Amem: a totalidade do mistério num fragmento



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AMEM: A TOTALIDADE DO MISTÉRIO NUM FRAGMENTO

(BOFF, Leonardo. A Trindade e a Sociedade, 4ª ed. Petrópolis: Vozes, 1996. Pp. 279-284)

Ao término de nossa caminhada de fé e de reflexão só nos cabe dizer biblicamente, Amém. Amém é uma expressão hebraica de assentimento (cf. Dt 27,l5s; l Cor 14,16). Ela é uma derivação de amin que significa crer, acolher e entregar-se a Deus e a seu desígnio. Amém é a resposta humana ao Deus trino que se revela: Sim! Que bom que assim seja! Vem, Trindade Santíssima, vem! Ela é articulada na atmosfera da doxologia e da reverência diante do Mistério inefável. Antes que o Amém seja rezado e que face à Trindade augusta nos calemos respeitosamente, tentemos ainda dar espaço à razão, para sumariarmos, em poucas proposições, o essencial da doutrina trinitária que temos desenvolvido neste escrito.

1. Para a fé cristã sob Deus devemos entender o Pai, o Filho e o Espírito Santo em comunhão entre si, de sorte que são um Deus uno e único.

2. Com referência à Trindade a doxologia precede à teologia. Primeiro professamos na oração e no louvor a fé no Pai, no Filho e no Espírito Santo (doxologia). Depois, refletimos como estes divinos Três são um só Deus uno pela comunhão pericorética entre si (teologia)

3. Na reflexão teológica. a Trindade econômica precede a Trindade imanente. Por Trindade econômica entendemos a manifestação (no caso do Filho e do Espírito Santo, a autocomunicação) na história humana dos divinos Três, seja conjuntamente, seja cada um individualmente, em vista da nossa salvação. Por Trindade imanente entendemos o Pai, o Filho e o Espírito Santo em sua vida íntima e eterna em si. A partir da Trindade econômica vislumbramos algo da Trindade imanente. Somente com referência à encarnação do Filho e da pneumatização do Espírito Santo podemos dizer que a Trindade econômica é a Trindade imanente e vice-versa. Fora destes casos histórico-salvíficos a Trindade imanente é mistério apofático.

3.1. A Trindade vem revelada no caminho de Jesus de Nazaré e nas manifestações do Espírito Santo assim como foram testemunhados e refletidos pelas comunidades dos discípulos no Novo Testamento. As expressões ternárias do Antigo Testamento só são trinitariamente significativas a partir de uma leitura cristã à luz da revelação do Novo Testamento.

3.2. Pai, Filho e Espírito Santo aparecem no Novo Testamento sempre mutuamente relacionados e reciprocamente implicados. O Pai envia o Filho ao mundo, o Filho se sente uma só coisa com o Pai. O Espírito Santo é também enviado ao mundo pelo Pai, a pedido do Filho. O Espírito toma o que é do Filho e no-lo dá a conhecer. Ele nos ensina a clamar Abba-Pai.

3.3. As fórmulas ternárias do Novo Testamento especialmente a de Mt 28,18 revelam a presença de um pensamento que sempre associa os divinos Três na obra da salvação. Tais fórmulas ajudarão posteriormente na elaboração da doutrina trinitária.

4. O problema central da doutrina trinitária é este: como iluminar o fato de que os divinos Três são um só Deus? A fé diz: Pai, Filho e Espírito Santo são realmente três distintos. Mas estão sempre relacionados. Eles são um só Deus. Como equacionar trindade na unidade e unidade na trindade?

5. Há três respostas à questão que são inaceitáveis para a fé cristã porque ou não preservam a trindade, ou porque não resguardam a unidade ou porque ferem a igualdade dos divinos Três.

5.1 O triteísmo: afirma-se que haveria três deuses, separados e distintos, cada qual eterno e infinito. Esta interpretação, além de conter graves erros filosóficos, conserva a trindade, mas destrói a unidade.

5.2. O modalismo: Pai, Filho e Espírito Santo seriam três pseudônimos do mesmo e único Deus ou três modos de apresentação (três máscaras) da mesma substância divina. Deus seria três só para nós, não nele mesmo. Esta interpretação (sabelianismo) salvaguarda a unidade, mas abandona a trindade.

5.3 O subordinacionismo: Em sentido estrito haveria um só Deus, o Pai. O Filho e o Espírito Santo receberiam do Pai a substância divina de forma subordinada de sorte que não seriam consubstanciais ou então seriam criaturas adotadas (adopcianismo) para participarem de sua vida. Esta interpretação (arianismo) fere a igualdade dos divinos Três, pois nega a plena divindade do Filho e do Espírito Santo.

6. A resposta cristã ortodoxa vem expressa com categorias da cultura ambiente de procedência filosófica e reza: Deus é uma natureza em três Pessoas ou Deus é uma substância em três hipóstases. Os conceitos natureza e substância (ou essência) respondem pela unidade na Trindade. Os conceitos de pessoa e hipóstase garantem a Trindade na unidade.

7. Há três correntes clássicas que tentam aprofundar esta expressão de fé, elaborando a doutrina trinitária: a grega, a latina e a moderna.

7.1. Corrente grega: parte do Pai, tido como fonte e princípio de toda a divindade. Do Pai há duas saídas: o Filho pela geração e o Espírito Santo pela processão. O Pai comunica toda a sua substância ao Filho e ao Espírito, por isso ambos são consubstanciais com o Pai e igualmente Deus. O Pai constitui também a Pessoa do Filho e do Espírito Santo num processo eterno. Esta corrente corre o risco de ser entendida como subordinacionismo.

7.2 Corrente latina: parte da natureza divina, igual nas três Pessoas. Esta natureza divina é espiritual: por isso possui um dinamismo interno. O Espírito absoluto é o Pai. A Inteligência é o Filho e a Vontade o Espírito Santo. Os Três se apropriam de modo distinto da mesma natureza: o Pai sem princípio, o Filho por geração do Pai e o Espírito Santo espirado pelo Pai e pelo Filho. Os Três estão na mesma natureza, são consubstanciais e, por isso, são um só Deus. Esta corrente corre o risco de ser interpretada como modalismo.

7.3. Corrente moderna: parte da Trindade de Pessoas, Pai, Pilho e Espírito Santo. Mas os três vivem em eterna pericórese, sendo um no outro, pelo outro, com o outro e para o outro. A unidade trinitária significa a união das três Pessoas em virtude da pericórese e da comunhão eterna. Esta união, porque é eterna e infinita, permite falar de um só Deus uno. Esta interpretação corre o risco de ser entendida como triteísmo. Nós optamos por esta corrente, por partir, de começo, do dado da fé — a existência do Pai, do Filho e do Espírito Santo como distintos e em comunhão — e por permitir melhor entender o universo e a sociedade humana como um processo de comunicação, de comunhão e de união pela total interpenetração de uns com os outros (pericórese). Esta interpretação reforça a luta dos oprimidos que querem se libertar para que haja mais participação e comunhão.

8. A linguagem trinitária é eminentemente figurativa e aproximativa, tanto mais quanto o mistério da SS. Trindade é o mais radical e absoluto da fé cristã. As expressões “causa”, com referência ao Pai, “geração” com relação ao Filho e “espiração’ concernindo o Espírito Santo ou ainda “processões”, “missões”, “natureza” e “pessoas” são analógicas ou descritivas e não visam ser explicações causais, num sentido filosófico. O sentido secreto destes conceitos reside em mostrar, por um lado, a diversidade e, por outro, a comunhão que existe na realidade divina. Nós usamos a terminologia que a tradição consagrou e ainda aquela bíblica, por ser menos ambígua, empregada também por alguns teólogos modernos: revelação, reconhecimento, comunhão.

9. A linguagem conceptual da razão devota não é o único caminho de acesso ao mistério da Trindade. A Igreja desenvolveu também a linguagem simbólica do imaginário. Por ela se enfatiza a significação que a Trindade possui para a existência humana, particularmente, em sua ânsia de totalidade. Esta totalidade é o mistério trinitário. Ela é melhor expressa por símbolos que eclodem das profundezas do inconsciente pessoal e coletivo ou do fundo religioso comum da humanidade. A linguagem simbólica não dispensa a linguagem conceptual, mas é fundamental na criação de atitudes religiosas.

10. A humanidade, como masculino e feminino, foi criada à imagem e semelhança do Deus tri-uno. O masculino e o feminino encontram sua última razão de ser no mistério da comunhão trinitária. Embora a Trindade seja transexual, podemos falar em forma masculina e feminina das divinas pessoas. Assim podemos dizer Deus-Pai maternal e Deus-Mãe paternal.

11. A questão do Filioque (o Espírito Santo é espirado pelo Pai e pelo Filho ou através do Filho) está ligada à sensibilidade teológica própria da Igreja do Oriente e respectivamente da Igreja do Ocidente, bem como a um certo tipo de terminologia assumida (o Pai como principio de toda a divindade (orientais) e o Filho como princípio principiado (ocidentais). - Numa outra pressuposição teológica que parte da pericórese das divinas Pessoas, não há só o Filio que, mas também o Spiritu que e o Patreque, porque tudo na Trindade é ternário.

12. Em virtude da pericórese, tudo na Trindade é trinitário, participado por cada uma das Pessoas divinas. Isso não impede que haja ações próprias, de cada uma das Pessoas, pelas quais aparece a propriedade da Pessoa singular.

12.1. A ação própria do Pai é a criação. Ao se revelar ao Filho no Espírito, o Pai projeta todos os criáveis, expressão de si, do Filho e do Espírito Santo. Uma vez criados, todos os seres expressam o mistério do Pai, possuem um caráter filial (porque eles provêm do Pai) , fraternal-sororal (porque são criados no Filho) e “espiritual” (quer dizer cheios de sentido, de dinamismo, porque foram criados na força do Espírito Santo).

12.2. Ação própria do Filho é a encarnação em Jesus de Nazaré pela qual diviniza toda a criação e a redime do pecado. Por Ele o masculino participa da divindade.

12.3. A ação própria do Espírito Santo é a Pneumatização pela qual a vida é inserida no mistério da vida trinitária e é redimida de toda ameaça de morte. Pelo Espírito Santo o feminino é introduzido no mistério divino.

13. Da pericórese-comunhão das três divinas Pessoas se derivam impulsos de libertação para cada pessoa humana, para a sociedade, para a Igreja e para os pobres, num duplo sentido, crítico e construtivo. A pessoa humana é convidada a superar todos os mecanismos de egoísmo e a viver sua Vocação de comunhão. A sociedade ofende a Trindade ao se organizar sobre a desigualdade e a honra quanto mais propiciar participação e comunhão de todos, gerando assim justiça e igualdade entre todos. A Igreja é tanto mais sacramento da comunhão trinitária quanto mais supera as desigualdades entre os cristãos e os vários serviços e quanto mais entende e vive a unidade como coexistência da diversidade. Os pobres rejeitam seu empobrecimento como pecado contra a comunhão trinitária e vêem no inter-relacionamento dos divinosd iferentes o modelo de uma sociedade humana que se assenta sobre a colaboração de todos, em pé de igualdade, a partir das diferenças de cada um, gerando uma formação social fraterna, aberta, justa e igualitária.

14. O universo existe para manifestar a exuberância da comunhão dos divinos Três. O sentido último de todo criado é permitir a autocomunicação das divinas Pessoas. Assim o Universo, na plenitude escatológica será inserido, no modo próprio de cada criatura, culminando no varão e na mulher à semelhança de Jesus de Nazaré e de Maria, na própria comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Então a Trindade será tudo em todas as coisas.

15. A SS. Trindade constitui um mistério sacramental. Enquanto é sacramental poderá ser entendido, conforme a Trindade mesma o comunicar e a inteligência cordial o assimilar. Enquanto é mistério permanecerá sempre como O Desconhecido em todo o conhecimento, pois o mistério é o próprio Pai, o próprio Filho e o próprio Espírito Santo. E o mistério durará eternamente.





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