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PRECEITOS GERAIS DE HIGIENE E EXERCÍCIOS FÍSICOS:

UMA MATÉRIA DO ENSINO PRIMÁRIO



Ana Carrilho Romero Grunennvaldt –UFS *




Introdução

O resultado dessa nova expansão européia foi um avanço acelerado sobre as sociedades tradicionais, de economia agrícola, que se viram dragadas rapidamente pelos ritmos mais dinâmicos da industrialização européia, norte-americana e, em breve japonesa. Não basta, entretanto, as potências incorporar essas novas áreas ás suas possessões territoriais, era necessário transformar o modo de vida das sociedades tradicionais, de modo a instilar-lhes os hábitos e práticas de produção e consumo conformes ao novo padrão de economia de base científico-tecnológica. (Sevcenko, 1999, p.14)


Tratar dos processos de inclusão das sociedades ainda calcadas em modos de vida tradicionais e impregnar-lhes hábitos e práticas compatíveis com padrões de economia de base científica e tecnológica requer, certamente, destacada atenção a diversas esferas da base econômica e cultural. Neste trabalho privilegiaremos a segunda, no entanto, sem perder de vista que ambas as esferas são reciprocamente determinadas e determinantes. Do campo da cultura focalizaremos, especialmente, o processo de inserção da escola como elemento de construção da modernidade no Brasil na três últimas décadas do século XIX e as primeiras décadas do século XX.

Na luta desenfreada das nações européias pela busca de novos mercados e novos campos de fornecimento de matéria-prima, conseqüências nefastas foram deixadas para trás. Essas tentativas resultaram em mudanças nas culturas seculares: suas bases foram desestruturadas e isso desencadeou uma série de revoltas e levantes de guerras regionais contra o invasor europeu. A superioridade bélica e econômica era o elemento decisivo que contava na conquista de novos mercados e possessões. No entanto, não somente terras e mercados eram suficientes para estabelecer uma relação de hegemonia na região dominada. Corações e mentes necessitavam ser convertidos a padrões compatíveis com os da civilização moderna, e à educação coube a incumbência de converter e assimilar esses contingentes populacionais.

No Brasil, por motivos históricos, sociais, políticos e etnográficos, o processo de assimilação provocou instabilidades que geraram novas proposições, tornando-se estas mais intensas nas ultimas décadas do século XIX. O panorama do período favorecia a articulação de idéias novas que abarcavam os mais vários campos do saber e da ação: filosofia, ciência, política e cultura. Tais idéias trazendo princípios contestadores que procuram instaurar uma nova ordem. (Sevcenko, 1999, p.15).

Diante disso, os estados se empenharam em acompanhar o quadro de mudanças apresentado pelo Brasil, adotando medidas que fossem plausíveis à nova configuração social. Neste sentido está a elaboração do Regulamento da Instrução em Sergipe, através do Decreto n.30, de 15 de março de 1890.

O presente estudo toma como referência esse decreto, para observar as matérias constitutivas do ensino público primário, focalizando a matéria – preceitos gerais de higiene e exercícios físicos. Isso implica apreender e analisar as determinações que movem escolhas de disciplinas, conteúdos, práticas e questões metodológicas em detrimento de outras.

Ecos da República e o Regulamento da Instrução Pública em Sergipe de 1890

Nos momentos iniciais do governo da República, Sergipe vive sua ordenação política direcionada por uma Junta Governativa Provisória, que se instalou de maneira pacifica. Porém, no transcorrer de sua atuação surgiram alguns desentendimentos provocados pelo choque de interesses entre os seus membros. Essa disputa de poder no novo regime pode ser observada em outros estados da recém-instituída federação, em que “a luta dos grupos pela hegemonia é complexa porque as lideranças – ex-monarquistas, republicanos, militares – agem, em geral, desordenadamente prendendo-se a interesses locais e coronelísticos, e não a fórmulas ideológicas ou partidárias” (Carone, 1983, 36).

Para substituir a Junta Governativa, Felisbelo Freire assume a presidência de Sergipe como primeiro indicado para o governo republicano. Na sua posse, promete realizar uma administração honesta e uma política sem paixões, nem ódios, dentro dos rumos dos princípios democráticos(Wynne,1970). Era médico, conhecido por suas posturas favoráveis ao abolicionismo, propagandista dos ideais republicanos e membro fundador do Clube Republicano. “A sua principal preocupação como iniciador da forma republicana no governo foi adaptar o serviço público à índole das novas instituições, promovendo ao mesmo tempo a maior soma de benefícios para o Estado” (Guaraná, 1925, 83)

Dentre as várias medidas a serem tomadas, um dos primeiros atos do novo presidente foi designar uma comissão para orientar a reforma educacional no Estado. Nunes(1984, p.178) registra a formulação de quatros quesitos, a partir dos quais o trabalho deveria nortear-se:


a) qual o meio de eliminar o elemento inidôneo do professorado, respeitados os direitos adquiridos e sem sacrifício pecuniário para o Estado?

b) qual o melhor método de ensino para as escolas de primeiro grau?

c) quais os livros que devem adotar?

d) quais os meios mais profícuos de compelir-se o professorado a exercer dignamente as suas funções? (Nunes, 1984, p.178).


A comissão foi desfeita e o trabalho não foi adiante, porém influenciou a elaboração posterior do Regulamento da Instrução Pública em Sergipe. No momento em questão, talvez não estivessem ainda postas as condições objetivas e subjetivas para implantação de uma política de instrução pública, gerida a partir das contradições e interesses do debate democrático. Mas, apesar da iniciativa não ter atingido êxito, ficou semeada a idéia de mudança e o desejo de renunciar ao passado.

O Regulamento da Instrução Pública em Sergipe de 1890 foi instituído pelo Decreto n. 30 de 15 de março do mesmo ano, aprovado na administração de Felisbelo Firmo de Oliveira Freire. De acordo com o governador, atendia a necessidade de reformar de modo radical a instrução pública no Estado – como está registrado no documento original - considerando:


. Que as inúmeras reformas porque tem passado tão importante ramo de serviço público não tem produzido na pratica resultado algum, de maneira a compensar os enormes sacrifícios feitos pelo Estado para manter o mesmo;

. Que nota-se um verdadeiro estado de desorganização, o que traz grande desproveito para o ensino público e portanto para as classes populares;

. Que Estado algum poderá encaminhar-se em busca da prosperidade sem previamente cure com o mais vivo interesse do ensino popular, base principal do bem-estar das nações;

. Que neste mister deve-se chegar muita vez até ao sacrifício para preparar o futuro;

. Que por isso torna-se urgente metodizar e encaminhar regularmente o serviço em questão, pondo-o de acordo com os princípios aceitos pelas nações cultas.”

O novo projeto político do governo defende que o acesso aos instrumentos da cultura letrada é necessário para a participação do indivíduo na vida pública, portanto, a questão educacional deve compor a pauta de definição das competências e responsabilidades do Estado. Para Nunes(1984), o Regulamento expressa em seus 380 artigos o intuito do momento, disciplinando minuciosamente o sistema educacional a ser implantado e traduzindo a crença dominante do papel da educação como agente modificador da sociedade.

A idéia de revigorar o ensino no cenário sergipano não era nova, como evidenciam algumas tentativas do período imperial. No entanto as tentativas legais fracassaram, devido ao confronto com o domínio político das oligarquias locais que não tinham interesse voltado para o ensino da população.

A intenção da nova legislação também encontraria os seus obstáculos para ser instaurada, como a precária formação de professores, as instalações escolares que não eram adequadas às condições estruturais para o seu bom funcionamento e a implementação técnica e material para adoção de uma nova proposta metodológica. Segundo Iglesias (1993), o novo regime – republicano - começa com o fervor legislativo, típico dos novos e serão as primeiras iniciativas/tentativas que terão a responsabilidade de anular o passado.

Porém Felisbelo Freire permaneceu pouco meses na administração do Estado, e, com sua saída, a sua proposta de reformular o ensino foi sendo mudada, muitas vezes mutilada. Nos anos posteriores o Regulamento passou por constantes modificações, permitindo reconhecer com isso que a capacidade de ação do Estado envolvendo o ensino popular ainda era limitada na época. Neste sentido podemos ver a proposta do Regulamento de 1890 como um campo de enfrentamento do poder, em que as condições para sustentar a proposta ainda não estavam estabelecidas.
O ensino público primário
A exposição do Regulamento se apresenta na determinação de 380 artigos sobre o ensino no Estado de Sergipe. Para este trabalho serão focalizados apenas os dez primeiros artigos do documento, sendo que nem todos os aspectos ali levantados vão ser discutidos em sua totalidade. A análise tem como núcleo a constituição das matérias do ensino primário, mas especificamente os preceitos gerais de higiene e exercícios físicos.

Na sua definição inicial, o Regulamento discorre sobre as determinações do ensino em geral. Em seus dois primeiros artigos, estabelece as esferas a que o ensino é vinculado: público e particular; sua divisão: primário, secundário e normal; que o ensino público é igual para ambos os sexos; e que suas matérias não serão apenas as constantes neste regulamento, mas as que o Governo julgar conveniente adicionar.

No terceiro artigo aponta para a adoção de um novo encaminhamento metodológico para os estabelecimentos de ensino público.
Art.3. O ensino público em qualquer estabelecimento do Estado, será, quanto possível, intuitivo e prático, marchando sempre do simples para o composto, do particular para o geral, do concreto para o abstrato, do definido para o indefinido.
O legislador quer, com o espírito deste artigo, implantar novas bases educacionais capazes de sobrepujar os excessos de uma tradição de ensino que tem sua orientação firmada no emprego do verbalismo, nos argumentos da autoridade que podem, em algumas situações, manifestar-se em atitudes de violência física ou moral, resquícios didáticos ainda presentes, relacionados a marcante tradição de formação de professores de várias gerações. A lei pretende combater o uso corrente de práticas de professores que não dominavam os procedimentos científicos e pedagógicos mínimos para o exercício do magistério primário. A intervenção pedagógica que se propõe neste momento recomenda o emprego da intuição no procedimento de ensinar.
Em pedagogia, a intuição é o processo que consiste em partir de coisas concretas para chegar às idéias abstratas, que coloca os objetos antes das palavras, os fatos ante das fórmulas, é em suma, a marcha natural na formação das idéias.(Planchard, 1946, p.289)
É preciso considerar que a passagem de um padrão educacional para outro não ocorre de maneira pacifica e linear. A ruptura com o conjunto de certas práticas correntes constituintes da intervenção pedagógica de um determinado momento são questionados a partir da configuração de novos elementos que sustentaram um novo fazer. Desta feita, a renovação da instrução pública proposta no regulamento em questão enfrentou empecilhos que se manifestaram pela adoção de um novo direcionamento metodológico.

Visando modificar a realidade corrente, a administração do Estado intervém alterando a constituição do quadro de matérias do ensino público primário para o seguinte:


Secção 1 - Do ensino público primário

Art. 4. O ensino primário será ministrado em escolas criadas e mantidas na forma deste regulamento.

Art. 5. São matérias constitutivas do ensino primário:

I - Lições de cousas;

II - Língua Nacional;

III - Aritmética e sistema métrico;

IV - Geografia prática;

V – Ciências físicas e naturais;

VI – Geografia e História do Brasil;

VII – Desenho linear;

VIII – Canto;

IX – Preceitos gerais de higiene e exercícios físicos;

X – Trabalhos domésticos, costura e corte de padrões(nas escolas de sexo feminino).

Em um processo de renovação educacional, as escolhas partem de princípios que sustentam a elaboração dos seus procedimentos particulares. Neste sentido, Manacorda(1992) nos oferece uma exposição, falando sobre as tentativas de Pestalozzi em busca de uma concepção educacional sobre o princípio da intuitividade, em que afirma ser preciso partir dos objetos e das impressões que estes geram em nós, para chegar ao pensamento ou idéia. Nesta maneira de conceber a intervenção pedagógica encontramos o lugar de uma série de disciplinas e atividades que eram até então desconhecidas da educação popular tradicional, entre elas: a ginástica, a música, o desenho e a modelagem.

Para o autor observamos neste momento a definição de um quadro de educação que procurar tratar a educação física e intelectual conjuntamente, que todos os sentidos da criança devem ser despertados e para isso devem ser elaborados exercícios característicos para cada sentido. A ginástica teria utilidade no cuidado com o corpo e também proveito moral, a música suscitaria e alimentaria elevados sentimentos humanos, o desenho seria uma necessidade inata na criança de captar a realidade que a cerca e a modelagem seria útil na aplicação de outras disciplinas.

Nesta secção do regulamento constam mais cinco artigos, os quais prescrevem que o ensino primário deve ser dado em dois graus, enquanto não fosse instituído o ensino técnico, os alunos seriam exercitados na prática de horticultura e arboricultura; ainda sob a direção dos mestres locais, os alunos do sexo masculino seriam iniciados no emprego dos instrumentos mecânicos de uso mais geral. A legislação previa que, a titulo de ensaio, será instituída a obrigatoriedade da freqüência nas escolas nas cidades e mais centros de povoados, a obrigatoriedade aos pais ou tutores de matricularem seus filhos com mais de sete anos na instrução primária do primeiro grau. Para ser dispensados de freqüentar a escola e receber a isenção da matricula seria necessário comprovar a impossibilidade com a apresentação da documentação exigida, também sendo aceitas declarações escritas e assinadas por três pessoas insuspeitas.

O ensino primário instituído pelo Regulamento expressa o entendimento de que o mesmo deveria ser o ponto incisivo da ação educativa, em especial na educação pública que deveria oportunizar a todos os cidadãos a possibilidade de freqüentar a escola. Souza (2000) observa que no final do século XIX há a proposição de um programa novo para o ensino primário brasileiro que consistiu em um projeto cultural de alcance social e político. Que novos saberes foram introduzidos ampliando o programa significando mais oportunidades de acesso à cultura as camadas populares.
No entanto, esse saber enciclopédico sumário tinha um caráter de classe e compreendia a cultura disponibilizada para a instrução popular.

Não obstante, as concepções que nortearam a seleção de conteúdos de ensino e definiram as suas finalidades revelam de um projeto político-social civilizador, isto é, um projeto nitidamente direcionado para a construção da nação, para a modernização do país, a moralização e a disciplinarização do povo.(p.24).

Tendo em vista a incorporação destes novos saberes pelas escolas sergipanas, no tópico a seguir colocaremos em destaque a matéria de ensino – preceitos gerais de higiene e exercícios físicos.

Preceitos de gerais de higiene e exercícios físicos
Alimentação, sono, exercício, vestuário, habitação, banho, compõem aspectos da vida, entre outros, que deveriam ser abordados na matéria do ensino primário – preceitos gerais de higiene e exercícios físicos. Não contamos, por ora, com fontes que nos explicitem com precisão o programa trabalhado nas escolas sergipanas. O que procuramos aqui, no entanto, é esclarecer circunstâncias e acessar pontos que nos permitam clarificar a questão.

Um fator a ser levantado, inicialmente, é que o programa a ser desenvolvido pela matéria exigia dois modos de operar: a ação da escola sobre o aluno na apresentação de instruções e práticas essenciais para o procedimento de agir; e as recomendações aos pais acerca de como incorporar esses procedimentos no recinto familiar. Deste modo, esta ingerência atravessa o ambiente escolar como o doméstico para vencer a ignorância e oferecer os procedimentos adequados à conduta. Aqui se revela um impasse: nem sempre a escola pode determinar plenamente uma conduta que se dá fora do ambiente escolar.

A higiene tem os preceitos fundamentados numa ação que se projeta em hábitos, cuidados e medidas que podem impedir que certos agentes nocivos interferiam no bom funcionamento do organismo humano e na expectativa de uma vida saudável. “Evitar, atenuar, corrigir e conservar são constituídos em ações diretamente vinculadas à Higiene, recobrindo-a de uma perspectiva antecipatória, preditiva e preventiva”(Gondra, 2000, p.102).

Ao desempenhar essa tarefa a escola se alia ao trabalho já desenvolvido pelos médicos. Gondra nos coloca que ao longo do século XIX tivemos o envolvimento dos médicos num projeto social calcado nos preceitos higiênicos e eugênicos, como seus fundamentos. Ressalta que é bastante expressivo o modo como os médicos representam a educação escolar em seu discurso sobre a ciência e sua interferência sobre a criança, impondo a esta, princípios, métodos e procedimentos oriundos desta ciência. Ao discutir as competências da educação dos filhos, os médicos elegem três agentes para participar desta tarefa: mães, pais e higiene.

O autor identifica no médico a defesa de uma educação pública que subtrai a criança da influência única e exclusiva do ambiente familiar, que o Estado queria marcar seus filhos educando-os, para tanto lança mão da argumentação que se deve instituir um novo modelo de funcionamento familiar, sustentando a necessidade de uma educação pública a ser desenvolvida sob os auspícios da higiene.

Para imprimir um novo código de convívio social no Brasil da virada do século XIX e início do XX, estabeleceu-se uma teia de vigilância dos indivíduos entre si e destes com o Estado, imbricando-se mutuamente, submetendo o indivíduo a um rol de condutas envolvendo novos gostos, valores e requisitos. Assim, coube ao Estado estabelecer os princípios que fundamentem sua política governamental através da intervenção operacionalizada pela ação pedagógica dos professores e da orientação dos médicos. Soares (1994) assevera que a extensão da escolarização primária em meados do XIX foi colocada como um dos mecanismos privilegiados para o controle das formas de pensamento e da ação do “corpo social”. Com efeito, exercício físico é um conteúdo que ganha espaço na escola enaltecido pelo pensamento médico e pedagógico, ao tempo que traz à escola um tom de laicidade, quando passa tratar o corpo, território até então proibido pelo obscurantismo religioso.

A prática de exercícios físicos pelas crianças é um meio privilegiado de aprendizagem, porque está voltado ao esforço individual: o trabalho é executado pelo próprio corpo e incorpora valores de coletividade; o resultado se dá pela soma de realizações, mas exige economia e disciplina no seu desempenho. Segundo Cambi(1999), o higienismo interveio como conformação ideológica, exaltando cuidados com o corpo, saneamento do meio ambiente, alimentação e abstinência sexual, e no fortalecimento das capacidades produtivas do indivíduo em vista o desenvolvimento da nação, estimulando nas pessoas aspectos volitivos: empenho, sacrifício, poupança, para elevar a sua própria posição social; e o laborismo, ética do trabalho que o exalta como tarefa primária do homem.

A proposta da prática dos exercícios físicos compor o programa de uma matéria de ensino procura acompanhar o movimento de alinhamento com os processos modernos. Indicando que adentra o ambiente escolar aspectos que permeiam uma concepção social que intenta valorizar a busca do aperfeiçoamento do domínio de corpo do indivíduo(aluno), como também seu auto-domínio. É a manifestação de evidências exteriores, que se atribui como resultado da decorrente prática, sobre as funções orgânicas do individuo, e que expressam sinais de saúde, pureza, bem-estar, é também a contribuição da percepção dos sentidos na formação do individuo, em que a interferência pedagógica pode potencializar suas possibilidades.


Considerações finais
A análise do Regulamento permite ponderar que a sua aplicação não foi muito avante, mas não podemos recusar que suas propostas tensionaram o debate acerca do papel da educação numa sociedade que toma para si o projeto da instauração de um novo regime, tendo em vista o processo de modernização. Neste sentido, o ensino primário não tem só a função de ensinar a ler e escrever, mas também deve ensinar bem e com eficiência. Por isso a discussão não girar somente em torno da sua competência, abarcando também a metodologia a ser empregada no desempenho. Para Mortatti(2000) a alfabetização no âmbito do projeto republicano é vista como instrumento privilegiado de aquisição do saber/esclarecimento e imperativo para a modernização e desenvolvimento social. Pois nesta visão:
(...) leitura e escrita se apresentam como um momento de mudança, como indicativo e anuncio de outro ritual de passagem para um mundo novo – para o Estado e para o cidadão: o mundo público da cultura letrada, que instaura novas formas de relação dos sujeitos entre si, com a natureza, com a história e com o próprio Estado. Um novo mundo que instaura, enfim, novos modos e conteúdos de pensar, sentir, querer e agir. (p.297)
A Mensagem enviada à Assembléia Legislativa pelo Presidente do Estado, Guilherme de Souza Campos, em 1908, evidencia que, muito tempo depois, o governo em Sergipe continuava ainda a perseguir a meta, mas os resultados não eram os objetivados. Vejamos o que diz a mensagem:
O nosso Estado não tem poupado esforços para difundir a instrução, já decretando reformas de acordo com os programas de ensino adotados nos paises mais adiantados, já desprendendo grande parte de suas rendas.

Mas, infelizmente, tanto esforço não tem obtido resultado correspondente. (p.6)


Podemos também considerar que as medidas tomadas em 1890, por Felisbelo Freire, já estavam expostas nas solicitações de governos passados, como registra o Relatório da Instrução da Província, correspondente ao movimento do ano 1887, apresentado ao Presidente da Província Dr. Olímpio M. dos Santos Vital pelo Diretor Pelino Francisco de Carvalho Nobre considerando o seguinte:
No meu relatório do ano ante-passado de 1886, já eu lamentava o notável descalabro a que, infelizmente chegara o ensino público nesta província; instando por acertadas e urgentes medidas que viessem, quando não nivela-lo à altura a que tem assumido nas paragens mais civilizadas, aproxima-lo quanto possível de acordo com os recursos da província.(p.1)
Ao direcionar o nosso olhar para o documento que estabelece o Regulamento da Instrução Pública em Sergipe, de 1890, nos depararmos com momentos marcados por intentos que se expressam nas mais diversas formas: a obra e vida de um intelectual e político como foi Felisbelo Freire, a conjuntura da passagem do regime monárquico para o regime republicano, as manifestações dos vários segmentos frente ao novo ordenamento da sociedade, a organização e definição de procedimentos e práticas pelas instâncias envolvidas. Advém daí a compreensão do conjunto de relações objetivas que se depreende da leitura e interpretação do documento, e a dimensão histórica da sua produção, estabelecimento e desdobramentos deste sobre o ensino em Sergipe.
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* Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação - Unicamp

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