Amigos de Ribeiro Sanches



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Amigos de Ribeiro Sanches
No decurso de investigações a que procedemos sobre Ribeiro Sanches, destinadas a um trabalho de que estamos publicando um esboço nos Archivos de historia da medicina portugueza, deparamos com alguns compatriotas que estiveram em relações mais ou menos seguidas com o ilustre sabio. Todos tiveram alguma influencia sobre a sua vida, como elle a exerceu sobre elles. Assim se explica o interesse que para nós tiveram, apesar de quasi desconhecidos na maior parte. São elles Manuel Nunes Sanches, Sachetti Barbosa, o Dr. Alvares, Soares de Barros, Gonçalo Xavier de Alcaçova, Gaspar Rodrigues de Paiva, João Jacinto de Magalhães e Manuel Joaquim Henriques de Paiva.

Tres destes individuos são parentes de Sanches: o primeiro é seu irmão. Soares de Barros e João Jacinto de Magalhães são dois vultos de destaque no mundo scientifico e qualquer delles tem importancia que justifica o seu estudo, independentemente das suas relações com Ribeiro Sanches. Sachetti Barbosa foi o organisador dos Estatutos da Universidade, no que diz respeito á medicina.

Todavia importa accentuar que o ponto de vista sob o qual estudamos estes medicos, physicos, economistas foi o das suas ligações com o eminente medico. Procuramos, todavia, colher a seu respeito dados bastantes para que não desappareçam completamente na luz projectada pela grande figura de seu compatriota.

O motivo principal por que nos aproveitamos da generosa hospitalidade que nos concede o Archivo Historico não é outro senão o de concorrer para que a figura de Sanches venha a conhecer-se melhor. A facilidade relativa com que a respeito de alguns dos seus amigos e delle proprio colhemos informações ignoradas leva-nos a acreditar que outras se possam encontrar de tanta ou maior valia que não sabemos todavia onde buscar-se, aliás tel-o-hiamos feito com a dedicação com que juntamos as que servem de esteio ao que vae lêr-se. Oxalá outro as encontrem para que se vá entrando na justa apreciação da nossa modesta historia scientifica.

Procuraremos citar a respeito de cada uma das figuras que vamos pôr em evidencia os nomes dos que nos antecederam no seu estudo, bem como os dos que nos auxiliaram nas pesquisas a que nos démos. Um nome apparecerá em todos os artigos, o de um estudioso a quem desejamos protestar bem alto e bem claro o nosso reconhecimento, o Sr. Pedro A. de Azevedo, sem o concurso do qual teriamos certamente de desistir do empenho de escrever sobre Sanches um trabalho que fosse mais alguma coisa do que uma copia descolorida.

Manuel Nunes Sanches

Quem tiver lido as biographias de Antonio Ribeiro Sanches, recorda-se de um irmão delle que Andry e Vicq de Azyr designam por Marcello Sanches.

Conhecidos hoje todos os irmãos do illustre medico, não se encontra nenhum com este nome. Mais notavel ainda é que proprio pae, Simão Nunes, ao ser interrogado na Inquisição em 1715, o não nomeie; os unicos filhos varões que elle indica são Antonio e Diogo 1, e todavia o que nos occupa já havia nascido.

Em 7 de setembro de 1729 compareceu perante o mesmo tribunal Diogo Nunes, segundo primo de Ribeiro Sanches, e a respeito dos filhos de Simão Nunes disse que eram seis ou sete, indicando entre elles um, Manuel, solteiro, que aprendia a boticario na cidade de Londres em companhia do dito seu irmão (Antonio)2.

A circumstancia de viverem juntos em Londres, para quem sabia a intimidade de relações que entre os dois irmãos houve sempre, fez-nos suspeitar de que este Manuel fosse o Marcello dos biographos. Guardamó-nos, todavia, de o manifestar, sabendo por experiencia propria quanto são para recear estas conjeturas fundadas em escassas informações. Aqui, todavia, não nos enganavamos. O exame dos manuscriptos de Ribeiro Sanches que existem na Bibliotheca da Escola de medicina de Paris permitiu-nos identificar Marcello com Manuel.

Manuel Nunes Sanches, ou Manuel Marçal Sanches, que dum e outro nome usava, nasceu em Penamacor em 9 de janeiro de 1713 3. Era mais novo quatorze annos do que o irmão. São-nos desconhecidas noticias relativas ao logar onde decorreram os annos da sua infancia e adolescencia, provavelmente passados em Penamacor e Guarda, junto de parentes, como o Antonio. Quando este se julgou obrigado a abandonar a patria, em 1726, levou-o comsigo. Em Londres, segundo vimos, Manuel Sanches estudava pharmacia, vivendo em companhia do futuro medico da côrte da Russia; era isto referido a 1727. Não se demorou ahi muito tempo. No anno seguinte, Antonio Ribeiro Sanches, que se via desesperado porquanto cada vez mais se ia distanciando do judaismo que abraçara com fervor, foi para França e o irmão acompanhou-o. Quando passou a Italia, desejoso de obter uma collocação, deixou-o em Bordeus com uns descendentes do christão novo Simão Peres Solis que havia sido queimado em Lisboa por causa do roubo sacrilego do sacrario da Egreja de Santa Engracia. Antonio encontrou-se em Leorne com um diplomata, João de Almeida, que desejou protegel-o, proporcionando-lhe os meios de passar a Roma, onde o seu valimento lhe aproveitaria, mas não acceitou a offerta precisamente por causa de Manuel que a familia com quem vivia não deixaria partir ao seu encontro. Por esse motivo tornou a Bordeus, onde os dois irmãos se viram a braços com grandes dificuldades. Valeu-lhes essa familia, resolvendo-se que Antonio acompanhasse a Leyde um rapaz que a ella pertencia e a quem Sanches leccionara em Londres e se queria formar em medicina, voltando Manuel para Londres onde ficaria amparado pelos parentes que ahi tinha. Partiram os dois para a capital da Gran-Bretanha onde não couseguiram o que desejavam e regressaram a Bordeus, seguindo Antonio para Leyde e indo Manuel para Paris aprender cirurgia.

Nos annos de 1729 a 1735 ahi esteve. Em carta ao Dr. Sampaio Valladares de S. Petersburgo a 15 de julho de 1735, duas vezes se refere Antonio Ribeiro Sanches especialmente a seu irmão4. Como a carta é muito extensa e levou quasi um mez a escrever, deve crer-se que a ultima referencia é quasi contemporanea da data. Da primeira vez, informa Sanches o seu amigo da situação do Manuel: «Meu irmão tanto que chegou a Paris começou a servir um cirurgião e com alguma ajuda para vestir que meu discipulo lhe mandava tinha bastante para viver; começou a viver como christão e vive a Deus graças e o sustento até agora e o farei emquanto puder.» Da ultima vez dava conta dos progressos do irmão e preoccupava-se com os desejos que elle manifestava de passar a Portugal: «Hoje tive carta de meu irmão de Paris, o qual me parece que aproveita o seu tempo, porque sabe hoje anatomia, botanica e cirurgia pratica e experimentaes, conforme vejo nas cartas que me escreve, mas elle me ruina e o dou por bem empregado, me diz que se quer para Portugal, se eu lho consentir; mas elle não sabe a que estará lá sujeito e eu tremo de dar-lhe permissão: não sei o que hei-de fazer, porque este rapaz não sabe nada da Inquisição inteiramente e cuida que Portugal é como França que com se confessar e cumprir a penitencia, que lhe impõe o seu confessor que fica satisfazendo ao mundo e que do coração se arrependa e peça perdão a Deus. Emfim ainda estará algum tempo em Paris e no entretanto Deus nos mostrará algum caminho.»

Dois annos depois, Manuel foi visitar o irmão a S. Petersburgo, coadjuvando-o na organização de um seu manuscripto em que extractou o que parecia interessante do que lia5.

Desta visita resultou a partida para Leyde, onde Manuel se doutorou defendendo these a 21 de julho de 1738. A dissertação intitula-se:
Specimen inaugurale

Medico-chirurgicum

De

Gangraina

Quod

Annuente Deo ter ot. Max.

Ex. Auctoritate Magnifici Rectoris,

D. Bernardi Siegfried Albini,

Medicinae Doctoris, anatomes et chirurgiae

In Academiae Lugduno-Batava

Professoris ordinarii,

Nec non

Amplissimi Senatus Academiae Consensu,

& Nobilissimae Facultatis Medicae Decreto,

Pro Gradu Doctoratus,

Summisque in Medicina Honoribus & Privilegiis

Rite ac legitimè consequendis,

Eruditorum examini submittit

Emmanuel Marcel Sanchez

Transcudanus

Ad diem 21 Julii MDCCXXXVIII

Hora loco que solitis.

Lugduni Batavorum

Apud Gerardum Potvliet; 6
No anno seguinte, Manuel Marçal Sanches estava em Napoles donde datava a 28 de dezembro um pequeno manuscripto sobre os erros de anatomia e physiologia que se encontravam em uma brochura intitulada Divisamento intorno lo accaducto a Matteo Piza .7

Serviu depois como cirurgião no regimento da rainha de Napoles durante vinte annos, estando já reformado em 1774 com a mesquinha pensão annual de 125 ducados, o que correspondia a 80$000 réis. 8 Neste anno pretendeu passar a Portugal, para servir em qualquer commissão medica, mas as suas diligencias não surtiram resultado. Em carta escripta a Andry, a 22 de novembro de 1783, publicada no Elogio historico de Sanches pronunciado por Vicq de Azyr, Manuel Sanches diz que esteve nos confins da Sicilia, mas não sabemos a que epocha da vida se refere, se ainda quando em serviço ou depois de sua reforma.

Antonio Ribeiro Sanches protegeu-o sempre como adeante se verá, e quando em 1751 pensou em naturalizar-se francez, o que não veiu a realizar, tinha em vista legar o pouco que possuia a este seu irmão, o que doutro modo seria impossivel, visto que os bens dos estrangeiros residentes em França revertiam para o soberano pelo direito de advena (droit d`aubaine).9

Dos seus manuscriptos vê-se que Antonio estava em relações epistolares constantes com o irmão e que este procedia a pesquizas bibliographicas que aquelle lhe encommendava. Assim, a 15 de setembro de 1770, enviava-lhe extractos de Petrus Pintor e de Cotogno10 e a 24 de julho de 1777 um trecho de Paulo Emilio Veronense11. Os primeiros destinavam-se com certeza á Dissertation sur l´origine de la maladie vénérienne.

Encontramos tambem entre os papeis de Antonio Ribeiro Sanches uma memoria de Manuel – Des repercussifs, destinada a um concurso aberto pela Academia de cirurgia de Paris.

Obras impressas, além da dissertação inaugural cujo titulo publicamos, consta que deu á luz uma traducção em italiano das Considerações sobre os terramotos que terminam o Tratado da conservação da saude dos povos de seu illustre irmão. Diz Andry que appareceu em 1783.

Antonio Ribeiro Sanches, desde 1770 a 1774, entabolou relações com o nosso governo para a venda da sua bibliotheca, mas nunca se chegou a effectuar o respectivo contracto. Nas ultimas condições que propoz, lembrando-se do que se succedera com Barbosa Machado, pedia que a pensão vitalicia que reclamava em troco dos livros fosse transferida para o irmão depois da sua morte.

O direito de advena a que acima fazemos referencia só foi extincto para os portuguezes por um tratado assignado em 1779 por D. Vicente de Sousa Coutinho. Nessa occasião, em officio de 10 de maio a Ayres de Sá e Mello, dizia o nosso embaixador:


«O Dr. Sanches me escreveu a carta inclusa que tenho a honra de enviar a V. Ex.ª para que veja quanto prazer lhe causou a proclamação do sobredito tratado.»12
Nesta carta de Sanches, em que a gratidão encontra palavras sentidas para exprimir-se, o que se accentua é sobretudo o desejo de legar ao irmão essa valiosa bibliotheca que não conseguira vender ao nosso governo:
«Não tenho já expressões para poder agradecer a V. Excellencia tantos e tão assignalados favores, com que foi servido amparar-me e proteger-me e principalmente nesta occasião, porque os effeitos do seu previdente animo abrangem ainda a um unico irmão que tenho que poderá por minha morte herdar os meus livros.»13

Ao abrir-se o testamento de Sanches viu-se que elle se não esquecera de prover ás dificuldades de vida de Manuel Sanches que Vicq de Azyr diz que foram constantes. Uma parte das rendas vitalicias de que gosava passaram para elle. Os seus livros tambem lh´os legava, á parte os manuscriptos de sua auctoria de que dispuzera em vida a favor do seu amigo Andry. Este pediu a Manuel Sanches algumas informações sobre a vida intima de Antonio, e o cirurgião militar respondeu-lhe a 22 de novembro de 1783 em carta de que temos noticia de um extracto publicado por Vicq d`Azyr e que merece transcrever-se por retratar o caracter bondosissimo de Sanches: «Ha muito tempo que a desventura me tinha separado de meu irmão. Nas suas cartas fallava-me constantemente da sua inquietação pela minha sorte e mandou-me sempre os mais abundantes recursos. A sua generosidade perseguiu-me até ao fundo da Sicilia e encontrou muitas vezes meio de me fazer chegar os seus beneficios a logares donde eu não sabia por que meio lhe havia de mandar os testemunhos do meu reconhecimento.»

Pouco tempo gosou o cirurgião do exercito napolitano dos recursos que seu irmão lhe deixou. Uma nota escripta por Andry nas guardas do 7.º volume dos manuscriptos de Sanches existentes na Bibliotheca da Escola de medicina de Paris, diz-nos que elle falleceu em 1785.


João Mendes Sachetti Barbosa


Um dos compatriotas com quem Ribeiro Sanches se correspondeu por mais tempo foi o Dr. João Mendes Sachetti Barbosa, hoje quasi desconhecido.

Sachetti Barbosa, cavalleiro fidalgo da casa real, medico do numero e da camara do infante D. Manuel, familiar do Santo Officio, nasceu em Estremoz a 29 de março de 1714, sendo filho de João Mendes Sachetti, natural de Portalegre, que era alveneu, mas serviu com distinção na guerra da sucessão de Hespanha, e de Catharina Rodrigues 14. Os seus ascendentes eram portanto d'origem humilde, o que lhe creou difficuldades para a obtenção do Habito de Cristo com que mais tarde foi agraciado.

Depois de ter estudado philosophia na universidade de Evora 15 cursou medicina em Coimbra, onde alcançou a reputação de ser o primeiro estudante do seu tempo. Ahi teve por mestres os drs. João Pessoa da Fonseca e Antonio Mendes Barreto, de quem annos depois se lembrava com saudades 16. A contrastar com as excellencias destes professores, Sachetti Barbosa diz d'outro seu lente: «Quando eu era estudante na universidade, gastou um dos nossos mestres um anno inteiro em explicarnos que coisa era semi-terciana e de onde veiu aquelle nome. Assim se perde o precioso tempo !»17. Voltando para a terra da sua naturalidade em 1739, ahi começou a exercer a clinica sob a direcção do seu conterraneo, hoje esquecido, dr. Agostinho Mendes18. Assistiu durante algum tempo em Campo Maior como praticante e mais tarde como medico do Hospital Real daquela praça onde o encontramos em 1741, quando no anno anterior ainda vivia em Estremoz 19. Nesta mesma vila temos noticia de ter estado em 1743 20, mas em seguida estabeleceu residencia em Elvas, onde, a despeito dos seus meritos, não logrou adquirir uma situação desafogada 21.

Encontrava-se em Lisboa «obrigado de algumas dependencias» por occasião do terramoto 22, mas ainda regresou a Elvas onde escreveu uma carta encomiastica do Praticante do hospital convencido de Manuel Gomes de Lima 23 e redigiu o seu livro Considerações medicas. Quando, porém, o publicou, em 1758, já ao seu nome associava os titulos que inscrevemos no principio desta noticia. Mão valedora se lhe estendera, a de Diogo de Mendonça Corte Real, a pedido de quem escreveu a obra acima citada 24. Mais tarde foi agraciado com o grau de cavalleiro da Ordem de Cristo 25.

Se até á vinda para a côrte a vida lhe não correra bonançosa, o seu nome já adquirira alguma notoriedade fóra do nosso paiz. Antes de 1747 era socio da Academia medica matritense e em uma traducção do Ensaio sobre a electricidade do P.e Nollet, por D. Joseph Vasquez y Morales fazem-se-Ihe referencias muito elogiosas26. No prefacio deste livro lê-se que Sachetti Barbosa estava em relações seguidas com os centros scientificos, porquanto de Londres lhe haviam sido communicadas algumas curas de paralysias por meio da electricidade que o levaram a tentar com proveito o mesmo meio therapeutico em um porteiro da camara de Elvas acommetido por uma hemiplegia.

Em 1749, já tinha entre nós consideração bastante para que Manuel Gomes de Lima o escolhesse para Pro-Presidente do circulo eborense, um daquelles em que estava dividida a sua Academia Medica Portopolitana 27. Castro Sarmento dedicava-lhe em 1753 o seu Appendice ao que se acha escrito na Materia medica do Dr. J. de Castro Sarmento sobre a natureza, contentos, effeitos, e uso pratico, em fórma de bebida e banhos das aguas das Caldas da Rainha (Londres, 1753).

Em 1755 era socio da Real Sociedade de Londres, á qual communicava algumas observações sobre manchas da lua, realisadas por meio do tubo optico, que eram apresentadas pelo seu amigo Castro Sarmento 28.

No mesmo anno, este dava conhecimento áquella sociedade de duas cartas de Sachetti Barbosa relativas ao terramoto de que escapou milagrosarnente, retirando-se para o campo 29.

Em 1758 publicava Sachetti Barbosa as suas Considerações medicas sobre o methodo de conhecer, curar e preservar as epidemias, que analysamos na nossa Historia da medicina portuguêsa 30 e que é inquestionavelmente um livro de valor.

Por outro lado, Duarte Rebello de Saldanha contestava na sua Illustracão medica (1761) muitas das asserções do medico alemtejano.

Tudo isto chamaria a atenção sobre elle e por isso o vemos nomeado physico mór do exercito para servir na campanha de 1762. Feita a paz, teve baixa de posto por aviso de D. Luiz da Cunha de 21 d'abril de 1763 31.

No primeiro numero do Diario Universal de medicina, cirurgia, pharmacia, etc., vem uma Oração academica inaugural sobre os futuros progressos da Academia Portopolitana.

Durante algum tempo nenhuma noticia temos da sua actividade scientifica, mas Fr. Manuel do Cenaculo, presidente da Real Mesa Censoria, deixou um diario das sessões da Junta de providencia litteraria que dá muita luz sobre os preliminares da reforma da Universidade.

A respeito da sessão de 19 de junho de 1771 diz o futuro arcebispo de Evora : «E a ... o Reitor da Universidade, Francisco de Lemos, se incumbiu coordenar e ajuntar o que pertence a Mathematica, Philosophia, Theologia e Medicina; mandando o marquez ao Dr. Gualter que lhe mandasse alguns apontamentos que lhe mandou e o mesmo Reitor se tem servido muito do Dr. Sachetti

Relativamente á sessão de 22 de junho de 1771, o douto prelado diz: «A este tempo já está na imprensa o que pertence á Medicina, Mathematica e Physica; e foi obra do medico Sachetti, conferída com Ciera, Franzini, Daly, professor de grego, que é bom mathematico e Monteiro, que foi jesuita, e já o tem preparado no conceito do Marquez, para ser despachado.»

O Dr. Antonio José Teixeira, transcrevendo esta ultima passagem escreveu a deante do nome de Sachetti estas palavras: (aliás Sanches: Antonio Nunes Ribeiro Sanches) 32. O Dr. Teixeira baseava-se numa carta de José Monteiro da Rocha que prova exactamente o contrario do que elle aventou 33.

Theophilo Braga, acceitou a violenta identificação e emittiu a opinião de que Sachetti era um pseudonimo de Ribeiro Sanches. Resalvando o muito respeito pelo infatigavel semeador de ideias e nosso illustre amigo, é insustentavel este modo de vêr.

Nada mais sabemos a respeito da vida de Sachetti Barbosa. Innocencio diz-nos que era já fallecido em 1780.

As relacões de Sanches com o medico estremocence já tinham começado em 1750. Sachetti, nas suas Considerações medicas, dá noticia de cartas que recebera do medico exilado e mostra sempre o maior respeito e consideração por elle:


«e meu amado e douto amigo o Dr. Antonio Ribeiro Sanches me affirmou na sua carta de 23 de novembro de 1750 que entrando elle nesta curiosa observação (dos glo- bulos do leite) com o perfeito microscopio de Mr. de Lieberkukn vira nadar os globu- los do leite no soro como grãos de mostarda, mas nunca vira tal divisão em 6 amarel- los.» 34
Uma nova carta recebeu delle datada de 28 de dezembro de 1755, dizendo do seu auctor que era um dos homens que mais amava. E' a seguinte:
«Eu fico acabando de compôr e já principiando a imprimir, por serviço da amada patria, o livro que já insinuei a v. m. sobre a conservação da saude dos povos. Com o motivo desse desgraçado terramoto lhe ajunto a historia dos mais notaveis e toco de passagem na causa delles. Eu deixo para v. m. a observação e historia deste e principalmente o escrever dos males de que estão ameaçados; aprende v. m. pela lição agora o que eu já aprendi pela experiencia, quer dizer, que a essas concussões da terra e do mar e a esta destruição e mortandade constumam succeder as epidemias e as febres podres. Escrever dellas será mais util ao paiz que um grande tomo de mathematicas, e v. m. pelo conhecimento que tem da arte e do paiz trabalhe por preservar Portugal, como Hippocrates tantas vezes preservou a Grecia e se não houver agora doenças, para que sirva, tanto que melhor.» 35
Ribeiro Sanches enviou a Sachetti o seu Tratado da conservação da saude dos povos que lhe chegou ás mãos quando o seu livro andava nas licenças, de maneira que apenas se lhe póde referir em uma nota. Quando, porém, se preparava para o reimprimir, segundo a nossa conjetura, acrescentava no exemplar da Escola Medico-Cirurgica de Lisboa:

«Depois de ter escrito esta obra me fez favor de hu exemplar da sua Conservação da saude dos povos o meu presado e douto amigo o Dr. Antonio Ribeiro Sanches. Ahi vi com muyto gosto que sem embargo da distancia e de nos não termos communicado a materia das nossas composìções em particular, tinhamos ambos concebido quasi as mesmas ideas; mas eu seguindo o meu estilo e o desejo de facilitar a commodidade e utilidade publica dos enfermos escrevi os meios dela com separação particular e ampliei como pude a sua noticia, como, por exemplo, no que pertence aos nossos ventiladores»36.


No Jornal de Sanches pódem ver-se algumas noticias das suas relações com, Sachetti Barbosa. Em 22 de outubro de 1768, mandava-lhe a Médecine d'armée de Monro, com uma carta para Soares de Barros. Enviava-lhe a 1 de fevereiro do anno seguinte quaesquer objectos destinados a João Pernelet. Com o mesmo destino lhe enviava a 12 de julho muitas folhas de papel escriptas em duas cartas.37 Como Varigny desejasse saber se o seu livro sobre o poder dos papas e as liberdades da egreja francesa estava traduzido em português, Sanches mandava-o perguntar a Sachetti, a 31 de julho. Nesta mesma data encomendava-lhe, de mando de J. Alvares, um arratel de raiz de João Lopes Pinheiro, para o que se avistaria com o celebre boticario, nosso amigo, Bartholomeu da Fonseca. Ainda escrevia em 5 de janeiro de 1770 outra carta a Sachetti, e em 14 de fevereiro mandava-lhe o Methodo para estudar a medicina. A 14 de novembro de 1771, enviava-lhe os Adversaria de Gaubius.

Existe um manuscripto de Sanches na Bibliotheca Nacional de Lisboa que foi escripto para um cirurgião da familia da sua governante, João Pernelet, que por vezes é mencionado pelo nome de Ivan no Journal do illustre medico e em uma carta de Soares de Barros publicada pelo nosso querido amigo Ricardo Jorge.38 A este cirurgião indicava-lhe como remuneração de serviços que delle recebera a composição de um unguento mercurial camphorado. E acrescentava: «Este unguento communiquei ao Dr. Sachetti Barbosa promettendo-lhe que o não communicaria a pessoa mais; elle o guarda em segredo.» Não queria que este se agastasse com esta revelação, motivo por que pedia ao seu correspondente que lhe não desse a entender que o conhecia nem o modo de o preparar.

Ora succede que existe um papel avulso em que Sachetti Barbosa dá conta do seu tratamento da siphilis por meio de uma tintura metallica differente da de Van Swieten e de uma pomada diversa da que em Paris preparava o Dr. Torres, que não sabemos quem fosse. Era provavelmente o unguento mercurial que Sanches lhe tinha communicado.39

Depois de 1771 o Journal de Sanches só volta a falar de Sachetti Barbosa a respeito dos Estatutos da Universidade e fal-o em termos desabridos que bem mostram a irritação de que estava possuido.40 Vê-se bem que a parte relativa á medicina lhe desagradava e attribuia a paternidade da reforma ao seu amigo, . . que ía deixar de o ser. Transcrevemos uma pequena parte que acabará de arruinar a impensada identificação do Dr. A. J. Teixeira:


«Pag. 79. Estes arguentes e defendentes é parvoisse do Dr. Sachetti nestes exercicios semanarios e por sortes de urna.

«Pag. 83 § 10: preparados, injectados, sellados, guardados, honra da Academia – parvoisse, snr. Doutor.

«Pag. 84 ibi § 12 – Parvoisse.

«Pag. 85 ibi § 150 – Injustiça, trama, sem serem pagos os enfermeiros, etc., etc.»



É de crer que esta critica fosse transmitida a Sachetti Barbosa. O que é certo é que Sanches nunca mais escreveu o seu nome. As relações entre os dois ficaram para sempre terminadas.

1 O interrogatorio de Simão Nunes na Inquisição de Lisboa acha-se publicado entre os documentos que acompanham a nossa memoria sobre Ribeiro Sanches em publicação nos Archivos de Historia da Medecina portuguêsa. Devemol-o á obsequiosa cedencia do nosso amigo sr. Pedro A. de Azevedo.

2 Este documento deve ser publicado na mesma memoria, pela epocha da apparição deste artigo. Devemol-o tambem ao sr. Pedro A. de Azevedo.

3 Devemos esta informação ao sr. P.е Carlos da Paixão Borrego que examinou na camara ecclesiastica da Guarda os livros de registo dos nascimentos da freguesia de S. Thiago de Penamacor com principio em 1708 e 1719, a pedido do nosso colega Dr. Lopo de Carvalho. Recebam um e outro os nossos agradecimentos por tão valioso serviço.

4 Foi desta carta que obtivemos as informações que se encontram no texto. A carta, verdadeiramente preciosa para a biographia de Antonio Ribeiro Sanches, encontra-se na Bibliotheca de Evora. Parece impossivel que por tanto tempo ninguem a tenha aproveitado.

5 Versurae physicae (morbosae), historiae naturalis, anatomie – ms. Da Bibliotheca da Escola de Medicina de Paris. Na parte que se intitula Vegetantia lê-se a seguinte nota: - Haec a Fratre Man. Marcel Sanches collecta fuere, dum Petropoli fuit anno 1737.

6 Nunca vimos esta dissertação cujo o conhecimento devemos ao sr. Prof. E. Leersum, de Leyde.

7 Ms. de Sanches na Bibliotheca da Escola de Medicina de Paris, vol. VIII.

8 Memorial de 22 de setembro de 1774 entre os mesmos manuscritos, vol. IV, pag. 180.

9 Officio de 27 de dezembro de 1751 de Gonçalo Manuel Galvão de Lacerda, nosso enviado em Paris, no Archivo do Ministerio dos negocios estrangeiros.

10 Ms. de Ribeiro Sanches na Bibliotheca da Escola de medicina de Paris, vol. IV, Mon Journal.

11 Id., Id.

12 O officio existe no Archivo do Ministerio dos negocios estrangeiros.

13 Esta carta existe no Archivo do ministerio dos negocios estrangeiros.

14 Ha algumas divergencias entre o que fica escripto e o que dissemos em nossa Historia da medicina em Portugal, baseados no testemunho de Barbosa Machado. As retificaçôes são baseadas no requerimento feito por Sachetti Barbosa para ser nomeado familiar do Santo Officio.

15 Elle mesmo diz na Oraçáo inaugural sobre os futuros progressos da Academia Portopolitana: A que principe havia de tocar o proteger a penetração da sabedoria natural, se não ao mesmo que eu vi na Universidade de Evora defender e penetrar os mysterios da sabedoria divina ? - (Diario universal de medicina. Lisboa, 1764, pag. 68).

16 Consideraçôes medicas, pag. 235.

17 O exemplar das Consideraçôes medicas da Escola Medico-Cirurgica de Lisboa tem algumas annotações manuscriptas que julgamos do proprio punho de Sachetti Barbosa e destinadas a uma reimpressão daquelle livro. O qué publicamos no texto é uma destas notas, a pag. xxxix.

18 Consideraçôes medicas, pag. 286 e 413.

19 Consideraçôes medicas, pag. 221, 286 e 398.

20 Considerações medicas; pag. 413.

21 Em um attestado do P.° João Martins Godinho, datado de Elvas 3 de maio de 1755, diz-se que elle tinha 6$ooo réis por mês de soldo real e pouça clinica. Era pae de muitos filhos e fazia-lhe falta o beneficio de um irmão conego de cuja casa se apartara.

22 Considerações medicas, pag. III.

23 O livro andava nas licenças de janeiro a abril de 1756.

24 Philosopl:ical Transactions XLIX, pag. 409.

25 Nota manuscripta do exemplar das Considerações medicas pertencente á Escola Medico-Cirurgica de Lisboa.

26 Ensayo sobre la electricidad de los cuerpos. Escrito en Idiorna francês por Mons. el Abate Nollet. Traducido en castellano por D. Jaséph Vasquez y Morales. Madrid. En la imprenta del Mercurio. Ano de MDCCXLVII.

27 Diario universal de medicina, cirurgia, pharmacia, etc. Lisboa 1764, pag. 23.

28 Lunae defectus Elbis à Doctore Joanne Mendezio Sachetti Barbosa, Philosophiae et Medicinae Professor, Regiae Societatis Londinensis, Regalis Elbensi Nosocomii Medico, observatus Die 27-28 Martii, Anno 1755 nas Philosophical Transactions XLlX pg. 265.

29 Copy of part of two letters, writen by John Mendes Sacchetti, M. D. F. R. S. to dr. de Castro F. R. S. dated from The Fields of Lisbon, on the 7th of November, and the 1st of December 1755 nas Philosophical Transactions, XLIX, pag. 409.

30 T. II, pag. 166.

31 Jornal de Coimbra de 1813, pag. 220.

32 Apontamentos para a biographia de D. Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho no Instituto, XXXVII, pag. 4.

33 Carta de José Monteiro da Rocha de 12 de agosto de 1800 no Instituto, XXXVI pag. 513.

34 Considerações medicas, pag. 333.

35 Op. cit. pag. 4 e 5.

36 Op. cit. pag. XXXIII.

37 Era um tratado de cirurgia que hoje existe na Bìbliotheca Nacional de Lisboa com o titulo de Peculio de varias receitas.

38 Ricardo Jorge - Ribeiro Sanches e Soares de Barros, Separata da Medicina Contemporanea. Lisboa, 1909.

39 Manifesto e diresões para o novo metodo de curar com a maior eficacia, suavidade e segurança o Contagio afrodeziaco, chamado vulgarmente Morbo Galico, ou seja legitimo e patente, ou espurio e degenerado em qualquer outra enfermidade, das muitas com que se costuma ocultar por meto de huma Tintura metallica e huma pomada mercurial, que prepara o doutor João Mendes Sachetti Barbosa, da Real Sociedade de Londres, e Academia de Medicina de Madrid, cavaleiro profeso na Ordem de Cristo, Medico do numero de Sua Magestade Fidelissima, da Camara do Serenissimo Senhor lnfante D. Manoel (sem data nem logar de impressão).

40 A nota é posterior a 22 de janeiro de 1773 e subordinada ao titulo de Estatutos da Universidade. Acha-se no vol. IV dos Ms. de Sanches da Bibliotheca da Escola de Medicina de Paris, fl. 148.

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