Aluna: Simone Mazzilli da Rosa



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Pós – Graduação de Letras / Ritter dos Reis

Aluna: Simone Mazzilli da Rosa

Análise das relações intertextuais das obras : ¨Mensagem¨, de Fernando Pessoa e ¨Lusíadas¨ de Camões.
Mensagem
¨Pae, foste cavalleiro.

Hoje a vigília é nossa,

Dá-nos o exemplo inteiro

E a tua inteira força!


Dá, contra a honra em que, errada,

Novos infiéis vençam,

A benção como espada,

A espada como benção!

(quinto/ D. Afonso Henriques)

Lusíadas
Um Rei, por nome Afonso,foi na Espanha,

Que fez os Sarracenos tanta guerra,

Que, por armas sanguinas, força e manha,

A muitos fez perder a vida e a terra.

Voando deste Rei a fama estranha

Do Herculano Calpe à Cáspia Serra,

Muitos, pêra na guerra esclarecer-se,

Vinham a ele e à morte oferecer-se.
(canto terceiro/ estrofe vinte e três)
Os Lusíadas são um canto de louvor à glória do povo português, verdadeiro protagonista do poema, como sugere o próprio título, que significa ¨Os Lusitanos¨, isto é, ¨Os Portugueses¨. Os Lusíadas apresentam-nos inúmeros heróis individuais, que no conjunto, constituem um herói coletivo. Devido à visão aristocrática que Camões tinha da história, por povo heróico deve-se entender os cavaleiros, os fidalgos, os nobres e os reis.

Quando Camões escreveu sua obra, Portugal estava no auge de seu império, conquistado na aventura heróica de sua gente, pioneira no desbravamento do mar desconhecido. Os Lusíadas narram o momento máximo dessa aventura, a viagem, que Vasco da Gama descobre no caminho marítimo para a Índia, em 1498, marco da expansão renascentista do mundo Ocidental. Por isso, o interesse do poema não é exclusivamente nacionalista. Sem dúvida, o tom patriótico que exalta a superioridade lusitana é muito forte, mas os portugueses representam a cultura ocidental renascentista, o que dá ao poema um valor universal.

No canto terceiro, estrofe vinte e três, Camões retoma a apresentação de D. Afonso Henriques e de suas façanhas, que ¨...com arma, sangue e guerra a muitos fez perder vida e terra. E para guerra esclarecer-se vinham a ele à morte oferecer-se .¨ Assim, acontece um louvor ao heroísmo e a sinceridade.

Camões, em 1567 no período do classicismo, retoma a história portuguesa dos Reis, tendo como foco central à humanidade, a glória de ser homem e da celebração da raça.

Em Mensagem, Fernando Pessoa 1934, no período modernista, apropria-se do mesmo personagem, D. Afonso Henriques. Porém, fala de um cavaleiro que é cuidado por outros cavaleiros. Pede-se o exemplo inteiro, de toda sua capacidade. E caso na hora errada, quando os inimigos vencerem, que tenham a benção como espada e a espada como benção. Pessoa recupera a história portuguesa em relação ao Brasil, narrando os fatos que foram realizados.Há uma necessidade do sentimento de heroísmo.

Fernando Pessoa é colocado pelos portugueses ao lado de Camões, como grande poeta da língua, no plano internacional.



Um lado estranho da vida de Fernando Pessoa refere-se a sua atividade como astrólogo e cultor do ocultismo¨. Com ensaios sobre a ¨nova poesia portuguesa¨, revela seu pendor profético; prenuncia a aparição, num Portugal gloriosamente renovado, de um ¨Super Camões¨ que contraria a época de forma a deixar em segundo plano Camões e as glórias que seu poema celebra. Em 1934, no ano anterior de sua morte, publicou Mensagem, composto de poemas nos quais celebra, ironicamente, um ¨Super Portugal¨, não o país histórico, mas o sonhado pelos grandes vultos que são heróis do livro. Talvez o ¨Supra Camões¨profetizado a sério pelo jovem Pessoa seja, na produção do poeta maduro, o irônico cantor de Mensagem, o poema de Portugal que não foi. E , talvez, a ironia que aí se encontra marque toda a relação de Pessoa com o ocultismo e com o fingimento de que sua vida foi tão fértil.


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