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III Simpósio Nacional de História das Religiões

Trabalho: Homem/mulher, Cristo/Igreja: a analogia da hierarquia entre protestantes históricos

Ana Keila Pinezi

Universidade de São Paulo - USP

pinezi@usp.br

Homem/mulher, Cristo/Igreja: a analogia da hierarquia entre protestantes históricos

Ana Keila Pinezi


Universidade de São Paulo - USP

Pesquisa financiada pela FAPESP




Introdução

Muitos estudos sobre relações de gênero no espaço privado do lar têm apontado para o fato de que homens e mulheres vivem dentro de uma hierarquia, que não dispensa a reciprocidade, construída a partir de uma moral que estabelece de maneira clara os papéis sexuais e os domínios do feminino e do masculino. Além disso, a figura da mulher tem sido associada ao mundo privado e doméstico, a casa, e a figura do homem ao mundo público e produtivo, a rua (Sarti, 1989). Mas, de fato, as mudanças na organização ocorridas no mundo moderno, principalmente com os movimentos feministas e a inserção da mulher no mercado de trabalho, têm levado ao questionamento da ordem tradicional familiar e dos estereótipos atribuídos, por muito tempo, ao papel da mulher como dona-de-casa, esposa e mãe e ao do homem como provedor e autoridade maior na família. Essa reorganização familiar é tema de estudos que também se voltam, inevitavelmente, para uma tentativa de compreender os rearranjos nas relações de gênero no espaço doméstico. Sem dúvida, não se pode generalizar essas mudanças ou mesmo homogeneizá-las. É preciso que se leve em conta como elas ocorrem em contextos sociais distintos ou nos diversos segmentos da sociedade. Talvez, o que poderíamos generalizar é a idéia de que os grupos familiares urbanos têm que lidar com essas mudanças buscando novos parâmetros e formas de estabelecer valores que possam ser o antídoto para amenizar ou dissipar a crise. Pensando nessas mudanças e no que podem causar, o objetivo deste trabalho foi realizar uma análise interpretativa do ethos e da visão-de-mundo de uma comunidade evangélica presbiteriana no que tange às relações de gênero de seus membros, procurando apreender como introjetam padrões e códigos do universo religioso e como lidam com as mudanças da sociedade secular. Foi utilizado o método etnográfico para a realização da pesquisa, segundo os pressupostos da antropologia. Além da observação participante nos cultos e rituais da comunidade religiosa, foram entrevistados dez casais presbiterianos. A igreja presbiteriana estudada localiza-se em Ribeirão Preto, interior de São Paulo.



A presença da ambigüidade: os presbiterianos entre novos e velhos valores

Como não poderia ser diferente, é numa situação de crise que se encontram os presbiterianos ao lidarem com essas mudanças familiares tentando articulá-las ao universo dessa religiosidade que lhes confere uma identidade ressignificada: a de homens e mulheres presbiterianos. São homens e mulheres que se realizam no mundo (Dumont, 1985), mas que têm o difícil dever de se diferenciar dele através da rejeição de comportamentos e valores considerados “mundanos”, impuros, que vão contra seus princípios religiosos. Por isso, as relações de gênero no interior da família, entre os presbiterianos, apresentam ambigüidades que fazem os sentidos deslizarem nos espaços do discurso, da prática e do desejo de realização dos ideais de conduta propostos no plano religioso. Pretendo, então, demonstrar como essas ambigüidades atuam na construção das relações de gênero no espaço privado dos casais presbiterianos.

O casamento, para os presbiterianos, visto como a instituição por excelência, tem tripla função: proporcionar um espaço legítimo e aprovado para o exercício da sexualidade, estabelecer de maneira clara as diferenças de gênero e assegurar a continuidade da reprodução dos valores e princípios bíblicos dentro da ótica da doutrina eclesiástica, fortalecendo assim a igreja enquanto instituição.

A importância do casamento é frisada também através de uma visão espiritualizada. A relação homem/mulher, no casamento, é comparada à relação Cristo/igreja. Jesus Cristo é visto como o “noivo” e o “cabeça” da igreja. Ele é identificado com a figura do masculino, enquanto a igreja simboliza a figura feminina. Esta, então, simbolizando a figura femi­nina, deve exercer o seu papel de reprodutora, que é o de lançar a “semente” do evange­lho e fazer novos adeptos, além de atuar como mantenedora da ordem e da honra dos fiéis para que Deus seja “glorificado”. Jesus Cristo deve ser obedecido pela igreja. Essa idéia remete à questão das relações de gênero.

A identidade evangélica, e atrelada a ela a identidade de gênero, construída incessantemente sob a analogia do relacionamento Cristo/igreja, levaria, segundo o discurso oficial religioso, o marido a afastar-se dos prazeres “mundanos” e, por isso, a vida familiar passaria a ser mais valorizada contribuindo para a diminuição dos conflitos com a esposa, para a reafirmação da indissolubilidade do casamento dentro dos moldes religiosos e para a substituição de uma dupla moral sexual por uma moral única. Este é o ideal pregado pela instituição religiosa e reproduzido na fala dos informantes.

(...)Então, se eu fosse uma pessoa do mundo, meu casamento já não existiria mais... ele taria já acabado. (...) porque os prazeres do mundo, eles estão na nossa porta... na nossa cara: revistas pornográficas, amigos, filmes pornográficos, é... o sexo tá em toda parte, infelizmente. Então, se eu tivesse no mundo, hoje eu não estaria mais com a Ana... já estaria, talvez com outras mulheres, eu estaria nos prazeres da vida, que é bebida... antes de casar com a Ana. eu bebia muito, eu ía ... pra bares, eu saía com colegas... num me importava quantas eu bebia, quantas eu deixava de beber... quer dizer, não tinha responsabilidade. Então, se eu não fosse uma pessoa cristã, uma pessoa evangélica, hoje eu estaria no mundo, eu estaria aí aos prazeres da vida. Hoje, evangélico, não... eu peso as coisas. (Sérgio)

Esse depoimento mostra o abandono de hábitos considerados “mundanos” e que marcam essa dupla moral existente no “mundo”. No entanto, o depoimento de Ana também é significativo e incompatível com o discurso oficial religioso que prega uma única moral sexual. Ao falar da preocupação do marido em relação à criação de uma filha, porque ele tem que zelar pela virgindade dela, e não de um filho porque ele não teria nada “a perder”, Ana demonstra essa manutenção de uma dupla moral sexual dentro da família, entre os presbiterianos.



Ele (o marido) não queria menina, porque ele acha que a menina dá mais trabalho pra criar, pra cuidar e tal, porque é mais delicada, né? A menina já tem o que perder e tal, entendeu, no caso da virgindade, né? Então, ele se preocupava muito com isso. Então, ele falou assim que não. E só que aí eu fiquei grávida do Júnior. Se não viesse o Júnior, ele morria. Eu acho que ele dava as conta pra mim... (risadas). Aí quando eu fiquei grávida dela, aí eu falei pra ele: “agora vai ser uma menina”. Aí veio a menina. Aí ele aceitou, normal, tal. Eu vejo assim que hoje ele mudou muito, mas um tempo atrás, ele se implicava muito, assim, com ela, sabe? Eu acho que ele chegava ao ponto, assim, de até não gostar dela. (Ana)

O discurso, como pudemos ver no caso da questão da dupla moral sexual ainda existente entre os presbiterianos em confronto com o ideal de uma única moral sexual defendida pela religião, parece demonstrar a dificuldade em realizar no cotidiano alguns princípios religiosos e a vinculação que esses indivíduos guardam com os valores da sociedade “secular”.

Quando se fala em relações de gênero entre os presbiterianos, inevitavelmente é preciso que se aborde a questão da submissão feminina e da autoridade masculina no espaço doméstico. É curioso ver que os múltiplos discursos reproduzem o posicionamento da igreja em relação ao fato de que a mulher deva ser submissa ao marido e que o “cabeça” da família tem que ser o homem, e, ao mesmo tempo, reinterpretam essas ordenanças utilizando padrões e valores “seculares” e uma visão modernizante da sociedade inclusiva. O que me pareceu foi que os informantes tentavam construir uma forma de pensar essas ordenanças bíblicas com o desejo de adequá-las da melhor maneira ao cotidiano e articulá-las às mudanças pelas quais a família passou e vem passando. A presença da ambigüidade marcando os múltiplos discursos é notável. Quando falo em múltiplos discursos, na verdade eu os vejo ora como múltiplos, marcados por experiências pessoais diferenciadas, mas de certa forma vejo um discurso único, ou seja, os múltiplos discursos tendem a ser homogeinezados pela religião. Portanto, a submissão feminina e a dominância masculina são pensadas pelos presbiterianos através dos padrões bíblicos e dos valores “mundanos”. É importante notar que os presbiterianos se preocupam em diferenciar o que é submissão para um não convertido e para um convertido. Em todos os discursos essa preocupação estava muito clara. Para os presbiterianos, a idéia de submissão, no sentido bíblico, não é exatamente o que a palavra costuma significar. Submissão assume um outro significado que, segundo eles, somente podem compreendê-lo aqueles que fazem parte da “família de Deus”. Os presbiterianos demonstram, então, um código cultural particular, diferenciado do que têm os “mundanos”. A fala de Joana reforça a necessidade de distinguir o que significa submissão no padrão religioso e no padrão “mundano”:

Bom, eu me considero uma mulher submissa. Uma situação que é colocada e que eu abomino, é a questão da mulher subserviente, ou seja, a mulher abaixa a cabeça, a mulher aceita tudo, ela praticamente se anula. Eu acho que isso não é submissão. Submissão é você respeitar o seu marido, entendeu? Ele te respeitar e Deus colocou o marido como autoridade e a gente tem que aceitar isso. (Joana)

A preocupação em demonstrar que a mulher deve ser submissa ao marido, mas não como uma escrava é marcante tanto na fala dos homens quanto na das mulheres. E, dessa forma, os presbiterianos colocam-se, curiosamente, como um grupo aparentemente de vanguarda na defesa dos direitos das mulheres. Mas há outra característica forte, acima já apontada, que parece ser um elemento fundamentalmente constitutivo da estrutura discursiva dos presbiterianos: a ambigüidade que se faz presente na interpretação que fazem da submissão feminina e dominância masculina dentro de casa, uma relação ora vista do ponto de vista dos valores da sociedade atual, ora vista de acordo com os valores religiosos. Há um movimento pendular, então, que ora reafirma a hierarquia, ora a questiona e a combate. Utilizarei a idéia de pêndulo para demonstrar como os presbiterianos, indivíduos-no-mundo, lidam com os valores mundanos e com os religiosos e como encontram, em algum momento, o equilíbrio representado no ponto inercial desse movimento pendular. Utilizarei o discurso de um informante, Silvio, para demonstrar como se dá esse “movimento pendular” que oscila entre os valores de uma sociedade moderna e os valores religiosos reinterpretados.



Bom, ser o cabeça da família, tem que ser o quê, pai? Aquela figura, dessa sociedade patriarcal, “ó, ali o pai, vâmo falar com o pai”, né? “Ó, o pai chegou”. “Ó, o seu pai não gosta”. “Ó, vou contar pro pai, hein?” Então, de repente, eu fui descobrir isso com os meus filhos, que ser pai (riso) não era só aquele da paternidade, né? É o que te acolhe no colo... mas de repente você é um símbolo de autoridade dentro da casa... Então, isso é ser o cabeça da família. Aí de repente torna-se o símbolo de uma autoridade do lar. “Ah, ele é o pai” ou “ele é o chefe da casa”, né? Coisas que eu não criei, que tá já aí, há séculos, né? Então, e que isso, mesmo que às vezes você não queira... você é o pai. Até a própria legislação, você é o pai. Você tem o pátrio poder, não é o mátrio poder, é o pátrio poder. Então, de repente é ser pai, ou você tá assumindo não só valores, cristãos, amorosos de paternidade, mas os valores também sociais, instituídos pelo mundo. Isso é ser cabeça. (Silvio)

Como podemos ver, Silvio, ao ser perguntado sobre o que significa ser o “cabeça” da família, responde utilizando elementos que dizem respeito a valores da sociedade laica. Ele utiliza um conceito dado pela religião, o de ser o “cabeça”, e o identifica com uma noção que recorre ao patriarcalismo ainda presente na sociedade moderna. Mas, Silvio continua seu depoimento demonstrando uma tentativa de articulação entre essas duas esferas, a da sociedade laica e a religiosa, que me parece realmente um movimento pendular.



Se você partir do preceito bíblico, tá mais que explicado (a questão da submissão da mulher ao marido). Agora, é questão de valores, né? Eu acho que essa submissão deva ser consciente não só da mulher como do marido, né? O marido deve devotar amor e dedicação à sua esposa no mesmo nível que ela vai devotar ao seu marido, né? Dentro daquele embasamento cristão, sempre consciente, é claro do valor do marido, sua postura como mulher, e vice-versa, né? O marido cuida bem da sua querida, da sua amada, e dá-lhe o valor merecido, não é? Daquela mulher virtuosa que ele tem em casa. (Silvio)

Silvio fala de um “embasamento cristão” que explicaria a submissão feminina ao marido. Nesse sentido, ele reforça e reproduz os valores religiosos, mas, num movimento brusco do “pêndulo”, acaba por regressar à idéia de que é a sociedade “secular” quem impõe essa noção de que o homem tem que ser o “cabeça”.



O que é não ser o cabeça, é quando você se sente esquecido (riso). Você acostuma tanto ser lembrado, que quando você não é lembrado, “pô, pôxa, ninguém fala nada, sou o último a saber”. Quando você também não tem uma participação mais efetiva dentro da sua casa. Quando esses valores que te impregnam, mesmo que você não concorde com eles, e que você lute com eles muitas vezes. Mas tá tão impregnado que você acaba “pô, ninguém me consultou, ninguém me falou nada”. “Ah, vai, vai fazer tal curso”, “ah, é, tá legal, e quem que vai pagar isso aí?Ninguém me fala nada”. Não é o meu caso, sabe, mas geralmente o pessoal comenta comigo. Mas ser cabeça de casa é ser aquele cara que procura dar um equilíbrio, no relacionamento doméstico. Eu acho que isso é ser o cabeça. (Silvio)

Numa inversão interessante, Silvio coloca a questão do homem ser o “cabeça” da igreja, com base no discurso religioso, diferenciando-o totalmente do que seria uma dominância masculina que teria nos valores mundanos uma conotação autoritária e machista. Numa postura curiosa, Silvio afirma ambigüamente, o que significa “não ser o cabeça”:



Não ser o cabeça, é ser o cara ditatorial, sabe? Aquele que vai sentar na poltrona... aquele regime ditatorial “eu sou o chefe, quem manda aqui sou eu”. Ter o melhor lugar na poltrona diante da televisão, sabe? Um cara que não respeita o ponto de vista da esposa. Um cara que não respeita a vontade dos filhos. E o cara que não tem sensibilidade pra vê que ele vive dentro de um grupo social, né? Embora pequeno, mas é um grupo social. E que ele faz parte desse grupo, ele tem o seu papel. Quando o cara não enxerga esse papel dele dentro do grupo, então ele não é cabeça. (Silvio)

Não ser o “cabeça”, palavra-chave da ordenança bíblica para o homem, parece significar, no discurso dos presbiterianos, ter um posicionamento tradicional e machista no interior da família. Dessa forma, os valores religiosos ganham um status moderno, no sentido de se colocarem contrários ao tradicionalismo da sociedade inclusiva. Finalmente, contra os valores da sociedade laica, paradoxalmente, Silvio se utiliza de alguns valores da mesma para demonstrar a importância de serem reconhecidos os direitos da mulher.



Nós vivemos numa sociedade ainda patriarcal, ainda por vezes machista. A revista Veja dessa semana traz um artigo "vergonha", é a capa. Leia. É no Rio de Janeiro... existe lá uma chamada, uma determinada reportagem, que a cada hora sete mulheres se encontram em situação de violência, praticada pelo marido. Então, é uma sociedade profundamente machista, onde os direitos das mulheres, das esposas, nem sempre são reconhecidos. Então, eu acho que deve haver uma conscientização e um respeito, né? Do homem pra mulher, e no caso a mulher entender essa submissão como uma coisa consciente, de conciliamento de um casamento, né? Não é como uma coisa, reles empregada, sabe? (Silvio)

E aqui, os ensinamentos religiosos recebem uma intensa valorização: a de que se forem seguidos, haverá a minimização dos conflitos e um “conciliamento” no casamento reforçadores do princípio da indissolubilidade do casamento, tão defendido pela igreja.

Portanto, se, por um lado, vemos, no plano das representações, uma analogia entre a relação Cristo/igreja e marido/mulher que nos faz pensar no estabelecimento de uma ordem hierárquica entre os gêneros, em que o domínio e a superioridade do homem são evidenciados e a submissão da mulher é uma conduta legitimada pela interpretação literal da Bíblia, por outro lado, essas questões nos levam a pensar na possibilidade de atenuação dos conflitos no relacionamento conjugal porque se Cristo se entregou totalmente pela igreja, o marido também deve dedicar-se à esposa, à família e a esposa deve reconhecer essa dedicação. Suponho que a estrutura dessas representações continua a fazer parte do repertório cultural dos presbiterianos, mas que recebem uma reinterpretação capaz de possibilitar um discurso que privilegie uma complementaridade e mesmo a idéia de cumplicidade entre os cônjuges.

A construção do conceito de amor1 feita pelos presbiterianos reflete-se no discurso sobre as relações de gênero no interior da família. O discurso de um amor comprometido e que tem o outro em superioridade é um discurso que coincide com as representações laicas sobre feminilidade. As mulheres presbiterianas, então, endossam essa concepção de “amor-compromisso”, endossando com isso também a noção tradicional de feminilidade. Talvez, por isso, a mulher reconheça, no discurso, seu lugar de submissão não como algo aviltante, mas como uma prova desse amor ao seu marido e a espera de que ela seja retribuída com esse mesmo amor.



E Cristo amou a igreja como? A que ponto que veio o amor de Deus? Ele deu a vida, né? Então se uma mulher que é amada pelo marido a ponto do marido dar a vida por ela, ela não vai achar ruim ser submissa, vai, Keila? (risos) (Inês)

Voltando à idéia do movimento pendular, que representa, de certa forma, uma solução para os presbiterianos, no sentido deles poderem explicar no discurso a submissão feminina e a posição de “cabeça do lar” do homem como sendo ordenanças benéficas que não contrariam as mudanças ocorridas na família, de uma maneira paradoxal, esse movimento pendular também torna-se um problema no plano da prática porque acaba por não deixar claras as regras religiosas em confronto com o cotidiano de uma família que vive, inevitavelmente, valores de um mundo moderno. Portanto, em algum momento, em situações ameaçadoras ou de extrema incerteza e instabilidade, o “pêndulo” tende a parar. O ponto inercial é o ponto da certeza e do equilíbrio. Esse ponto, suponho, estaria fundamentado no modelo das relações de gênero no espaço intradoméstico que se dão por meio de uma divisão sexual do trabalho tradicional, embora permeada pelas mudanças que continuam a ocorrer na família moderna nessa área.

No nível do discurso, os presbiterianos demonstram uma relativa flexibilização quanto às funções atribuídas à esposa e ao marido, o que possibilitaria um certo revezamento e complementação por parte de ambos nas tarefas domésticas. Essa flexibilidade e revezamento estão presentes no discurso dos maridos e são considerados como fruto de um padrão divino de ajuda mútua. O informante João diz que “às vezes” ajuda a esposa e que não exige dela, já que ela trabalha fora, que a casa esteja sempre limpa e arrumada. Aqui, há duas coisas que precisam ser destacadas. A primeira é que me parece, analisando o depoimento dos homens entrevistados, que a ajuda que oferecem à mulher dentro de casa é uma ajuda de caráter eventual e não um revezamento sistemático das tarefas domésticas entre homens e mulheres. A segunda, é que o fato da mulher exercer um trabalho extra-doméstico, justificaria a dificuldade da mesma em manter o trabalho doméstico funcionando de maneira exemplar, apesar de não retirar dela a responsabilidade do cuidado da casa. Se essas posições tendem a marcar os papéis sexuais nas tarefas domésticas do ponto-de-vista dos homens, no ponto-de-vista das mulheres, a troca de tarefas não é somente algo eventual. Elas geralmente assumem algo que é tradicionalmente atribuído ao homem de maneira fixa. As representações religiosas são importantes aqui, pois a mulher parece sentir-se honrada em adotar o papel de “auxiliadora”, tal como Eva o foi de Adão, que a igreja sempre lhe atribuiu. Mesmo exercendo trabalho extra-doméstico, as mulheres assumem tarefas “masculinas”. A fala de Inês demonstra também um acúmulo de tarefas para as mulheres:

Só sei que quem administra o dinheiro aqui sou eu. (fala rindo) O Carlos põe na minha conta, o que eu pago tá pago. Não que eu também sou autoritária, que eu quero pra mim o dinheiro, mas ele deixou isso pra mim, talvez eu não sei se foi bom... tem hora que eu falo: “Será que foi bom eu assumir isso?” E paga luz, telefone, escola, facul... Fica tudo pra mim. Então eu falo: “Será que foi bom?” Mas, assumi isso. O Carlos sempre foi muito ocupado naquilo que ele fez. Então a gente acaba ajudando. (Inês)

O que torna esse depoimento mais interessante é a fala de Carlos, marido de Inês, que parece orgulhar-se de atribuir à esposa a tarefa de administração do dinheiro. Carlos tenta demonstrar que não tem nenhum preconceito em relação à mulher ao enfatizar a capacidade da esposa em realizar tarefas tradicionalmente masculinas. Carlos deixa claro, ainda, que a esposa é capaz de exercer uma atividade masculina, mas que uma atividade feminina feita por um homem é algo realizável, conforme já dito, de forma eventual e que o resultado não chega a ser tão satisfatório como quando a atividade foi feita por uma mulher. Pode parecer que a divisão sexual do trabalho recebe dos presbiterianos um tratamento distanciado do tradicional. No entanto, o que podemos vislumbrar e o que nos parece acontecer é uma reafirmação da divisão tradicional das tarefas, no interior da família, entre homens e mulheres. O provedor, no plano das representações, continua a ser o homem, o marido, e a mulher, no seu papel de “auxiliadora”, cuida dos afazeres domésticos e ainda o auxilia na captação de recursos financeiros através de seu trabalho extra-doméstico, além de assumir algumas tarefas masculinas a ela “concedidas”. Portanto, apesar da mulher estar inserida no mercado de trabalho, continua a predominar uma divisão sexual do trabalho na família calcada numa relação tradicional2.

As mulheres presbiterianas identificam essa relação tradicional no que se refere à divisão sexual do trabalho intradoméstico. Apesar de um discurso que aponta um sentimento de honra por serem “auxiliadoras” dos maridos e desempenharem esse papel, reconhecendo que foram por Deus criadas para isso, as mulheres reclamam dessa sobrecarga de trabalho e responsabilidades que lhes é imposta no cotidiano, mas finalizam o discurso de forma contraditória, enfraquecendo essa mesma reclamação, como se a sobrecarga de trabalho não fosse algo tão importante na relação familiar.

Contrariamente ao depoimento das mulheres presbiterianas, a fala de José sobre a questão da submissão da mulher ao homem remete à idéia de uma divisão de tarefas e uma forma da mulher livrar-se de uma sobrecarga que um marido “omisso” poderia atribuir a ela.



Eu entendo que realmente mulher deve ser submissa ao marido, como também o marido, também ser submisso a ela também, de colocar a par de tudo o que existe dentro de um... de um relacionamento, né? Mas também não deixar ela tomar a decisão sozinha, que eu acho que isso é complicado pra mulher; se sente, sei lá, com um peso muito grande, que ela tem outras coisas dentro do lar pra tomar conta, né? Acho que é um peso também uma manutenção de um lar. Deixar pra ela, também, eu acho que é muita coisa, né? (José)

As mulheres vêem não na submissão feminina ao marido, como coloca José, a possibilidade de divisão de tarefas no interior da família, mas sim no fato do homem assumir seu papel como o “cabeça da casa”. Rita diz que "não ser o cabeça de casa" significa acomodar-se, deixar que a mulher se descabele com todos os problemas da casa..

Lembro-me que num domingo, na escola dominical, na classe de senhoras, as mulheres diziam como é difícil hoje, com a “vida corrida”, terem tempo para evangelizar outras pessoas. Num dado momento, uma das senhoras levantou a questão de que, além de trabalhar fora de casa, tinha que cuidar dos filhos e dos afazeres domésticos sem muita ajuda do marido. A fala dessa senhora provocou a mesma fala, quase que simultânea, das outras mulheres, que reclamavam pelo mesmo motivo. A professora, interrompendo aquele pequeno tumulto, disse: Mas não tem problema. A mulher é forte. E a mulher com Jesus é mais forte ainda3. Os homens parecem concordar com essa idéia de que a mulher é realmente uma fortaleza e a valorizam, nesse sentido, no interior da família.

A priori, analisando os depoimentos, pareceu-me que o trabalho feminino era valorizado. No entanto, pude perceber que em alguns momentos de cada entrevista vinha à tona uma “velha conhecida” desvalorização da mulher na nossa sociedade. O trabalho doméstico, como espaço privado que guarda uma profunda identidade com a atuação da mulher, tende a ser desvalorizado pelos homens presbiterianos de forma mais velada. O depoimento de Sérgio é interessante porque mostra essa desvalorização quando comparado com o espaço público, geralmente masculino:

Eu entendo que a esposa tem que ser ser atual, porque a mulher que não se atualiza, ela se perde no tempo; quando ela se perde no tempo, ela se torna uma pessoa obsoleta. Se ela se torna uma pessoa obsoleta, ela deixa de se dar ao respeito e deixa de se valorizar. Ela começa a ficar parada no tempo, ela não acompanha, sei lá, rádio, televisão, música, política, não sei. Então, ela fica alienada ao mundo; ela se torna uma pessoa antipática em todos os sentidos, ela se torna uma pessoa fora de moda, uma pessoa fora do contexto social e se torna uma pessoa chata, porque não tem o que conversar com o marido, o marido não tem o que conversar com ela. Então, se torna uma vassoura, uma pessoa que você pega, coloca atrás da porta e só se lembra quando precisa, se num precisar também, tá lá, entendeu? (Sérgio)

As mulheres também parecem desvalorizar não exatamente o trabalho, mas o tipo de trabalho que realizam, e demonstram descontentamento por não serem devidamente reconhecidas. É como elas se vissem através do olhar masculino. Elas geralmente usam a jocosidade para demonstrar essa desvalorização, apesar de no final da fala reafirmarem seu papel na divisão do trabalho como uma “sina” que a mulher, que é “forte”, deve aceitar e vivenciar:



(...) eu às vezes aqui em casa eu falo: “Aqui eu sou empregada, e ainda sou mal paga!” (ri) Eu falo isso: “Eu sou mal paga aqui!” Né? (ri muito) Ah... mas tá bom! (risos) (Inês)

Quando observo esse “tom” de jocosidade para expressar algo que não satisfaz ou algo que incomoda, vejo que as mulheres não só se vêem através do olhar masculino, mas, curiosamente, elas também fazem o “pêndulo” se mover novamente na medida em que questionam sua posição dentro de uma sociedade moderna. Elas se vêem, então, através de outras mulheres, as que vivem no mundo sem nenhuma vinculação com um grupo religioso. Por isso, o movimento pendular se faz novamente presente e o ponto inercial, momento em que a dúvida leva à seleção de novos valores, de assimilação dos mesmos e conciliação com os princípios religiosos, também sofre mudança. As mulheres presbiterianas sentem-se satisfeitas em trabalhar fora de casa. Elas vêem o trabalho extra-doméstico como uma forma de exercerem também o “dom natural” que têm como “auxiliadoras” no sentido de ajudar no orçamento doméstico e como uma forma de “realização pessoal”. Quando perguntei às mulheres porque trabalhavam a resposta delas me fez supor que o trabalho extra-doméstico feminino é um dos valores que os presbiterianos assimilaram do mundo moderno, muito embora eles não deixem de considerar como essencial o trabalho da mulher dentro de casa e a própria mulher não deixe de vê-lo como algo de sua responsabilidade.

O Dia das Mães é, entre os presbiterianos, mais festejado na igreja do que o Dia dos Pais. A importância da maternidade é tão grande para a igreja que inclusive o sermão do pastor é preparado para ressaltar esse atributo. Em uma das comemorações do Dia das Mães, o pastor falou sobre a mulher, dizendo que ela “parece tão frágil, mas é tão forte”. E terminou dizendo que ela é mais forte ainda quando ela se torna mãe. Ou seja, ser mãe, para os presbiterianos, significa assumir um status mais elevado entre eles. É como se a mulher se revestisse de sua maior “virtude”: a sua capacidade de reprodução.

Novos e velhos valores parecem conviver, nem sempre de forma pacífica, dentro do universo simbólico desses evangélicos. Intensamente integrados no mundo, os presbiterianos vivem constantemente a tensão de um movimento pendular que parece não ter fim e que os impele a procurar um ponto de equilíbrio numa articulação complexa entre os valores religiosos e os valores advindos de rápidas e incessantes mudanças na organização familiar e, conseqüentemente, nos padrões de relações de gênero e divisão sexual do trabalho. Se podemos perceber, entre os presbiterianos, um movimento e um desejo que torne possível a igualdade entre os gêneros, vemos também a preservação de elementos que confirmam o princípio da hierarquia entre homens e mulheres. Esta é a característica mais marcante desse movimento “pendular”, movimento este que permite a presença perturbadora da ambigüidade.


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1 Quando falamos na construção do conceito de amor, estamos falando também em hábitos afetivos (Suárez, 1997) que são naturalizados no processo de construção das identidades feminina e masculina.

2 É interessante a definição feita por Sarti (1989, p.40): (O homem) é o principal provedor, tendo o dever de garantir materialmente, para todo o grupo doméstico, casa e comida, através de seus rendimentos ou salário. A mulher, enquanto dona-de-casa, ocupa um lugar interior; é quem ordena, organiza e avalia, gere, enfim, os recursos materiais disponíveis em função das necessidades do grupo e os distribui da melhor maneira possível entre os familiares.

3É bom que se lembre aqui que essa idéia de que a mulher é forte está ligada aos “hábitos afetivos”, já citados, e que não são privados e, sim, socialmente modelados. Por essa razão, além de serem fatos observáveis e descritíveis em si, não apenas marcam o sujeito mas também as instituições, as concepções e as condutas... (Suárez, 1997, p.46)



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