direção do conhecimento, sabe-se também que nem por isso todos os caminhos são válidos. Existe, pois, um limite imposto pela lógica e pela sensibilidade, que deve impulsionar o pesquisador. Talvez seja essa a maior lição que o conhecimento possa proporcionar.



BIBLIOGRAFIA

EAGLETON, Terry. Ideologia. Trad. Luís Carlos Borges e Silvana Vieira. São Paulo: Unesp, 1997.

LEVI, Primo. Os Afogados e os Sobreviventes. Trad. Luiz Sérgio Henriques. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

MANNHEIM, Karl. Ideologia e Utopia. Trad. Sergio Magalhães Santeiro. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. Trad. José Carlos Bruni e Marco Aurélio Nogueira. São Paulo: HUCITEC, 1989.

________________. Uma Contribuição Para a Crítica da Economia Política. Trad. Edgard Malagodi. São Paulo: Nova Cultural Ltda, 1996.




*Mestrando em Memória Social da UniRio; professor do curso de Ciências Econômicas.da Faculdade Moraes Junior .

1 Para um histórico mais detalhado ver Karl Mannheim (1986: 85-124)


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